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domingo, 25 de agosto de 2013

Elio Gaspari

folha de são paulo

O advogado-geral de Fidel Castro

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O doutor Luís Inácio Adams informou que os médicos cubanos que vêm para o Brasil não terão direito a asilo político caso queiram se desvincular da ilha comunista. Nas sua palavras: "Me parece que não têm direito a essa pretensão. Provavelmente seriam devolvidos".
Num país que teve um presidente asilado (João Goulart) e centenas de cidadãos protegidos pelo instituto do asilo, Adams nega-o, preventivamente, a cubanos. Isso numa época em que o russo Vladimir Putin concedeu asilo a um cidadão acusado pelo governo americano de ter praticado crimes e a doutora Dilma tem um asilado na embaixada brasileira em La Paz. Noves fora a proteção dada a Cesare Battisti, acusado de terrorismo pelo governo italiano.
A tradição petista vai na direção desse absurdo. A Polícia Federal já deportou dois boxeadores cubanos durante a gestão do comissário Tarso Genro no Ministério da Justiça. (Ele foram recambiados e fugiram de novo.)
O próprio governo castrista já permitiu a saída de cidadãos para a Espanha. A vigorar a Doutrina Adams, o Brasil transforma-se numa dependência do aparelho de segurança cubano.
EU FAÇO O PARQUE, MAS A CONTA É SUA
O secretário do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, Carlos Minc, contesta diversas informações publicadas aqui na semana passada na nota "Cabral defende o formigueiro-do-litoral".
Em abril de 2011 o governador Sérgio Cabral criou o Parque Estadual da Costa do Sol, numa área de cem quilômetros quadrados na região dos Lagos. Destinava-se a proteger áreas de mata atlântica e também o passarinho formigueiro-do-litoral. As terras do parque têm donos e valem alguns bilhões de reais. Tendo declarado a utilidade pública da área "para fins de desapropriação", vedou "empreendimentos, obras e quaisquer atividades que afetem sua substância e destinação". Micou no lance um projeto hoteleiro do Copacabana Palace. A nota dizia que ele seria erguido na praia da Ferradura, em Búzios. Errado. Era a praia da Enseada, e o projeto fora embargado pelo Judiciário. Estava errada também a informação segundo a qual o parque não existe, pois nem placas tem. Existe, tem 25 placas, trinta guardas e é bastante visitado.
A nota dizia que o governo do Rio não depositou 80% do valor das terras, como manda a lei, e seus donos estarão obrigados a esperar até 2016, quando caducará o decreto de criação do parque se até lá não tiver ocorrido a desapropriação. Minc informa:
"Não há nenhuma lei que obrigue o prévio depósito de 80% do valor das terras privadas de um parque criado." De fato, o depósito só ocorre depois da desapropriação. Ele diz mais: "Nenhuma lei" determina a caducidade do ato depois de cinco anos. Em 2010 o STJ decidiu que o decreto caduca em cinco anos se não tiver sido feita a desapropriação.
Asmodeu mora nos detalhes. Cabral criou o parque, já se passaram três anos e não desapropriou as terras, pois não quer discutir o preço de sua iniciativa.
Politicamente corretos, os parques tornam-se financeiramente levianos. Em 1977 foi criado em São Paulo o Parque da Serra do Mar. Em junho de 2012 o governo de Geraldo Alckmin foi condenado pelo Tribunal de Justiça a pagar R$ 1,5 bilhão a um proprietário de sessenta quilômetros quadrados. São Paulo devia R$ 20 bilhões em precatórios.
É comum que governadores e prefeitos digam que não podem fazer isso ou aquilo porque precisam pagar precatórios. A origem desse problema está em atos que rendem publicidade imediata, transferindo a conta para as administrações seguintes. No fim, a patuleia paga.
Recordar é viver
Literariamente, o ministro Joaquim Barbosa ainda não produziu bate-bocas com a qualidade de Epitácio Pessoa. Em 1909 ele se meteu numa polêmica com o colega Pedro Lessa e, numa carta a um jornal, retida por amigos e publicada anos depois, chamou Lessa de "pardavasco alto e corpanzudo, pernóstico e gabola (que) raspa a cabeça para dissimular a carapinha". Mais: "alimária" e "cavalgadura".
As malquerenças no Supremo Tribunal Federal são velhas e gerais. O que mudou, talvez para melhor, foi a presença da câmeras de televisão na corte. Afinal, se uma pessoa é filmada enquanto se coça num elevador, porque um juiz não pode ir ao ar num debate público?
Hoje no STF há ministros que não se cumprimentam. Na década de 80, Xavier de Albuquerque foi-se embora por não tolerar seu colega Moreira Alves e, nos 70, por pouco Aliomar Baleeiro não encestou Eloy da Rocha.
As gerentonas
A companheira Graça Foster recebeu de uma amostra de 800 gestores de 300 instituições financeiras da América Latina agrupados pela revista "Institutional Investor" o título de melhor executiva do setor de petróleo, gás e petroquímica.
Ela assumiu a presidência da Petrobras em 2012, quando o valor de mercado da empresa era de algo como R$ 250 bilhões e sua dívida bruta estava em cerca de R$ 140 bilhões. Em junho ela valia uns R$ 202 bilhões, devendo perto de R$ 190 bilhões.
Se a companheira Graça é uma boa executiva, a doutora Dilma, que controla o preço dos combustíveis, é uma má gerentona.
Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e indignou-se com o STJ. Ele estava de malas prontas para Goiânia, onde pretendia criar a Associação de Proteção aos Cretinos. Lá funciona a 2ª Turma Julgadora Mista dos Juizados Especiais. Um banco fez mais uma das suas com um cliente, tungando-o em cerca de R$ 20, e os doutores condenaram-no a devolver o dinheiro, cobrando-lhe mais R$ 5 mil por danos morais. Bem feito.
Eremildo percebeu que criaram uma terceira modalidade de indenização, aquela por "dano social". No caso, cobraram mais R$ 10 mil, determinando que o dinheiro fosse mandado para o Conselho da Comunidade de Minaçu. Noutro caso, mandaram levar a ajuda para o Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser. O STJ detonou a brincadeira e a Associação dos Cretinos ficou para depois.
Maracanã
Pelo andar da carruagem, o consórcio da Odebrecht com Eike Batista poderá receber alguma compensação pela exclusão da pista de atletismo e do parque aquático vizinhos ao estádio da área da concessão que lhes foi dada.
Faz sentido, porque o consórcio foi prejudicado pelo recuo do governador Sérgio Cabral diante do ronco das ruas. Fica uma pergunta: Se havia um negócio e agora há outro, não seria o caso de recomeçar do zero, com uma nova licitação?
Humor petista
Quando o comissariado estava certo de que melaria o caso do mensalão, Delúbio Soares, tesoureiro de partido e gerente de sua caixa dois, disse o seguinte:
"A denúncias serão esquecidas e vão virar piada de salão."
Com ele na cadeia.
Elio Gaspari
Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de "Poder".

