sábado, 19 de janeiro de 2013

O suco de frutas e a obesidade

FOLHA DE SÃO PAULO

PLANTÃO MÉDICO
JULIO ABRAMCZYC julio@uol.com.br

Até recentemente, a causa da compulsão por alimentos altamente calóricos era relacionada a problemas emocionais ou hormonais.
Agora, foi identificado mais um fator, presente até em algumas dietas de emagrecimento. É a frutose, o doce suco de muitas frutas.
No primeiro número do "Journal of the American Medical Association" deste ano, um trabalho da médica Kathleen Page e colaboradores mostra as diferentes respostas cerebral, metabólica e de saciedade quando do consumo de frutose ou glicose. A área de pesquisas de Page é a regulação do apetite pelo sistema nervoso central.
No estudo, foram comparados o fluxo do sangue em regiões do cérebro relacionadas ao apetite. Após ingestão de bebida com frutose ou glicose, foram realizados, na Universidade Yale, exames de ressonância magnética cerebral em 20 voluntários.
Aqueles que tomaram o refresco com glicose mostraram redução no fluxo cerebral, em comparação com os que tomaram a bebida com frutose. Os que receberam glicose apresentaram sensação de saciedade, o que não aconteceu com o grupo da frutose.
A conclusão é que a ação da frutose na área cerebral envolvida com a regulação do apetite estimula e cria a necessidade de comer um doce, chocolate ou outro alimento. O que não deve significar, entretanto, o abandono dos sucos de frutas e de suas vitaminas ou o abuso do açúcar. E sim, apenas, com bom senso, evitar o excesso.

    Walter Ceneviva

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Defeitos da lei mutante
    Mesmo o leitor sem contato com a interpretação da lei saberá que nosso país precisa consolidar seu sistema legal
    O ministro Sérgio Luiz Kukina, recentemente nomeado pela presidente Dilma Rousseff para o STJ (Superior Tribunal de Justiça) tem sua posse marcada para 6 de fevereiro. Em entrevista, o ministro chamou atenção para deficiências de leis fundamentais no campo dos Direitos Penal, Processual Penal, Civil e Comercial. Sua avaliação chegou em momento oportuno, pois o assunto já se tornou inadiável.
    Mesmo o leitor sem contato permanente com a interpretação da lei e sua aplicação saberá que nosso país precisa consolidar seu complicado sistema legal. Há instabilidade no ordenamento, com as numerosas mudanças nele introduzidas. As dificuldades em sua aplicação firme são grandes. Maiores ainda no que se refere à Constituição, a lei das leis. Quando modificada - em grande ou pequena extensão - influencia todo o sistema jurídico vigente. Exige do intérprete o cotejo com as repercussões da alteração da Carta Magna. Por isso mesmo, na composição jurídica da lei escrita, a regra constitucional deveria ter estabilidade, mas não tem.
    É relativamente comum o processo chegar à etapa final de seu julgamento - tanto na área cível quanto na penal - depois de muitos anos decorridos desde seu começo até o encerramento. O tempo passado inclui até decênios, em particular quando o autor da ação é credor do poder público. A demora, nesse espaço restrito, não se deve apenas a muitas regalias que o processo brasileiro concede ao poder público, em face do contribuinte e da cidadania comuns. Quando a administração nacional, estadual ou municipal é devedora, o andamento do processo é um. Quando credora é outro. Mais rápido.
    Esse aspecto injusto do tratamento processual se apresenta em normas processuais. O Código de Processo Civil brasileiro, cujo texto foi publicado em 11 de janeiro de 1973, vigorou a partir do ano seguinte, mas sofreu, em outubro do mesmo ano, dezenas de alterações. Durante 1974 várias outras leis foram adaptadas à codificação processual. Daí até o presente há umas 60 leis novas. A contagem é mesmo confusa, ante muitas mudanças feitas mais de uma vez, na mesma lei, ora de artigos isolados, ora de dezenas de novas normas vigentes, ora em parte do enunciado básico ou de seus parágrafos, daqueles que quebram até a coerência interna.
    Essa confusa espécie legal também é encontrável nos alteradíssimos Códigos Penal e Processual Penal, editados em 1940 e vigorantes a partir de 1942. O primeiro caminha para 250 alterações, desde a origem. O segundo, em um só exemplo básico, sofreu mais de 40 mudanças entre 2000 e 2009. Pense o leitor que certos feitos judiciários demoram muitos anos para serem julgados. As discussões sobre a lei, com alterações do texto legal, aplicáveis ao caso concreto, vão ao infinito. Pode convir ao réu, sobretudo quanto responde solto ao processo criminal. Convém ao poder público, nas duas alternativas, ante a interferência do Executivo na elaboração legislativa.
    Não tomarei mais tempo do leitor com novos exemplos. O panorama é confuso, presente tanto na lei do direito material quanto no direito processual. A confusão das normas e a instabilidade dos julgamentos só aumentam a desconfiança do povo. Que venha a revisão integral.


