terça-feira, 30 de julho de 2013

O papa simples - Editorial FolhaSP

folha de são paulo
O papa simples
Francisco reúne milhões no Rio de Janeiro e mostra poder latente da Igreja Católica, mas sua visita ao Brasil também expõe paradoxos
Fotografado de costas, subindo sozinho a escada do avião e levando consigo uma pasta preta que dificilmente será de marca, o papa Francisco deixou neste domingo uma última e expressiva imagem de sua viagem ao Brasil.
A simplicidade de seus modos foi o que mais cativou. O acaso das circunstâncias e as falhas de planejamento contribuíram ainda mais para essa imagem de Francisco como um papa acessível, informal, quase membro da família.
O engarrafamento que paralisou o papamóvel, logo na chegada ao Rio de Janeiro, expôs Francisco a uma onda de afeto apropriada ao seu estilo. A sofisticação intelectual de seu antecessor, Bento 16, viu-se substituída por uma quase fisicalidade, por uma energia decorrente não apenas do carisma do cargo e da pessoa, mas da pura presença corporal, fungível, do novo vigário de Cristo.
Depois de um papa tão intelectual como Joseph Ratzinger, as palavras de Jorge Mario Bergoglio em sua primeira visita ao Brasil tiveram menor importância relativa.
Apesar de mudanças no tom --no que diz respeito à missão da igreja junto aos pobres e a um espírito de maior acolhida aos homossexuais--, não há como ver em Francisco, por enquanto, o anúncio de novos rumos no ensinamento romano. Quanto a isso, permanece o conservadorismo, ainda que em alguma medida mitigado.
A viagem serviu, sobretudo, para reafirmar a força latente da Igreja Católica no Brasil, que as estatísticas sobre o crescimento dos cultos evangélicos levam, no cotidiano, a ter menos em conta.
O fervor e a disseminação das novas igrejas cristãs é fenômeno de imensa repercussão, mas nenhum pastor ou bispo protestante poderia, sozinho, reunir tantos fiéis num só evento --e nisso estão, ao mesmo tempo, o trunfo e a fraqueza da Igreja Católica.
O tempo de formação de um membro do clero romano e as lentidões de uma hierarquia centralizada tornam mais difícil a multiplicação dos templos que se verifica entre os evangélicos --mas a centralização católica colhe, com um papa como Francisco, as vantagens da agregação maciça.
Surge aqui um paradoxo. Colocando-se no campo conservador sem hostilizar o progressista, Francisco --como Bento 16-- vê com olhos críticos o materialismo e a superficialidade da sociedade de consumo.
Ao mesmo tempo --essa a sua missão, seu sacrifício, sua alegria--, o papa se dá como espetáculo de massas. Estas o respeitam, celebram, ouvem. Mas também o consomem, fotografam, tiram-lhe da cabeça o solidéu para levar de recordação. Não faz mal; dão-lhe outro em troca. Talvez, por momentos, com a pasta preta na mão, esse papa simples se sinta bem com a cabeça descoberta.

Rumo ao aeroporto
Está em fase avançada de construção o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante (RN), o primeiro concedido à iniciativa privada pelo governo Dilma Rousseff.
Erguido a cerca de 40 km de Natal, deverá estar pronto em dezembro e poderá iniciar suas operações em abril de 2014 --sete meses antes do prazo--, a tempo de atender a demanda da Copa do Mundo.
É outro o ritmo, porém, do poder público. As obras dos dois acessos rodoviários que conectarão o terminal de passageiros à capital potiguar ainda nem começaram --e estão mais de um ano atrasadas. Por enquanto, o caminho é de terra.
A situação é "surreal", para usar a expressão de José Antunes Sobrinho, presidente do conselho de administração da Inframérica, concessionária vencedora do leilão com um lance de R$ 170 milhões.
De fato, o episódio surpreende, mesmo diante dos padrões brasileiros de incompetência gerencial e burocracia em obras públicas.
O governo do Rio Grande do Norte reconhece que uma das estradas de acesso ao aeroporto não estará pronta quando o terminal for inaugurado, mas afirma que a outra será entregue até abril --em 2011, o Estado anunciara que os trechos rodoviários estariam concluídos em dezembro deste ano.
Dificuldades em obter financiamento do BNDES e da Caixa Econômica Federal estariam por trás do atraso. Segundo o Departamento de Estradas de Rodagem do Estado, a empreiteira Queiroz Galvão, responsável pela pavimentação dos acessos viários, teria solicitado um aditivo para realizar as obras em prazo inferior ao previsto.
Diante da recusa do governo, o contrato foi rescindido. Há cerca de 30 dias, a EIT Engenharia assumiu a empreitada. A empresa admite que o cronograma é apertado, pois não contempla obstáculos externos, como as chuvas. Se o acesso não estiver pronto, haverá multas e prejuízo para o contribuinte.
Repete-se esse lamentável hábito da administração pública brasileira: a falta de coordenação e alinhamento de todas as etapas para o pleno cumprimento dos contratos gera atrasos e aumenta custos.
Financiamento, licenciamento ambiental, liberação de verbas já contratadas e projetos precários que param no escrutínio dos tribunais de contas são apenas alguns dos problemas recorrentes.
Evitar essas armadilhas, em muitos casos, depende de uma gestão pública de qualidade. Não deveria ser pedir demais.