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Mario Cesar Carvalho

folha de são paulo
Suspeita de cartel faz TCE reavaliar contratos
Ministério Público de Contas pedirá ao tribunal nova análise de procedimentos julgados regulares de 19 empresas
Órgão diz que denúncia da Siemens ao Cade traz 'fatos novos'; conselheiro aponta falha em vários aditivos
DE SÃO PAULOO Ministério Público de Contas em São Paulo, que atua no Tribunal de Contas do Estado, quer que o órgão julgue novamente contratos que haviam sido considerados regulares das 19 empresas que aparecem na denúncia de cartel feita pela Siemens. A empresa fez a acusação ao Cade, o órgão federal encarregado de evitar práticas contra a concorrência.
Implantado neste ano em São Paulo, o Ministério Público de Contas fiscaliza os julgamentos do tribunal.
A denúncia da Siemens mudou tudo, segundo o procurador José Mendes.
"Os contratos das empresas que fazem parte, em tese, do cartel precisam ser analisados de novo porque surgiu uma informação nova", diz.
A informação nova foi a revelação pela Siemens de que ela e outras 18 empresas combinavam preços e dividiam lotes de concorrências do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM) para que o ganho delas com os contratos fosse mais elevado.
A própria Siemens disse na confissão que o preço seria menor se não houvesse o conluio entre as empresas.
A Siemens fez a denúncia ao Cade em troca de uma punição mais branda para o grupo e seus executivos, como prevê a lei concorrencial.
A lei orgânica do TCE prevê um novo julgamento sempre que surja um fato novo, segundo o conselheiro Roque Citadini, presidente do órgão.
No acordo feito com o Cade, a Siemens cita que houve conluio em 16 contratos com o Metrô e a CPTM, assinados de 1999 a 2008.
Levantamento feito pela Folha no TCE mostra, que desses 16 contratos, quatro foram considerados irregulares e dois ainda não foram julgados (são justamente os de valores mais elevados, duas compras de trens por R$ 1,39 bilhão). O Ministério Público de Contas quer rejulgar os dez casos que haviam sido considerados regulares.
Entre eles, estão dois contratos para modernização de trens da CPTM. Um desses contratos é citado pela Siemens no documento do Cade. "(...) Caso as empresas não firmassem um acordo anticompetitivo, a Siemens apresentaria uma proposta comercial de valor bem mais baixo [...]. Em uma situação de competição efetiva, a Siemens apresentaria uma proposta de valor até 30% mais baixo".
Nos dois casos, a licitação, o contrato e os aditivos foram considerados irregulares pelo TCE. O órgão considerou que a CPTM restringiu a competição e direcionou a disputa ao exigir certos atestados técnicos das empresas.
Citadini afirma que o baixo número de contratos julgados irregulares pode ser um equívoco.
"A licitação podia estar correta do ponto de vista formal, mas os aditivos foram considerados irregulares pelo tribunal. Isso ocorreu na maior parte dos casos das empresas que supostamente faziam parte do cartel."
O eventual "rejulgamento" pode ter quatro consequências para as empresas: elas podem advertidas, multadas, suspensas de negócios públicos por dois anos e declaradas inidôneas.
A declaração de inidoneidade é raríssima e só ocorreu recentemente com a empreiteira Delta. Ela recebeu esse rótulo da Controladoria-Geral da União (CGU) em 2012.

Quilombola envolvido em disputa de terras é assassinado em Belém

folha de são paulo
QUESTÃO AGRÁRIA
DE SÃO PAULO - Um líder quilombola envolvido em disputas de terras com fazendeiros na ilha do Marajó (PA) foi morto anteontem.
Segundo informações do Ministério Público Federal, Teodoro Lalor de Lima, conhecido como "seu Lalor", foi assassinado com uma facada nas costas, na periferia de Belém, capital do Pará.
A Polícia Civil do Estado apura o homicídio. Lalor vivia na cidade de Cachoeira do Arari e lutava pela titulação de terras para quilombolas.
Nos últimos anos, fez denúncias à Procuradoria sobre ameaças e violências contra essa população.
O Ministério Público Federal informou que vai enviar à polícia documentos com relatos de ameaças, expulsões e até prisões ilegais contra os quilombolas da comunidade de Gurupá, onde vivia Lalor.

Painel Vera Magalhães

folha de são paulo

PMDB diz que Dilma não vencerá com folga em Minas Gerais, Bahia, Ceará e Pernambuco

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Valorizando o passe Peemedebistas apresentaram ao presidente do PT, Rui Falcão, anteontem, no Palácio do Jaburu, um mapa comparando a votação em cada unidade da federação na vitória de Dilma Rousseff sobre José Serra por 12 milhões de votos em 2010. Pelos cálculos do partido de Michel Temer, a petista não contará agora com a mesma folga em Estados como Minas Gerais, Bahia, Ceará e Pernambuco. "Fizemos o cálculo para mostrar que a coisa não será tão fácil assim'', relata um presente.
Obstáculo 1 A maior diferença de Dilma para Serra foi na Bahia, onde a petista teve 2,8 milhões de votos a mais. O argumento do PMDB: Geddel Vieira Lima, rompido com o PT, vai levar o partido a apoiar outro candidato.
Obstáculo 2 Minas e Pernambuco devem dar boas votações a Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB), respectivamente, caso sejam candidatos. E no Ceará há outro peemedebista insatisfeito, o senador Eunício Oliveira.
No bule Eduardo Campos (PSB) grava na próxima terça-feira participação no quadro "Dois dedos de prosa", do Programa do Ratinho, do SBT, cuja audiência se concentra nas classes C e D. Este ano, já passaram por lá Aécio Neves e Marina Silva (Rede).
No cofre O governador de Pernambuco receberá hoje para uma conversa sobre conjuntura, no Recife, André Esteves, CEO do BTG Pactual, juntamente com a diretoria do banco de investimentos.
Timing Diante do mal-estar manifestado por aliados de José Serra, o almoço dos deputados estaduais do PSDB de São Paulo com Aécio foi adiado para o dia 29. O partido decidiu ainda estender o convite do encontro aos representantes paulistas da direção nacional da sigla.
Pendência A Procuradoria-Geral Eleitoral concluiu que o Solidariedade, partido que Paulinho da Força tenta criar, não cumpriu a exigência mínima de assinaturas em Rondônia e precisará pedir nova certidão de apoio antes de ter seu registro nacional.
Coincidência Paulinho nega que esteja por trás da nova legenda, mas cinco advogados que representam o Solidariedade já atuaram a favor da Força Sindical.
Chicana 1 Mesmo com pedido de Luís Roberto Barrroso na semana passada, Joaquim Barbosa não liberou para a defesa a pauta de análise dos agravos do mensalão. Advogados se queixavam ontem de ter de pedir informações à assessoria do tribunal.
Chicana 2 "É uma falta de urbanidade e respeito. Vindo dele, nada mais me surpreende", diz Luiz Fernando Pacheco, que defende o deputado José Genoino.
Vaquinha A mulher de Natan Donadon (PMDB-RO), deputado preso após determinação do STF, tem pedido ajuda financeira a parlamentares para custear as despesas de advogado do marido.
Batata... Integrantes do governo discutem relatório aprovado em comissão do Senado que determina a universalização do atendimento a estudantes com deficiência na rede regular de ensino.
... quente Gleisi Hoffmann esteve com José Pimentel (PT-CE), relator do projeto, e reafirmou compromisso de Dilma em manter decreto que diz que a oferta de educação especial se dará "preferencialmente" na rede regular. Já o Ministério da Educação acredita que o atendimento deve ser integrado.
Onde pega A medida retiraria de entidades como a Apae a possibilidade de oferecer atendimento especial substitutivo à educação na rede regular, além de reduzir o repasse de recursos a essas entidades. As Apaes defendem a redação do texto com a palavra "preferencialmente".
Visita à Folha Paulo Bernardo, ministro das Comunicações, visitou ontem a Folha, a convite do jornal, onde foi recebido em almoço. Estava com Alessandra Cardoso, chefe de gabinete.
*
TIROTEIO
A desvalorização do real indica que, em três meses, a inépcia da política econômica do governo empobreceu os brasileiros em 20%.
DO EX-DEPUTADO LUIZ PAULO VELLOZO LUCAS (PSDB-ES), sobre a alta do
dólar e seus possíveis efeitos sobre o poder de compra da população do país.
*
CONTRAPONTO
Toque outra vez, Zé
José Eduardo Cardozo (Justiça) jantava no fim de semana com correligionários em uma tradicional cantina paulistana. Na saída, seu grupo foi abordado por um rapaz na mesa ao lado, que, avistando um piano no restaurante, disse para um amigo do ministro:
-Já que ele carrega o piano em Brasília, sugira que ele toque para acalmar a presidente.
Os frequentadores da cantina caíram na gargalhada e o ministro tocou duas breves canções.
Com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
painel
Vera Magalhães é editora do Painel. Na Folha desde 1997, já foi repórter do Painel em Brasília, editora do caderno 'Poder' e repórter especial.

