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sábado, 17 de agosto de 2013

Hitchcock no Morumbi - Xico Sá

folha de são paulo

Hitchcock no Morumbi

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Amigo torcedor, amigo secador, o Brasileirão, quase sempre entediante até a reta final, chega a agosto, o mês do cachorro louco, apresentando um suspense digno de filme de Alfred Hitchcock. Na sua 15ª de 38 rodadas, um espectro ronda o Morumbi e a prosa dos botequins: o rebaixamento do São Paulo.
Cai ou não cai?
O corvo Edgar, minha agourenta ave que representa os secadores, está eufórico. É a pior campanha entre rebaixados das últimas temporadas. Ele vibra. Peço calma ao estimado bicho. Ainda é cedo, amor, ironizo. O lazarento não dá bola. Eis a obsessão do miserável neste 2013.
Com um belo repertório de filmes de terror e suspense, afinal todo corvo é parente da ave assombrada do poema de Edgar A. Poe, Edgar sacaneia o técnico Paulo Autuori: "Chegou no papel de 'O Homem que Sabia Demais' e logo se revelou 'O Homem Errado'", diz, retomando a lista de filmes do Hitchcock.
O agourento toca o terror como na invasão, inclusive de corvos, de "Os Pássaros", outra fita do mestre do cinema. Calma, ainda estamos na 15ª rodada. O tricolor enfrenta amanhã o Flamengo, no estádio Mané Garrincha, em Brasília.
O momento do São Paulo é tão negativo que o zagueiro rubro-negro Wallace chegou a comparar um triunfo do time carioca com o ato de bater em bêbado. Embora não tenha sido em tom de provocação, a fala do beque da Gávea pode atiçar os ânimos da equipe de Rogério.
O corvo, aqui no ombro qual um repetitivo papagaio de pirata, não amacia: "Se o campeonato fosse um filme do Hitchcock para os tricolores, estimado cronista, o cartaz do Morumbi seria 'O Corpo que Cai'", sapeca, com a sua habitual irresponsabilidade secadora.
E sai o agourento com a sua interminável resenha de terror. Lembra que o momento para a torcida não chegou no auge de "Psicose". Não deixaria fora da sua provocação barata, embora com essa capa chique hitchcockiana, a ansiedade permanente dos são-paulinos pelo nome de Muricy Ramalho. "Eis a eterna 'Trama Macabra'", cita mais um filme. "Mais dias menos dias recorrem ao homem, que vai rejeitar o papel de salvador na história".
Se fosse apostar no botequim, jogaria minhas fichas na permanência do tricolor na elite. O elenco não é forte o suficiente para títulos, mas não tem perfil de queda. Temos aí um Náutico, uma Portuguesa, um preocupante Santos...
O suspense para o lado do Morumbi, no entanto, é real. Veio cedo demais para a histeria do meu corvo e o desespero da torcida. Bom para matar o tédio que costuma contaminar o Brasileirão a essa altura.
Na parte positiva, quem tem dito um retumbante "xô, pasmaceira" é o time do Botafogo, com a sabedoria do Seedorf, o holandês voador, e o poder ultrajovem de Vitinho. Melhor equipe não apenas na pontuação. Melhor em tudo até agora.
Xico Sá
Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

domingo, 11 de agosto de 2013

Pouco pode ser muito - Tostão

folha de são paulo
DE SÃO PAULO
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Na coluna anterior, falei de Seedorf, que, além de jogar mais livre e mais próximo do gol do que antes, atua no Botafogo de maneira lúdica e criativa. Isso serve para outros veteranos que brilham no Brasileiro. Eles estão bem fisicamente e querem parar por cima. É a última chance de jogarem a grande pelada de suas vidas. Os maiores craques, em todas as atividades, são os que trabalham brincando, com seriedade.
O baixo nível técnico do Brasileirão facilita para os que sabem jogar, veteranos ou não. Muitos discordam. Uns, por convicções técnicas, usam de argumentos, mesmo quando não existem, para dizer que está tudo bem. Há ainda os pachecões, os Policarpos Quaresmas, que acham antipatriota criticar o que é nosso. Existem também os interesses econômicos, de que não se deve desvalorizar o produto futebol.
Durante e após os 8 a 0, muitos - não digo quem porque são inúmeros - se concentraram nas críticas na falta de empenho dos jogadores e de planejamento da diretoria do Santos. Esqueceram do mais importante, a absurda diferença técnica entre os dois clubes. Mas isso é proibido falar, para não desvalorizar nosso futebol.
Imagine se o Brasil ganhar a Copa, o que tem boas chances de ocorrer. Felipão vai ganhar uma estátua, Marin se tornará herói, e todos os jogadores serão rotulados de craques. E nada vai mudar.
Volto aos veteranos. Alex continua com seu estilo de tocar a bola e de esperar o momento certo para tentar jogada excepcional, decisiva. Quando essa chance não surge, dizem que é um vaga-lume, que acende e apaga. Não entendem sua genialidade.
Há jogadores que correm muito, que ficam muito com a bola, que driblam muito, que dão muitos passes, que finalizam muito, que trombam muito, que caem muito, que reclamam muito, mas que jogam pouco. O pouco de Alex é muito.
Zé Roberto e Juninho Pernambucano disputaram a posição de titular na Copa de 2006. Zé Roberto ganhou e fez parte da seleção do Mundial. Os dois não são típicos volantes nem típicos meias. São armadores, defensivos e ofensivos.
Juan é um dos raros zagueiros que anteveem o passe, antecipam e ainda têm um bom passe. Não tromba com o atacante, não cai nem dá carrinhos. Joga futebol.
Sugiro que, no fim do ano, escolham também o melhor veterano, como tem a melhor revelação. Há uma grande chance de o melhor veterano ser o melhor do campeonato. Acho que a idade mínima deveria ser 35 anos. Ronaldinho ficaria fora, já que tem 33.
Nem todos os veteranos brilham no Brasileirão, e nem todos os que brilham são veteranos. Muitos jovens são também destaques.
Tenho mais esperança em Vitinho, 19, ainda mais que ele tem dois ótimos pais no Botafogo, Oswaldo de Oliveira e Seedorf.
Tostão
Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".

sábado, 10 de agosto de 2013

Tal pai, tal time - Xico Sá

folha de são paulo
No geral, seja onde for, a resistência paterna é grande. É desgostoso. Pai Bahia, filho Vitória
Amigo torcedor, amigo secador, o pior desgosto de um pai que é doente por futebol é ver o filho trair a sucessão clubística. Uma loucura. Pai são-paulino, filho corintiano. Pai Fla, filho Flu, como veremos no primeiro clássico do gênero amanhã no Maraca.
Perder esse jogo caseiro é uma tragédia grega para muitos.
Acontece até com os herdeiros da família real da Inglaterra. Menos em Barcelona e no Recife. Exagero à parte, são duas cidades que se negam, no geral --e até com algum folclore--, a este tipo de acontecimento. "Você está maluco, isso é impossível em toda a Catalunha", me diz aqui no Rio o colega Pau Ramirez, Paulo em terras cariocas, para evitar a piada pronta e tomar o seu chope em paz.
Paulo trabalha como correspondente de emissoras de rádio espanholas e escreve para o site daquele time grená que me recuso a pronunciar o nome depois do amistoso com o Santos. Uma das coisas que mais chamam a atenção do rapaz é essa "permissividade" clubística entre pais e filhos. O catalão tenta entender. Não consegue. Mesmo. É muita sacanagem tropical para o seu jeito de ver a vida.
Um pai rubro-negro do Recife diria o mesmo: ter um filho torcedor da "minhoca" é motivo para deserdá-lo. Minhoca é o pejorativo da "cobrinha", o Santa Cruz. Um rebento fã da "cachorra de peruca"? Deus o livre, diria um pai tricolor. Donde cachorra vem a ser, obviamente, o Leão da Ilha do Retiro. E assim segue o jogo dos bichos.
No geral, seja onde for, a resistência paterna é grande. É desgostoso. Pai Bahia, filho Vitória. Pai Raposa, filho Galo. Neste caso vale para Atlético x Cruzeiro e também serve em um dos clássicos mais quentes do país, o Campinense x Treze. Paissandu, filho Remo. Nem no Círio de Nazaré é recomendável!
Pior é perder a guerra clubística para o sucessor de fato, o novo marido da mulher. Casal se separa com o filho ainda indeciso... Vem o amigo urso e leva o pivete, com sangue italiano, a torcer pelo Corinthians. Aí é tomar cuidado para que o caso não pare no Datena. Calma, é do jogo, tente entender que menino é um bicho oportunista, ama torcer pelo time que está no auge.
Vai ver ficou impressionado com a Libertadores e com o efeito Tóquio. Acontece nas melhores famílias paulistanas. Eu disse calma, violência, calma, como na música do Fagner, tricolor do Pici e das Laranjeiras.
Agora, silêncio. Rute não tem um ano sequer de vida. Dorme inocentemente a essa hora. Bairro das Graças, Recife. O pai, Beto Azoubel, é Sport. Poly Camarotti, a mãe, Santa Cruz. Não é uma mãe qualquer: morre de amores pelo santinha. Suspense. Será que vai torcer pelo Náutico, para evitar maiores refregas e reduzir o drama caseiro? Eis o belo embate. Em nome desta (ainda) silenciosa dúvida, feliz dia dos pais a todos.