      LIVROS JURÍDICOS
      PROCESSO ADMINISTRATIVO TRIBUTÁRIO
      AUTOR Eduardo Domingos Bottallo
      EDITORA Dialética (0/xx/11/5084-4544)
      QUANTO R$ 44 (191 págs.)
      Bottallo enfrenta o problema da determinação do crédito tributário federal, avaliando a segmentação modificada pelo decreto nº 7.574/11, sob a luz da Constituição. Invoca suas regras essenciais, de dispositivos atinentes ao processo tributário. Ao fim, revê nota à responsabilidade do sócio.
      TEORIA GERAL DO PROCESSO
      AUTOR Paulo R. de Gouvêa Medina
      EDITORA Del Rey (0/xx/31/3284-5845)
      QUANTO R$ 74 (338 págs.)
      Professor da matéria e advogado, Medina é bem-sucedido ao ensinar a teoria geral e ao escrever a respeito. Embora destinado precipuamente para estudantes, o texto também pode ter utilidade para o profissional. São dez capítulos básicos e três com os novos passos da lei no processo penal e na celeridade processual.
      PARTICIPAÇÃO CIDADÃ NA GESTÃO PÚBLICA
      COORDENAÇÃO Carmela Grüne
      EDITORA Saraiva (0/xx/11/3613-3344)
      QUANTO R$ 38 (152 págs)
      Grüne percorre caminho belo e original: cuida, no mestrado da Unisc, da cidadã na gestão pública e ancora na experiência da Escola de Samba da Mangueira. Compõe a partir daí estudo de originalidade para mais além do tema. Com tal visão busca o que chama de efeitos da "valorização da identidade democrática brasileira".
      LAVAGEM DE DINHEIRO
      AUTOR Gustavo Henrique Badaró e Pierpaolo Cruz Bottini
      EDITORA Revista dos Tribunais ( 0800-7022433)
      QUANTO Preço não informado (383 págs.)
      Tema projetado sobre o dinheiro na vida do brasileiro é desenvolvido pelos autores, a contar de alterações advindas com a lei nº 12.683/12 em nosso direito e no processo penal. Maria Thereza Rocha de Assis Moura acentua, no prefácio, a importância e o aspecto político da questão.
      DIREITO TRIBUTÁRIO INTERNACIONAL
      AUTORIA Obra coletiva
      EDITORA LTr (0/xx/11/2167-1100)
      QUANTO R$ 60 (231 págs.)
      Com a coordenação de Marco Antônio Chazakine Perfeira, o primeiro volume desta obra tem oito estudos a respeito do assunto essencial nos direitos brasileiro e comparado.
      MANUAL DOS DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
      AUTORIA Obra coletiva
      EDITORA Saraiva
      QUANTO R$ 110 (480 págs.)
      Carolina V. Ferraz, George, Glauber e Glauco S. Leite criaram obra destinada a expor os temas, conforme a lição do ministro Gilmar Mendes apresentada no prefácio.