    Livro revela atestado de loucura do artista Bispo do Rosário e sua carreira de lutador

    folha de são paulo
    Ouvir o textoSILAS MARTÍ
    DE SÃO PAULO
    Um detalhe chama a atenção no primeiro prontuário médico escrito sobre Arthur Bispo do Rosário. Descrito como "calmo, de olhar vivo", com "ares de importância" e "fisionomia alegre", o paciente também podia associar "ideias com extravagância".
    Não parece o diagnóstico de um louco, mas esse documento atestou loucura suficiente para que o artista sergipano, que morreu aos 80, em 1989, ficasse internado primeiro no hospício da Praia Vermelha e mais tarde na Colônia Juliano Moreira, no Rio.
    Encontrado agora, esse prontuário, que será publicado pela primeira vez, é a peça-chave de uma extensa pesquisa -da psicóloga Flavia Corpas e do crítico de arte Frederico Morais- que acaba de ganhar forma de livro.

    Bispo do Rosário

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    Divulgação
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    Bispo do Rosário usando roupas que bordou enquanto esteve internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio
    Entre outros fatos, "Arte Além da Loucura" dá detalhes sobre o surto que levou Bispo do Rosário a ser trancafiado num hospício e sobre sua vida antes, como lutador de boxe e oficial da Marinha.
    São dados que dissolvem uma série de mitos, em um momento de redescoberta da obra de Bispo do Rosário, exaltado como figura central da última Bienal de São Paulo e ocupando agora uma sala na Bienal de Veneza, com seus mantos e estandartes.
    "Ele não vivia em estado permanente de delírio, sabia das coisas", diz Morais, em entrevista à Folha. "Essa ideia meio romântica da loucura não existe. Ele sabia o que estava fazendo o tempo todo e se tornou uma figura poderosa dentro do hospital. Há uma ordem interna muito forte no trabalho dele."
    Mesmo que não falasse sobre o passado, detalhes de sua vida estão documentados nos estandartes que bordou: da infância numa fazenda de cacau na Bahia à ida ao Rio como marinheiro, passando por sua carreira de pugilista.
    São avalanches de nomes escritos em ordem alfabética, os mais importantes bordados do lado de dentro de seu "Manto da Apresentação". Além do nome do pai, Bispo lembrou ali alguns adversários que enfrentou no ringue.
    LOBO DO MAR
    Não eram histórias inventadas. Jornais da época narravam de forma assídua os embates do lutador que nunca foi nocauteado e ficou conhecido como "lobo do mar", ou "marujo de bronze", dotado de "dureza granítica".
    Em 1929, reportagem do "A Manhã" descreveu sua primeira luta profissional como "encarniçada", afirmando que ela "arrancou aplausos pela violência dos lutadores".
    Mas depois que um bonde esmagou um osso de seu pé, Bispo deixou o ringue e foi trabalhar como empregado doméstico na casa da família Leone, uma das mais ricas e poderosas do Rio na época.
    Humberto Leone, um dos herdeiros do clã, conta que Bispo era vaidoso e se vestia "com luxo", usava gravatas de seda e perfume francês.
    Isso até o Natal de 1938, quando teve os três sonhos que o levaram a se apresentar num mosteiro como um enviado divino, que veio à Terra numa esteira de nuvens para impedir que o "espírito malíssimo" aqui chegasse.
    Naquele primeiro prontuário, estão descritas suas alucinações, entre elas o sonho de uma "chuva de estrelas", que "explodiam fazendo barulhos incríveis", como se imaginasse o próprio destino de brilhar noutro ringue.
    ARTE ALÉM DA LOUCURA
    AUTOR Frederico Morais, Flavia Corpas (org.)
    EDITORA Nau
    QUANTO R$ 148 (296 págs.)
    Artista será tema de documentário rodado em 3D
    DE SÃO PAULODepois de ver o documentário de Wim Wenders sobre a coreógrafa Pina Bausch, o primeiro filme desse tipo feito em 3D, a psicóloga Flavia Corpas pensou em usar o mesmo formato numa produção sobre Arthur Bispo do Rosário, que tem estreia prevista para o ano que vem.
    "Vi que a obra do Bispo também é toda tridimensional, e que não seria um uso gratuito da tecnologia", diz Corpas, em entrevista à Folha. "Fiquei encantada com a ideia de um documentário em 3D, já que mesmo os bordados do Bispo reforçam esse aspecto no trabalho dele."
    Numa parceria entre produtoras do Rio e de São Paulo, Corpas e a britânica Caren Moy, que assina com ela a direção, já registraram em 3D algumas mostras de Bispo, como sua sala na última Bienal de São Paulo e a exposição do artista no museu Victoria & Albert, em Londres, também no ano passado. Uma versão para TV também está sendo produzida.
    Este será o primeiro filme sobre o artista desde que o psiquiatra e fotógrafo Hugo Denizart fez "O Prisioneiro da Passagem", documentário de 1982 para o qual Bispo deu uma longa entrevista.
    Cenas daquele filme deverão ser reeditadas agora com novas imagens, além de documentos recém-descobertos, como seu primeiro prontuário médico e textos sobre sua carreira como boxeador.
    "Tem um aspecto político importante resgatar a história dele da forma como ela aconteceu", diz Corpas. "E não de modo condizente com o que já inventaram."

