quarta-feira, 10 de julho de 2013

Especialistas em gente

folha de são paulo
CLÁUDIA COLLUCCI
SÃO PAULO - No pacote de medidas anunciadas anteontem para a saúde, a presidente Dilma Rousseff deixou de fora uma questão crucial: o que pretende fazer para melhorar a qualidade dos alunos em medicina e dos próprios médicos que atuam hoje no país?
Há sete anos o "provão" criado pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) mostra que mais de 50% dos formandos em medicina não têm domínio de áreas básicas para exercer a profissão.
O fraco desempenho dos alunos é explicado por vários fatores, en- tre eles a estrutura deficiente das faculdades, a péssima avaliação interna dos alunos e a falta de punição às escolas ruins.
Por meio do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), o governo federal sabe quais são as faculdades de baixa qualidade, mas pouco ou nada faz para impedir que elas continuem despejando no mercado maus profissionais.
Médicos malformados representam um risco ao paciente e aos sistemas de saúde. Pedem exames demais e enxergam o doente de menos.
O governo estufa o peito para dizer que seguirá o modelo inglês na formação dos médicos, no que diz respeito aos dois anos de treinamento no sistema público de saúde.
Só se esquece de frisar que o cidadão inglês não fica nas mãos de um recém-formado sem supervisão de um tutor. O "estágio" é com o intuito de aprendizado, não é para "tapar buraco" na rede básica de saúde ou nos serviços de emergência.
O Reino Unido também adota uma avaliação externa periódica dos futuros médicos e toma para si a responsabilidade de aferir a competência deles antes que cheguem ao mercado.
É o mínimo que se espera do Brasil, que diz querer investir na formação de "especialistas em gente", que nada mais são do que "médicos das antigas" (como diziam nossas avós), aqueles que, com exame físico apurado e um bom dedo de prosa, conseguiam acertar o diagnóstico.