        A voz do povo- Gustavo Fonseca‏

        Questões referentes à língua, como o Acordo Ortográfico e a correção das redações do Enem, devem ser debatidas de forma ampliada, evitando as abordagens meramente normativas e o viés autoritário 

        Gustavo Fonseca
        Estado de Minas: 19/01/2013 
        Com a proliferação na mídia brasileira do que o professor Ataliba de Castilho chama de consultórios gramaticais, as questões relacionadas à língua portuguesa por muitos anos praticamente se resumiram ao certo ou errado, num viés policialesco das múltiplas modalidades da linguagem, o que limitava a discussão sobre o tema. Recentemente, porém, três fatos evidenciaram o olhar míope desses “guardiões do bom português”, excessivamente presos à divulgação de regras gramaticais quase sempre controvertidas, em detrimento de uma reflexão mais ampla sobre a linguagem. O polêmico Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, inicialmente previsto para entrar definitivamente em vigor em 1º de janeiro deste ano e protelado para 2016, sem dúvida é o mais importante assunto linguístico do momento, mas outros dois também merecem atenção dos especialistas e do público em geral: a batalha dos estudantes pelo acesso à correção das redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a ingerência da presidente Dilma Rousseff no uso da língua, levando seus auxiliares do primeiro escalão a utilizar termos que em outras circunstâncias dificilmente empregariam, a começar pelo dissonante “presidenta”.
        Há poucos meses, logo depois dos Jogos Paraolímpicos de Londres, o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, afirmou que a presidente Dilma Rousseff queria vetar o uso da palavra “paralímpico”, voltando-se a utilizar o termo “paraolímpico”, a forma registrada nos principais dicionários brasileiros. Segundo o ministro, para a mandatária “paraolímpico” seria a palavra mais correta e não deveria ter sido substituída em novembro de 2011 por determinação do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB) – grafia empregada no site oficial da entidade –, supostamente por exigência do Comitê Paraolímpico Internacional. Além disso, argumentou-se que o CPB visava a se aproximar do termo inglês paralympic e da forma empregada em outros países de língua portuguesa, inclusive a nação lusa e seu Comité Paralímpico de Portugal.

        Apesar de concordar com Dilma Rousseff neste caso e ver nessa troca uma inutilidade e mesmo uma submissão da CPB ao estrangeirismo, é ridículo uma presidente determinar a seu bel-prazer qual grafia a ser utilizada nos documentos oficiais – e mais ainda um ministro de Estado vir a público divulgar essa ordem da chefe. Da mesma maneira, é cômico ver uma senadora da base aliada do governo (a hoje ministra da Cultura, Marta Suplicy) interrompendo o presidente do Senado, José Sarney, que se referia à presidente, para corrigi-lo. E erradamente, deve-se dizer, já que os dicionários registram tanto “a presidente” quanto “a presidenta”.

        Menos engraçada, porém, é a discussão a respeito das privatizações dos aeroportos e estradas brasileiras, que Dilma e seu governo insistem em chamar de “concessões públicas” para tentar diferenciá-las das medidas adotadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso. Neste ponto, evidencia-se o viés político da linguagem, e o que inicialmente era tido apenas como uma preferência pessoal da “presidenta” Dilma passa a ter implicações sérias ao rumo do país. Afinal, ao eleitor, interessa diretamente saber o que diferencia uma privatização de uma concessão pública. Mais ainda, por exemplo, ao velho militante petista que tanto criticou as medidas econômicas de FHC.

        Já a importância de ter acesso às redações corrigidas do Enem e eventualmente contestá-las, inclusive judicialmente, é mais óbvia. Por décadas, os critérios e disparidades na avaliação escrita dos candidatos ao ensino superior foram mantidos longe do conhecimento da população e quem se aventurou a tentar analisar o trabalho dos corretores de redação se viu impedido por inúmeros obstáculos. Afinal, em nada interessaria às universidades abrir essa caixa de Pandora. Atualmente, contudo, a questão vem se modificando, apesar da relutância e dos recursos impetrados pelo Ministério da Educação (MEC), e os alunos, espera-se, terão acesso às provas corrigidas. A inevitável enxurrada de contestações, sem dúvidas, vai trazer à tona as falhas de nossas bancas examinadoras, sempre tão céleres a divulgar na internet as já famosas “pérolas do Enem”. Mas, como crítica sempre é melhor com autocrítica, esses profissionais sem ética vão se ver forçados a rir dos próprios erros e incoerências.

