quarta-feira, 27 de março de 2013

Antonio Delfim Netto

folha de são paulo

Empregabilidade
Nos dias 20 e 21 de março deste ano, o Datafolha ouviu 2.653 pessoas escolhidas dentro do seu conjunto amostral. A margem de erro é de mais ou menos 2%. Os resultados sugerem uma profunda divergência cognitiva entre os beneficiados pela inclusão social no governo Dilma e os agentes do investimento, que devem produzir o aumento da oferta para atender àquela inclusão.
Sem a redução dessa divergência, o atual estado de graça da sociedade caminhará para dificuldades crescentes devido à impossibilidade de violar uma lei física: só se pode distribuir o que já foi produzido! No fundo, é o atendimento da demanda de bens e serviços sociais, gerada pelo aumento da renda do trabalho e pelas transferências de renda, que garante a aprovação de 65% ao governo Dilma. Mas ele só pode ser feito permanentemente pela resposta positiva dos 7% que o condenam como ruim ou péssimo. Em outros termos, pelos investidores privados que aumentam a oferta.
A boa notícia é que a compreensão dessas limitações parece orientar o governo. Suas intervenções (que, no curto prazo, parecem hiperativismo tumultuado) vão maturar no médio prazo. Vão destravar os investimentos e produzir um aumento da produtividade total dos fatores.
O Datafolha revela outros aspectos da dissonância nas interpretações da situação econômica nos boletins das instituições financeiras. Estes sugerem que o país está à beira da estagflação, enquanto 76% dos entrevistados achavam, na terceira semana de março, que ele é ótimo ou bom para se viver; 85% acreditavam que a situação econômica do Brasil vai ficar como está ou melhorar; 77% que o poder de compra dos salários vai permanecer ou melhorar; e 64% responderam que o nível de desemprego ficará o mesmo ou diminuirá.
Onde a dissonância parece diminuir é no resultado do Datafolha sobre o que esperam da taxa de inflação: apenas 49% creem que ela vai ficar onde está ou vai diminuir.
Aqui, seguramente, o governo tem um problema complexo que muitos economistas creem ter solução simples: "aumentar a taxa de juros real e gerar desemprego!". Mas, como afirmaram Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Datafolha ("Poder", 24/3), "a base da sensação de bem-estar não se resume à perspectiva de mobilidade social, inclusão no mercado consumidor ou acesso a políticas sociais", mas à mudança contundente do "sentimento de empregabilidade do brasileiro".
A pesquisa mostrou que 75% dos entrevistados não sentem que correm risco de demissão e 59% não creem que tenham a possibilidade de ficar sem emprego. A solução do problema inflacionário é mais trabalhosa: exige mais inteligência, mais paciência e o ataque com vigor das ineficiências do mercado de trabalho.

    Ruy Castro

    folha de são paulo

    Riscos no céu
    RIO DE JANEIRO - Há anos, uma amiga de São Paulo disse que não ia ao Rio porque tinha medo de balas perdidas. Expliquei-lhe que, a não ser que subisse a um morro em busca de alguma substância -e se visse num tiroteio entre a polícia e uma quadrilha ou entre duas quadrilhas-, sua chance de levar uma bala perdida era menor que a de ser atingida por um raio em São Paulo.
    A amiga tomou aquilo como provocação, mas insisti que se tratava de simples estatística. O Brasil é campeão mundial em incidência de raios, e São Paulo, pela quantidade de prédios altos, é a cidade mais sujeita a descargas. Não queria dizer que bastava sair à rua para ser atingido por um raio. Mas o mesmo se aplicava às balas perdidas no Rio -a probabilidade de levar uma era menor até que a de ganhar no bicho jogando no cavalo no dia de são Jorge.
    Em 2008, quando as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) começaram a ser implantadas em morros do Rio, ainda houve 181 casos de balas perdidas. Desde então, o número só diminuiu -em 2012, reduziu-se a 35. Os disparos de arma de fogo também caíram drasticamente, sendo que, em Copacabana -a que pertencem a ladeira dos Tabajaras e os morros Chapéu Mangueira, da Babilônia e dos Cabritos-, não se ouviu um tiro no ano passado.
    Ao contrário, o que hoje se ouve neles e nos outros é o eco de uma crescente prosperidade. São empresas como bancos, farmácias, supermercados e shoppings que começam a se instalar ali, ou são os moradores que se convertem em microempresários e buscam financiamento para seus projetos. Enquanto esse clima perdurar, não haverá espaço para balas perdidas.
    Ah, sim, os raios em São Paulo. Na noite de Natal de 2012, caíram 1.300. Na de 14 de fevereiro último, 1.958. São lindos ao riscar o céu e, que eu saiba, é raro um deles acertar alguém.