    sábado, 3 de agosto de 2013

    O dia que Deus apagou - Xico Sá

    folha de são paulo

    O dia que Deus apagou


     
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    Amigo torcedor, amigo secador, óbvio que Deus, como não quer nada, deu um migué no calendário e arrancou a folhinha de ontem, o maldito 2 de agosto.
    Até um crente fuleiro como este cronista, que só clama pelo Homem na hora do desespero e da turbulência, sabe que era sexta e o Criador, qual um deputado que não ouve o bafo quente das ruas no cangote, eliminou tal expediente.
    Mal o mês do cachorro louco começou e já vimos quanta desgraça. Não à toa, é o 2 de agosto que ficou na história, na sua edição 1934, como o ano em que o babaca do Adolf Hitler se torna "führer", líder do estadão das coisas alemãs. A Primeira Guerra também é de agosto, um dia antes, o primeiro.
    Sentiu o drama, meu velho. Donde chegamos à conclusão que esse 2 de agosto nunca foi nem nunca será. Ilusão. Nunca existiu. Você se lembra do que aconteceu ontem? Nada. Um dia qualquer. Trânsito, chateação, o mala do chefe, algum desencontro, o amor emperrado, no máximo uma bela brochada ou broxada ""não custa sempre lembrar que os dicionários admitem o fracasso seja com "ch" do gênio e xará Buarque ou "x" de Xico mesmo.
    Sou capaz de provar, amigo, que esta sexta não existiu, não houve, nem nunca haverá. O garçom cearense aqui, no bar e restaurante Príncipe de Mônaco, Copacabana, é testemunha. Era quinta-feira até pelo menos 18h da fatídica sexta.
    O homem de fé tem ou deveria ter esse poder. O de parar o tempo. Como Deus fosse um juiz do basquete. Um favorável: só conta o tempo em que estamos com a bola toda.
    Amigo, o torcedor ou o simpatizante santista não merecia este 2 de agosto. Esta folhinha não existiu, caiu muitos outonos atrás. Antes aquele 7x1 para o Corinthians, eternamente humilhado pelo Peixe na história, antes cinco do Palmeiras, que a gente sempre desconta. Quem dera perder de dez pro São Paulo, chance não falta de retribuí-lo.
    Era feliz naquele dezembro fatídico de 2011, o bendito 4x0, e não sabia, meu caro. Se eu contar uma infeliz coincidência você não acredita. Sabe quem me apareceu do nada? A mesma mulher linda da manhã daquele jogo no Oriente contra o mesmo miserable Barcelona. Nem juntei as coisas. A mesmíssima cria da minha costela. Desalmada!
    Mas quer saber? É tão gostosa e o Santos já ganhou tudo e tanto e quanto foi preciso na existência que arrisco com ela até um terceiro Mundial de Clubes. Bora, nega. Mulher aqui em casa nunca é pé-frio. Azar é não tê-la! Não te troco por nenhum torneio caça-níquel.
    Uma força pra danada, que agora chega bonito no ombro do velho cronista como se tivesse culpa, a deusa das coincidências, tem culpa todo mundo, tem culpa eu, tem culpa meu Peixe, quem manda achar que viver é amistoso. Viver é tudo à vera, vale o jogo, por supuesto.
    @xicosa
    Xico Sá
    Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

    domingo, 28 de julho de 2013

    Olhares diferentes - Tostão

    folha de são paulo
    TOSTÃO
    Morreu Djalma Santos, um dos craques mais bem humorados e educados do futebol brasileiro
    Os leitores que leem minha coluna no jornal impresso devem ter notado que a Folha, em vez de publicar, na quarta-feira, o texto que enviei, repetiu o do domingo anterior. Acontece nos melhores jornais.
    Parabéns ao Atlético-MG pela conquista merecida da Libertadores. O time, novamente, usou muito bem as jogadas aéreas. Funciona, quando há gigantes e bons cabeceadores. Cuca é um excelente treinador, pelo que já fez na carreira, e não só porque é campeão da Libertadores. Alguns técnicos apenas razoáveis também ganharam esse título.
    O Atlético-MG e as melhores equipes brasileiras, por causa da economia, têm estruturas profissionais e elencos muito superiores às dos outros times sul-americanos. Já no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que é mais importante, o Brasil está atrás de Peru, Venezuela, Uruguai, Argentina e Chile.
    Escrevi, na coluna que não saiu na quarta-feira, que, depois das boas atuações da seleção e da conquista da Copa das Confederações, parece que está tudo ótimo no futebol brasileiro, dentro e fora de campo. A seleção foi um fato isolado.
    Os protestos precisam continuar: fora a elitização do futebol, fora a perpetuação de dirigentes no poder, fora o iminente perdão de todas as dívidas dos clubes brasileiros com o governo (em torno de R$ 3 bilhões), fora os mais velhos ditadores, Marin, e os mais jovens, Gallo, treinador das categorias de base da Seleção, como demonstrou na entrevista ao jornal "O Estado de S. Paulo". Quis agradar a seu chefe (Marin), que o tinha elogiado, como futuro técnico da seleção após Felipão.
    Hoje, no clássico Flamengo e Botafogo, no Maracanã, haverá um irônico e criativo protesto, contra os altos preços dos ingressos. Os homens irão de terno e gravata, e as mulheres, de vestidos longos e saltos altos.
    Na coluna que não foi publicada, disse que, depois de assistir a vários jogos de Ganso, todos iguais, cheguei a uma bizarra tese, que pode estar errada, de que ele, tão criticado, tem atuado da mesma forma e com a mesma qualidade da época em que era endeusado.
    Antes, como o Santos brilhava e ganhava, seus toques bonitos, precisos e inteligentes se tornaram símbolo do reencontro com os maiores armadores do passado. Hoje, como o São Paulo joga mal e perde, Ganso simboliza o futebol lento, ineficiente e ultrapassado. Os olhares mudam segundo as circunstâncias.
    DJALMA SANTOS
    Nesta semana, morreu Djalma Santos. Na Copa de 1966, eu tinha 19 anos, e ele, 37. Apresentei-me à seleção em Lambari, Minas Gerais.
    Cheguei na hora do jantar e sentei-me à mesa, com Djalma Santos e dois estreantes, como eu.
    Ele, com seu conhecido bom humor, nos tratou e a todos os funcionários e garçons do hotel com enorme educação e carinho.
    Assim foi durante toda sua vida.