    Editoriais FolhaSP

    folha de são paulo

    A condição do médico
    Governo lança medidas para melhorar o sistema público de saúde; pacote inclui importação de profissionais e estágio obrigatório no SUS
    Diante da crescente insatisfação com os serviços de saúde no Brasil, seria estranho se, no intuito de aplacar o clamor das ruas, o governo federal não anunciasse medidas de impacto para o setor.
    Desse ponto de vista, o lançamento do programa Mais Médicos superou as expectativas. Não foi pequena a polêmica que se seguiu ao detalhamento das ações, e entidades do setor se declararam surpreendidas com algumas das iniciativas anunciadas.
    A principal novidade é a ampliação do curso de medicina, dos atuais seis anos para oito, e a exigência de que, nos dois anos adicionais, o aluno trabalhe na atenção básica da rede pública.
    O profissional somente terá registro permanente de médico após essa espécie de estágio obrigatório --em local designado pela instituição de ensino de origem, também responsável pela supervisão. Durante o ciclo no SUS, o formando receberá uma bolsa federal, de valor ainda não definido.
    Se o Congresso não modificar a medida provisória que trata do assunto, as novas regras, inspiradas no modelo do Reino Unido, valerão para quem ingressar na faculdade de medicina a partir de 2015. Associações médicas, porém, avisam que tentarão, nas esferas política e jurídica, alterar a proposta.
    Com efeito, será problemático se o aluno se vir obrigado a morar em uma determinada região, contra a sua vontade. Feita essa ressalva, contudo, não há motivo para rejeitar a atuação na rede pública.
    De um lado, trata-se de mecanismo capaz de aprimorar a formação do médico --em geral, o ensino de medicina é precário. De outro, é uma forma de aumentar, no SUS, a presença desses profissionais imprescindíveis à sociedade.
    Igualmente controversa, mas sem constituir novidade, a tentativa de importar profissionais também consta do pacote, e a comunidade médica, mais uma vez, se mostrou refratária à medida.
    O médico estrangeiro, é claro, não representará a salvação da saúde pública no Brasil. Mas, desde que submetido a avaliação técnica e devidamente treinado, ele pode ajudar, em caráter temporário, a combater o déficit de profissionais nas periferias e em áreas distantes dos grandes centros.
    Não será apenas com mais médicos, entretanto, que a saúde pública vai avançar. Em artigo publicado nesta Folha, o urologista e professor titular da USP Miguel Srougi já havia ponderado que o serviço de saúde pressupõe, entre outros itens, remédios, equipe de apoio e instalações adequadas.
    É preciso focar na qualidade dos cursos --a criação de mais 11,5 mil vagas em nada contribui para isso-- e na implantação da estrutura necessária ao exercício da medicina. Sem isso, a multiplicação do contingente profissional pode não passar de golpe publicitário.
      EDITORIAIS
      editoriais@uol.com.br
      Reorientar o transporte
      Em dez anos, 1,5 milhão de novos carros conheceram as ruas de São Paulo. A frota da cidade passou de 3,4 milhões para 4,9 milhões.
      Tomada por seu valor de face, a notícia revela o aumento da renda individual e o sucesso dos programas de redução de impostos para a indústria automobilística.
      Ao somar estímulos tributários --o que inclui o preço da gasolina mantido artificialmente baixo-- às vantagens de possuir um automóvel, parte significativa dos paulistanos achou por bem adquirir veículo próprio. E o fez ciente de que, em boa parte do tempo, o carro estaria preso nos congestionamentos.
      Não se trata de constatação de somenos. É razoável supor que poucos optariam pelos engarrafamentos se houvesse opção menos incômoda. Diante da péssima qualidade do sistema público de transporte coletivo, porém, cada vez mais gente prefere o individual.
      As razões são conhecidas. Ônibus passam pelos pontos com frequência baixa e imprevisível. Nos trajetos de maior fluxo, a duração das viagens é incerta --ou não há corredores exclusivos, ou eles não têm área de ultrapassagem.
      São problemas que não afetam trens e metrô, mas a malha serve uma área pequena da cidade. Além disso, os vagões, a exemplo do que ocorre com os ônibus, são lotados.
      Melhorar o transporte público exige investimentos de monta. Verbas para isso até existem, mas sucessivos governos, nos três níveis, precisariam redefinir prioridades.
      O incentivo aos automóveis custou, em isenções fiscais, ao menos R$ 32,5 bilhões desde 2003. Dinheiro pago pela sociedade, que abriu mão desses recursos em benefício de um setor relevante da economia --a recuperação da indústria automotiva foi fundamental para o crescimento de 7,5% do PIB em 2010.
      Trata-se, sem dúvida, de escolha possível. Mas, se a opção fosse outra, poderiam ter sido construídos 150 km de metrô ou 1.500 km de corredores de ônibus com a mesma cifra. Isso permitiria triplicar a atual malha metroviária de São Paulo, ou mais que decuplicar o total de corredores existentes.
      Investimentos no transporte público levam tempo, mas seus efeitos são duradouros. Incentivos à indústria automotiva geram resultados quase imediatos, mas podem ser passageiros. Os estímulos ao setor, aliás, já têm se mostrado incapazes de ressuscitar novamente o crescimento econômico. Está dada a ocasião para rever a prioridade ao transporte individual.

      Premiado em Veneza, angolano Edson Chagas expõe em SP em mostra dedicada à África

      folha de são paulo
      Oca africana
      Vencedor do Leão de Ouro em Veneza, angolano Edson Chagas expõe em SP em mostra dedicada ao continente no Ibirapuera
      SILAS MARTÍDE SÃO PAULO
      No Roque Santeiro, o mercado de rua gigantesco em Luanda, sacolas de todo tipo circulam levando mercadorias. Trazem inscrições em quase todas as línguas do mundo e são feitas de todo tipo de material, do plástico a tecidos mais ou menos rudes.
      Edson Chagas, artista angolano que acaba de vencer o Leão de Ouro pela representação de seu país na Bienal de Veneza, fez uma série fotográfica em que se retrata com esses sacos na cabeça, cego ao horizonte e à lente.
      "Você tapa a cabeça e perde o controle do que vai sair em termos de imagem", diz Chagas, em entrevista à Folha. "Quis criar algo que pudesse tocar na questão da economia e do consumismo."
      Sua obra, aliás, agora chancelada por Veneza, chega a São Paulo turbinada por seu consumo no circuito global em "Transit SP", uma exposição de arte contemporânea africana que vai ocupar a Oca, no parque Ibirapuera, a partir do dia 20 deste mês.

