sábado, 19 de janeiro de 2013

Xico Sá

FOLHA DE SÃO PAULO

Que venham os embates regionais
Quanto mais vejo o futebol globalizado mais me interessa a aldeia, porque a vida é como o Baiano
Amigo torcedor, amigo secador, aqui no embalo do Nego Dito, vos digo: quanto mais conheço o homem mais eu gosto do meu cão. Quanto mais vejo o futebol globalizado mais me interessa a aldeia, o embate regional. Que venham os estaduais Paulista, o Carioca, o Mineiro, o Gaúcho... Porque a vida, amigo, tem idas e voltas, turnos e returnos, a gente apanha e se vinga, a vida é como o Campeonato Baiano.
Sim, é no embalo de Itamar Assumpção, artista da Penha, zona leste paulistana, que me preparo, a caminho de Sousa, a terra dos dinossauros, para o embate entre o time homônimo paraibano e o Sport. Um dos jogos da primeira rodada da Copa do Nordeste, neste domingo. Não vejo a hora.
Um torneio deveras emocionante, na região que mais gosta de futebol no país, tanto no sofá como na missa de corpo presente no estádio. Quero ver, por exemplo, quem ultrapassará, por meses e meses, o público da estreia do Santa Cruz no certame. Pega o CRB, o galo da Pajuçara, no Colosso do Arruda.
O Nordestão tem o Bahia, o Náutico e o Vitória, trinca da elite da Série A do Brasileiro, como favoritos. Ninguém pode esquecer de Ceará, Fortaleza, ABC e o Santinha como candidatos da surpresa. Correm por fora o Asa de Arapiraca e o Salgueiro, o carcará do sertão de PE.
A taça regional só tem um defeito: a ausência de times do Cariri, a Catalunha brasileira -até já ameaçou virar Estado e tudo. Graças ao seu alto poder histórico e revolucionário, herança que vem da Confederação do Equador e do sangue de Bárbara de Alencar (1760 - 1823), ativista que se tornou a primeira mulher presa política do Brasil.
É, amigo, falta um Icasa, time da Série B do Brasileiro, falta um Crato, falta um Guarani de Juazeiro, o Leão do Mercado que já faz bonito de novo no já iniciado Cearense.
E aqui vamos nós rumo a Sousa, Nego Dito nas alturas com a sua banda Isca de Polícia. Em Picuí (PB), uma parada obrigatória para comer a carne de sol dos deuses. Servido, amigo?
ESTANTE DA BOLA
Livros jornalísticos ou de histórias do futebol temos às pencas. Ficções sobre o principal esporte do país ainda são raras. A coleção acaba de ganhar, porém, um romance policial ludopédico: o divertidíssimo "Nove contra o 9" (editora Objetiva), de José Roberto Torero, ex-titular desta coluna, e Marcus Aurelius Pimenta. Recomendo as aventuras de Zé Cabala e Gulliver.
A parada gira em torno da morte de Beleza, gênio e ídolo do time do Banânia Esporte Clube. Um zagueiro adversário, na linha beque de roça, viril e gay, é um dos suspeitos. O mais eu não conto para não estragar a história. Como sou chegado a um trocadilho infame, desses que dizemos nos piores botecos, ri o tempo todo com a leitura.
Recomendo muitíssimo.

    CLÁUDIA LAITANO - Bons costumes

    Zero Hora:19/01/2013

    Algumas expressões têm a curiosa capacidade de evocar ideias exatamente opostas à do seu sentido original. “Decência”, por exemplo. Você ouve a palavra e imediatamente é atingido por uma incontrolável avalanche de pensamentos indecorosos. “Político honesto”: não importa o quanto você se esforce para lembrar de todos os homens públicos de bem que você conhece, ao ouvir essa expressão é em uma camarilha de pilantras da pior espécie que você vai pensar.