    Fernando Rodrigues

    folha de são paulo

    Romper ou não romper
    BRASÍLIA - O pré-candidato a presidente mais badalado pela mídia até agora é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB. Ele terá de fazer cálculos complexos antes de anunciar sua decisão de entrar (ou não) na corrida pelo Palácio do Planalto no ano que vem.
    A favor do projeto do pernambucano só há dois cenários, ambos temerários. O primeiro e mais otimista é que Campos poderia atropelar Dilma Rousseff. Surfaria na fadiga de material do PT, há mais de uma década no poder. Sairia vencedor em 2014.
    Esse desfecho não é impossível, embora seja altamente improvável, dadas as condições atuais. O governo do PT despeja milhões de reais no mercado. Dá dinheiro quase de graça para empresas tomarem emprestado. Corta impostos a granel. Fortalece programas sociais. São medidas que não consertam a economia, mas empurram a conjuntura de hoje até a campanha eleitoral de 2014. Aí fica difícil fazer oposição.
    O segundo cenário supostamente favorável a Campos é ainda mais frágil: como candidato, mesmo perdendo, ele acumularia forças para 2018. Na história política presidencial recente, essa estratégia deu certo apenas para Luiz Inácio Lula da Silva -que era um líder sindical já conhecido nacionalmente desde sempre e tinha por trás de si o PT. Campos não é Lula, muito menos o PSB é o PT.
    Se os fatores pró-candidatura de Campos são frágeis, os riscos são muito mais robustos. Com quem o PSB poderia se coligar nos 26 Estados e no Distrito Federal para eleger deputados, senadores e governadores? Só partidos nanicos. Os principais estarão alinhados a Dilma Rousseff ou a outros candidatos -Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede).
    Também parece óbvio que o PT tentará dizimar Campos e o PSB logo após o eventual rompimento. Há risco real de ele e seu partido saírem do processo menores do que entraram. Tudo isso será bem ponderado até março ou abril de 2014.

      Helio Schwartsman

      folha de são paulo

      Domesticando o trabalho
      SÃO PAULO - Numa república, precisamos limitar ao máximo as leis que criam distinções de direitos entre diferentes segmentos sociais. Nesse contexto, não há como deixar de aplaudir a PEC que iguala os direitos trabalhistas de empregados domésticos aos dos demais assalariados. Daí não decorre que tudo já esteja resolvido com a aprovação.
      A fase de adaptação pode trazer efeitos opostos aos esperados. Se a lei for aplicada com rigor, os custos de contratação sobem significativamente, fazendo com que uma fatia da classe média ou desista da doméstica ou recorra à informalidade.
      Se os prejuízos ficassem limitados à perda de conforto para um grupo, poderíamos seguir em frente, mas não é tão simples. Se a oferta de empregos domésticos encolher muito rapidamente, haverá comprometimento da renda para muitas trabalhadoras. Também não será fácil treiná-las para assumir outras funções.
      Na hipótese de aumento da informalidade, tudo ficaria mais ou menos como está em termos de custos e renda, mas estaríamos criando um problema futuro para a Previdência e haveria a precarização da situação trabalhista das domésticas, que é o exato oposto do que se deseja.
      Parte dos problemas pode ser contornada na regulamentação. Se se permitir que a jornada de oito horas seja executada em dois blocos de quatro horas, de modo que a doméstica possa preparar as três refeições do dia sem incorrer em várias horas extras, o impacto das mudanças fica mais palatável para os empregadores e será menos conturbada a inevitável transição do atual modelo em que quase todas as famílias de classe média têm uma empregada para a situação, verificada nos países ricos, em que a doméstica é luxo para poucos.
      Haverá um bônus extra se a discussão resultar na revisão de pontos da legislação trabalhista. Regras que impedem a implementação de acordos que as duas partes julgam satisfatórios dificilmente são positivas.