Elio Gaspari

folha de são paulo

Me engana que eu gosto

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Com o conhecimento do governo americano, a polícia inglesa deteve por cerca de nove horas e interrogou no aeroporto de Heathrow o cidadão brasileiro David Miranda, que desembarcara de um voo procedente de Berlim, a caminho do Rio de Janeiro. O chanceler Antonio Patriota disse que o episódio "não é justificável" e informou que os dois governos continuarão tratando do caso. Já o embaixador da Grã-Bretanha em Brasília foi mais preciso: o assunto "continua sendo uma questão operacional da Polícia Metropolitana de Londres". Aleluia: Sua Majestade tem um governo que fala claro na defesa dos seus interesses.
Patriota precisa definir o que "não é justificável", pois o embaixador inglês justificou-se. Nada de novo. Em julho de 2005 o brasileiro Jean Charles de Menezes, que vivia em Londres com todos os papéis em ordem, saiu de casa, entrou num vagão de metrô e tomou sete tiros na cabeça. A Polícia Metropolitana de Londres confundira-o com um terrorista e "lamentou o episódio". Sua família recebeu uma indenização de cem mil libras. Cinco anos depois, Tony Blair, o primeiro-ministro da ocasião, publicou um livro de memórias no qual lamentou o "terrível erro", lembrando que ficou "profundamente entristecido pelos policiais que estavam agindo de boa-fé, tentando garantir a segurança do país". Aleluia de novo. Os governantes ingleses defendem suas polícias. Já as autoridades brasileiras agem de maneira diversa: depois da morte de Jean Charles, Blair foi convidado para prestar serviços de consultoria ao Rio de Janeiro, preparando-o para a Olimpíada.
Nessa época o governo inglês tentava criar, nos aeroportos de Pindorama, barreiras para viajantes brasileiros.
Milhares de nativos eram deportados ao descer em aeroportos europeus. Uma pesquisadora da Universidade de São Paulo foi recambiada de Madrid enquanto estava a caminho de Lisboa. Só depois de alguma gritaria o Itamaraty adotou um critério de reciprocidade, devolvendo espanhóis. Veio a crise e hoje é a Espanha que manda gente para o Brasil, sempre bem recebida.
Em julho o doutor Patriota repudiou o procedimento dos governos de Portugal, Espanha, França e Itália, que negaram direito de sobrevoo ao avião do presidente Evo Morales porque supunha-se que tinha a bordo o americano Edward Snowden. Deu em que? Detiveram o companheiro do jornalista americano que divulgou os documentos secretos coletados pelo ex-funcionário da CIA.
Se governos da Europa e dos Estados Unidos acreditam que suas leis especiais justificam-se porque o combate ao terrorismo é um conflito mundial, o receituário da Guerra Fria poderia ser ressuscitado. O governo brasileiro conhece as identidades dos funcionários ingleses que trabalham para o serviço de informações e vivem aqui, sob o guarda-chuva diplomático. Basta pedir que um deles retorne ao seu país, o que não chega a ser uma punição pessoal.
Seria apenas um gesto capaz de materializar o desagrado do governo, como fez a rainha Vitória com o ditador boliviano Melgarejo. Ele amarrara o embaixador inglês a uma mula e a soberana mandou bombardear La Paz. Ao saber que a cidade ficava fora do alcance de seus canhões, riscou a Bolívia de seu mapa e declarou que ela não existia mais.
Elio Gaspari
Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de "Poder".

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Tem de chamar a polícia para cartel, diz diretor da Siemens

folha de são paulo
MARIO CESAR CARVALHO
DE SÃO PAULO
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O advogado americano Peter Solmssen tem uma batata quente na mão. É responsável por evitar pagamento de propinas e formação de cartel na Siemens, dois crimes que se tornaram tão comuns no grupo alemão na última década que ele teve que criar uma força-tarefa mundial para limpar a empresa.
A autodenúncia feita no Brasil, na qual a Siemens diz ter combinado preços de metrô com 18 companhias, faz parte desse processo.
Com a delação, uma série de negócios do Metrô de São Paulo e de Brasília são investigados sob suspeita que de houve conluio entre as empresas para elevarem o preço da concorrência.
O americano Solmnssen, 58, ex-vice-presidente da GE, diz que a autodenúncia não é mero marketing. Na entrevista à Folha, feita por telefone a partir de Munique, ele afirma: "As pessoas que tentarem combinar preços vão saber que nós vamos chamar a polícia". É a primeira vez que um executivo da empresa fala sobre o caso brasileiro.
Na Siemens desde 2007, onde é diretor mundial de "compliance" [controle ético ou conformidade com as leis] e membro do conselho, ele defende que empresas éticas têm mais lucros. O ano em que a Siemens teve mais ganhos, segundo ele, foi 2007, quando o grupo recebeu US$ 1,3 bilhão (R$ 3,1 bilhões) em multas por pagamento de propina e prática de cartel.
Siemens AG Pressebilder/Presspicture
O executivo da Siemens Peter Solmssen
O executivo da Siemens Peter Solmssen
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Folha - O sr. acredita que cartel é um crime?
Peter Solmssen - Sim, é crime em vários países.
Então alguns executivos seus no Brasil são criminosos?
Sim. Entretanto, a lei incentiva os bons indivíduos a revelarem os atos ilegais.
O fato de os executivos terem revelado o próprio cartel elimina o crime?
A intenção da autodenúncia não é eliminar o crime. É resolver a questão criminal, o comportamento criminoso.
Em 2007, a Siemens recebeu multas que somam US$ 1,3 bilhão após um grande escândalo sobre o pagamento de propina. Por que nós temos que acreditar que o "compliance" não é só estratégia de marketing para limpar a imagem da empresa?
Não vejo as coisas assim. Enfrentamos o mesmo problema de integridade na década de 1950. Nós acreditamos que o negócio limpo é um bom negócio. Em 2007 [após a série de escândalos de 2006], a nossa participação no mercado cresceu, os ganhos cresceram.
Em 2008, um executivo da Siemens do Brasil enviou uma carta anônima ao grupo na Alemanha relatando os mesmos problemas que apareceram agora no acordo de leniência. Por que a Siemens não fez nada quando recebeu essa carta?
Recebemos informação desse tipo do mundo inteiro e investigamos as acusações. Não é fácil apurar essas coisas porque não somos polícia. Não podemos abrir contas bancárias. Não é fácil obter informação fora da Siemens. Não achamos evidências de corrupção nessa carta.
Alguns casos no Brasil ocorreram em 2007, após a companhia ter dito que criara um sistema de "compliance" mais ativo. O sr. acha que o "compliance" funciona bem mesmo com esses casos novos?
O nosso sistema não tem a capacidade de eliminar o mau comportamento de executivos. Temos 370 mil empregados no mundo inteiro.
O acordo no Brasil cita apenas negócios na área de transporte. O sr. tem certeza a Siemens não participa de cartel nos mercados de gás, eletricidade e equipamentos médicos?
Não sei a resposta. Só reportamos o que sabemos. Temos um programa de "compliance" muito bom, investigamos no mundo todo e foi isso o que descobrimos. Após 2007, ficou difícil violar nosso sistema.
Investigadores do caso Siemens no Brasil afirmam que não existe cartel sem pagamento de propinas a políticos e funcionários públicos. Por que a Siemens não cita propina no acordo?
Só reportamos às autoridades brasileiras o que temos evidências das informações.
Alguns especialistas dizem que a Siemens fez a autodenúncia para se livrar de futuras acusações criminais.
Eu ouço sobre isso em todo o mundo. Não é verdade. Nós abrimos para as autoridades uma série de informações muito importantes nos EUA, no Reino Unido e, inclusive, no seu país.
Autodenúncia não é apenas para evitar o pior?
Autodenúncia é muito importante para "compliance", inclusive do ponto de vista interno. Se você encontra alguma coisa errada internamente, pode mudar o comportamento dos empregados. Não se esqueça que companhias são feitas por pessoas, e de vez em quando elas são estúpidas, cometem equívocos. Pode ser doloroso, mas temos que chegar à verdade para resolver essas coisas.
Eu vi uma conferência sua em outubro, quando o sr. disse para jovens líderes que é "muito fácil" combater a corrupção: é só dizer não. Se é muito fácil, por que a Siemens fracassou no Brasil, pelo menos?
Talvez estejamos confundindo duas coisas ["compliance" e abordagem psicológica]. Dizer não, dito de outra forma, é fazer a coisa certa. É uma questão psicológica. A empresa tem de ajudar a oferecer ajuda e treinamento para as pessoas fazerem a coisa certa. Se alguém tentar fazer a coisa errada, nós devemos ajudá-lo. Tentamos fazer isso com todos os nossos empregados: não aceite tentações, não aceite pressões, não seja fraco, só diga não.
Não é simplista, tal como os conservadores americanos fazem com sexo entre adolescentes, usar o slogan "só diga não"?
[Risos] Não. Só dizer não pode ter uma influência muito forte. A questão é por que as pessoas não fazem a coisa certa. Nós tivemos um caso de pagamento de propina dois anos atrás no Oriente Médio. Eu fiz essas mesmas perguntas. Por que esse cara fez isso? Ele foi treinado. Ele sabe que é perigoso, que é ilegal, que é estúpido.
O sr. continua achando que combater a corrupção é uma questão simples?
A questão simples é aprofundar o efeito [da cultura anticorrupção]. Líderes de uma companhia são como os líderes de um país: devem lembrar as pessoas de coisas óbvias. As pessoas ficam muito nervosas nessas horas [de autodenúncia]. Estamos muito calmos. Achávamos que tudo isso iria ocorrer. O processo normal logo voltará. Mas as pessoas, nossos funcionários e parceiros que tentarem combinar preços vão saber que nós vamos chamar a polícia.