      Ney: uma tela em branco - Cesar Soto

      folha de são paulo
      Ney: uma tela em branco
      O artista é o protagonista no filme 'Poder dos Afetos', e se entrega às mãos da diretora e roteirista Helena Ignez nas primeiras gravações
      CESAR SOTOCOLABORAÇÃO PARA A FOLHA"Mas como é o personagem? É um tipo libidinoso?", perguntava Ney Matogrosso, 71. O cantor chegou às gravações do novo média-metragem de Helena Ignez, "Poder dos Afetos", sem saber ao certo como era seu personagem.
      "Vim como uma tela em branco", conta Ney. "Faço tudo o que a Helena me pedir."
      O Barão, personagem de Ney e protagonista do filme, é um homem de família aristocrata que, durante os anos 1980, teve problemas com drogas e foi preso na Bélgica. Passa seis anos na prisão, descobre o chá de ayahuasca --bebida usada durante os rituais do Santo Daime-- e retorna ao Brasil para montar uma comunidade isolada em uma fazenda da família.
      "Tomei [chá] por um ano e meio, mas não estou pensando em fazer aqui uma pessoa do Daime. Não estou baseado nisso", afirma o cantor.
      "Ele é como um xamã, mas sem o fanatismo", diz Ignez, que também escreveu o roteiro. "[A história] veio de minhas observações. Conheço várias pessoas com situações parecidas com a do Barão."
      De acordo com a diretora, Barão e Ney compartilham a habilidade de se transformar, de mudar suas vidas. "O personagem gosta de cantar, tem uma voz belíssima. Ele também tem um lado positivo que o Ney tem naturalmente."
      Apesar de preferir personagens opostos à sua personalidade, o cantor conta que gostou do filme pela semelhança:"Quero convencer de que não sou eu. Por mais que existam referências a mim."
      O filme, que deve ter 20 minutos, foi rodado na Fazenda Serrinha, em Bragança Paulista (SP), durante o Festival de Arte Serrinha, que acabou neste último domingo (28).
      O média será usado como um teaser para a captação de recursos de "Ralé", também escrito por Ignez. O roteiro do longa é baseado na peça de homônima de Máximo Gorki e expandirá a história de "Poder dos Afetos", transferindo-a para São Paulo (SP).
      Mas Ney não estava totalmente informado dos planos. "Cheguei achando que era um longa, porque não conversamos muito a respeito", diz Ney. "Se precisar filmar, eu filmo. Não tem problema."
      "Poder dos Afetos" é o segundo trabalho do cantor com a diretora. "Luz nas Trevas", lançado em 2012, teve Ney vivendo o papel do Bandido da Luz Vermelha, na continuação do filme de 1968.
      Ignez afirma que não há semelhanças entre o Bandido e o Barão, mas que existem algumas coincidências. "Ambos passaram pela prisão e se transformaram, não se deixaram destruir. São dois personagens positivos."
      A seguir, a entrevista que Ney deu à Folha ao chegar para os dois dias de gravações no interior paulista.
      -
      Folha - Ignez disse que gosta de personagens positivos. Você também gosta de fazer personagens desse jeito?
      Ney Matogrosso - Gosto de fazer os opostos, que são as coisas mais atraentes. Nunca fiz um como esse, então não sei dizer se é algo bom ou ruim. Num outro curta ["Gosto de Fel", de Beto Besant] fiz um camarada maligno, das trevas. Foi um exercício que mexeu comigo de tal maneira que eu fiquei enlouquecido, tomando banho para afastar aquilo de mim.
      E você gostou de fazê-lo?
      Gostei de acessar esses lados escuros, porque quando você acessa isso dentro de si, consegue se destacar. Usar quando necessário, como foi o caso. É bom trabalhar como ator por isso, ter essa oportunidade de acessar todos os lados quando for preciso.
      O que a música trouxe para a sua atuação?
      Para esse filme não trouxe muita coisa. Para o anterior, perguntei a Helena, "o que você quer de mim?" e ela disse "eu quero você todo. Quero você do palco e você fora do palco".
      E o que ela disse que queria dessa vez?
      Ela não disse o que queria de mim. Disse que ele era inspirado em mim, o que já me deixou assustado de cara [risos]. Tenho medo disso. Porque aí vai me dar um trabalho. Se é inspirado em mim, vai me dar um trabalho para convencer que ele não sou eu.
      O medo não é de se expor?
      Não, não. O medo é de confundir, porque não é a minha biografia. É uma ficção. Ela me pediu que cantasse, mas o Barão, mesmo que cante com a minha voz, não será eu.
      A ideia em "Ralé" é expandir a história para o ambiente urbano...
      Eu não conheço a "Ralé", não li. Portanto, não sei nem que Barão é esse, tá [risos]? Eu estou aqui assim, em branco, e, o que ela quiser, eu vou fazer. Menos tirar a roupa nesse frio [risos]. Porque eu já tirei no outro [filme], mas agora com esse frio eu não tiro, não.
      Mas você vai participar das gravações do longa?
      Eu não sei. Achava que isso já era um longa. Se precisar filmar, eu filmo. Não tem problema. Só tem que ser em um momento em que eu esteja disponível.
      Você prefere trabalhar assim, sem saber exatamente quais são os planos?
      Da outra vez deu muito certo vir assim, em branco. Ela ia me dizendo o que queria. Eu acabava de filmar e ela me dava um feedback. É assim que eu estou aqui, para ela ir me indicando as coisas.