        Pela natureza da atividade, é inevitável que haja disparidades nas correções e isso em si não é um problema. O problema é tentar impedir a contestação das falhas e a exposição de gente inapta ao serviço, o que só deporia mais uma vez contra o MEC, responsável pelas trapalhadas recorrentes do Enem. Se o propósito do governo petista, porém, é democratizar o acesso ao ensino superior no país, dando mais oportunidades a camadas sociais que antes se viam impedidas de cursar uma faculdade, é mais do que necessário que o próprio processo seletivo seja transparente e esteja aberto à contribuição popular, inclusive com críticas e contestações.

        No caso do Novo Acordo Ortográfico, não seria viável democratizar as decisões a tomar, já que o assunto exige expertise nos estudos linguísticos e em língua portuguesa, mas também não parece ser uma boa decisão tê-lo deixado no Brasil a cargo de apenas uma pessoa: o professor e gramático Evanildo Bechara. Com dezenas de linguistas e filólogos de nível internacional espalhados pelas melhores faculdades de letras do país, foi temerário não consultá-los quanto às novas regras, bem como outros intelectuais e escritores consagrados, o que limitou os pretensos avanços que justificaram as novas regras. Não por acaso, as críticas às mudanças proliferam nas academias e nos meios de comunicação. Um debate saudável que deveria ter sido realizado antes da publicação do acordo. Agora, com seu adiamento para 2016, abre-se uma janela de oportunidade para remover esse obstáculo e trazer à discussão outros especialistas e autoridades, uma medida que não interessa aos que ungiram mestre Bechara juiz supremo da grafia em língua portuguesa. Mesmo porque, comprometeria o próprio acordo tal qual elaborado. 

        Meios e fins Como bem frisaram vários autores na imprensa nacional recentemente, muitas das finalidades do novo acordo são em si questionáveis, a começar pela melhora do intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa e a aproximação dessas nações. A simples modificação de regras de acentuação e emprego do hífen e trema, entre outros tópicos contemplados no acordo, em nada facilita esse estreitamento de laços, que requereria outras políticas mais eficazes, como melhor difusão pelos países de língua portuguesa do que se publica nas nações dessa comunidade e maior acesso de estudantes aos centros educacionais dos países irmãos. E aqui novamente as medidas a serem adotadas deveriam passar por ampla análise de especialistas e autoridades de todos os países de língua portuguesa, visando às melhores soluções.

        Quanto às novas regras ortográficas em si, elas mereceriam um artigo à parte para discutir muitos de seus pontos. Mas deve-se dizer que saltam aos olhos vários problemas, como o uso do hífen, ainda com um sem-número de exceções que acabam por jogar por terra a regra, além de disparidades entre os principais dicionários brasileiros. O Houaiss e o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), por exemplo, registram “francoatirador”, “proativo”/“pró-ativo”, enquanto o Aurélio grafa “franco-atirador” e registra apenas a forma “proativo”. Por outro lado, as três publicações mantiveram a grafia “cor-de-rosa” e “mais-que-perfeito” devido ao “uso consagrado”, critério que não foi considerado em milhares de outros termos, nos quais prevaleceu a regra de que não se emprega hífen em locuções (Escrevendo pela nova ortografia: como usar as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa). Além disso, há vários exemplos de absurdos, como grafar “ponta-esquerda” e “ponta-direita” (com hífen) e “lateral esquerdo” e “lateral direito” (sem hífen), segundo o Aurélio e o Houaiss, como bem observado pelo colega da editoria de Esportes Benjamin Abaliac. Por que da diferença?

        Esses poucos casos, apenas relacionados ao hífen, talvez pareçam de menor relevância, mas não são por explicitarem que as novas regras deixam margem a muitas possibilidades e variações de grafia. Mais um exemplo de problema cuja solução não deve ser deixada às mãos de apenas uma pessoa, por mais competente que ela seja. Não por acaso, muitas mudanças desnecessárias acabaram sendo dicionarizadas, como a nova grafia de “bem-feito”, o horroroso “benfeito”. Fora situações com dois pesos e duas medidas, como eliminar o acento diferencial de “pára”, do verbo parar, mas aceitar as grafias “fôrma” e “forma” para designar o vasilhame.

