quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O assunto é o uso das redes sociais Sandra Muraki e Gustavo Romano [tendências/debates]

folha de são paulo
SANDRA MURAKI
O ASSUNTO É O USO DE REDES SOCIAIS
Mr. Obama não vai curtir
O faturamento crescente das empresas de internet e a crise do jornal de papel explicam a ofensiva da imprensa contra a nova concorrência
Uma "nova concorrência" parece deixar os jornais perplexos: as redes sociais e os buscadores.
A disputa da mídia impressa pelos leitores na internet tem sido um dos grandes desafios da indústria da comunicação. Como fazer jornalismo nesse meio e como distribuí-lo? Como implementar novas tecnologias? Qual é o conteúdo que o leitor deseja encontrar?
São perguntas de difíceis respostas, que demandam investimentos e criatividade. Mas, nesse campo, a despeito dos desafios lançados, os jogadores jogam de igual para igual.
As redes sociais ganharam forte adesão, especialmente no Brasil, e tornaram-se grandes difusoras de informações, a ponto de terem sido um dos meios mais utilizados por movimentos sociais na mobilização das recentes manifestações no país.
Ao mesmo tempo, com base nessa afluência e influência, essas empresas foram construindo estratégias comerciais de venda de publicidade. Com conteúdo, público, espaço qualificado e tecnologia, passaram a ser uma alternativa atraente de mídia publicitária.
Pesquisas mostram o crescimento do investimento publicitário na internet e o avanço dos portais, redes e buscadores sobre fatias dos demais meios. No primeiro bimestre deste ano, por exemplo, os anunciantes investiram mais na internet do que em revistas.
O faturamento nesse meio ainda é muito inferior ao dos jornais impressos, mas é crescente, enquanto que, para a imprensa de papel, o cenário é de crise.
Isso explica em grande parte a ofensiva que a imprensa vem fazendo contra a "nova concorrência".
Entretanto, os jornais não assumem a discussão sob esse ângulo. Preferem questionar a seriedade com que as redes sociais protegem as informações dos usuários. Lançam suspeitas sobre o fornecimento dos dados a serviços de inteligência, atacam as políticas de uso. Criticam os usuários, chamando-os de "bobos" por produzirem conteúdo gratuito para as redes e disporem tantas informações pessoais.
Mas os jornais também estão nas redes, oferecem informação de graça e dispõem para os administradores das redes, também de graça, quem são seus seguidores, que notícias compartilham, como trafegam.
Os dados dos usuários parecem ser o grande achado das redes sociais. Pela atividade das pessoas, seus comentários, fotos de família, viagens, animais de estimação, festas e pratos preferidos, e "curtidas", as redes detêm um conhecimento de seu público que nenhum jornal tem de seu leitor de internet --e que dificilmente terá.
As empresas jornalísticas não dispõem da mesma poderosa tecnologia das empresas de redes sociais, nem de recursos, nem mais de tempo para construir algo semelhante e enfrentar essa concorrência.
Além disso, o foco prioritário dos jornais é produzir conteúdo e veiculá-lo na tecnologia disponível ou na que pode ser desenvolvida para tal finalidade. Ao mesmo tempo, as redes sociais, também dentro do seu foco, estão em pleno desenvolvimento de ferramentas que vão refinar ainda mais o conhecimento dos seus usuários para os anunciantes.
É uma disputa desequilibrada pelas mesmas verbas publicitárias e um ponto de inflexão, que vai além da discussão do futuro da imprensa.
Essa fragilidade a que as empresas jornalísticas estão expostas, contudo, não é responsabilidade dos usuários das redes. A nós foram dados uma fantástica forma de estabelecer relacionamentos e um canal de expressão que nenhum meio de comunicação já pode proporcionar. As pessoas usam as redes conscientes da exposição a que se submetem voluntariamente.
Não parece sensato que mr. Obama tenha interesse nos nossos posts, nas nossas fotos. Quem tem interesse nisso está muito mais perto de nós. E os incomodados que se retirem.
GUSTAVO ROMANO
O ASSUNTO É O USO DE REDES SOCIAIS
Uma nova forma de monopólio
Não há como o usuário deixar o Facebook sem sofrer consequências. Ele não tem alternativas. Ou aceita as regras ou cai no ostracismo on-line
Um monopólio não é determinado pela essencialidade do produto monopolizado, mas pela ausência de alternativa viável.
A Microsoft, por exemplo, foi multada pela Comissão Europeia em meio bilhão de euros em 2004 por formação de monopólio não porque seus produtos eram essenciais, mas porque dominavam o mercado.
Tradicionalmente, monopólios surgem por imposição legal, restrição de acesso a matéria-prima, propriedade intelectual, ou processo de fabricação.
O Facebook não é essencial, mas é um novo modelo monopolístico, criado pelo somatório de nossas escolhas individuais.
Se a maior parte da comunicação social on-line de massa ocorre por meio de sua plataforma, não há opção exceto utilizá-la. Como um buraco negro, criada a massa crítica, torna-se impossível escapar.
Possíveis alternativas, como Google+, não são verdadeiras alternativas. Uma plataforma de comunicação só é útil se os interlocutores podem ser atingidos por ela. Daí o Facebook ter assumido condição análoga à de um monopólio. E daí surgirem problemas inerentes.
Primeiro, regras de economia de mercado não funcionam em monopólios. Não há como o usuário deixá-lo sem sofrer consequências simplesmente porque não há alternativas viáveis. O usuário não tem poder de barganha: ou aceita as regras ou cai no ostracismo social on-line.
Ademais, o usuário não é o cliente. O cliente são as empresas de marketing. Usuário e suas informações pessoais são o "produto" que o Facebook oferece aos anunciantes. É na capacidade de vender informação do usuário que reside o valor de mercado da empresa, o que gera conflito de interesses.
Terceiro, o grupo de jovens que controla a empresa é também legislador e juiz de padrões morais impostos ao usuário. Em 2011, a empresa excluiu imagens da pintura "Origem do Mundo", de Gustave Courbet, porque mostrava uma vagina. Neste ano, excluiu fotos do Jamurikumalu no Alto Xingu porque havia índias nuas. E nos últimos dias, excluiu fotos de manifestantes nus.
Não se trata aqui se tais jovens têm problemas em lidar com a própria sexualidade, mas que impõem seus padrões de moralidade a milhões de usuários. Proíbe-os de ler ou ver aquilo que não ofende o usuário, mas ofende quem comanda a empresa. Vale lembrar: quem viu tais fotos optou por seguir determinada página ou usuário.
Por fim, suas decisões não passam por um processo transparente. O usuário não tem chance de explicar-se, defender-se ou recorrer. Nem sequer sabe como ou por quem a decisão é tomada. Tampouco sabe que está sendo julgado. É apenas informado de sua condenação.
É como se, certo dia, você acordasse e descobrisse que alguém (sabe-se lá quem) decidiu que você não pode mais telefonar ou receber cartas.
Fosse um país, o Facebook não seria apenas o terceiro maior do planeta: sua conduta seria equiparável à da Coreia do Norte.
Não fosse um monopólio, o usuário se socorreria na competição. Mas, sendo-o, cabe ao legislador controlar e limitar a conduta da empresa em relação a seus usuários.