      sábado, 27 de julho de 2013

      Xico Sá

      folha de são paulo
      Carta aberta ao Cuca
      Sim, é possível ser mineiro e fundamentalista ao mesmo tempo, desde que seja, eu acredito, alvinegro
      Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença, como sempre acontece nos momentos especiais do esporte, para me dirigir a um só camarada, somente uma criatura nesta semana de Missa do Galo antecipada, um cristão simplesmente no meio da legião de mineiros fundamentalistas.
      Sim, é possível, por mais incrível que pareça, ser mineiro e fundamentalista ao mesmo tempo, desde que seja, eu acredito, alvinegro, inconfidente, Libertas Quae Sera Tamen, Libertadores da América.
      Peço a devida licença, repito, para me dirigir ao Cuca, o cidadão Alexi Stival, curitibano, tido e havido como um homem azarado, mesmo que, passando a régua nos números e nas sensações, tenha feito milagres com o Goiás, com o Fluminense e, por razões estéticas, com um Botafogo que jogou mais bonito do que as lutas ferrenhas nos romances de capa e espada.
      Nesta fase, os idiotas da objetividade, como me lembra o tio Nelson, te pregaram na cruz com o martelo da ignorância. Os bons ladrões da arbitragem, nada bíblicos, ajudaram a te imobilizar, não como injustiçado, mas como um chorão nato. Injustiça prego a prego, bem sabes.
      Como me dizia o doutor Sócrates, nos nossos diálogos platônicos na madruga paulistana: "Esse sabe o jogo". Era o maior elogio que saia da boca do doutor, meu guia, meu guru, o amigo que me ensinou que a vida não cabe na prancheta. A vida é sempre mais escorregadia e amante do acaso do que qualquer fiel marido cerebral imagina.
      Caro Cuca, na semana do papa em terras brasileiras, na semana em que nevou nos trópicos, na semana em que todos duvidavam --menos os atleticanos--, na semana em que morreu Djalma Santos, conquistastes não um título, conquistastes a liberdade, mesmo que tardia, do maldito estigma, logo tu, crente até as últimas consequências, logo tu que conheces dos mistérios dos cruéis diagnósticos desde a morte do pai, amém.
      Tudo é possível, no Galo, o homem pode tudo, porque o galo é a metáfora penada, penosa, penitente, do poder e também da humildade, o mundo coberto de penas como nas vidas secas do romance de Graciliano Ramos.
      Daqui por diante, Cuca, diga como um gênio da poesia, diga como no poema de Walt Whitman, um americano gente simples, pés descalços, um torcedor do Galo mesmo antes de o Galo ter nascido. Ele dizia, depois de muita merda na sua vida: "Daqui por diante não digo mais boa sorte, boa sorte sou eu".

      quinta-feira, 25 de julho de 2013

      Colunista de jornal de Chicago alfineta COI por ter escolhido o Rio para os Jogos de 2016

      folha de são paulo


      DE SÃO PAULO

      Rio 2016O colonista Neil Steinberg, do jornal "Chicago Sun-Times", publicou um texto cutucando o COI (Comitê Olímpico Internacional) por ter escolhido o Rio de Janeiro para receber os Jogos Olímpicos de 2016.
      Na eleição, concluída em 2009, para escolher o local da Olimpíada de 2016, Chicago foi uma das cidades candidatas finalistas.
      Na primeira rodada de votação final, Chicago, que era apontada como favorita, foi logo eliminada. Na segunda, foi a vez de Tóquio sair da disputa. Na decisão, o Rio venceu Madri por 66 votos a 32
      Agora, com os protestos feitos nas ruas no Rio, o colunista do jornal norte-americano escreveu uma carta aberta, com muita ironia, abordando a opção feita pela cidade brasileira, em detrimento a Chicago.
      "Caro Comitê Olímpico Internacional, oi! Quanto tempo sem nos falarmos. Quatro anos", começa assim a coluna escrita por Steinberg, referindo-se ao ano da votação.
      O colunista disse que hoje o COI provavelmente já esqueceu de Chicago, mas a cidade não esqueceu da decisão do comitê.
      Ele apontou que, como ainda falta três anos para a Olimpíada, o Rio pode se preparar e até receber bem a competição. Porém, não acredita nessa possibilidade.
      "É difícil de imaginar isso, mas é possível. Os protestos que balançam o Brasil --centenas de milhares de pessoas se manifestaram em cem cidades no último mês, e as ruas do Rio ficaram em chamas nesta semana-- podem diminuir e, de alguma forma, tudo pode ficar bem em 2016", escreveu Steinberg.
      Depois, o colunista questionou se o COI se arrependeu da escolha feita pela cidade brasileira. Ele comentou que Chicago também tem muitos problemas, mas que a população apoiaria a Olimpíada
      "Aposto que faríamos isso sem bombas, sem a polícia precisar usar gás lacrimogêneo e balas de borrachas. Aposto que a nossa população não se rebelaria contra os Jogos, como estão fazendo os brasileiros, que também estão insatisfeitos com a Copa do Mundo de 2014", continuou.
      Steinberg lembrou que Chicago foi uma das cidades que recebeu a Copa do Mundo de 2004 e que não houve crise.
      No final, ele disse que o comitê olímpico desperdiçou a oportunidade de ganhar a medalha de ouro, escolhendo Chicago para ser a sede da Olimpíada, mas decidiu ficar com o bronze. "Você [o COI] não pode dizer que não teve chance. Mas estragou tudo."
      Reprodução/Chicagosuntimes.com
      Reprodução da coluna de Neil Steinberg no site do jornal Chicago Sun-Times questionando se o COI se arrependeu da escolha feita pelo Rio
      Coluna de Neil Steinberg no site do "Chicago Sun-Times" questionando se o COI se arrependeu da escolha feita pelo Rio

      domingo, 21 de julho de 2013

      Tostão

      folha de são paulo
      Verdades e mentiras
      Fora, o Atlético-MG não pressiona como no estilo Galo Doido, nem joga no estilo Galo Prudente
      Assim como não foi surpresa mais uma derrota do Atlético-MG fora de casa, por dois gols de diferença, não será também se o Galo for campeão.
      Fora, a equipe não joga no estilo Galo Doido, pressionando. Nem recua para fechar os espaços, em um estilo mais prudente, mais racional. Havia enormes espaços entre os setores, como nos jogos anteriores fora de casa.
      Existem muitos chavões no futebol que continuam atuais, outros não têm mais nada a ver com a realidade, e alguns são discutíveis. Ao tirar Ronaldinho, que fazia péssima partida, Cuca contrariou um dos lugares-comuns. O de que o craque do time não deve sair, porque, em um lance, pode decidir a partida.
      Um chavão que continua atual, e que me parece óbvio, é o de que há várias maneiras de vencer e de perder. Outro é que nem sempre o time que joga bem vence e o que joga mal perde. Mesmo assim, muitos jornalistas e treinadores adoram achar uma única explicação para os resultados. É o pensamento operatório.
      Nesta semana escutei, mais uma vez, que a seleção jogou bem e ganhou a Copa das Confederações porque Felipão escalou um típico centroavante. O importante não foi ter um típico centroavante, e sim um ótimo centroavante, Fred.
      Muito mais decisivas que o estilo de um jogador e de uma equipe são as virtudes do jogador e da equipe. Depois que passou a ser ameaçado por Jô e criticado, por atuar muito estático, Fred se movimentou mais e fez mais gols. Se continuar assim, será muito melhor.
      O Brasil jogou bem e venceu por inúmeros fatores. Se a seleção brasileira, mesmo sem Fred, atuasse como nas últimas partidas, sob o comando de Mano Menezes, com Neymar, Hulk, Kaká e Oscar mais adiantados, provavelmente teria jogado bem e vencido.
      Todo time precisa de um centroavante, o que não significa que tenha de ser, obrigatoriamente, alto, forte, estático e só para fazer gols. Messi não é um falso centroavante. É o centroavante do Barcelona, por jogar mais adiantado e pelo centro.
      Treinadores e jornalistas costumam também dar muita importância a detalhes, fatos que têm pouca ou nenhuma importância.
      A moda é dizer que o vestiário é sagrado, uma metáfora da união do grupo, e que há treinadores que dominam e outros que não dominam o vestiário. Quando o time vence, o técnico domina. Quando perde, o técnico não domina. Obviamente, é importante a preleção de um treinador antes de uma partida, que pode ser feita no hotel ou no vestiário.
      Outro lugar-comum é dizer que o futebol é simples. Um esporte que depende também do acaso e dos imprevistos não pode ser reduzido a frases feitas, a verdades e mentiras, que servem para um momento e não servem para outro.
      O futebol é muito complexo. Nós é que tentamos simplificá-lo ao querer explicar o inexplicável.