    Outra ilustre representante dessa linhagem de palavras vira-casacas é “bons costumes”. Nada evoca menos um rol de comportamentos razoáveis do que essa expressão que recende ao perfume adocicado das viúvas rancorosas dos romances de época: falou em “bons costumes”, e eu lembro na hora de segredos de alcova e sacanagens reprimidas.

    Imagino (espero) que a deputada estadual Myrian Rios não tenha pensado em nada disso ao redigir o projeto de lei, sancionado esta semana pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, que propõe a genérica “promoção da moral e dos bons costumes”. O problema com os “bons costumes” é precisamente este: a gente nunca sabe muito bem o que as pessoas têm em mente quando defendem a sua causa.

    O que quer que sejam, uma coisa é certa: bons costumes mudam conforme a época, o lugar e a ocasião. Você pode achar que não fica bem uma moça desfilar sem a parte de cima do biquíni em Tramandaí – e é provável que a maioria das pessoas que frequentam aquela praia concorde com isso. Mas se você estiver na Praia da Galheta, em Floripa, ou na Praia do Pinho, em Camboriú, prepare-se para aceitar uma ideia um pouco diferente de figurino adequado para o local.

    Jânio Quadros achou que poderia salvar o Brasil da decadência moral proibindo o biquíni em 1961. A ex-atriz, ex-mulher de Roberto Carlos e atual missionária talvez seja a favor da eliminação do sexo para fins recreativos (a deputada já anunciou que não transa há 10 anos) e da sunga branca na praia. Vai saber. Jânio e Myrian Rios têm em comum não apenas a sanha moralista, mas a excêntrica circunstância de terem sido eleitos – o que permitiu que seus delírios reformistas tomassem a dimensão de um assunto público.

    Fascinada pela nostalgia de um passado idealizado e irrecuperável, a patrulha da moral e dos bons costumes ignora a complexidade do mundo e alimenta a ingênua fantasia de que é capaz de corrigir a sua rota – de volta para um lugar onde provavelmente nunca esteve.

    Hábitos e práticas considerados adequados ou aceitáveis são, como todos os organismos vivos, produtos de adaptação, mutação e evolução. Algumas convicções a respeito da vida privada que passavam como verdade absoluta há pouco tempo hoje são questionadas, simplesmente porque mais e mais pessoas foram aprendendo a pensar de forma diferente.

    Certas ideias e crenças vão se tornando, assim, tão anacrônicas quanto os dinossauros e os pássaros dodô – e não será surpreendente se acabarem tendo o mesmo final que eles.

