sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Diretor brasileiro premiado em Sundance já foi bilheteiro e agente penitenciário

FOLHA DE SÃO PAULO
Reprodução/Facebook
O cineasta brasileiro Aly Muritiba

o cineasta brasileiro Aly Muritiba


DE SÃO PAULOAly Muritiba trabalhava de bilheteiro em uma estação de trem em São Paulo quando uma equipe de filmagem chegou ao local para rodar uma cena. Eles precisavam de um extra para "interpretar"... um bilheteiro. Muritiba ganhou o papel e R$ 500.
Apesar de a ponta não ter entrado no corte final do longa "De Passagem" (2003), de Ricardo Elias, o baiano da pequena Mairi nunca esqueceu dessa experiência cinematográfica ao 18 anos.
Nem mesmo quando começou fazer faculdade de História. E nem quando se mudou para Curitiba, onde trabalhou como agente penitenciário e mora até hoje.
Aos 33, depois de cursar cinema no Paraná (e não se formar), Muritiba virou diretor do curta "A Fábrica", que fez parte da lista preliminar dos indicados ao Oscar 2013.
Não entrou na lista final da Academia. Mas o ex-bilheteiro não se importou.
"Eu tenho tido tanto trabalho que não dá tempo pra esse negócio de decepção. Decepção é meu Flamengo", brinca o novo cineasta.
Muritiba não tem do que reclamar. Na terça-feira passada, o ex-bilheteiro ganhou o Global Filmmaking, no Festival de Sundance (EUA), criado por Robert Redford.
O prêmio lhe renderá US$ 10 mil (R$ 20 mil) -além de um ano de cursos e tutela do festival- para completar o roteiro de seu primeiro longa, "O Homem que Matou a Minha Amada Morta", um drama de vingança que começa a ser filmado em outubro.
"É um grande passo ter meu trabalho reconhecido antes mesmo de ser filmado. Sundance é o templo do cinema de invenção, que não segue fórmulas e ousa", exalta o diretor e roteirista.
Aly Muritiba agora faz parte uma nova geração de cineastas brasileiros com referências múltiplas.
Cita Michael Haneke ("Amor") e os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, de "O Garoto de Bicicleta" (2011), como influência e admira a "coragem de Cláudio Assis", cineasta de "A Febre do Rato".
"Estamos com uma produção instigante, feita por uma galera jovem", diz Muritiba, já emplacando um discurso de diretor experiente: "Temos os filmes 'soap opera' oferecidos pela Globo, mas eles são necessários".

    Debate sobre filmes no exterior aquece Mostra de Tiradentes

    FOLHA DE SÃO PAULO

    Internacionalização de produções brasileiras é cada vez maior, mas temática pouco universal dificulta inserção
    Críticos e curadores de festivais estrangeiros participam da 16ª edição do festival na cidade mineira
    MATHEUS MAGENTAENVIADO ESPECIAL A TIRADENTES (MG)"Parem de fazer filmes para si próprios e comecem a pensar no público." A declaração de Raymond Walravens, diretor e olheiro de dois festivais na Holanda, esquentou um debate na 16ª Mostra de Tiradentes sobre a internacionalização do cinema brasileiro.
    Nos últimos dez anos, o número de títulos brasileiros em festivais estrangeiros como o de Cannes e o de Berlim teve um crescente aumento, apesar de gargalos apontados por olheiros estrangeiros durante o debate na última terça.
    "O filme 'O Som ao Redor', de Kleber Mendonça Filho, ultrapassa essa brasilidade. Numa sessão no exterior, percebi que o mal-estar de que o filme trata é universal", afirmou Sandro Fiorin, produtor e distribuidor de filmes latino-americanos no exterior.
    Para o crítico e cineasta
    Jean-Claude Bernardet, é um reducionismo criticar a produção nacional como se ela fosse uniforme.
    "Há bons filmes comerciais e de autor. O problema reside na produção intermediária, que se afasta do público porque já se pagou em editais e resulta em filmes insossos, feitos com cuidado, que não são ruins, mas também não são motivadores."
    Além da crítica de Walravens sobre um predomínio da temática autocentrada e pouco universal na produção brasileira, olheiros citaram também a falta de profissionais que negociem os filmes no exterior e brincaram com a dificuldade de saber com quem lidar entre os diversos órgãos brasileiros ligados ao cinema.
    Para Anne Delseth, programadora da Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes, um dos obstáculos não está na qualidade estética ou na temática dos filmes, mas na falta de produtores capazes de lidar com mercados e festivais estrangeiros.
    "O cinema é uma indústria. É uma ingenuidade fazer um filme e achar que simplesmente as pessoas vão assisti-lo porque é bom. É preciso mais profissionalização do produtor brasileiro", diz Delseth.
    Segundo ela, é fundamental saber quem é quem no mercado cinematográfico para que se possa negociar os filmes de acordo com a especificidade de cada comprador ou programador de festival.
    PROGRAMA DE APOIO
    A partir do Festival de Berlim deste ano, o programa Cinema do Brasil dará apoio a agentes de venda cujos filmes tenham sido selecionados por festivais internacionais.
    O Cinema do Brasil dará US$ 40 mil (R$ 81,3 mil) a agentes selecionados para a promoção dos filmes (cópias, divulgação etc.).
    Uma das portas de entrada do mercado exterior em que mais se investe atualmente é a coprodução de filmes com outros países -o número saltou de dez para 20 entre 2010 e 2011.
    Segundo a Ancine (Agência Nacional do Cinema), há acordos em vigor com 20 países (como Argentina, Portugal e Alemanha) e mais três devem ser assinados em 2013.
    A Ancine anunciou nesta semana que irá trazer ao país curadores de 12 festivais internacionais para exibir filmes brasileiros e promover o contato com realizadores e produtores locais.