Painel - Vera Magalhães

folha de são paulo
Linha direta
Fora de Brasília para participar de evento em São Bernardo do Campo, ontem, Dilma Rousseff recebeu informações durante todo o dia sobre a alta do dólar, que atingiu o maior valor desde 2009. De Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, ouviu que a variação atingia o mundo todo, e que só a moeda da China resistia. Já Guido Mantega (Fazenda) informou a presidente que a alta era resultado de compra de dólares por empresas em busca de "hedge" em operações futuras.
Última... Os advogados de José Dirceu protocolaram ontem no STF novos memoriais reforçando que o acórdão do mensalão não permite que seja usada a lei 10.763, de novembro de 2003, que estabeleceu penas mais graves para o crime de corrupção.
... que morre O texto faz menção ao bate-boca entre Joaquim Barbosa e Ricardo Lewandowski, suscitado pela mesma questão, levantada pela defesa do ex-deputado Bispo Rodrigues. Os advogados veem "gravíssima contradição" no uso da nova lei para punir fatos anteriores.
VIPs Dirceu recebeu amigos como Delúbio Soares, também condenado no mensalão, e o ex-prefeito de Osasco Emídio de Souza para almoço em sua casa de Vinhedo. Segundo relatos, foi feita uma "leitura sem paixões" do julgamento, sem otimismo.
Favorito Interlocutores do Judiciário apontam Eugênio Aragão como provável vice-procurador-geral eleitoral na gestão de Rodrigo Janot, indicado por Dilma para comandar o Ministério Público.
Quem sai O subprocurador, que foi cotado para a vaga de Carlos Ayres Britto no STF, deverá substituir Sandra Cureau, considerada linha-dura por petistas pela atuação na campanha de 2010.
Histórico Em 2005, Aragão foi acusado por integrantes da Polícia Federal de ajudar a convencer autoridades dos EUA a não repassarem documentos relativos a movimentações do mensalão no exterior, como as do publicitário Duda Mendonça.
Força Abalado pelos protestos contra a sua gestão no Rio, Sérgio Cabral pediu audiência com Dilma amanhã. Ele e a presidente devem almoçar juntos após a reunião.
Nas asas... Relatório da FAB revela que autoridades brasileiras fizeram 5.502 viagens em aeronaves oficiais de janeiro de 2010 a junho de 2013, uma média de 30 voos por semana. Os dados foram requeridos ao Ministério da Defesa pelo senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP).
... da FAB Os campeões de viagens no período são a presidência da Câmara (268), o Ministério da Saúde (255) e o Ministério da Fazenda (242). Outras seis pastas superam a média de uma viagem semanal: Justiça, Defesa, Relações Institucionais, Esporte, Educação e Desenvolvimento.
Cerco O Ministério da Saúde e a ANS anunciam hoje a suspensão da venda de 300 planos de saúde por atrasos em atendimentos e recusa de cobertura sem justificativa. A punição faz parte de uma campanha de fiscalização que já proibiu o comércio de 396 planos de 56 empresas desde dezembro de 2011.
Subliminar Alexandre Padilha (Saúde) não participou da viagem oficial de Dilma ao ABC paulista, mas deu as caras por lá: o possível candidato do PT ao governo de São Paulo apareceu no telão do evento, quando a emissora de TV do governo federal testava seu sistema.
Visita à Folha Moreira Franco, ministro da Secretaria de Aviação Civil, visitou ontem aFolha, onde foi recebido em almoço. Estava acompanhado de José Negreiros, assessor de imprensa.
TIROTEIO
"Janot traz perspectiva de novas dinâmicas. Não há por que os senadores ficarem reféns de desentendimentos do passado."
DE ALEXANDRE CAMANHO, presidente da ANPR, que diz esperar que o Senado supere embates com Roberto Gurgel e aprove Rodrigo Janot para sucedê-lo.
CONTRAPONTO
Bloco da saudade
A campanha pela volta de ex-presidentes ao poder não é exclusividade das trincheiras petistas e passou a ecoar também entre partidários do PSDB.
Ao subir ao palco de um debate que marcou o lançamento de seu último livro, "Pensadores que inventaram o Brasil", no Conjunto Nacional, em São Paulo, Fernando Henrique Cardoso escutou um grito da plateia:
-Volta, presidente!
Desconcertado, FHC brincou:
-Só se for para casa! - disse, arrancando gargalhadas dos convidados.

    Comissão pretende confrontar coronel Ustra com vítima de tortura

    folha de são paulo
    Acusado de crimes de lesa-humanidade, Brilhante Ustra comandou DOI-Codi de São Paulo no auge da repressão
    No 1º depoimento, em maio, oficial defendeu ditadura militar, negou crimes e afirmou que apenas cumpria ordens
    LUCAS FERRAZDE SÃO PAULOA Comissão Nacional da Verdade quer um novo depoimento do coronel reformado do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, 81, símbolo da tortura na ditadura militar (1964-1985).
    O anúncio foi feito ontem por uma das integrantes do grupo, Rosa Cardoso, que participou em São Paulo de audiência conjunta com a Comissão Estadual da Verdade.
    Oficial que comandou o DOI-Codi de São Paulo de 1970 a 1974, auge da repressão, Ustra é acusado de vários crimes de lesa-humanidade. Ontem, Rosa o chamou de "macabro herói tropical".
    O coronel é o primeiro --e até agora único-- militar declarado torturador pela Justiça brasileira.
    Ele prestou depoimento à Comissão da Verdade, em Brasília, em maio deste ano. Defendeu a ditadura, negou os crimes e afirmou que somente cumpria ordens.
    A audiência foi criticada sobretudo pela passividade dos integrantes da comissão.
    O resultado foi insatisfatório, reconheceu Rosa Cardoso. "Não tínhamos experiência, e à época ficou decidido não confrontá-lo com testemunhas para não se transformar numa sessão longa. Agora devemos fazer isso", afirmou, citando como exemplo as audiências que ocorreram no Rio na semana passada.
    Além de acareações, o grupo quer usar novos documentos do período para inquirir o coronel sobre sessões de torturas e mortes no DOI-Codi --no período que Ustra chefiou o centro, a comissão contou 502 casos de maus-tratos e mais de 40 mortes.
    Ontem, familiares de desaparecidos apresentaram informações sobre episódios --todos eles já conhecidos-- que teriam tido a participação direta de Ustra.
    A ex-presa política Amélia Teles disse ter sido torturada pelo coronel, ao lado do companheiro e da irmã grávida. Também foram entregues papéis sobre o assassinato de Luiz Eduardo Merlino, em 1971, morte que embasou uma das condenações do coronel na Justiça.
    Indagada sobre o motivo de a comissão voltar a Ustra, e não buscar generais ou outros oficiais da cúpula militar também suspeitos de crimes, Rosa Cardoso afirmou que é preciso focar os "símbolos da ditadura".
    "Pegar os símbolos é importante para que a sociedade saiba o que aconteceu, podemos ter uma repercussão três vezes maior", disse.
    Ustra nega os crimes. A mulher dele, Joseíta Ustra, afirmou à reportagem que não teria como localizar ontem o advogado Paulo Esteves, que fala pelo cliente.
    DESFALCADA
    Esta será a última semana de Rosa Cardoso como coordenadora da comissão. Ela disse que soube pelos jornais que José Carlos Dias foi designado para ocupar o posto.
    Ela nega crise no grupo. Afirmou apenas que há "visões políticas diferenciadas".
    Há dois meses a comissão atua com dois integrantes a menos. Gilson Dipp saiu por questões médicas. Cláudio Fonteles, a última baixa, por discordância política.
    A presidente Dilma prometeu para breve, mas ainda não anunciou os substitutos.
      RAIO-X CARLOS ALBERTO BRILHANTE USTRA
      Idade: 81 anos
      Ocupação: coronel reformado do Exército
      ATUAÇÃO
      Chefiou, de 1970 a 1974, o DOI-Codi de São Paulo, um dos principais centros de repressão do Exército durante a ditadura
      ACUSAÇÕES
      Ter comandado torturas em presos políticos e torturado pessoalmente algumas vítimas
      502 PESSOAS
      Foram torturadas no DOI-Codi no período em que o órgão esteve sob o comando de Ustra, segundo levantamento do projeto "Brasil Nunca Mais"
      ENFRENTA NA JUSTIÇA
      2 ações cíveis e
      3 denúncias criminais
      CONDENAÇÕES
      - Em 2008, ele se tornou o primeiro militar a ser declarado pela Justiça como torturador do regime, em ação movida pela família Teles; Ustra recorre
      - Em 2012, foi o primeiro agente da ditadura condenado a pagar indenização a parentes de uma vítima da repressão, no caso do jornalista Luiz Eduardo Merlino; Ustra recorre
      O QUE ELE DIZ
      Nega ter comandado ou praticado tortura