        No fim das contas a pergunta que resta é: de que maneira alterações como essas facilitariam o intercâmbio cultural entre os países de língua portuguesa e aumentariam o peso de nossa língua em âmbito internacional? A conclusão a que se chega é clara: não parece haver argumentos convincentes para defender a reforma ortográfica como meio eficiente de obter esses resultados. Da mesma forma, não há como apontar diferenças substanciais entre a privatização empreendida pelo governo Fernando Henrique Cardoso e as concessões públicas do governo Dilma Rousseff. Muito menos explicar por que candidatos a uma vaga no ensino superior do país não podem ter acesso à correção de seus textos nem questioná-la, até judicialmente. 

        Como resultado do debate desses temas, sobretudo a respeito do novo acordo, espera-se que o brasileiro se envolva mais ativamente com os assuntos relacionados à língua portuguesa e que as colunas jornalísticas dedicadas a ela ampliem definitivamente seu enfoque, indo além da mera divulgação da gramática normativa. De preferência com maior participação dos linguistas e filólogos brasileiros, hoje praticamente confinados nas universidades país afora, sem contato com o público leigo. Afinal, na língua e na política, quanto mais amplo o debate, melhor. Sem margem a imposição alguma, seja de um gramático, seja da presidente.

        O mundo do trabalho - João Paulo‏

        Estado de Minas: 19/01/2013 

        As greves vão voltar. O que é muito bom para a economia, para a política e para a sociedade. Os momentos de confronto entre capital e trabalho foram, historicamente, determinantes da evolução das relações laborais. Sem greves, não teríamos jornada de trabalho regulamentar, férias, salário mínimo e outros direitos trabalhistas. Foi por meio do conflito que se plasmaram os avanços, até criar um solo inegociável de regras, que pode ser traduzido como dignidade.

        No entanto, de uns tempos para cá, a falsa noção de modernidade vem tentando solapar as bases sobre as quais se fundam as relações trabalhistas, em nome da competitividade que tem como objetivo apenas os resultados econômicos. Assim, vai ganhando corpo a ideia da desregulamentação extrema, que transforme o direito trabalhista em um conjunto de acordos, quase sempre feitos em torno de situações extremas, em que a parte mais fraca é sempre o trabalhador.

        O curioso é que, muitas vezes, partem de alguns sindicatos, ou de entidades que se dizem sindicatos, propostas de desmontagem da estrutura de proteção social criada ao longo dos séculos pela luta dos trabalhadores. A atual situação econômica do país não deixa dúvida: precisamos de mais direitos, não de menos garantias. A todo momento, continuam a ser denunciados de trabalho escravo a formas perversas de assédio moral que visam tornar o trabalhador o elo mais fraco dessa cadeia.

        A situação do mundo do trabalho vive um momento especial no Brasil. A recente incorporação de milhões de pessoas ao mercado formal, à primeira vista, parecia ter fortalecido a classe trabalhadora como um todo. Afinal, mais pessoas trabalhando na formalidade levariam à alteração do jogo de forças entre capital e trabalho. No entanto, a chamada nova classe C, de acordo com padrões aferidos pelo consumo, vinha do terreno da desmobilização absoluta, aquém do proletariado, numa situação que foi chamada por alguns sociólogos de precariado e, por outros, de ralé. 

        Em outras palavras, a nova classe trabalhadora não evoluiu de um campo de labor que carregasse a história de organização e representação política. Não conhecia sindicatos e, mesmo com expressa vontade de transformação, se coloca sempre dentro da ordem, de onde espera que as transformações venham de forma natural. A vida sindical ensina: não se abrem caminhos sem derrubar barreiras. Talvez a grande confusão venha da forma de usar os conceitos, principalmente a noção de classe.

        Há um certo prazer – e má-fé – em nomear os novos trabalhadores como classe média. A noção de classe se liga ao lugar na cadeia de produção e não à ponta do sistema, no momento do consumo. Ao definir a classe C pelo número de bens que as pessoas adquirem no mercado, o que se pretende é despolitizar a relação de trabalho em favor de uma inexistente paz social feita de consumidores felizes. Não há consumo feliz, ele é sempre feito de frustrações e alienação.