      Fernanda Torres

      FOLHA DE SÃO PAULO

      Pagãos
      Passei dias atormentada com a ceia, pensando no quanto a arte perdeu terreno para a tecnologia
      Um rapaz de 15 anos, abastado, inteligente e educado, me disse que pagar R$ 0,99 por uma música na internet era uma exploração sem precedentes.
      Graças a um certo atraso geracional, vivo alheia às questões de direitos autorais das novas mídias, mas, dessa vez, me senti algo indignada. Rebati perguntando o porquê de ele achar correto o preço de uma barra de chocolate e se sentir tão ultrajado com o singelo custo da composição. Ele respondeu que não teria como arcar com as mais de 2.500 músicas arquivadas no seu drive.
      Sugeri que quem possui um computador caríssimo, jeans custosíssimos, além de iPads, iTouches e afins na sua parafernália de entretenimento, tem, sim, condições de arcar com o ônus de uma canção.
      Com a calma de quem vive uma realidade que eu desconheço, o infante me explicou que a internet dá ao artista a chance de divulgar seu trabalho e não há lógica em cobrar por uma oportunidade.
      Um outro jovem, esse com tendências mais à esquerda do que o primeiro, completou aos brados que o verdadeiro artista não trabalha por dinheiro e lembrou que os pobres devem ter acesso à cultura tanto quanto os endinheirados. Essa alegação empurrou a discussão para o campo da insensibilidade social, emudecendo a velha guarda.
      Os adultos só tiveram chance porque a babá de um dos imberbes se manifestou, afirmando que toda a vez que um rico quer defender o seu ponto de vista apela para o direito dos menos favorecidos. "Pobre não tem computador." Lembrou ela.
      Animados com o apoio da classe trabalhadora, os de maior contra-atacaram dizendo que o que parecia cultura para todos não passava de uma apropriação indevida das grandes corporações que faturavam trilhões em cima do conteúdo de terceiros.
      "E os milhões que os cantores acumulam nos shows?" Devolveram os adolescentes. "E o direito autoral dos compositores?!" Vociferaram os mais velhos. "Eles não entendem", concluíram os menores, como se os nascidos antes da virada do milênio fossem matusaléns sem cura, presos ao tempo em que era possível numerar o vinil, o livro ou o celuloide.
      Um dos poucos antenados da segunda idade lembrou que Gilberto Gil, o mais apto membro da MPB a lidar com as novas diretrizes do mercado fonográfico, liberou parte de sua obra para ser "downloadada" de graça, ao mesmo tempo que protegeu o melhor de sua discografia da ferocidade da pirataria. Hipócrita! Bradou ultrajado o mais à esquerda dos pequenos.
      A noite terminou em lágrimas, com os pais afrontados com as crias e os de menor aviltados pelo atraso das gerações pregressas.
      Passei dias atormentada com a violência da ceia, pensando no quanto a arte perdeu terreno para a tecnologia. E assim entramos na Scuola di San Rocco, em Veneza, onde Tintoretto preencheu cada milímetro de parede do exuberante prédio renascentista com a sua extraordinária versão da Bíblia. E descemos a bota com os rebentos, arrastando-os por capelas cobertas por Giotto, Michelangelo, Da Vinci e
      Fra Angelico.
      É impressionante como esse levante de artistas, bancados pela igreja e por "dodges" e príncipes alinhados com o Papa, conseguiram se superar diante de uma restrição temática tão acirrada. E tome madona, crucificação e santa ceia, ressurreição e batismo, manjedoura e Menino Jesus.
      A arte sempre caminhou entre a marginalidade e o sistema. O século 20 foi o último a viver sobre a influência do humanismo, cuja explosão ocorreu lá, no renascimento. Hoje, vivemos um ateísmo tecnológico sem precedentes, tão bem representado pela indiferença do rapaz que despreza o conteúdo artístico e venera sua nave virtual.
      Fiz essa viagem para apresentar às crianças o berço do Ocidente, que pode até ter sido a Grécia, mas que se desenvolveu à plena potência na Itália. Depois de uma via crucis por igrejas, notei o ar de vingança no rosto dos moleques ao adentrarem o Coliseu.
      O sofrimento cristão é mesmo de uma melancolia sem fim, admirar o vigor das estátuas realistas de Trajano, Adriano e Marco Aurélio encoraja o espírito. Mas as novas gerações não se miram nem em Roma nem em Cristo, seu paganismo é de outra ordem.
      O iPhone é a nova Pietá.