        sábado, 20 de julho de 2013

        Crise no Morumbi - Xico Sá

        folha de são paulo
        Amigo torcedor, amigo secador, o São Paulo Futebol Clube, o soberano, cujo pecado capital sempre foi a soberba, vive a pior crise do século. Nove jogos sem um triunfo, desentendimentos públicos, um presidente digno dos melhores momentos de "O Bem Amado" e um ídolo, incontestável pelo conjunto da obra, que vive o seu inevitável crepúsculo.
        Para completar o cenário trágico, o tricolor paulista assiste, de camarote VIP, à consolidação do Corinthians, o principal rival, como a casa que hoje possui todas as qualidades sempre muito caras e prezadas no Morumbi: modernidade administrativa, marketing agressivo, planejamento e um time que ganhou tudo, inclusive a Recopa justamente em cima da equipe do Rogério.
        Não que a situação inspire o sentimento da inveja, para continuarmos, em homenagem ao papa Francisco --grande torcedor do corvo San Lorenzo--, a brincar com os pecados capitais. Um são-paulino jamais invejaria um corintiano e vice-versa. Mesmo sabendo ser a inveja o mais escorregadio, guardado e misterioso item da tábua pecaminosa.
        Falta de gula em campo. Esta aí o que vemos no clube de Juvenal Juvêncio, um Vicente Matheus burguês que empresta ao outrora moderníssimo SPFC um jeitão Sucupira de ser. Sucupira, meus queridos sobrinhos, era a cidade nem tão fictícia assim de "O Bem Amado".
        Como não torço pelo São Paulo, confesso: Juvenal, assim como aquele slogan da rede Luiz Severiano de cinema, é a maior diversão. O corvo Edgar, minha agourenta ave futebolística, vibra quando o presidente tricolor aparece com suas tiradas.
        Crise no Morumbi. O corvo comete o pecado da luxúria: estoura uma champanhe. Calma, lazarento, seguro o bicho, afinal ele não representa a minha pessoa física.
        Orgulho ferido, Ceni, na rádio ESPN, disse estar 100% fisicamente. Rebatia o diretor de futebol Adalberto Baptista, tão maldoso quanto Edgar no poleiro. É difícil, principalmente para um grande ídolo, parar.
        Ao crepúsculo e com muito saldo histórico, o 1 do tricolor sapeca: o São Paulo parou no tempo. Nada mais sensato. Belo diagnóstico. Só não entendeu quem não quis. O time perdeu seu vanguardismo e paga de Carolina, aquela do Chico. O tempo passou na janela e só ela não viu.
        Crise na Juvenolândia. É a manchete. Na massa, no entanto, desculpe meu populismo, o tricolor se reconstrói. Um clube que nasceu de uma costela da elite paulistana e deve hoje sua força ao processo de proletarização da arquibancada.
        Por falar nisso, a torcida promete protesto no estádio. É a sintonia com as ruas. O agito pode mexer também com os jogadores.
        Particularmente torço para ver de novo o futebol do Ganso, o distinto e elegante craque que se perdeu mais ainda em meio a uma crise sem precedentes na frieza do Morumba.
        @xicosa
        Xico Sá
        Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

        domingo, 14 de julho de 2013

        Tostão

        folha de são paulo
        Estilo Galo Doido
        A dúvida é se, no Mineirão, o Atlético-MG vai jogar no estilo Galo Doido ou no estilo normal
        A emocionante classificação do Atlético-MG para a final da Taça Libertadores continua muito comemorada. Os desmaios e infartos nas arquibancadas, os pedidos de estátua para o ótimo goleiro Victor, o tratamento de heróis dado aos jogadores e a imagem de Cuca, de joelhos, antes de desabar no chão, soaram como se já fosse a conquista do título.
        Entre tantos motivos para o Atlético-MG chegar à final, o maior é o estilo Galo Doido, nome dado por alguém e incorporado pela torcida.
        Meses atrás, quando era grande o pessimismo com a seleção, já com Felipão, escrevi, com mistura de ironia e de crença, que a única solução para um time inferior ganhar a Copa seria criar um forte laço afetivo com a torcida e tentar jogar em um estilo mais passional, sul-americano, sufocando o adversário, como faz o Atlético, no Independência.
        Foi o que ocorreu na Copa das Confederações e que poderá ser repetido no Mundial. A seleção brasileira, no estilo Galo Doido, mistura de correria, raça e de técnica, com blitz desde o início do jogo, assustou e inibiu os adversários.
        A diferença é que o Atlético-MG usa mais o jogo aéreo.
        O problema dessa estratégia é que só funciona bem em momentos especiais e em casa. Não é um projeto sustentável para o futuro nem dura por muito tempo. E não dá para ser herói todos os dias. O Atlético é exceção, já que, no Independência não perde há mais de ano, desde a reinauguração. São 38 jogos.
        A base científica do estilo Galo Doido é pressionar quem está com a bola em todo o campo. Começou com a Holanda, em 1974, foi abandonada como rotina, a não ser em algumas equipes, como o Milan, na década de 1980, dirigido por Arrigo Sacchi, e nos melhores momentos do Barcelona, com Guardiola.
        Nos últimos dez anos, muitos times europeus tentam jogar assim, pelo menos parte do jogo. Só recentemente, começou a ser feito no Brasil, mas sem a loucura do Galo.
        Os volantes brucutus, pesados e que atuavam muito atrás, protegendo os zagueiros, estão sendo substituídos pelos volantes mais leves e rápidos, que correm atrás, até tomar a bola, como Josué e Pierre.
        Fora do Independência, o Galo é outro time, joga outro futebol, mais contido, normal. As pessoas excessivamente normais tornam-se também problemas e são chamadas, pela psicologia, de normopatas.
        Muitos times também são assim, não passam dos limites, nunca transgridem. A dúvida é se, na final, no Mineirão, o Atlético-MG, mesmo com uma torcida maior, vai atuar no estilo Galo Doido ou no estilo normal, tradicional.
        Existe uma música e/ou um saber popular de que todas as pessoas têm um direito a um momento de loucura na vida. Os times também.
        O Galo experimentou e gostou tanto, que assumiu a loucura, mas só no Horto.
        "Caiu lá, tá morto."

