domingo, 1 de setembro de 2013

EDUARDO ALMEIDA REIS-Histórias‏

Há pessoas que gostam de contar episódios complicados de suas vidas, assim como há outras que não contam nem penduradas 


Estado de Minas: 01/09/2013 


De repente, sem aviso prévio, você conhece moça muito bonita, divorciada, um filho adolescente, profissional bem-sucedida, independente. Rola um clima de simpatia ou empatia, sei lá. A jovem senhora reside no Rio e viaja a trabalho pelo Brasil inteiro. Você mora perto do Rio e costuma visitar a Cidade Maravilhosa. Nada mais natural do que um encontro marcado, jantar a dois num restaurante que tem estacionamento, vinho tinto – os cheiros e o papo caminham bem. Descem para o carro, há dezenas de bons motéis nas imediações, a moça é loquaz e você, bom ouvinte, começa a ficar preocupado com as histórias que ela conta. Há pessoas que gostam de contar episódios complicados de suas vidas, assim como há outras que não contam nem penduradas. A moça bonita, independente, profissional respeitada, jogava no primeiro time: contava coisas que ninguém precisava saber, sobretudo o galã em vias de se apaixonar. Cês querem saber de uma coisa? Nessas horas, o melhor que o sujeito faz é cair fora.

Você impa?


Pergunto ao caro e preclaro leitor: você impa? Verbo impar, em sentido figurado: mostrar-se repleto de (alegria, prazer); não caber em si. Claro que você impa. Todos impamos de contentamento com o governo deste país grande e bobo. Temos agora o Estatuto do Jovem, que se junta ao do Idoso e ao da Criança e do Adolescente para nos proporcionar o céu aqui embaixo, considerando que a subida é certa e inevitável. Se entendi o noticiário da tevê, o Estatuto do Jovem cuida do brasileiro até alcançar os 29 anos. Resta um pedaço entre os 29 e os 60 anos do Estatuto do Idoso, que há de ser preenchido com o Estatuto do Idiota para cuidar daqueles que trabalham e permitem, pagando impostos e taxas, que o pessoal reivindique tarifa zero ou passe livre para todas as faixas etárias, Bolsa-Família para garantir os votos, universidades federais gratuitas para muitos jovens que chegam aos campi dirigindo seus automóveis de último tipo, e o que mais? Tudo, caro leitor, tudo que você possa imaginar, sem prejuízo do inimaginável. Tarifa zero é a síntese das reivindicações. A juventude sonha com tudo zero: casa, comida, roupa lavada, luz, transportes, escolas, baladas, bebidas, motéis, cinemas. Realmente, seria o mundo ideal desde que se pudesse encontrar alguém para pagar a festa.

Projeto de marketing

Visando reconquistar o público que perdeu nos últimos 40 anos, quando se deixou tomar de assalto por todos os contraventores do Rio, o Jockey Clube Brasileiro está com um projeto de marketing em que procura dizer das delícias de passar uma tarde ou um princípio de noite no hipódromo da Gávea. Nos anos de assalto dos contraventores, bicheiros e seus cúmplices montaram haras, studs e chegaram a controlar a maior parte dos cavalos inscritos em determinadas provas. Hoje, acham mais divertido jantar em Paris com guardanapos brancos amarrados nas cabeças. No mundo inteiro ou em boa parte dele, isto é, no mundo que importa, o turfe tem prestígio, dá milhões de empregos, é frequentado pelos melhores públicos. É jogo e tem falcatruas, concordo, mas a vida de todos nós é um jogo sujeito a embustes nos mais diversos níveis: no trabalho, na política, nas relações sociais, nas famílias. Peço ao leitor que consulte um advogado de família, que vive fazendo divórcios e inventários, e depois me conte. Praticamente “morei” no hipódromo da Gávea até completar 20 ou 22 anos. Voltava do colégio para casa via Hipódromo, madrugava na Gávea para assistir aos trabalhos, jogava o dinheirinho da mesada – nem por isso me transformei num jogador. No dia em que componho estas bem traçadas vou aplicar 14 reais na Mega-Sena acumulada.