        Janio de Freitas

        folha de são paulo
        A farra e depois
        Esse tipo de manifestação sabe-se onde pode dar: se deixado a si mesmo, esgota-se na alegria de existir
        A pergunta não silenciou, nem mesmo por cansaço de repetição. Quando não se insinua, está latente nas inevitáveis referências a tais ou quais ações chamadas, apesar de suas diferenças, de manifestações. E não é possível, mesmo, resposta abrangente para o que pode resultar da atual onda de atos com modos e feitos tão diferentes.
        Muitas dessas manifestações parecem satisfazer-se no simples fato de acontecer. Outras pretendem justificar-se como reivindicações que independem de sua viabilidade, já a partir da insignificância do número de reivindicantes. Muitas por falta de sentido, reivindicando de um prefeito medidas que são do Estado, e vice-versa. Mas já dispomos de algumas indicações.
        É o caso, por exemplo, de saudar-se a volta da prática de camping, em modalidade adaptada às circunstâncias e ainda que seus praticantes pensem fazer outra coisa. A tolerância que as polícias afinal adotaram nos pequenos aglomerados diante das casas de Sérgio Cabral, Renan Calheiros e vários outros deixou claro o sentido mais forte a motivar essas manifestações. A moçada está se divertindo, é uma ótima brincadeira, uma farra diferente.
        Para tomar por todos, o grupinho em frente à casa de Cabral não espera que sua presença ali provoque renúncia, é claro. Mas diverte-se no próprio grupo, satisfaz-se em obturar o trânsito dia e noite, orgulha-se com as levas de curiosidade alheia à sua volta. O estrelato.
        O velho camping extinto pelos assaltantes retorna em nova modalidade e, melhor, protegido pela polícia que faltou ao original. Esse tipo de manifestação sabe-se onde pode dar: se deixado a si mesmo pela tolerância policial, esgota-se na alegria de existir.
        Do gênero oposto --o predador-- começa-se a dizer o necessário. Os direitos de terceiros e o patrimônio público têm que ser defendidos. Mas nem se está mais nesse nível de necessidade, apenas. A escalada da violência se expõe toda em fato que vim a saber depois de artigo sobre o ataque de baderneiros ao Hospital Sírio-Libanês: na ocasião, os atacantes quiseram até arrancar um doente de dentro de uma ambulância.
        Deste outro tipo de alegadas manifestações convém prevenção dupla. Desde logo, para o alto risco da tragédia que não costuma faltar em situações semelhantes, com a morte estúpida. Policiais irascíveis ou atemorizados aumentam o risco, mas, além disso, também muitos outros são agredidos em violências iniciadas pelos arruaceiros. Como ação ou reação, o pior não está evitável.
        Na imprensa, se ocorre algo errado e envolve polícia, estamos antecipadamente prontos para acusá-la, com acertos e com erros. Se a vocação da tragédia se confirmar em um dos confrontos desatinados, e seu risco é grande, um erro de acusações precipitadas tenderá a consequências complicadas. A sensibilidade da situação presente é grande.
        Por isso mesmo, e ainda por mais, justifica-se a inquietação com o que anunciam, soturnamente, para o 7 de Setembro. Se for mera provocação, ao que muitos imaginam, ótimo. Mas os indícios dizem não ser essa a hipótese que deve ser trabalhada.

          segunda-feira, 19 de agosto de 2013

          'Voz das ruas' ainda não ecoa no Planalto - Tai Nalon

          folha de são paulo
          Das 453 demandas sociais consideradas prioritárias pelo governo, só 10% remetem a pleitos das manifestações
          'Ouvidoria' de Dilma com movimentos, a Secretaria-Geral da Presidência privilegia causas do campo
          TAI NALONDE BRASÍLIA
          A "voz das ruas" que a presidente Dilma Rousseff tem prometido ouvir desde o auge das manifestações de junho ainda não encontrou eco no Palácio do Planalto.
          As principais reivindicações de movimentos que endossaram as passeatas não estão entre as prioridades da Secretaria-Geral da Presidência, que funciona como a ouvidoria do governo com entidades que não mantêm diálogo constante com o PT.
          O Planalto acumula desde o ano passado 1.774 pleitos oriundos de movimentos sociais, dentre os quais 453 são considerados prioritários.
          Desses últimos, só 10% guardam alguma identificação com o que motivou a onda de protestos, segundo documentos da Secretaria-Geral obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação.
          Entre as prioridades, por exemplo, apenas uma cita a palavra "corrupção" --a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil pede autonomia financeira e administrativa de unidades que cuidam da saúde dos índios, "evitando a reprodução de práticas de corrupção, apadrinhamentos políticos e o agravamento da situação de abandono".
          CRITÉRIO
          Segundo a pasta, serão priorizados os acordos em andamento com movimentos sociais; as demandas que já fazem parte dos planos de órgãos oficiais; e reivindicações identificadas como principais pelos próprios movimentos em rodadas de negociação.
          O Planalto, contudo, tem privilegiado interlocutores históricos do PT. A maioria dos pleitos à frente da fila foram apresentados por movimentos do campo e seus departamentos sindicais, como a Contag (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura) e a Fetraf (Federação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar).
          Das 453 prioridades, 93 são da Marcha das Margaridas, que representa movimentos em defesa da mulher ligados à luta pela terra, 84 da Fetraf e 64 da Contag. Juntas, elas respondem por 53% da lista.
          Os documentos revelam ainda que a Secretaria-Geral contabiliza como prioridade pedidos muito específicos, como "assegurar enquadramento previdenciário na condição de trabalhadores rurais aos operadores de máquinas agrícolas, cozinheiras rurais, vaqueiros e capatazes".
          Também lista pleitos etéreos como elaborar "conjunto de políticas públicas com objetivo de garantir os direitos sociais da juventude".
          O governo diz que o tratamento entre as demandas dos movimentos rurais e "urbanos" são diferentes exatamente pela distinção de suas origens e porque os camponeses têm histórico de grandes atos anuais em Brasília.
          As organizações ligadas às manifestações recentes, segundo o Planalto, costumam recorrer a outras estruturas de participação popular, como o conselho coordenado pelo Ministério das Cidades.