    Kenneth Maxwell

    folha de são paulo
    Weiner e o wiener
    O ex-deputado federal Anthony Weiner está disputando a primária democrata para a Prefeitura de Nova York. Espera suceder a Michael Bloomberg --eleito como republicano, mas hoje sem partido--, que está impedido, pelas regras de reeleição, de disputar um quarto mandato. A primária será realizada em 10 de setembro. A eleição ocorrerá em 5 de novembro.
    Weiner está enfrentando um problema de wiener (salsicha) --não a salsicha vienense ou polonesa, tampouco a de cachorro-quente, tão querida em seu Brooklyn natal, mas, sim, o seu pênis, fotos do qual não param de circular pela internet. Ele as enviou pelo Twitter a uma jovem de 22 anos, a quem ofereceu um apartamento e pediu que se encontrasse com ele (que adotou o pseudônimo Carlos Danger).
    Isso vem fornecendo material infindo para o jornal "New York Post" e para piadas nos programas de entrevista noturnos da TV. Depois das recentes revelações, a mais recente pesquisa de opinião apontou que 53% dos nova-iorquinos acreditam que ele deva deixar a disputa.
    Não é a primeira vez que Weiner enfrenta problemas de "sexting", ou seja, por usar a internet para enviar mensagens e fotos libidinosas. Ele renunciou ao seu posto no Congresso por um escândalo semelhante em 2011.
    Weiner se casou com Huma Abedin em 2010, em uma cerimônia presidida por Bill Clinton. Abedin é muçulmana, nascida em Kalamazoo, Michigan. Ela viveu na Arábia Saudita dos dois aos 18 anos. O casal tem um filho.
    Abedin trabalhou para Hillary Clinton, primeiro como estagiária na Casa Branca, em 1996, e depois foi chefe da equipe de estrada de Hillary na campanha desta pela indicação presidencial democrata em 2008. Ela foi subchefe de gabinete de Hillary no Departamento de Estado, e, no momento, trabalha para a Fundação Clinton, para facilitar o retorno de Hillary à vida civil. Hillary declarou, sobre Abedin, que "só tenho uma filha, mas se tivesse outra, seria Huma".
    Atacada por diversos congressistas republicanos importantes por suas supostas ligações com a Irmandade Muçulmana, Abedin foi defendida pelos senadores republicanos John McCain e Lindsey Graham.
    Como no caso de Bill Clinton e Monica Lewinsky, é evidente que Weiner tem problemas para manter a braguilha fechada. Abedin se manteve leal ao marido. Mas os Clinton não estão satisfeitos com o escândalo. Ele traz recordações desconfortáveis de sua passada experiência com sexo e mentiras (e, dessa vez, é claro, com uma forma mais moderna de videoteipe).