        Por isso, o que a evolução social dos novos trabalhadores parece indicar é a recuperação da capacidade de organização política, seja em torno de objetivos imediatos que compõem a pauta de alguns movimentos sociais, seja a partir de novos projetos relacionados ao conflito estrutural com o capital (diminuição de jornada e aumentos reais de salário), ou mesmo de fortalecimento dos partidos políticos de base operária de todos os extratos – não apenas os trabalhadores do setor de ponta da economia. 

        A situação brasileira tem algumas singularidades promissoras. Pode-se observar, a partir do mundo do trabalho, que a politização tende a substituir certo conservadorismo que por muito tempo alimentou a classe média tradicional. Posto no espectro político como abrigo prioritário da ordem, esse segmento da sociedade nunca gostou de mudanças, acha que ordem é progresso e que o moralismo é a mais avançada das atitudes políticas. Carrega a UDN na alma, o rancor no discurso e o preconceito no coração.

        A “nova classe média” pode até ter começado com a mesma inspiração antimudancista, feliz em participar da festa do consumo, mas começa a perceber que lhe cabe alterar as situações sociais que por tanto tempo a deixaram na expectativa de transformações ditadas de cima para baixo. Há, também, uma alteração da chamada opinião pública, que deixa de emanar dos meios de comunicação e ecoar na sociedade reacionária por meio dos partidos da ordem e dos sindicatos alinhados, para se tornar mais plural e complexa. A dissonância entre o noticiário e os resultados eleitorais, por exemplo, é sinal desse novo cenário, habitado por novos sujeitos.

        Fogo amigo O que se passa no Brasil é, de certa maneira, um símbolo do desconforto que varre o mundo. Depois do consenso neoliberal, que fez da globalização um projeto inevitável e vitorioso, o planeta começa a colher o lado B dessa história. Hoje, o desemprego e a desvalorização do trabalho tomam conta de nações orgulhosas de seu passado. O humanismo de ontem foi substituído pelo descarte humano de hoje. O que parece chocar os países centrais é que o veneno que exportaram por décadas para o Terceiro Mundo retorna hoje a eles mesmos como doença. Por séculos, quiseram convencer que o receituário da eficiência e da competição interessava à maioria das pessoas, ainda que os derrotados, pobres e marginalizados estivessem do outro lado do mundo. Hoje a carne dói dentro de casa.

        O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, em seu mais recente livro, Danos colaterais, explica essa dinâmica da história de maneira cristalina. Para ele, a classe política sempre tratou a pobreza como um problema da lei e da ordem, não da estrutura da economia. Além de esconder as raízes sociais e acusar o pobre por seu fracasso, ela oferecia a contrapartida do consumo vazio, da individualização extrema, da censura dos laços sociais e da despolitização.

        Os desfavorecidos, explica o pensador, faziam parte de um risco calculado, da minoria que por incapacidade ficaria pelo caminho. Os valores humanos, como a segurança do Estado social (ele se recusa a falar em Estado de bem-estar social, o que seria tautologia), foram derrotados pelas palavras de ordem do crescimento econômico. O resultado, que hoje se vê na Europa, é o coquetel explosivo de desemprego, desigualdade social, discriminação racial e aumento de marginalizados. 

        Com isso, os danos colaterais vão se avolumando até tornar o homem vítima de sua incompetência e algoz de seu despreparo. Com isso, as soluções políticas, quando não caminham em direção ao preconceito e à xenofobia, costumam passar por cima de valores humanos para punir as pessoas por uma derrota que é estrutural. 

        Bom exemplo dessa operação é o que se vê no Brasil, quando se fala do problema do crack. Em vez de enxergar aí o signo de nossa injustiça social e de buscar alterar o quadro em dimensão política mais ampla, os viciados são considerados o problema e por isso não podem ser tratados como gente, legitimando ações que vão além de conquistas dos direitos humanos. Todos querem afastar o problema, e o problema não é a injustiça social, mas suas vítimas.

        Brasil e mundo emanam sinais diferentes, de otimismo e derrota. Mas parecem se igualar em alguns pontos fundamentais. Talvez o mais importante deles seja a necessidade de tomar novamente o destino nas mãos. O que isso tem a ver com as greves? Tudo.