          OUVIDORIA
          Respostas do governo são 'monitoradas'
          Comandada pelo petista Gilberto Carvalho, é a Secretaria-Geral da Presidência quem faz a interlocução oficial do governo com os movimentos sociais. Segundo o Planalto, há "estratégias de acompanhamento e avaliação da ação governamental em resposta às demandas dos movimentos sociais".

          Painel - Vera Magalhães

          folha de são paulo

          Secretário de Segurança de São Paulo pedirá a Haddad que retome Operação Delegada

          Ouvir o texto

          Em nome da tropa O secretário de Segurança Pública de São Paulo, Fernando Grella, vai pedir ao prefeito da capital, Fernando Haddad (PT), que reveja a decisão de cancelar a Operação Delegada noturna. O "bico oficial'' de policiais militares, pago pela prefeitura nos horários de folga, aumenta o efetivo nas ruas e incrementa salários dos PMs sem que o governo arque com os custos. Grella teme que o recuo da capital seja seguido por outros municípios que adotaram a Operação Delegada.
          Novo modelo Na conversa, o secretário de Segurança vai propor a Haddad que sejam revistas as atribuições dos PMs na Operação Delegada, para que eles atuem no policiamento, e não apenas como fiscais.
          Figurino Contou a favor da escolha de Rodrigo Janot como novo procurador-geral da República a avaliação, levada a Dilma Rousseff, de que ele teve a carreira marcada pela defesa do papel do Estado, principalmente nas áreas de Saúde e Educação.
          Contraindicação Já no caso de Ela Wiecko foi usado como argumento contrário à sua escolha, além de não ser a primeira colocada na lista tríplice elaborada pelos procuradores, o fato de ser considerada muito corporativista, algo que a presidente quis evitar no perfil do novo PGR.
          Verde-amarelo Dilma começou a discutir o tom do pronunciamento em rede nacional que fará no Sete de Setembro, data em que são previstas novas manifestações em todo o país. Franklin Martins, ex-ministro de Lula, foi consultado sobre o tema em longa reunião na sexta-feira, no Palácio da Alvorada.
          *Bode... * Peemedebistas afirmam que Renan Calheiros (PMDB-AL) pautou a discussão do veto à derrubada da multa de 10% do FGTS para amanhã apenas para a presidente pedir que ele retire a matéria da pauta do Congresso. "E fique devendo uma a ele", diz um parlamentar.
          ... na sala A justificativa de que o veto tranca a pauta se não for votado em 30 dias não explica a pressa em pautar o do FGTS, porque ele ele foi publicado em 25 de julho. Se Renan seguisse o que diz a resolução, o governo ainda teria mais uma semana para negociar com o Congresso.
          *
          TIROTEIO
          Se ele renunciar não será pelo Pezão, mas por ter sofrido impeachment das ruas. E ainda quer vetar meu nome. É muita arrogância!
          DO SENADOR LINDBERGH FARIAS, sobre Sérgio Cabral (PMDB) dizer que deixará o governo para o vice e insistir no apoio do PT ao PMDB no Rio.
          CONTRAPONTO
          A caminho de um evento em comemoração aos 457 anos do bairro da Mooca, em São Paulo, no sábado, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) parou no semáforo e recebeu um panfleto.
          O entregador olhou para o tucano e gritou para seus colegas:
          -Olhem aqui, gente! É o Britto Júnior da Rede Record! Manda um abraço para a Ana Hickmann!
          Ao que o governador emendou, sem jeito, ao motorista:
          -Ganhei o dia! Agora vou ter de ir lá dar um abraço nela
          painel
          Vera Magalhães é editora do Painel. Na Folha desde 1997, já foi repórter do Painel em Brasília, editora do caderno 'Poder' e repórter especial.

          domingo, 18 de agosto de 2013

          Painel - Vera Magalhães

          folha de são paulo
          De caso pensado
          Ministros do STF acreditam que os arroubos verbais de Joaquim Barbosa, intensificados na retomada do julgamento do mensalão, são fruto de uma estratégia calculada. Diante da divisão do colegiado quanto à admissibilidade dos embargos infringentes, que poderiam alterar as penas de vários condenados, o presidente-relator estaria agindo deliberadamente para atrair os holofotes de volta para o Supremo e desencorajar os indecisos a acatar os recursos.
          -
          Em pedaços 1 Ministros do STF acreditam que Barbosa pode optar por publicar de forma fatiada o acórdão resultante da análise dos embargos de declaração do mensalão, à medida que forem analisados pela corte.
          Em pedaços 2 Isso anteciparia o prazo para as defesas contestarem algum ponto por meio de novos recursos, os chamados segundos embargos declaratórios. Com esse método, até o fim do ano o Supremo poderia expedir os primeiros mandados de prisão de condenados.
          Fim... Não é só a demora na certificação das fichas de apoio que preocupa os dirigentes pró-Rede. Eles dizem que o critério de validação das assinaturas e a falta de acesso às fichas recusadas se tornaram uma barreira ainda maior para a criação do partido de Marina Silva.
          ... do túnel Mantido o atual percentual de rejeição de assinaturas, a Rede só atingiria as 492 mil assinaturas necessárias se entrasse com recursos para revisão das fichas recusadas.
          Salto alto De um auxiliar de Dilma Rousseff duvidando das chances de Marina vencer a presidente num eventual segundo turno: "O Brasil não é uma ONG''.
          Pragmático Em conversas recentes, José Serra reconheceu que a realização de disputa interna para a escolha do candidato do PSDB à Presidência é quase impossível, uma vez que Aécio Neves tem o controle do partido.
          Esperança Serra tem dito, no entanto, que o cenário interno ainda pode mudar caso ele se descole do mineiro nas próximas pesquisas. Resta saber se ele vai ficar no partido de olho na reversão do cenário até meados de 2014.
          Match point Eduardo Campos (PSB) comentou com aliados que Lula o chamou para uma partida de tênis ao pedir que ele apoie a reeleição de Dilma. "Eduardo foi lá e devolveu a bola para ele do mesmo jeito que ela veio: perto da linha'', diz um partidário do pernambucano.
          Time O ministro Fernando Bezerra (Integração), que vinha sofrendo pressões do PT nacional para trocar o PSB de Campos pelo partido, fez uma ode ao governador durante evento na sexta-feira.
          Juntos "Sou no governo um representante de Eduardo", disse o ministro. A reaproximação entre os dois foi lida no entorno do pessebista como um sinal de que Bezerra ficará no partido.
          Radar Reservadamente, auxiliares de Geraldo Alckmin (PSDB) já admitem que é grande a possibilidade de ser comprovada participação de agentes públicos nos acordos de cartel em licitações de trem e metrô em São Paulo.
          No papel A Polícia Federal concluiu a análise do material recolhido nas ações de busca e apreensão da Operação Porto Seguro. Relatórios produzidos a partir de documentos e e-mails encontrados nos escritórios e residências dos investigados foram enviados à Justiça Federal.
          Caixa A PF também produziu um laudo contábil, sobre as movimentações financeiras do grupo denunciado.
          com ANDRÉIA SADI e BRUNO BOGHOSSIAN
          -
          TIROTEIO
          "Alckmin foi rápido e transparente ao mandar investigar os contratos de trens e metrô. Quero ver o governo federal fazer o mesmo."
          DO PRESIDENTE DO PSDB, AÉCIO NEVES (MG), apontando suspeitas de cartel em obras no metrô de Porto Alegre e Belo Horizonte, ambas da alçada federal.
          -
          CONTRAPONTO
          Esse cara sou eu
          Ao saber que o deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ) quase foi barrado na entrada de uma reunião no Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia contou a integrantes da Rede Sustentabilidade que quase foi impedida de participar da cerimônia de posse do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.
          A ministra chegou ao evento em um carro particular e foi impedida de entrar por um segurança.
          --Mas eu sou ministra do Supremo Tribunal Federal. Eu preciso estar lá para a posse -- protestou.
          --E eu sou o Roberto Carlos -- respondeu o segurança.