      Oca africana

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      Divulgação
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      Fotografia da série "Oikonomakos", de Edson Chagas, que está em mostra na Oca, no Ibirapuera
      Chagas, que é o primeiro africano e também o primeiro artista de língua portuguesa a vencer o prêmio de melhor representação nacional na mostra italiana, resume certa efervescência que há anos ronda a produção plástica do continente mais pobre e desigual do planeta.
      E as obras desses artistas de Angola, Mali, Camarões, Nigéria, Marrocos, entre outros, não deixam de ser flagras mais ou menos contundentes de um território em transformação, em que identidades nacionais se constroem no rastro da saída dos colonizadores europeus, guerras e chacinas étnicas.
      "Essas condições são desfavoráveis, mas também criam uma potência artística pulsante, que nenhum outro lugar está vivendo nesse momento", diz Daniel Rangel, curador da mostra na Oca. "É a potência de discurso que a gente tinha aqui nos anos 1970, a vivência frenética da busca de uma identidade."
      Nessa busca, Samuel Fosso, espécie de Cindy Sherman camaronês, faz autorretratos em que encarna estereótipos bizarros do continente e da cultura pop global, alegorias ultracoloridas que desestabilizam a imagem surrada da África como terra miserável.
      "Há uma estética que pergunta o que é ser africano", diz Chagas. "Pensamos muito em como somos vistos e como gostaríamos de ser vistos. Já não estamos mais presos a nenhum cânone estético."
      Nem a condições econômicas estanques. Embora as extraordinárias animações do sul-africano William Kentridge sejam um protesto contra a falta de recursos --cada fotograma é desenhado na mesma folha, apagado e refeito na posição do próximo quadro--, uma nova e cosmopolita imagem da África parece emergir desses trabalhos.
      Yinka Shonibare, britânico filho de nigerianos que já foi finalista do prêmio Turner em Londres, tem na mostra uma de suas instalações de manequins sem cabeça. Eles se matam vestindo supostos trajes africanos, só que fabricados na Holanda e rearranjados em cortes vitorianos.
      É uma cena violenta sem sangue, da mesma forma que Mounir Fatmi, marroquino radicado em Nova York, retrata um dos momentos mais sangrentos da história recente, ao construir o "skyline" de Manhattan com caixas de som que trazem de volta a silhueta das Torres Gêmeas.
      "Não existe mais aquela África do nosso imaginário", diz Rangel. "Não são homens descalços construindo essa linguagem contemporânea."
      TRANSIT SP
      QUANDO abre dia 20/7, de ter. a dom., das 9h às 17h; até 15/9
      ONDE Oca (pq. Ibirapuera, portão 3, tel. 0/xx/11/3331-3813)
      QUANTO grátis
      Prefeitura quer reformar edifício, mas não tem verbas
      Espaço projetado por Oscar Niemeyer precisa de reforços na estrutura de segurança para receber mostras com obras mais valiosas
      DE SÃO PAULO
      Embora tenha uma mostra marcada para o fim deste mês e vá ficar ocupada até setembro, o destino da Oca depois disso ainda é incerto. Um projeto de reforma para o espaço desenhado por Oscar Niemeyer acaba de ser descartado, e a prefeitura, dona do edifício no parque Ibirapuera, agora estuda alternativas.
      Desde que passou por pequenas reformas estruturais no fim dos anos 1990, a Oca precisa de reforços em seus sistemas de segurança, como rotas de incêndio extras, além da única disponível hoje, para receber mostras maiores.
      "Isso é uma exigência para que acervos significativos sejam apresentados lá", diz Afonso Luz, diretor do Museu da Cidade, órgão da Secretaria Municipal de Cultura responsável pela Oca e mais 15 centros culturais na cidade.
      "Sem isso, as seguradoras não garantem apólices. É fundamental que lá seja um museu e não um salão de festas. Há anos que os eventos vêm destruindo esse edifício."
      Paulo Mendes da Rocha, arquiteto que teve autorização de Niemeyer para realizar reformas no espaço, primeiro pensou num projeto com túneis subterrâneos, que ligariam o interior da Oca às ruas ao redor do parque Ibirapuera, mas descartou o plano por ser complexo demais.
      Além da dificuldade, a secretaria da Cultura não tem verba para as reformas, orçadas em cerca de R$ 3 milhões.
      E não é só a Oca que passa por dificuldades. Também no Ibirapuera, o Pavilhão das Culturas Brasileiras pode ser fechado por falta de verbas.
      A Casa Modernista, a Casa Bandeirante e a galeria Formosa, outros espaços do Museu da Cidade, também estão fechados, enquanto a mostra do artista Iran do Espírito Santo, em cartaz na Capela do Morumbi, foi prorrogada duas vezes porque não há dinheiro para nova exposição.
      Rodrigo Savazoni, chefe de gabinete do secretário municipal da Cultura, Juca Ferreira, reconhece a "extrema fragilidade institucional" do Museu da Cidade, crise agravada pelo congelamento de recursos da Cultura, cerca de R$ 50 milhões, desde o início da gestão do prefeito petista Fernando Haddad.
      Outro problema é o fato de o Museu da Cidade não ter orçamento próprio e depender do Departamento do Patrimônio Histórico para funcionar. Segundo Savazoni, o prefeito estuda projetos que permitam que o museu tenha independência financeira.