        Chicago 2016 - Helio Schwartsman

        folha de são paulo

        Chicago 2016


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        SÃO PAULO - Genial a capa do jornal "Chicago Sun-Times", de quarta-feira passada, que trazia uma foto de protestos violentos no Rio de Janeiro acompanhada da manchete "Perdemos para isso?", numa referência ao fato de a capital fluminense ter derrotado a cidade ventosa na disputa pelos Jogos Olímpicos de 2016.
        Levando adiante o bom humor do diário americano, proponho que entreguemos a Chicago o direito de sediar o evento. Acho que ainda dá tempo e todos sairiam ganhando.
        O motivo mais óbvio para opor-se à realização da Olimpíada no Rio é o elevado custo da operação. Há dúvidas de que financiar esse tipo de competição seja uma prioridade e é praticamente uma certeza que os gastos ocorrem de forma pouco republicana, com aplicações orçamentárias pouco transparentes e as inafastáveis suspeitas de favorecimento.
        Meu ponto, porém, é que, mesmo que as despesas seguissem um modelo de plena lisura e total eficácia administrativa, ainda assim Olimpíada é algo de que governos deveriam manter prudente distância. A questão central é que esse tipo de despesa é concentrador de renda. É verdade que empreiteiros, donos de hotéis e de restaurantes, taxistas e o comércio em geral de fato podem beneficiar-se do investimento. Se a aventura produzir um legado de infraestrutura permanente (o que está longe de ser uma certeza), o carioca também ganhará algo.
        O problema é que, para gerar essas oportunidades, tiramos dinheiro do caixa geral, para o qual todos contribuíram. Não me parece muito justo que o cidadão que paga impostos no Acre subsidie (e em condições longe das ideais) algo que será bom, no máximo, para parte dos cariocas.
        Copas, Olimpíadas e grandes eventos internacionais são bem-vindos desde que financiados com dinheiro privado. Como não conseguimos fazer isso, preferimos apelar à velha lei da socialização dos prejuízos e da privatização dos lucros.
        Hélio Schwartsman
        Hélio Schwartsman é bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve na versão impressa da Página A2 às terças, quartas, sextas, sábados e domingos e às quintas no site.