      Paula Cesarino Costa

      folha de são paulo
      Grandes e pequenos
      RIO DE JANEIRO - Cartão-postal do Brasil, porto de entrada dos turistas e uma das cidades mais bonitas que existem. Protagonista por natureza, o Rio foi acompanhado com atenção por boa parte do mundo, interessado na primeira viagem internacional do papa Francisco e no seu impressionante rebanho de jovens.
      Depois de períodos sucessivos --na colônia, no império e na república-- de proeminência política, econômica e cultural, o Rio viveu décadas de crise, abandono e desimportância. Mais recentemente, recuperou relevância econômica e importância política. Conquistou grandes eventos, reconquistou empresas e voltou a ter voz política ativa.
      Hoje, governador (Sérgio Cabral) e prefeito (Eduardo Paes) são do mesmo partido. O Estado é, já há alguns anos, o mais importante governado pelo PMDB. Quando foi reeleito com votação recorde, Cabral apostava que seria peça fundamental na eleição seguinte, a de 2014.
      De lá para cá, helicópteros, guardanapos, policiais e bombeiros bagunçaram seu coreto. Em crise, o governador se abateu e desapareceu. Inicialmente por duvidosa estratégia política, depois impedido pelos gritos nas ruas, que continuam a se fazer ouvir na sala de estar de seu apartamento no Leblon.
      Em outro estilo, o prefeito deu até entrevista ao coletivo Mídia Ninja e assumiu erros, mas foi o responsável por espalhar pelo mundo as cenas de despreparo da cidade durante a Jornada Mundial da Juventude.
      Para a disputa eleitoral do ano que vem, o Rio voltará a ser protagonista. Tanto PT como PMDB estão preocupados com a disputa. A aliança dos partidos pode vir a balançar por aqui. Dilma tem avaliação ruim e pouca intenção de voto no Rio, Cabral é o mais mal avaliado pelo Ibope, Paes vai mal no Datafolha.
      A cidade e o Estado ganham relevância, mas a classe política ainda está longe de estar à sua altura.

        Eliane Cantanhêde

        folha de são paulo
        Quem não chora não mama
        BRASÍLIA - Os deputados e senadores tiraram uns dias de recesso branco, foram às suas bases e captaram "in loco" o mau humor do cidadão, que acaba de abater mais da metade da popularidade de Dilma.
        Na volta ao Congresso, estarão mais preocupados em falar a língua dos seus eleitores do que em ouvir os apelos do Planalto. Ou seja: mais empenhados em votar projetos que tenham ressonância popular, mesmo que agridam os ouvidos da presidente e as contas do governo.
        Por isso, Dilma abriu as burras para as emendas parlamentares, que fazem a festa e mudam votos no Congresso como varinhas de condão. É dando que se recebe, apesar de o Gilberto Carvalho usar o seu tom franciscano para jurar que não.
        Enquanto Dilma libera R$ 2 bilhões em emendas para Suas Excelências em agosto, corta R$ 919 milhões das Forças Armadas e ninguém mais fala na compra dos caças da FAB. As autoridades cruzam os céus em jatinhos de ponta, mas os velhos Mirage da defesa nacional viram ferro-velho em dezembro.
        A diferença é clara: as Forças Armadas não têm poder de fogo, mas o Congresso tem um canhão. Se o governo não atende os pleitos militares, eles ameaçam cortar um dia útil de trabalho por semana, levam um chega pra lá, batem continência e recuam. Já se o governo não se sujeita à manha dos políticos, eles negam voto aos projetos governistas e despejam nos antigovernistas. A economia não está uma maravilha, mas o Planalto abre os cofres e paga o preço.
        Para corroborar que quem não chora não mama, Dilma foi ontem a São Paulo com um mimo de R$ 8 bilhões para o estratégico petista Fernando Haddad, que andava muito chorão, pedindo colo para o tucano Geraldo Alckmin.
        Com popularidade alta e governo forte, ninguém chora e a conta fecha. Com popularidade ladeira abaixo e governo fraco, vem o chororô e abre-se um buraco sem fundo.
        Ah! E quem paga a conta é você.