      Elio Gaspari

      folha de são paulo

      A patriotada do grampo

      A doutora Dilma e seu chanceler reagiram com indignação à revelação dos repórteres Glenn Greenwald, Roberto Kaz e José Casado de que a National Security Agency grampeia as comunicações nacionais e manteve um orelhão em Brasília. Essa contrariedade terá o mesmo peso da reação europeia às denúncias de Edward Snowden, o funcionário da Booz Allen que trabalhava no mundo das escutas: zero.
      No século passado, um secretário de Estado americano mandou fechar o serviço de quebra dos códigos de outras nações dizendo que "um cavalheiro não lê a correspondência de outro". Era o tempo em que o presidente Franklin Roosevelt escondia um gravador em sua sala. Tinha o tamanho de um frigobar. Em 1960, o mundo viveu uma crise quando a União Soviética derrubou um avião U-2 que voava a 20 quilômetros de altura, fotografando-lhe o território. Hoje U-2 é uma banda, todas as gravações de Roosevelt, John Kennedy e Richard Nixon cabem num iPod e o Google Maps fotografa o mundo.
      Os americanos grampeiam e continuarão grampeando os outros, assim como fazem, com menos recursos, os ingleses, franceses e, sobretudo, os chineses. Esse aspecto tecnológico é irreversível. Pode-se negociar o compartilhamento de informações ou mesmo criar barreiras sempre vulneráveis, mas o governo brasileiro não fez o bê-a-bá, pois nem satélite próprio tem. Se os companheiros não sabiam que a NSA grampeia suas comunicações, nem jornal leem. Há alguns anos, a diplomacia canadense recusou-se a permitir que a Receita Federal examinasse um contêiner com equipamentos de comunicações que chegara à Alfandega do Rio. (O material voltou.)
      Para os cidadãos americanos, ouvir os outros é o jogo jogado. Eles só se ofendem quando descobrem que, com o dinheiro dos seus impostos, o governo xereta suas vidas.
      O desconforto provocado pelo poderio tecnológico é secundário diante de um problema maior, agravado pelo companheiro Obama. A comunidade de inteligência americana, capturada pela privataria da porta giratória que recicla militares, funcionários da NSA e da CIA, transformando-os em empreiteiros, está desmoralizando seu serviço diplomático.
      Grampeando o mundo, os interesses americanos fecharam os céus da Europa para o avião do presidente boliviano Evo Morales. Foi um ato de prepotência vitoriana a serviço da estupidez. Ao contrário do que se supunha, Edward Snowden não estava a bordo. Resultado: a arrogância facilitou a concessão do asilo ao americano pelo governo da Venezuela. A NSA quer armazenar nos seus computadores uma memória superior à soma da capacidade de todos os discos existentes no mundo, mas nem ela nem a CIA sabiam quem estava no avião do boliviano.
      No outro lado do balcão, a doutora Dilma levou quase 24 horas para reagir à truculência europeia contra Morales e só se manifestou quando seus colegas da Argentina, Equador e Venezuela já haviam protestado.
      O Itamaraty pode estar interessado em polir a viagem de Estado que a doutora Dilma fará a Washington em outubro. Negar asilo a Snowden foi até boa ideia, mas demorar para perceber a ofensa à Bolívia foi um exagero. Como diria a doutora Dilma, no que se refere à estupefação diante dos grampos, o que há é puro teatrinho.
      Elio Gaspari
      Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de "Poder".