sábado, 29 de junho de 2013

Em conta-gotas, digital forma seu oceano

Da lavra de  Joselia Aguiar | Para o Valor, de São Paulo
Reuters / Reuters
A ainda pouca oferta de títulos em português e o preço relativamente caro do leitor eletrônico são vistos como fatores para dificultar uma explosão do livro digital no Brasil
Um Graciliano remoçado aparece na Festa Literária Internacional de Paraty, que o celebra de quinta-feira a domingo. Modelado em e-book: são 15 títulos, de obras consagradas, como "Vidas Secas" e "Angústia", a novos volumes, como o de cartas inéditas. Até agora só havia três no formato, "São Bernardo", um infantil e outro com suas recém-lançadas crônicas de mocidade. Não é apenas para somar mais um lançamento, entre os tantos do calendário de homenagens ao mestre alagoano, que o grupo carioca Record anuncia a novidade. Ao transportar para as telas de e-readers e tablets um dos nomes mais importantes do seu catálogo, com venda permanente sobretudo em escolas, espera atrair o interesse de um público ainda maior. Mais que remoçar Graciliano, é ele que, na plataforma, ajudará a cativar leitores para a nova tecnologia.
Às vésperas de Paraty, a Companhia das Letras colocou no ar um e-book aperitivo gratuito, com trechos de livros de seus 11 autores que comparecem ao evento. A ocasião de fazer uma investida digital de maior monta surgiria logo depois. Em meio à recente onda de protestos em todo o país, a casa editorial paulistana anunciou um novo selo, o Breve Companhia, para e-books de textos enxutos de jornalismo, comentário político e ficção. Os dois primeiros títulos saem em ritmo veloz, como exigem os acontecimentos: nas próximas semanas, para o público conectado à rede, o mesmo que se mobilizou nas ruas. Um será assinado por Piero Locatelli, repórter detido pela PM de São Paulo pelo porte do vinagre com que pretendia amenizar os efeitos do gás lacrimogêneo durante a cobertura. O outro, por Marcos Nobre, professor da Unicamp na área de filosofia que avalia o impasse político do país da pós-democratização.
Quando os primeiros e-books começaram a ser oferecidos aqui, há cerca de dois anos, a participação do digital no mercado brasileiro, de tão ínfima, não alcançava 1%. Um pouco mais que isso, 1,5%, é o cálculo de executivos de editoras e livrarias consultados peloValor. Não é uma conta simples. Envolve dados dispersos e nem sempre divulgados, e há que se considerar que o impresso também dá sinais de que continua a expandir. As vendas cresceram 7,2%, incluindo as compras de mercado e governo, segundo o mais recente relatório CBL/Snel/Fipe, referente a 2011.
"O tamanho do mercado não é algo que nos preocupe no dia a dia", afirma Alex Szapiro, vice-presidente da Amazon Kindle
Esperava-se um tsunami digital assim que aportasse aqui a Amazon. Com o Kindle, inaugurou em novembro de 2007 um mercado nos Estados Unidos que representa entre 20% e 30% da indústria do livro, a depender do nicho - no entanto, editoras americanas divulgaram neste ano desaceleração e até leve recuo de negócios com o e-book. Seis meses depois da instalação no Brasil da gigante americana, em dezembro, a onda digital continua a se formar e pode surpreender, mas por ora pinga, em conta-gotas, no cotidiano brasileiro.
A velocidade lenta preocupa? "Este é apenas um mercado de seis meses no Brasil e, de todo modo, o tamanho do mercado não é algo que nos preocupe no dia a dia", diz Alex Szapiro, vice-presidente da Amazon Kindle. O grupo é conhecido pela discrição com que divulga números e planos. Torna alguns disponíveis: para os leitores brasileiros, são mais de 19 mil títulos em português - num manancial de 1,9 milhão em outros idiomas - e destes 2.500 títulos gratuitos. Com aplicativos de leitura também gratuitos, é possível ler mesmo sem um Kindle à mão, usando tablet, smartphone ou o próprio computador. Szapiro lembra que o Kindle não é só um dispositivo, é um serviço que incentiva o próprio consumo de livros: "Vemos que as pessoas leem mais quando compram o Kindle".