          sábado, 13 de julho de 2013

          Xico Sá

          folha de são paulo
          Descamisados, uni-vos
          O consórcio que administra o Maraca protagonizou o espetáculo de idiotice da semana
          Amigo torcedor, amigo secador, a onda de protestos nas ruas consegue efeitos políticos sobre qualquer assunto, menos sobre o nosso tradicionalíssimo Febeapá, sigla para o Festival de Besteiras que Assola o País, criação do cronista Stanislaw Ponte Preta que vigora desde o golpe militar de 1964.
          O espetáculo de idiotice da semana ficou por conta dos senhores do consórcio que administra o estádio Mário Filho, o Maracanã.
          Propõem os finos cavalheiros que, doravante, mesmo no mais histórico dos Fla-Flus, os frequentadores de tal praça esportiva estão proibidos de tirar a camisa, levar bandeiras ou instrumentos musicais.
          O som das charangas, mais importante para o ritmo do jogo do que o esquema tático dos treinadores, emudecerá de uma vez por todas.
          E revoguem-se as tradições culturais de uma cidade, de um Estado, de um país.
          É, meu caro Stanislaw, tu hoje terias uma fartura sem fim para a tua coluna. Nunca foi tão fácil. Ô sorte, como diz nosso chapa Wilson das Neves, o bamba, dono de um dos melhores shows e discos na praça.
          Imagina, amigo da geral, em um domingão de sol no Rio de Janeiro, a cidade lindamente toda nua, do Leme ao Pontal as meninas de bundinha de fora, como na canção da Marina, e lá no Maraca o fraque e a cartola.
          Imagina, nobilíssimo Mautner, você que gosta de ficar na praia deitado, com a cabeça no travesseiro de areia, olhando coxas gostosas por todo lado, das mais lindas garotas, também das mais feias?
          Imagina, amigo Otto, o que o pessoal aí do Vidigal anda falando sobre esses caras do consórcio.
          Ô, seu Eike Batista, você que faz parte dessa turma que agora manda no Maraca, se liga, não basta perder milhões, tem que perder essa mania jeca de imitar o padrão Fifa, o padrão Velho Mundo falido. O Rio elegante é o Rio descamisado. O Rio não fica bonito tentando ser chique, artificial e maquiado.
          A cidade de São Sebastião é como a Marina de Dorival Caymmi, aquela que não pinta o seu rosto que eu gosto e que é só seu.
          Não faz piada, gente do consórcio, gente proba, gente limpeza da Odebrecht, AEG e IMX. O Febeapá não carece de vocês nessa hora. No Rio, mesmo no inverno, até o Papa Francisco, torcedor de arquibancada do San Lorenzo --o time do corvo-- tem vontade de tirar a camisa.
          O Maraca, por essência histórica, ajudou até os gregos chegarem a uma boa definição de democracia: do povo, para o povo e pelo povo.
          Não pode agora o carioca e a gente do Ceará e do mundo inteiro que habita essa cidade cair no conto do consórcio. Já é tão caro, tão restrito, por que ficar tão desencarnado do espírito da cidade?
          É, caro Stanislaw, mais que besteira, acho que já estamos adentrando o bananoso terreno da burrice.
          A arte de jogar fora o que temos de melhor no solo pátrio. Ah, gente do consórcio, vai ver se eu tô na esquina, vai ver se eu tô com a tanga do Gabeira no Posto 9!
          @xicosa

            terça-feira, 9 de julho de 2013

            Entrevista Aldo Rebelo [Ministro do Esporte]

            folha de são paulo
            Penso mais no dia a dia dos campeonatos brasileiros
            Ministro do esporte defende mudança no horário dos jogos e diz que sistema atual pode afastar público dos estádios
            FILIPE COUTINHODE BRASÍLIAO ministro Aldo Rebelo (Esporte) quer discutir um novo horário para a realização das partidas de futebol à noite durante a semana, um dos pontos nevrálgicos da programação da TV Globo e que gera pagamentos milionários aos clubes em troca do direito de transmissão.
            Em entrevista exclusiva à Folha, Aldo Rebelo diz que os jogos às 22h durante a semana são um "problema" e que é "evidente" que o mercado está prevalecendo em relação ao interesse público.
            Sem citar a Globo, o ministro diz que já iniciou as tratativas com os clubes e com os "detentores dos direitos de transmissão" e, até agora, a ideia de mudar o horário não sofreu resistência. Para Rebelo, a Copa das Confederações foi um "sucesso" e mereceu nota 9 (a Fifa deu nota 8).
            Folha - Como é hoje a relação do governo com José Maria Marin, presidente da CBF?
            Aldo Rebelo - São relações normais, institucionais. Temos uma responsabilidade comum de organizar a Copa.
            Por que a presidente Dilma nunca teve uma audiência com Marin?
            A presidente já esteve em várias ocasiões públicas com o presidente da CBF. Eu nunca recebi um pedido oficial de audiência com a presidente Dilma. Portanto não há como se dizer que ela tenha se negado a receber o presidente Marin, isso não é verdade.
            Por que a seleção não foi a Brasília encontrar a presidente?
            Não havia como viabilizar uma viagem de última hora. Todos tinham compromisso imediatamente após o jogo e não estava prevista essa vinda. A seleção pode vir a qualquer hora. Seria até injusto achar que houve da parte da CBF qualquer tentativa de impedir a seleção de vir.
            A Fifa só quer lucrar com a Copa no Brasil?
            A Fifa é sem fins lucrativos, mas convive com patrocinadores com fins lucrativos. A Fifa tem virtudes, transformou o futebol num esporte universal. O futebol traz a projeção daquilo que a sociedade considera o ideal, onde as regras são simples, valem para todos e os méritos e as virtudes valem para todos.
            O mercado e o lucro podem representar um risco de transformar nossos ídolos numa parte de uma engrenagem. Corremos o risco de transformar [o futebol] em uma mercadoria que pode afastar o povo dos estádios.
            Na Copa, é difícil porque é, de fato, um espetáculo para um universo pequeno dentro do universo interessado. Mas penso mais é na coisa permanente, no dia a dia dos campeonatos brasileiros. Como é que você tira um torcedor do estádio, principalmente os mais pobres?
            O jogo às 22h não é um problema?
            Evidente que é.
            E não há nada que o governo possa fazer sobre isso?
            Não digo nada, porque o governo pode tentar sempre. Se não por imposição legal, o governo pode ter uma capacidade de mediação e deve ter. É preciso equilibrar entre o que o mercado dá e o que mercado tira. Remunerar melhor e melhorar a capacidade dos estádios é uma coisa boa, mas não se pode transformar isso simplesmente numa mercadoria porque isso pode tirar do futebol o seu encanto.
            Quando se faz um jogo às 13h em Salvador ou na quarta-feira às 22h, é o mercado prevalecendo?
            Evidente. Não é uma coisa pública, talvez seja melhor o interesse público. Perguntaram por que fazer a final da Copa das Confederações à noite, quando o mais lógico seria no domingo à tarde. Imagino que tenha sido o mercado também. Esse é um dos problemas [jogo às 22h], naturalmente.
            Do ponto de vista do governo, como o horário pode ser discutido?
            Isso é uma negociação entre clubes e detentores dos direitos de transmissão. Então é preciso abordar esses interessados. Tem que ser resolvido levando em conta o interesse público do torcedor, do organizador e dos clubes. Eles têm que se manifestar. Já abordei essa questão com parte dos interessados e não vi nenhuma resistência em conversar.
            Como o governo avalia a Copa das Confederações?
            Foi um sucesso. Não foi 100% de superação, mas resolvemos. Foi nota 9. Faltou a entrega [dos estádios] dentro do tempo [dezembro de 2012]. Não pudemos fazer todos os testes e isso indicou problemas que teriam sido antecipados. Precisamos para a Copa ter mais rigor nos prazos e nos testes, mas os estádios de alta qualidade foram entregues.
            São os estádios mais caros do mundo também, não?
            Não é assim. O preço, quando você calcula a partir do preço do assento, está na média da África do Sul. Nossos custos são mais caros, o Brasil hoje é um país muito caro em tudo, em impostos.
            Uma das principais reclamações dos protestos era sobre a Copa...
            Os manifestantes se preocuparam com saúde, educação, transporte e segurança. Cobram que a qualidade e o padrão dos serviços tenham paralelo com o padrão dos estádios. Isso não significa contestação à Copa. O próprio Datafolha, depois das manifestações, revelou que 65% da população continuam a favor da Copa no Brasil.
            Como o senhor vê a vaia à presidente Dilma?
            Nelson Rodrigues advertiu, dando o exemplo do Maracanã, que vaiava até minuto de silêncio. É uma tradição no Brasil. Não é nada pessoal.
            O senhor pretende deixar o ministério?
            Pretendo, mas não sei quando nem para qual cargo. Se eu sair, uma data limite é dezembro, porque já tem a entrega dos estádios, e aí se fecha um ciclo.