    Lojas físicas desenvolvem 'iscas' para seduzir clientes eletrônicos

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Varejo usa a tecnologia para combater hábito de pesquisar preços melhores nos smartphones
    Grandes redes do Brasil já testam tecnologias que dispensam caixas e filas, mas nota fiscal obrigatória é entrave
    MARIANNA ARAGÃOENVIADA ESPECIAL A NOVA YORKO avanço do comércio eletrônico e dos dispositivos móveis está trazendo mudanças profundas no varejo mundial.
    Com a opção de comparar preços ao alcance de um clique ou toque no celular, os lojistas têm criado estratégias para atrair e manter os clientes em suas lojas.
    Segundo pesquisa feita pela IBM em 14 países e apresentada durante evento da associação americana de varejo (National Retail Federation) nesta semana, 48% dos usuários de smartphones afirmam pesquisar produtos e preços dentro das lojas.
    Um quarto dos entrevistados afirma que planeja comprar na loja física, mas desiste por motivos como mau atendimento ou falta de itens em estoque.
    O surgimento dos "show-roomers" -clientes que usam as lojas físicas para interagir e conhecer os produtos, mas concretizam a compra na internet- tem sido estimulado pela Amazon, maior varejista on-line do mundo.
    Em 2011, a empresa lançou um aplicativo grátis que permite aos compradores escanear o código de barra dos produtos nas lojas e imediatamente ver as ofertas para o mesmo item na Amazon.
    REAÇÃO
    Diante disso, grandes redes de varejo investem no uso de tecnologias que agilizem e tornem mais atraente o processo de compra "física".
    Em alguns casos, o contra-ataque é direto, com o lojista reduzindo o valor de seus produtos para bater o preço do concorrente on-line.
    Na última temporada de vendas de Natal nos EUA, as redes Target e Best Buy adotaram a prática, ao se propor a cobrir o preço oferecido na internet para os seus itens.
    DESCONTO
    Outra solução encontrada pelas redes na era do "e-commerce" é usar os dispositivos móveis para localizar e atrair consumidores que estejam nas redondezas para suas lojas, enviando ofertas personalizadas ou promoções.
    "Essas iniciativas atendem a uma demanda do próprio consumidor de hoje, que quer receber informação que realmente lhe interesse", diz Elia Chatah, da área de varejo da empresa de software SAP.
    Uma das tecnologias da empresa, que utiliza análise de dados do consumidor em tempo real para criar ofertas personalizadas, já está sendo testada por redes de varejo nacionais, em projeto-piloto. A rede Casino, na França, já usa o programa.
    O varejo tradicional também tenta se tornar mais atrativo por outras frentes, ao diminuir, por exemplo, o tempo de espera nas filas.
    As lojas da Apple foram as primeiras a adotar o "checkout [caixa]" móvel. Com iPods, os atendentes finalizam a compra ao lado do cliente, dispensando os caixas e as filas.
    Outras redes nos EUA, como a de cosméticos Sephora e a loja de departamentos Nordstrom, seguiram a tendência recentemente.
    No Brasil, segundo a Folha apurou, dois grandes varejistas estão com projetos-piloto para adotar a tecnologia.
    No entanto, ela deverá passar por algumas adaptações. Por causa da obrigatoriedade da impressão de nota fiscal, prevista em lei, o dispositivo móvel terá de se conectar remotamente a uma impressora dentro da loja.
    Para especialistas, é questão de tempo para que as iniciativas das redes norte-americanas cheguem ao Brasil.
    "Apesar de a representatividade do 'e-commerce' em relação ao varejo no país ainda ser menor que a média mundial, essa evolução inevitavelmente vai ocorrer por aqui", diz Rafael D'Andrea, consultor de varejo.
    A repórter MARIANNA ARAGÃO viajou a convite da SAP