As concorrentes daqui se mantêm na briga. Antecipando-se à Amazon, a Livraria Cultura lançou em outubro dispositivo de leitura exclusivo em associação com a canadense Kobo. A venda do aparelho superou, em mais que o dobro, a estimativa inicial e a de e-books, incluindo clientes que usam tablets ou smartphones, cresceu 398% em um ano, diz Sergio Herz, presidente-executivo. Números absolutos não são informados. Para uma ideia desse volume, que apesar de crescer é pequeno, tem-se o percentual que representa nas vendas totais: 3,7%. A cultura digital gera negócios por outras vias, as filiais Geek, para games, HQs e bonecos colecionáveis. A primeira foi aberta há um ano. Hoje já são quatro.
A ainda pouca oferta de títulos em português e o preço relativamente caro do leitor eletrônico - modelos mais avançados surgem também em ritmo veloz - são vistos como fatores para dificultar uma explosão do digital. "Para quem compra só seis livros por ano, o que é muito mais que a média nacional, que não chega a dois, não vale a pena o custo investido", pondera Herz. Deve-se considerar aquele que talvez seja o principal motivo para o percentual ainda baixo: trata-se, enfim, de um novo hábito de leitura. "Por costume, ainda prefiro papel." De uma queda de preço se pode fazer o hábito. À vista, um Kobo Aura HD, o mais avançado, custa R$ 599. Na Amazon, o Kindle Paperwhite, também de ponta, entre R$ 479 (wi-fi) e R$ 699 (wi-fi + 3G). Caso ocorra a prometida desoneração fiscal, o preço dos dispositivos pode cair em 40%, calcula Herz. O preço dos e-books também não caiu como se espera. Custam em média apenas 30% menos - por um "Vidas Secas" impresso, paga-se R$ 32,90, pela versão digital, R$ 23.
Em certos nichos, o digital já faz diferença. Quem conta é o diretor de compras do grupo Saraiva, Frederico Indiani: a depender do livro e do seu público, corresponde a 20% ou 30% das vendas imediatamente após um lançamento. Como exemplo, recorda quando saiu o segundo e então esperado volume da trilogia pornô soft "50 Tons de Cinza", de E.L. James. Somam-se aí um leitor conectado e ansioso pelo título, uma autora com status de mega-seller - lista que inclui também Dan Brown e Sylvia Day - e o tipo de marketing. Por sua portabilidade e ferramentas de pesquisa, o digital é também formato ideal para livros técnicos como o catatau de direito "Vade Mecum", entre os best-sellers digitais da Saraiva há dois anos, quando começou a colocar no ar os primeiros e-books. Centenário, o grupo investe em e-commerce desde 1998, e a loja digital é há tempos a segunda no ranking das 105 filiais. O crescimento é contínuo: de 83% no primeiro trimestre, na comparação com mesmo período de 2012, num total de 62 mil downloads.
Entre escritores, o digital alterou hábitos e ampliou possibilidades, mas não transformou, ao menos com a radicalidade antes prevista, aquilo que fazem em sua literatura. "A revolução literária causada pela internet não ocorreu, ou até ocorreu, mas não no sentido de modificar a maneira como escrevemos", disse Daniel Galera em coluna no "Globo".
Identificado uma década atrás como parte da "geração internet" - o termo era usado para escritores que possuíam blogs -, é autor do recente "Barba Ensopada de Sangue", romance nada breve em suas 424 páginas. "Ocorrem mudanças profundas na maneira como lemos, consumimos e debatemos a literatura", diz ao Valor. "O fato é que um conto ainda é um conto e um romance ainda é um romance." Aquela nova literatura que se imaginou, como observa, "acabou se manifestando nas redes sociais, na maneira como conversamos e compartilhamos histórias e nossa vida nos meios eletrônicos, são essas as narrativas verdadeiramente novas do paradigma digital, o Instagram, o Facebook, o Tumblr, o Twitter."