              segunda-feira, 8 de julho de 2013

              A Vida sem Neymar - PVC

              folha de são paulo
              PRANCHETA DO PVC
              O Santos sabe que só tem um caminho: revelar. Muito melhor do que contratar jogadores medianos
              PAULO VINÍCIUS COELHO
              A segunda vitória do Santos depois da despedida de Neymar aconteceu graças à mesma política de revelações que fez surgir na Vila Belmiro o maior talento brasileiro dos últimos anos. Ontem, o time campeão da Copa São Paulo, em janeiro, estava no Morumbi. O mesmo técnico, Claudinei Oliveira, e quatro destaques daquela campanha --Neílton, Leandrinho, Giva e Pedro Castro.
              O firme zagueiro Gustavo Henrique completou a lista dos representantes das divisões de base. Antes do clássico, o presidente em exercício, Odílio Rodrigues, fez questão de tratar Claudinei Oliveira como "técnico do Santos." A médio prazo, a ideia pode mudar. Mas a atuação no Morumbi dá crédito a quem apostar na nova geração de meninos.
              Claudinei escalou Leandrinho para fechar o lado direito e deixou Neílton atacar pela esquerda (veja ilustração). No segundo tempo, apostou em Giva como centroavante, substituto de Willian José. Em seu primeiro toque na bola, o primeiro gol santista.
              Como o presidente Luis Alvaro de Oliveira Ribeiro escreveu ontem na Folha, revelar e manter jogadores deu mais receita ao Santos do que a política exportadora de outros tempos.
              O contraste com a falta de rumo do São Paulo se evidencia justamente nesse quesito.
              Há quatro anos, uma das razões da troca de Muricy Ramalho por Ricardo Gomes era tentar melhorar a transição das divisões de base de Cotia para o CT dos profissionais.
              Razão semelhante produziu a demissão de Muricy do Santos há um mês. O Santos sabe que só tem um caminho: revelar. Muito melhor do que contratar os jogadores medianos disponíveis no mercado que agradam a Muricy.
              Às vezes, melhor até do que contratar craques consagrados, como Ganso. Ontem, Milton Cruz deslocou Ganso para a esquerda, por entender Jadson como seu armador mais produtivo.
              O maior problema do São Paulo não parece ser a falta de talento, mas a ausência de alguém capaz de comprometer os jogadores e fazê-los se comportarem como um time.
              Nos últimos quatro anos, Cotia forjou o melhor jogador do Tricolor --Lucas. Mas o baixo aproveitamento da base não ajudou a produzir um time vencedor.
              Isso coloca Juvenal Juvêncio numa encruzilhada.
              Contratar Muricy é voltar no tempo, de certa forma admitir o fracasso da operação Cotia, neste momento. Não o contratar é comprar briga com a arquibancada.
              Ver nascer uma nova geração de garotos santistas justamente no clássico é perceber que o rival foi mais feliz na política que Cotia deveria representar.
              Claro, é precoce dizer que os novos meninos da Vila representarão sucesso. Mas é justa a lembrança de que esse caminho levou o Santos a seus períodos mais vitoriosos, de Pelé a Neymar.
              À CHILENA
              Valdivia teve ótima atuação contra o Oeste, no sábado. Não a ponto de ser eleito o melhor do jogo, porque Leandro fez dois gols e deu uma assistência. Mas o chileno foi capaz de, de novo, dar esperança. Se tiver sequência de partidas e sangue nas veias, Valdivia será importante para o Palmeiras.
              COMPETITIVIDADE
              A palavra de ordem do Corinthians hoje não é equilíbrio. Tite prefere usar a expressão competitividade. Foi o que o Pato mostrou na Fonte Nova, para ser o melhor em campo. Se for competitivo, quiser ser melhor do que os outros, o atacante pode ser titular do time e, quem sabe, até da seleção.

              domingo, 7 de julho de 2013

              Tostão

              folha de são paulo
              Viagem pelo futebol
              A seleção, pela maneira de jogar na Copa das Confederações, pode ser referência para os clubes
              Repito, estou sempre me repetindo, pois, para falar de algo novo, recorro, com frequência, às origens. No período entre 1974 e 1994, houve uma grande queda de qualidade no futebol, no Brasil e em todo o mundo.
              Uma razão foi, paradoxalmente, o avanço técnico, tático e científico da seleção de 1970. A partir daí, todos os grandes clubes brasileiros formaram comissões técnicas, com vários especialistas e com ótimas estruturas profissionais. Isso foi importante para a evolução do futebol. Esporte é também ciência.
              Mas, durante esse período, entre 1974 e 1994, houve, progressivamente, uma supervalorização dos técnicos e do jogo físico, tático, defensivo e uma desvalorização do jogo criativo e da improvisação. Os treinadores e os brucutus tomaram conta do futebol. O jogo ficou feio, chato e com poucos gols.
              Aí, a partir da Copa de 1994, a vitória passou a valer três pontos. Por esse e por outros motivos, o futebol melhorou, especialmente nos últimos dez, 15 anos.
              O Brasil, apenas nos últimos anos, começou a acompanhar essa evolução. O Corinthians se tornou referência na maneira de jogar. A seleção da Copa das Confederações poderá ser outro exemplo. Essas equipes seguiram o modelo mundial, de pressionar quem está com a bola, de diminuir os espaços entre os setores, de trocar mais passes, de marcar e atacar com vários jogadores. Felipão mostrou que não é apenas um motivador. Está também atualizado.
              O que era raro, anos atrás, agora, escuto, com frequência, treinadores e jornalistas esportivos falarem de marcação por pressão, de poucos espaços entre os setores, de volantes que têm bom passe, de posse de bola, de mais troca de passes, de meias que atacam e voltam para marcar o lateral, como fizeram Hulk e Oscar. Ouço falarem menos de três zagueiros, marcação individual, alas, jogadas aéreas, volantes de contenção.
              Volto ao período entre 1974 e 1994. Trabalhava e estudava muito. Por falta de tempo e pelo desejo de ser um cidadão comum, afastei--me do futebol. Por isso, tive depois, como comentarista, dificuldade de compreender algumas coisas que aconteceram nesta época.
              Procurei me informar, ver filmes, ler livros e aprender com jornalistas que entendiam do assunto. Mesmo assim, conheço hoje melhor os times, seleções e jogadores de antes de 1974 e de depois de 1994 do que os entre esses anos.
              Após essa viagem pelo futebol, volto ao presente e a Neymar.
              A cada dia, tenho mais convicção (não é certeza) de que ele estará, brevemente, entre os maiores jogadores da história do futebol mundial. Não estou surpreso. Quando o vi jogar, pela primeira vez, no Santos, escrevi que estava tão maravilhado quanto na época em que assisti aos primeiros jogos de alguns dos maiores jogadores da história.

                sábado, 6 de julho de 2013

                Xico Sá

                folha de são paulo

                O país da rasteira 2

                Amigo torcedor, amigo secador, estou aqui em Paraty, cidade da Flip, que este ano homenageia o maior escritor brasileiro de todos os tempos, o nosso russo das Alagoas de nome Graciliano Ramos, o cabra seco do Nordeste, couro e osso, o bode do capim minguante, donde lembro do palpite infeliz desse mesmo gênio, mais de resmungo do que de fala, sobre o futebol, ora veja.
                O velho Graça, repito, o maioral, o maior escritor brasileiro messssmo, dizia que tal esporte não vingaria por estas plagas.
                O alagoano odiava o futiba.
                Dizia o autor de "Vidas Secas" que o autêntico esporte nacional era a rasteira, não o ludopédio.
                Isso tudo em 1921, quando o futebol, invenção dos gringos, começava a germinar em nossas várzeas. Nossas várzeas têm mais flores.
                E não é que tinha razão o peste. Razão não sobre a bola, razão porém sobre a rasteira.
                Vencemos no 11 contra 11, somos bons nessa desgraça, os pobres espanhóis que o digam, coitados, ó dolor, sinto muito, mas a rasteira continua imperando como a nossa mais nobre prática democrática.
                É só nego passando a perna no outro. A rasteira do presidente da Câmara e do ministro que pegam um avião da FAB para fazerem bonito lá, com licença família brasileira, na casa do caralho.
                Perdão mesmo, mas indignação não tem glossário nem código do bom tom, amigo, sorry você aí de Moema que tem educação inglesa.
                Quando falava da rasteira, o velho Graça se referia a passar a perna no outro, a mais genuína das nossas modalidades, uma brincadeira originada da capoeira, pelo que me lembro. A rasteira nunca esteve tão em alta. Repeteco.
                Como pode, por exemplo, o cabra safado, em pleno fervor das ruas, amigo, levar a família de jatinho da FAB ao Maraca?
                Desculpa, Graciliano, pelos palavrões, acontece. Mas te pergunto, velho Graça, como esse homem pode ficar no cargo mais um dia que seja? Nem meio dia, você não acha?
                Como pensa que o verbo é apenas ressarcir quando a sentença é simplesmente pedir o boné e ter vergonha na cara.
                Eis a velha política da República gagá. Desde 1900 e antigamente.
                Pegar um jatinho oficial pra ver Brasil x Espanha, aí sim, não passa do patriotismo como o primeiro e mais imediato refúgio do canalha.
                Xico Sá
                Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