            Janio de Freitas

            folha de são paulo
            Quem quer, apura
            Não é preciso esperar pelos documentos já colhidos pelo Cade, e tão reclamados à toa pelo governador de SP
            O desejo de esclarecer as licitações e compras do metrô paulistano e da CPTM, reiterado pelo governador Geraldo Alckmin, dispõe de caminhos muito mais simples, rápidos e eficientes do que os processos judiciais por ele anunciados. Estes, além de lançarem dúvida sobre a veracidade do desejo, com sua preferência pelo método confuso, e lerdo, correspondem demais a utilidades reeleitoreiras.
            Não é preciso esperar pelos documentos já colhidos na investigação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), e tão reclamados à toa pelo governador. Ao que se saiba, também o governo paulista não é dado a repassar aos investigados por sua polícia as pistas e provas obtidas em investigações ainda sigilosas.
            As licitações, contratações e compras foram feitas pelo governo paulista. É só abrir os seus respectivos arquivos e surgirá uma profusão de documentos com indícios, esclarecimentos, mesmo com provas em um ou em outro sentido, coisas que talvez nem o Cade já tenha. O governo paulista não se deu a esse trabalho simples para embasar as informações esperadas pela opinião pública, até agora só servida de palavrório requentado.
            De fácil acesso nos arquivos está um outro indicador, sempre enrolado em meias explicações pelo governantes e, no caso paulista, parte essencial. São os acréscimos de preço apelidados de reajustes, que só em casos raros refletem motivos justos e não pretextos, convenientes à melhoria do preço feito para vencer. E não menos convenientes a mais participações de terceiros, quartos e outros.
            Na beira do cadafalso estão governos paulistas e o PSDB. Cabe então ao governador Geraldo Alckmin abrir o jogo, mostrar o que se passou conforme a documentação em posse do governo paulista, caso queira deixar mais do que a impressão de tergiversar e fazer gestos ilusórios como resguardo eleitoreiro.
            OS SUPER
            A determinação do Tribunal de Contas da União para corte do supersalários na Câmara deve atingir não 1.100 funcionários, mas 1.677, mais cerca de 50%, conforme levantamento do repórter Vinicius Sassine no "Globo". No Senado, a informação recebida pelo TCU relaciona 464 beneficiados também por vencimentos acima do teto de R$ 28 mil recebido pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.
            O TCU não cobra a devolução do excedente descabido. Quer apenas vê-lo cortado, afinal. Mas se bem que os beneficiários, os detentores de supersalários, não pagaram a si mesmos. E a responsabilização de quem autorizou reiteradamente os pagamentos de notória ilegalidade? Ah, essa violaria a norma da impunidade quando se trata de dinheiro público. Norma, no geral, tabu no Congresso.
            MANIFESTANTES
            As estimativas ficaram entre uns 150 e, com otimismo, uns 200, 220 jovens, que outro otimismo chamou a todos de estudantes. Sentados em esquina da avenida Rio Branco, levaram a um engarrafamento que parou o centro do Rio por mais de cinco horas e estendeu engarrafamentos pela cidade por várias horas, a depender da região. Ensanduichados nos ônibus e ensardinhados nas vans, aqueles por quem foi feita, com a participação dos próprios, a luta contra o aumento das passagens e em defesa dos usuários.
            Os sentados na Rio Branco manifestaram também alguma coisa. Fica por sua conta identificá-la, a seu gosto e ideia.

              Marina critica manifestações violentas e destruição de bens

              folha de são paulo
              Presidenciável diz que anseio por um messias não é bom em nenhuma hipótese
              Ex-senadora afirma que defender meio ambiente implica tratar de economia e de infraestrutura
              RANIER BRAGONDE BRASÍLIA
              Maior beneficiária do abalo que as manifestações de rua causaram no mundo político, a ex-senadora Marina Silva, 55, diz que os protestos que recorrem à violência "extrapolam" os limites da desobediência civil aceitável.
              Tendo saltado de 16% para 26% das intenções de voto, ela diz que foi um "erro em todos os aspectos" a presença de um membro da Rede na depredação do Itamaraty. "No Estado Democrático de Direito existem regras."
              Ela também diz acreditar que o apoio popular ao nome de Joaquim Barbosa à Presidência representa mais um desejo de justiça que uma real aspiração de que o relator do mensalão comande o país: "Desejos por messias não são bons em hipótese alguma".
              -
              Folha - A sra. dizer que não é candidata não contradiz seu discurso de autenticidade?
              Marina Silva - Mas eu não estou dizendo que não sou. Digo que não estou no lugar de candidata, que a candidatura é uma possibilidade.
              Caso a Rede não seja criada a tempo, o nome Marina Silva estará na urna em 2014?
              Não quero falar por hipótese. Estamos focados na Rede.
              Vocês estudam impor limites a doações, têm pouco tempo na TV e palanques fracos nos Estados. Campanha desse jeito não é muito "sonhatismo"?
              Não sei o que você chama de "sonhatismo". Gostaria de saber o que seria muito realismo? É aceitar o que está aí como uma fatalidade e que não existe saída?
              A sra. vê Joaquim Barbosa como um candidato viável?
              O que a sociedade está sinalizando com certeza é que tem um desejo imenso de que a justiça seja feita, que a impunidade deixe de ser uma realidade no nosso país.
              Não como candidato salvador da pátria, um messias...
              Desejos por messias, eles não são bons em hipótese alguma, não existem salvadores da pátria, existem homens e mulheres que se dispõem a construir a pátria.
              A sra. apoia atos que resultam em depredações e confrontos?
              Eu tive um momento muito importante na minha vida na década de 80 quando fizemos os movimentos contra os desmatamentos na Amazônia. Havia um grupo que achava que éramos tão indefesos que tínhamos de enfrentar os jagunços na mesma moeda. Na época eu vi serem assassinados [os ambientalistas] Wilson Pinheiro, Chico Mendes e João Eduardo. Minha opção sempre foi de fazer movimentos pacíficos. Atos de desobediência civil podem ser feitos de forma pacífica, sem desrespeitar direitos fundamentais --por exemplo, agressão às pessoas, ao patrimônio.
              Como as autoridades devem lidar com essas situações?
              No Estado Democrático de Direito existem regras a ser observadas. O Estado está ali para assegurar inclusive os direitos dos manifestantes de se manifestarem, mas também para proteger o patrimônio das pessoas e o patrimônio público.
              A sra. acha que aquele integrante da Executiva da Rede errou no ato do Itamaraty?
              Ele próprio reconhece que errou. Sei que ele errou em todos os aspectos, até porque no meu entendimento não é com uma atitude violenta que se vai resolver os problemas.
              Qual é a impressão que a sra. tem de movimentos como a Mídia Ninja e Fora do Eixo?
              Eles estão vivendo agora uma série de críticas. Não não tive tempo de aprofundar essas críticas. O que merece reparação deve ser reparado. Se tem que algo a ser investigado, tem de ser investigado.
              Petistas dizem que a sra. perderá apoio por causa das suas posições conservadoras.
              Se você fizer uma pesquisa da forma como a ministra Dilma e o governador Serra se portaram nas eleições do segundo turno de 2010, acho que dificilmente conseguiríamos algo mais conservador do que aquele tipo de postura. A diferença é que eu procuro dizer exatamente aquilo que penso.
              A sra. diz que manteve nos últimos anos uma agenda socioambiental. Acha que até a eleição é possível complementar esse perfil?
              Mas quem foi que disse que defender meio ambiente não é tratar de economia, que falar de desenvolvimento sustentável não é falar de infraestrutura, de educação, de ciência, de tecnologia, de agricultura?
              A aparência não é essa: o Datafolha mostra que a sra. é vista pela população como uma das menos preparadas para administrar a economia.
              A população tem direito de saber mais das pessoas que ela não conhece. Imagino que o sociólogo FHC e o operário Lula também tenham suscitado algumas dúvidas.
              Ao se aproximar de André Lara Resende, a sra. não teme ser associada ao governo FHC?
              Se Lula fosse se preocupar em ter ouvido uma série de pessoas que já deram contribuição em vários governos, ele não seria hoje o grande admirador do Delfim [Netto] que ele é.
              Autonomia do BC para a senhora é "clausula pétrea"?
              Autonomia do BC é necessária, fundamental. Eu não acho que devemos é entrar no caminho da institucionalização dessa autonomia.
              Mexeria na Previdência?
              O Brasil precisa encarar as grandes reformas: política, da Previdência, tributária.
              Trabalhista?
              É algo a ser pensado.