Galera usa Kindle para ler livros e textos disponíveis em sites, mas ainda compra a mesma quantidade de livros impressos que antes. "De modo geral, me beneficio de todos os formatos ao mesmo tempo e não tenho a intenção de substituir minha biblioteca impressa por outra digital. Terei duas bibliotecas paralelas." Em Paraty, participa de mesas que aliam as duas vertentes, tradição e inovação: sobre tragédia clássica na Flip e sobre imagem e palavra na Flipzona, que ocorre em paralelo.
Da geração que surgiu com os blogs, Andrea Del Fuego estreou com narrativas breves experimentadas na internet. Integrou antologias de microcontos aqui e em Portugal e fez um livro digital, "O Replicante", recontando o filme "Blade Runner", cult da ficção científica. Para escrever seu premiado "Os Malaquias", isolou-se num sítio sem internet. O procedimento é outro: "A produção para um blog era influenciada pela rapidez, pela pressa que, antes de ser inimiga da qualidade, e muitas vezes é, também dá ao texto algo de seu próprio instrumento. Escrevi o romance de outra forma, desconectada dos meios digitais, isso influencia a mente, que se acalma e alcança outras coisas. Um sítio também é ferramenta."
Das mudanças que a internet permite à literatura, a que parece mais crescente é de fazer de todo leitor um potencial escritor, como prevê Andrea Del Fuego. "Todo leitor, se quiser, fará sua ficção, um pouco como aconteceu com a fotografia, hoje todos fotografam e publicam suas fotos. Ganha a fotografia."
Não é apenas um palpite. Amazon e Saraiva comentam com entusiasmo a procura por suas ferramentas de autopublicação. Na Amazon, chama-se KDP - Kindle Direct Publishing, usado por autores independentes ou nanoeditoras que já conseguem entrar na lista de cem mais vendidos. Na Saraiva, a Publique-se!, lançada em maio, possui quase 7 mil autores cadastrados, com mais de 200 títulos já à venda no site da Saraiva. Diante de tantos autores em potencial na rede, a curadora Giselle Zamboni teve a ideia de promover saraus literários pelo Twitter - usando a tag que identifica a comunidade literária interativa, #letras365 - e, depois, realizar exposição dos talentos recolhidos. Uma amostra do que encontrou está em #Tuiteratura, em cartaz no Sesc Santo Amaro até 4 de agosto.
As micronarrativas de 140 caracteres foram criadas por 61 autores, a maioria estreantes e alguns já consagrados, convidados para criar no formato para a exposição, como Andrea. Não foi fácil fechar o número, como conta. Em quase um ano, catalogou mais de 150 criadores e quase 1.200 frases poéticas e microcontos. A meta é fazer a mostra viajar por outras cidades. O impresso não sai do horizonte: já recebeu propostas para publicar o conteúdo. "Seria bacana perenizar a tuiteratura desses escritores todos, tornar perene a mostra em si, perenidade que todo escritor deseja e só o livro traz. Tomara aconteça."
Em 2010, a revolução digital ocupou mesas da Flip. Nesta edição, que reúne ensaístas e gente do cinema, não trata especificamente do tema, mas inclui uma ficcionista premiada por inventar sob a forma de escritos brevíssimos, a americana Lydia Davis, vencedora do Man Booker International Prize. "Acho que a Flip deve voltar ao assunto quando tiver certeza de que vai trazer algo de original para o debate", diz o curador Miguel Conde. Na Bienal do Rio, que começa em 29 de agosto, Amazon e Kobo vão participar como expositores pela primeira vez, e a nova tecnologia se faz presente em convidados internacionais como o roteirista de jogos eletrônicos Corey May, da série "Assassins Creed", lançada pela Galera Jovem, com 50 milhões de cópias vendidas no mundo, 450 mil exemplares no Brasil. Em conta-gotas, o digital forma seu oceano.


© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.

Leia mais em:
http://www.valor.com.br/cultura/3177050/em-conta-gotas-digital-forma-seu-oceano#ixzz2XdPzh6Gg

Sexo e a organização da sociedade

estado de são paulo
Fernando Reinach
Existem dois grupos de seres humanos, homens e mulheres, e a diferença entre ele 
depende da presença do cromossomo Y no genoma. Quando o Y está presente nos tornamos 
homens (XY), quando está ausente nos tornamos mulheres (XX). A novidade é a descoberta 
de que 
um mecanismo semelhante pode controlar a organização social e política dos seres vivos. Se 
o cromossomo estiver presente, a sociedade é controlada por um único líder; se estiver 
ausente, o poder é compartilhado entre diversos líderes.
Esse mecanismo foi encontrado na Solenopsis invicta, uma formiga conhecida no Brasil como 
lava-pés. É um bicho cruel que sobe rapidamente nas pernas do agressor, pica sem dó e 
provoca muita dor.
Faz anos os cientistas descobriram que somente uma parte dos formigueiros de lava-pés 
possuía uma única rainha, os outros possuíam múltiplas rainhas. Inicialmente se imaginou 
que essa diferença se devia ao processo de formação do formigueiro, mas logo os cientistas 
descobriram que essas duas formas de organização social eram determinadas geneticamente.
O gene responsável foi identificado e recebeu o nome de Gp-9. Esse gene existe em duas 
formas chamadas de B e b, que determinam o comportamento dos súditos da colônia (as 
formigas operárias).
Quando o operariado é do tipo BB (possui duas cópias da forma B do gene Gp-9), a colônia 
possui uma única rainha. Quando o operariado é do tipo Bb (possui uma cópia da forma B e 
uma cópia da forma b), a colônia tem múltiplos líderes (rainhas).
Nas colônias com uma rainha, as operárias matam qualquer formiga que "queira" se tornar 
rainha. É o povo defendendo o poder total para um único indivíduo.
O povo Bb tolera e ajuda o desenvolvimento de outras rainhas, permitindo o 
compartilhamento do poder. Mas essas operárias Bb não são bobas, elas matam qualquer 
formiga do tipo BB, garantindo que suas líderes sejam todas Bb, impedindo a ascensão 
política do tipo BB. É o povo garantindo o sistema democrático.
O resultado desse comportamento complexo é que a forma B do gene ocorre em ambos os 
tipos de colônias, mas a forma b só está presente nas colônias com múltiplas rainhas. O 
equilíbrio entre esses dois tipos de organização social é mantido ao longo do tempo porque as 
formigas do tipo bb não são viáveis, morrendo logo no início do desenvolvimento. Por esse 
motivo, a forma B nunca é extinta e sempre se formam novos formigueiros totalitários.
Recentemente, os cientistas descobriram que o gene Gp-9 produz um receptor de odor, mas 
era difícil de acreditar que uma diferença em um único receptor de odor poderia determinar 
dois tipos de comportamentos tão diferentes e complexos. Agora esse mistério foi elucidado. 
Na verdade, o gene Gp-9 faz parte de um conjunto de 616 genes que ocupam quase metade 
de um dos cromossomos dessas formigas. Esse grupo de genes é diferente no cromossomo B 
e no cromossomo b e é sempre herdado como um grupo, nunca se misturando. Assim, se 
uma 
formiga herda um cromossomo B, herda toda a coleção "B" desses 616 genes, mas se herda 
um cromossomo "b" recebe uma outra coleção dos 616 genes. A conclusão é que B e b são 
uma espécie de supergene, um segmento de DNA composto por uma coleção de centenas de 
genes, herdados em grupo, capaz de determinar dois tipos muito diferentes de 
comportamento social.
O interessante é que o único outro exemplo de um grupo de genes que determina grandes 
diferenças morfológicas e comportamentais é o supergene presente no cromossomo Y, 
responsável por determinar o sexo do indivíduo. Esta é a primeira vez que se descobre um 
outro supergene capaz de gerar, dentro de uma espécie, dois grupos de indivíduos com 
comportamentos muito diferentes.
A conclusão de que o mesmo mecanismo usado por uma infinidade de espécies para 
determinar se o indivíduo é um macho ou uma fêmea é utilizado por essa espécie de formiga 
para determinar se o indivíduo é um democrata, que defende colônias com poder 
compartilhado, ou um adepto e defensor da realeza, que vive em colônias com uma única 
rainha. Será que supergenes sociais existem em seres humanos?
* MAIS INFORMAÇÕES: A Y-LIKE SOCIAL CHROMOSSOME CAUSES ALTERNATIVE COLONY ORGANIZATION IN FIRE ANTS. NATURE VOL. 493 PAG. 664 2013
Fernando Reinach é biólogo

Como explicar as manifestações em 140 caracteres

folha de são paulo
Gilberto Dimenstein

Se eu tivesse de resumir em no máximo 140 caracteres tudo que o Brasil está experimentando por causa das manifestações, diria apenas o seguinte:
"O brasileiro está descobrindo que dá muito e recebe pouco. Foi um grito contra o vandalismo cotidiano do desperdício".
O resto é consequência.
É por isso e só por isso que a paixão do brasileiro, o futebol (com os gastos da Copa), pela primeira vez não foi apenas circo, mas educação democrática.
Daí se vê o medo das autoridades, a começar da presidente, em ir ao estádio assistir ao final da Copa das Confederações.
Gilberto Dimenstein
Gilberto Dimenstein ganhou os principais prêmios destinados a jornalistas e escritores. Integra uma incubadora de projetos de Harvard (Advanced Leadership Initiative). Desenvolve o Catraca Livre, eleito o melhor blog de cidadania em língua portuguesa pela Deutsche Welle. É morador da Vila Madalena.

Laertevisão - Quadrinhos

folha de são paulo
LAERTEVISÃO      LAERTE
LAERTE
CHICLETE COM BANANA      ANGELI
ANGELI
PIRATAS DO TIETÊ      LAERTE
LAERTE
DAIQUIRI      CACO GALHARDO
CACO GALHARDO
NÍQUEL NÁUSEA      FERNANDO GONSALES
FERNANDO GONSALES
PRETO NO BRANCO      ALLAN SIEBER
ALLAN SIEBER
QUASE NADA      FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ
FÁBIO MOON E GABRIEL BÁ
GARFIELD      JIM DAVIS
JIM DAVIS