                domingo, 30 de junho de 2013

                Tostão

                folha de são paulo

                Não é final do Mundial

                Se perder, a Espanha, pelo que joga e jogou durante os últimos anos, continuará superior ao Brasil. Não se mudam os conceitos por causa de um jogo. O Brasil, mesmo se for derrotado, já mostrou que, em casa, é forte candidato ao título mundial.
                Em uma decisão, é impossível prever o comportamento emocional dos jogadores. A maioria fica mais tensa. A ansiedade, até certos limites, é benéfica. O corpo aumenta a produção de algumas substâncias químicas, e o jogador fica mais atento, esperto e com mais força física. É o doping fisiológico.
                Se a ansiedade for muito intensa, o atleta fica mais agressivo, tem mais pressa de chegar ao gol, a bola bate na canela, além de perder a capacidade de antever o lance e de perceber, em uma fração de segundos, a movimentação dos companheiros e adversários. Quem joga em casa corre um pouco mais de risco de ficar mais tenso.
                O Brasil tem boas chances de vencer porque possui ótimos zagueiros, especialmente Thiago Silva, e a Espanha não tem um grande atacante.
                Os excepcionais armadores espanhóis não se destacam também pelas finalizações, além de entrarem pouco na área, com exceção de Fàbregas, que talvez não jogue. Dificilmente, o time espanhol fará mais de um gol.
                O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha marca mais à frente e, se o time brasileiro desarmar, com frequência, no meio-campo, os velozes Neymar, Oscar e Hulk terão mais espaços nos contra-ataques. A Itália fez isso bem, contra a Espanha, e criou várias chances de gols.
                O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha não tem meias, pelos lados, que protegem os laterais. Daniel Alves e Marcelo terão espaço para avançar e fazer duplas, pelas laterais, com Hulk, Oscar e Neymar.
                O Brasil tem boas chances de vencer porque a Espanha está muito desgastada, pelo calor, pelo jogo na quinta-feira e pela prorrogação.
                O Brasil tem usado bem a vantagem de atuar em casa, está com mais gana e se preparou para a competição, com muita seriedade, pela responsabilidade diante da torcida e porque quer recuperar o prestígio.
                A Espanha possui também muitas chances de vencer porque é melhor, mais experiente, sofre poucos gols, tem ótimos zagueiros e goleiro, excepcionais armadores, um lateral, Jordi Alba, que avança muito bem.
                A Espanha costuma comandar a partida, ficar com a bola, paralisar o adversário, até alguém penetrar para receber e fazer o gol. Felipão, para tentar equilibrar o meio-campo, tem a opção de escalar Hernanes, no lugar de Hulk ou de Oscar.
                É um jogo muito esperado, uma decisão, mas não é final de Copa do Mundo nem motivo para comemorações nas ruas, no Brasil e na Espanha.
                Tostão
                Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".

                sábado, 29 de junho de 2013

                Xico Sá

                folha de são paulo

                É o pio do povo, doutor



                Amigo torcedor, amigo secador, peço a devida licença para me dirigir novamente ao doutor Sócrates, em mais uma carta deste epistolar cronista, afinal de contas é impossível não lembrar do cara da "Democracia Corinthiana" em uma hora tão rica, quando o futebol e as ruas se encontram para desaguar na "pororoca social" ou, melhor ainda, para rebobinar a fita do "Terra em Transe", o filme de Glauber.
                É, Magrão, como me disseste lá na Pompeia, no bar do Expedito, esse negócio de futebol como ópio do povo não cola. O papa-capim do mineiro, na gaiola como testemunha, que o diga. É o que vimos agora na Copa das Confederações, meu velho. Em vez de ópio, o pio. E não me xingues pelo trocadilho infame. É de grife. É do Millôr. Nem é do nosso Mazinho, o campeão no gênero.
                Em vez de anestesiante, doutor, o futiba que deu as cartas e a visibilidade aos protestos. Nego cercou as arenas como pôde. Sempre a rogar por "padrão Fifa" para uma vida inteira e cotidiana, não só no esporte das massas. Até mesmo a classe que pagou ingressos caríssimos não se calou nessa hora. A cartilha suíça foi para as cucuias, em Fortaleza ou em Caucaia. Desobediência do hino à placa dos acréscimos.
                Os Dorivais enfrentaram a guarda, como no filme dos gaúchos Jorge Furtado e José Pedro Goulart. Um Dorival cearense, Magrão, conterrâneo do teu pai, seu Raimundo, desafiou a tropa e foi parar até na capa do "New York Times". Cito o jornalão americano só para lembrar quando bradávamos em uníssono, na Mercearia São Pedro: "Grande merda".
                É, doutor, deu o óbvio: Brasil pega a Espanha na final de domingo. A derradeira vez que vencemos em Copa foi com um gol teu, lembras? Pelo que sei, não recordas, nunca fizeste questão de memória. Em matéria de vaidade, querias o teu em grandes conversas na távola redonda dos nossos bares prediletos ""com moças bonitas de preferência.
                Falar nisso, estive outra noite, com teu filho Gustavo, teu irmão Raimar & família. Foi um chororô bonito, pra cima, aquele choro de quem ouve a longa estrada da vida, do tempo em que o sertanejo era "mobral" e bonito. Raimar estava impossível, depois te conto, amigo.
                E sabe quem apareceu? Acertou de primeira: Paulo César Caju, esse gênio de bola e cuca. Foi lá mesmo. No bar do Chico e da Alaíde. Outro que vi recentemente, em um papo sobre o teu livro de crônicas foi o prezado Afonsinho, o craque botafoguense que inventou o passe livre.
                É, doutor, aqui na terra vão jogando futibô, muito samba, muito choro e rock'n'roll... A coisa aqui tá linda, digo em matéria de inconformismo e confusão propriamente dita, a história se bolindo em nossa frente, momento rico que não cabe em uma crônica e muito menos em minhas lágrimas sempre renovadas, viver é cachoeira, até a próxima.
                @xicosa
                Xico Sá
                Xico Sá, jornalista e escritor, com humor e prosa, faz a coluna para quem "torce". É autor de "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea" e "Chabadabadá - Aventuras e Desventuras do Macho Perdido e da Fêmea que se Acha", entre outros livros. Na Folha, foi repórter especial. Na TV, participa dos programas "Cartão Verde" (Cultura) e "Saia Justa" (GNT). Mantém blog e escreve às sextas, a cada quatro semanas, na versão impressa de "Esporte".