        Biblioteca na zona oeste de SP abriga 12 mil títulos húngaros

        Folha de são paulo


        COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

        São Paulo 459 anosNão dá para entender o que está escrito na capa do livro. É difícil de decifrar aquele amontoado de letrinhas. É só com a ajuda da bibliotecária que se descobre que a obra data de 1861 e versa sobre a reforma de estado na Hungria.
        Veja cobertura sobre os 459 anos de SP
        Descubra curiosidades sobre a cidade de SP
        Conte qual a sua melhor lembrança de São Paulo
        Ruas de São Paulo revelam história da cidade; veja fotos
        Quiz: O que você sabe sobre São Paulo?
        Especialistas dão dicas para resolver 10 obstáculos que afetam SP
        Correspondentes mostram retratos da periferia de São Paulo
        Personalidades falam das loucuras, defeitos e qualidades de SP
        Fernando Haddad promete integrar regiões da capital paulista
        Basílica de são Bento tem vitrais alemães com vários mitos
        Edifício Banespa tem lustre com 10 mil pingentes de cristais
        Troca de bandeira no topo do Banespa exige megaoperação
        Bandeira de concreto dá fachada a edifício no centro de SP
        Viagra custa R$ 50 em cabarés de luxo de São Paulo
        Masp tem sala que esconde tesouro com 8.000 peças
        Casa na Lapa recria som que vem da Idade Média
        Cúpula do Theatro Municipal é cenário exclusivo de artistas
        Blog reúne textos sobre a periferia de 45 colaboradores comunitários
        O título é uma das raridades da biblioteca da abadia São Geraldo, que abriga cerca de 12 mil volumes em húngaro. Os exemplares foram trazidos da Hungria por refugiados durante as duas guerras mundiais.
        A maior parte dos livros cruzou o Atlântico em navios e acabou atracando na Vila Sônia, na zona oeste.
        Algumas obras do acervo não existem mais na Hungria. É o caso de uma edição de 1762 de um livro de catecismo do século 16 e de uma impressão de 1607 de "Meditações", de Santo Agostinho.
        A coleção foi reconhecida pela Biblioteca Nacional da Hungria em 1997 como a única fora do país catalogada, traduzida, classificada e com a lista de títulos na internet.
        Apenas os monges têm livre acesso às obras --especializadas em religião, sociologia, arte, filosofia, pedagogia e história. Só é possível fazer visitas com hora marcada.
        "Alguns [livros] são muito valiosos. Mas essa nova geração [de monges] já não fala a língua", diz o abade emérito húngaro dom Ernesto Lima, 88, no Brasil há 46 anos.
        A biblioteca possui ainda outros 60 mil títulos em português, inglês, francês, alemão, grego, latim e italiano. (RAYANNE AZEVEDO)
        ABADIA SÃO GERALDO
        ONDE:Rua Santo Américo, 357
        TELEFONE: 0/xx/11/4048-1838
        ENTRADA: gratuita
        Eduardo Knapp/Folhapress
        Monge caminha entre os livros da biblioteca da abadia São Geraldo, na zona oeste da capital
        Monge caminha entre os livros da biblioteca da abadia São Geraldo, na zona oeste de São Paulo