      Acervo arqueológico está amontoado em universidade do AM

      FOLHA DE SÃO PAULO

      Urnas funerárias e cerâmicas de até 9.000 anos estão em caixas de plástico sem proteção contra incêndio
      Petrobras prometeu, em 2006, construir laboratório para abrigar o material; empresa diz que obra foi licitada
      Fotos Alberto César Araújo/Folhapress
      Pesquisadores trabalham em galpão na Universidade Federal do Amazonas que abriga de forma improvisada peças retiradas de sítios arqueológicos
      Pesquisadores trabalham em galpão na Universidade Federal do Amazonas que abriga de forma improvisada peças retiradas de sítios arqueológicos
      KÁTIA BRASILDE MANAUS
      À espera de um laboratório prometido pela Petrobras desde 2006, um acervo arqueológico está há um ano guardado em cerca de 700 caixas de plástico em salas e num galpão da Ufam (Universidade Federal do Amazonas), em Manaus. Tudo amontoado, sem segurança contra roubos e incêndios.
      O acervo é resultado de 18 anos de escavações do Projeto Amazônia Central e contém restos ósseos, cerâmicas, urnas funerárias e lâminas lascadas, tudo localizado em sítios arqueológicos com datações de 4.000 a 9.000 anos.
      Com esse tesouro arqueológico, por exemplo, cientistas do projeto puderam comprovar a tese de que a bacia amazônica era densamente ocupada por sociedades complexas na Pré-História.
      A construção do Laboratório de Arqueologia da Ufam, orçada em R$ 4,8 milhões, foi prevista como compensação dos impactos ambientais e arqueológicos ocorridos na obra do gasoduto Urucu/Manaus, inaugurado pelo ex-presidente Lula, em 2009.
      Helena Lima, 33, doutora em arqueologia pela USP e atual coordenadora de pesquisas do Museu Amazônico da Ufam, diz que o acervo é o material mais significativo que existe hoje entre as descobertas na Amazônia.
      "Estamos em 2013 e nada foi feito. O acervo está num espaço provisório e o laboratório está na promessa. É um descaso da Petrobras. Nem esperança a gente tem mais", afirma Helena.
      A atual administração da empresa, comandada por Graça Foster, ainda não assinou nem deu prazo para firmar convênio com a universidade para iniciar as obras e contratar profissionais.
      INFILTRAÇÕES
      Além de Helena, a reportagem encontrou Filippo Stampamo, 32, e Marta Cavallimi, 33, ambos da USP, trabalhando num galpão da área sul do campus da Ufam.
      O espaço, que tem abastecimento precário de água e energia, virou um laboratório improvisado. Quando chove, há infiltrações.
      No galpão, estão acomodadas em caixas e estantes dezenas de urnas de até 2.000 anos, muitas encontradas em sítios localizados em Manaus. Parte também foi resgatada na própria obra do gasoduto da Petrobras.
      Ao lado do depósito improvisado, há um lixão a céu aberto com restos de móveis.
      Outra parte do acervo está em três salas do Instituto de Ciências Biológicas da Ufam, sem nenhum sistema de segurança nem climatização.
      Todas essas peças estavam anteriormente em São Paulo. Mas um outro acordo entre a Petrobras, a Ufam e a USP transferiu a guarda do acervo para Manaus em dezembro de 2011.
      O Projeto Amazônia Central foi criado em 1995 pelos cientistas Michael Heckenberger (Departamento de Antropologia da Universidade da Flórida), James Petersen (Departamento de Antropologia da Universidade de Vermont) e Eduardo Góes Neves (Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo).
      Peterson, que escavava em Iranduba (AM), foi assassinado numa tentativa de assalto na cidade, em 2005.


      OUTRO LADO
      Petrobras diz que obra começa após convênio
      DE MANAUSA Petrobras informou que a construção do Laboratório de Arqueologia da Ufam terá início após a assinatura de um convênio ou acordo, mas não divulgou a data de assinatura desse termo.
      A empresa disse à reportagem que já realizou o processo licitatório da obra, orçada em R$ 4,8 milhões.
      Segundo a Petrobras, após a assinatura, o Laboratório de Arqueologia será construído num prazo de 12 meses.
      A empresa afirmou que uma verba de R$ 1,1 milhão será repassada à Ufam para catalogação e guarda dos achados arqueológicos na obra do gasoduto. "O resultado esperado é o de um laboratório de excelente nível técnico, suprindo uma deficiência do Estado do Amazonas", disse a empresa.
      A reportagem procurou o vice-reitor da Ufam, professor Hedinaldo Narciso de Lima, mas ele não respondeu às perguntas enviadas por e-mail pela reportagem.
      Maria Helena Ortolan, diretora do Museu Amazônico, responsável pela guarda do acervo do Projeto Amazônia Central, disse que a Ufam cedeu o terreno para a construção do prédio, mas a Petrobras atrasou o convênio.
      "A Ufam honrou com sua parte, a Petrobras justificou que o orçamento estava acima do valor. É um problema de deliberação política, ficou tudo no papel", afirmou.
      A Superintendência do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Nacional) no Amazonas disse que os acervos da Ufam estão sendo fiscalizados.
      "Os acervos encontram-se acondicionados dentro das condições mínimas exigidas para sua segurança e preservação. Caso seja constatada irregularidade, o local de armazenamento é advertido por não ter as condições exigidas", afirmou o instituto.

        FRASE
        "A Ufam honrou com sua parte, a Petrobras justificou que o orçamento estava acima do valor. É um problema de deliberação política, ficou tudo no papel"
        MARIA HELENA ORTOLAN
        diretora do Museu Amazônico, responsável pela guarda do acervo Projeto Amazônia Central