                quinta-feira, 27 de junho de 2013

                Tostão na Copa

                folha de são paulo
                Pinta de campeão
                O Brasil não jogou bem. Não sei por que não repetiu a marcação por pressão das outras partidas. O time foi mais cadenciado. Essa não é uma qualidade da equipe.
                Não houve a blitz no início do primeiro tempo, que inflama os torcedores e inibe o adversário. Dois dos três atacantes uruguaios voltavam para marcar, pelos lados, o que dificultou ao time brasileiro.
                No segundo tempo, o Uruguai marcou mais atrás. Por isso, o Brasil pressionou, e os uruguaios tiveram mais espaços para os contra-ataques.
                Se o Uruguai tivesse convertido o pênalti --Júlio César se adiantou--, o Brasil teria ficado, pela primeira vez na competição, em desvantagem. Seria mais difícil, ainda mais contra os bravos uruguaios.
                No primeiro gol, Paulinho deu belo passe, Neymar dominou no peito com enorme técnica, antes de finalizar, e Fred fez o gol. No segundo, Paulinho mostrou uma de suas qualidades, o cabeceio.
                No gol do Uruguai, Thiago Silva errou o passe, dentro da área. Acontece. Felipão, bravo, gritou: "Dá de bico". Espero que Thiago Silva continue saindo com a bola, dando bons passes. Isso e outras qualidades o diferenciam de outros zagueiros.
                Os melhores da seleção brasileira foram Paulinho, pelo gol e pelo passe, Júlio César, pela bela defesa no pênalti, Neymar, pela participação nos dois gols, apesar de não ter jogado bem, como antes, e Fred, por mais um gol.
                Desta vez, os dois ótimos zagueiros tiveram falhas importantes, David Luiz, no pênalti, e Thiago Silva, no passe errado. O Brasil está com pinta de campeão.
                CLÁSSICO EUROPEU
                A Espanha é favorita, mas não será uma zebra se a Itália vencer. A Espanha domina as partidas, mas faz poucos gols. Não há um atacante excepcional, e o time não gosta de perder o domínio da bola e do jogo, se não tiver uma boa chance de marcar. A Espanha raramente faz gol feio. É virtude e defeito.
                Nas conquistas das duas últimas Eurocopas e da Copa do Mundo, o meio-campo era formado por dois volantes (Busquets e Xabi Alonso), além de Xavi e Iniesta. Com a ausência de Xabi Alonso, contundido, o time tem jogado com apenas um volante mais marcador, Busquets, e mais Xavi, Iniesta e Fàbregas. É o meio-campo do Barcelona.
                A Espanha, por ter tantos craques no meio-campo, uma ótima defesa, melhor que a do Barcelona, e dar poucas chances ao adversário, por ficar com a bola na maior parte do jogo, ganhou títulos importantes, mesmo sem ter um grande atacante.
                A Itália não terá Balotelli, seu único bom atacante. E talvez não tenha Pirlo, que, junto com Xabi Alonso, são os volantes que têm o melhor passe longo.

                  terça-feira, 25 de junho de 2013

                  Futebol é vendaval - Tostão

                  folha de são paulo

                  Futebol é vendaval



                  Na coluna anterior, falei sobre minhas preferências entre narradores e comentaristas da TV. Escrevi como telespectador. Faltou apenas dizer que Tino Marcos, da TV Globo, é o mestre dos repórteres da televisão.
                  Depois das boas atuações e da vitória sobre a Itália, existe um sentimento generalizado, talvez um saber inconsciente, intuitivo, que se mistura com uma prepotente euforia, de que o Brasil vai ganhar a Copa das Confederações e a Copa do Mundo.
                  Se vencer a atual competição, mesmo jogando melhor que a Espanha, na final, não significa que já temos uma grande equipe. Significa que temos um bom time, que Felipão, mesmo com algumas ideias ultrapassadas, executa bem o que deseja, o que é uma grande qualidade, e que o Brasil tem chances de ganhar a Copa do Mundo, no ano que vem.
                  Antes da partida contra a Itália, Fred era muito criticado, pela falta de gols e por jogar parado. Muitos pediam a entrada de Jô. Bastou Fred marcar dois gols e se movimentar mais para ser exaltado, como se fosse excepcional. Fred é o melhor centroavante do Brasil, bom jogador e artilheiro. Quase todos os centroavantes fazem muitos gols, até Fernando Torres.
                  Antes da Copa das Confederações, escrevi que, se o Brasil aproveitasse bem a vantagem de jogar em casa e conquistasse o torcedor, o que tem ocorrido, ficaria atrás apenas de Espanha, Alemanha e Argentina, como favoritos para ganhar a Copa do Mundo.
                  Se o time mantiver boas atuações nos dois próximos jogos, sobe um degrau e fica na frente dos argentinos.
                  O México, em casa, uma seleção mediana, já ganhou uma Copa das Confederações, vencendo o Brasil na decisão. A África do Sul, sob o comando de Carlos Alberto Parreira, foi a única seleção anfitriã que não se classificou na primeira fase de uma Copa do Mundo.
                  Até a fraquíssima Coreia do Sul, beneficiada por árbitros caseiros, foi quarta colocada no Mundial de 2002. Os árbitros, na dúvida, consciente ou inconscientemente, favorecem os times da casa e/ou os mais fortes. Isso ocorre em todo o mundo e em todos os tipos de competição.
                  As arbitragens a favor da Coreia do Sul, contra Espanha e Itália, foram mais que caseiras, foram vergonhosas.
                  Na última Copa das Confederações, a Espanha foi eliminada pelos Estados Unidos e ganhou o Mundial-2010.
                  O Brasil venceu as duas últimas competições e foi mal nessa Copa. Temos de ficar alegres, se o Brasil vencer, mas sem oba-oba.
                  No futebol, uma mesma equipe costuma ir muito bem em uma competição e muito mal na seguinte. Há muitos fatores envolvidos no resultado. Futebol é vendaval, uma metáfora da fragilidade e da finitude humana.
                  Tostão
                  Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".

                  domingo, 23 de junho de 2013

                  Tostão

                  folha de são paulo

                  A chave é pressionar


                  O Brasil mostrou, novamente, sua melhor qualidade coletiva, a marcação por pressão, que cria mais chances de gol, por tomar a bola no campo do rival, quando a defesa está desprotegida, e que dificulta o outro time a se organizar, trocar passes e chegar ao gol.
                  Se a Copa fosse fora do país, o Brasil, mesmo se quisesse, não conseguiria fazer tão bem essa marcação. Felipão sabe disso e tem aproveitado muito essa situação. Se outras equipes, até as medianas, como México e Uruguai, inferiores ao Brasil, atuassem em casa, fariam o mesmo e teriam mais chances.
                  A deficiência coletiva continua a mesma. Os dois volantes não se misturam com os três meias. Como a equipe toma muito a bola no campo do adversário, os meias e atacantes não precisam da passagem da bola, desde o campo de defesa.
                  Quando o Brasil faz um gol e deixa de pressionar --não dá também para fazer isso durante toda a partida--, permite a pressão do adversário, como fez a Itália, em vários momentos, não sabe cadenciar o jogo e ficar com a bola.
                  A Itália, que estava sem os dois grandes jogadores de meio-campo, Pirlo e De Rossi, ficou, logo no início, sem seu terceiro bom armador, Montolivo. Isso prejudicou muito o time italiano.
                  A arbitragem errou em vários gols. No primeiro, de Dante, havia impedimento. No segundo, não houve falta em Neymar. No gol da Itália, o árbitro marcou pênalti e o jogador italiano fez o gol.
                  Se o árbitro tivesse marcado o pênalti, o que seria o correto, Luiz Gustavo, que já tinha cartão amarelo, teria de ser expulso, o que provavelmente seria muito pior para o Brasil.
                  Sofreria um gol e ficaria com um jogador a menos.
                  O Brasil jogou melhor do que a Itália, mas os erros do árbitro foram decisivos para a vitória. Fred, além dos gols, se movimentou muito mais que nos jogos anteriores
                  O time continua bem, definido na maneira de jogar, organizado, mesmo com algumas deficiências, e com uma enorme vontade de ganhar a Copa das Confederações
                  FORÇA DO INCONSCIENTE
                  Se não houver uma grandíssima surpresa, o Brasil vai enfrentar o Uruguai, e a Itália, a Espanha.
                  Poucas seleções têm três bons jogadores na frente, como Suárez, Cavani e Forlán. Em compensação, o Uruguai tem graves deficiências.
                  Após as vitórias sobre Venezuela, nas eliminatórias, e Nigéria, na Copa das Confederações, o Uruguai pode crescer. Há um temor e um respeito pela raça uruguaia. A imagem de Obdulio Varela, símbolo da raça, campeão do mundo em 1950, no Maracanazo, ainda brilha no inconsciente de todo os jogadores uruguaios.
                  Tostão
                  Tostão, médico e ex-jogador, é um dos heróis da conquista da Copa do Mundo de 1970. Afastou-se dos campos devido ao agravamento de um problema de descolamento da retina. Como comentarista esportivo, colaborou com a TV Bandeirantes e com a ESPN Brasil. Escreve às quartas e domingos na versão impressa de "Esporte".