              Elio Gaspari

              folha de são paulo

              Barbosa deve desculpas a Lewandowski

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              Na quarta o ministro Joaquim Barbosa deveria pedir desculpas ao seu colega Ricardo Lewandowski, diante das câmeras, na corte. Todo mundo ganhará com isso, sobretudo ele e sua posição, que é a de mandar alguns mensaleiros a regimes carcerários fechados. Barbosa desqualificou como "chicana" uma posição de Lewandowski e, instado a se desculpar, encerrou a sessão, como o jogador que leva a bola para casa. Ao perder uma votação, já disse que "cada país tem o modelo e tipo de Justiça que merece", como se fora um biólogo ucraniano. Já acusara Lewandowski de alimentar "um jogo de intrigas". Já chamou de "palhaço" um jornalista que lhe fizera uma pergunta, mandando-o "chafurdar no lixo", e, há poucas semanas, retomou a melodia, chamando-o de "personagem menor". Meteu-se num debate com o ministro Dias Toffoli condenando o que supunha ser o voto do colega com um argumento dos oniscientes: "Eu sei onde quer chegar". Não sabia. Toffoli, lembrou-lhe que não tinha "capacidade premonitória" e provou: votava com ele.
              Barbosa poderá vir a ser candidato a presidente da República. Mesmo que decida não entrar nessa briga, como presidente do Supremo deve respeitar o dissenso, evitando desqualificar as posições alheias, com adjetivos despiciendos. Fazendo como faz, embaraça até mesmo quem o admira.
              Há ministros que se detestam, mas todos procuram manter o nível do debate. As interpelações de Barbosa baixam-no, envenenando o ambiente. Seriam coisas da vida, mas pode-se remediá-las. Na Suprema Corte americana, antes que comecem os debates (fechados) o presidente John Roberts vai para a porta da sala e começa uma sessão de gentilezas, na qual todos os juízes se cumprimentam. Na saída, ele se apressa, volta ao lugar e recomeça o ritual. Boa ideia. Evitaria a cena de salão de sinuca ocorrida depois da sessão de quinta-feira.
              CABRAL DEFENDE O FORMIGUEIRO-DO-LITORAL
              Em tese, todo dono de fazenda é desmatador e todo dono de terreno é especulador. A esses julgamentos fáceis deve-se acrescentar um terceiro: muitos parques ambientais são piruetas marqueteiras.
              Tome-se o caso do Parque Estadual da Costa do Sol, na região dos lagos fluminenses. Tem cem quilômetros quadrados e estende-se por sete municípios. Foi criado em 2011 pelo governador Sérgio Cabral. Ele não achava boa ideia, mas o secretário do Meio Ambiente, Carlos Minc, já havia marcado um evento para o dia seguinte, convocando a imprensa. Resultado: Cabral canetou a desapropriação da área. Deveria ter depositado 80% do valor da terra, coisa de alguns bilhões de reais. Não o fez. Passados dois anos, parque não há, nem placas.
              A iniciativa tinha diversos defensores, entre eles a organização BirdLife, sediada em Cambridge e presidida pela princesa Takamado, da casa imperial japonesa. Pretende-se, entre outras coisas, garantir a existência do passarinho formigueiro-do-litoral, um bichinho que só existe por lá, ameaçado de extinção.
              A pirueta congelou qualquer construção, apesar de existirem na área diversos condomínios. Bloqueou um empreendimento hoteleiro do Copacabana Palace na praia da Ferradura, em Búzios. Ele criaria centenas de empregos.
              Uma lei da Assembleia poderia revogar o decreto. A que preço? O das convicções dos deputados. Pode-se esperar até 2016, pois se até lá o governo não tiver indenizado os donos das terras, o decreto caduca.
              O evento e a publicidade conseguida em 2011 custarão cinco anos de atraso em investimentos privados na área. Se o governo falasse sério, negociaria o valor das terras desapropriadas e depositaria o ervanário devido. Poderia até pedir algum à princesa Takamado. Preservaria o formigueiro-do-litoral e trataria os Homo sapiens com o respeito que lhes deve.
              ÁGUA NO FEIJÃO
              O ministro Antonio Patriota e o comissariado diplomático do Planalto não deveriam botar água no feijão da visita da doutora Dilma a Washington, em outubro.
              Falta-lhe substância, paciência, mas quando Patriota diz que a inscrição de algumas centenas de brasileiros no programa "Global Entry" do governo americano é um primeiro passo para a abolição dos vistos de entrada nos dois países, sabe que isso é uma nota de três dólares.
              O "Global Entry" facilita a entrada do cidadão que já tem o visto e aceita ser devidamente investigado e cadastrado. Livra-o apenas da fila e do mau humor da imigração local. Com seu passaporte, ele passa direto, atendido num quiosque eletrônico. Quem não tem visto não embarca e, caso desembarque, vai em cana e é devolvido.
              Uma coisa nada tem a ver com a outra.
              EL CID GASTADOR
              Deve-se ao deputado Heitor Férrer uma espiadela nas contas do governador cearense Cid Gomes. Torrou R$ 3,4 milhões abastecendo suas dispensas e salões com taças de cristal, orquídeas, caviar, salmão e crepes de lagosta.
              A Bolsa Gomes é das melhores do mundo. O doutor Cid já levou a sogra à Europa em jatinho fretado (R$ 388 mil). Em 2011 poupou a Viúva e voou nas asas da Grendene, que doou R$ 1,2 milhão para sua campanha e recebe incentivos fiscais do Estado. Contratou por R$ 650 mil um show de inauguração para hospital que não funcionava. Neste ano, quando diziam que ele fora à Coreia negociar investimentos, estava na Europa, com direito a um cruzeiro da costa croata.
              NOVIDADE REAL
              Se Cressida Bonas tiver sorte, casa com o príncipe Harry da Inglaterra e pelas próximas décadas o mundo terá duas mulheres lindas e chiques no plantel das celebridades coroadas: ela e a companheira Kate Middleton, duquesa de Cambridge.
              Cressida tem 24 anos, nome de peça de Shakespeare, foi modelo e é rica herdeira. Ao contrário de Kate, que descende de operários, vem da linhagem onde esteve Lord Curzon, vice-rei da Índia e paradigma do aristocrata inglês do final do século 19. Sua mãe Mary-Gaye Curzon foi uma beldade dos anos 60 e ainda merece o adjetivo. Ela passou por quatro casamentos.
              TRISTE SINA
              Depois da estudantada de 2012, quando o Brasil ajudou a enxotar o Paraguai do Mercosul para incluir a Venezuela, os çábios do Planalto estão lambuzando o novo presidente, Horacio Cartes, para trazê-lo de volta.
              Inventaram um problema onde ele não existia e abriram o caminho para o governo americano, que ficou longe da estudantada e melhorou sua posição junto aos paraguaios.
              PAPA FRANCISCO
              Quem conhece as fumaças do Vaticano acredita que até o fim do ano o papa Francisco mexerá no seu time. A nomeação de novos cardeais, com D. Orani Tempesta na lista, é coisa certa. Algumas mudanças na Cúria, também. Novidade mesmo poderia ser um remanejamento de cardeais brasileiros.
              AVISO
              Está acabando a paciência da opinião pública com manifestações de duzentas ou trezentas pessoas que bloqueiam o trânsito, prejudicando milhares de outras.
              Elio Gaspari
              Elio Gaspari, nascido na Itália, veio ainda criança para o Brasil, onde fez sua carreira jornalística. Recebeu o prêmio de melhor ensaio da ABL em 2003 por "As Ilusões Armadas". Escreve às quartas-feiras e domingos na versão impressa de "Poder".