O hipódromo é muito bonito e o cavalo dispensa comentários. De terno e gravata, o menino de 14, 15 aninhos frequentava a tribuna social e batia papo com os idosos de 30, 40, 50 anos. Certa feita, quando o Juizado de Menores proibiu que os menores apostassem, pedi a um senhor magro, de cabelos brancos, que apostasse para mim numa determinada égua. Ele respondeu que, em rigor, não poderia fazer a aposta, mas faria porque era meu amigo. E mostrou a carteira do Juizado: era o fiscal encarregado de proibir o jogo de menores. O Brasil sempre teve coisas deliciosas. Espero que dê certo o projeto de marketing do Jockey e a Gávea volte a ser uma boa parte do que era. Diverti-me bastante naquele tempo e não acho que as idas diárias ao hipódromo tenham sido prejudiciais à formação do menino.

O mundo é uma bola

1º de setembro de 70: destruição de Jerusalém pelo imperador romano Tito, ou, mais precisamente, Titus Flavius Otavianus Augustus, que foi imperador de 79 a 81, donde se conclui que em 70 era general e servia na Judeia sob as ordens de seu pai. Em 1010, as tropas de Suleiman de Córdoba derrotam as forças espanholas comandadas pelo conde de Urgel na Batalha de Acabatalbazar. Sulaiman II ibn al-Hakan foi o quinto califa de Córdoba. Nada encontrei sobre a batalha que deve ter acabado com o tal bazar. Hoje é Dia do Bailarino, do Professor de Educação Física e do Caixeiro-viajante.

Ruminanças


“São necessários apenas dois anos para que o ser humano aprenda a falar, e toda uma vida para que ele aprenda a ficar em silêncio” (Florian Bernard).

Alceu Valença diz não ligar para dinheiro nem para direito autoral

folha de são paulo
RODRIGO LEVINO
DE SÃO PAULO
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Alceu Valença foi atropelado --e mudou de nome. "Aqui quem fala é Alceu Tipoia", se apresenta à reportagem da Folha, antes de soltar uma gargalhada.
Com o braço direito imobilizado há duas semanas, desde que foi atingido por um ciclista na orla do Rio ("Foi uma dor da porra, fiquei urrando na calçada"), o cantor teve de adaptar para os shows arranjos de canções como "Tropicana" e "Tesoura do Desejo", pérolas de seu repertório.

Lucas Landau/Folhapress
O músico Alceu Valença em seu apartamento, no Rio
O músico Alceu Valença em seu apartamento, no Rio
"Não posso tocar violão, então chamei sanfoneiro, encorpei mais o negócio, ninguém vai sentir nem falta", diz o pernambucano, que a partir do dia 7, faz em São Paulo sete shows, seis deles (no Circuito Sesc) dedicados ao cancioneiro nordestino.
Leia trechos da entrevista.
Direitos autorais
Não me interesso por essas coisas porque eu não ligo para dinheiro. Não faço ideia do que ganho, do quanto tenho. Tem lá um advogado contratado para cuidar dessas burocracias, Deus me livre! Minha mulher é quem sabe.
Quando quero comprar uma coisa, peço um dinheirinho a ela. No Leblon, como todo mundo me conhece, faço pendura em banca de revista, lanchonete, taxi...
Redes Sociais
Adoro o Facebook. Escrevo sobre política, literatura, compartilho músicas. Esses dias publiquei um vídeo cantando nas ruas de Paris, cheias de neve. Os fãs adoram, é outra relação.
Música
Não faço download, nada disso. Para dizer a verdade, mal ouço música. Gosto mais de ler, tenho uma vasta biblioteca em casa.
Inéditas
Tenho um monte de música aqui, mas eu pergunto: lançar um disco para quem? Para quê? Não existe mais mercado, não vale a pena. É mais futuro eu pegar um punhado delas e jogar no Facebook, né?
Novo forró
Não existe novo forró! Isso [o forró eletrônico, que domina as paradas no Nordeste] que cantam por aí é outra coisa, é apelativo, é musicalmente pobre.
O forró de verdade tem métrica, rima, harmonia e melodia típicas, ora!
Você pode misturar com qualquer outra coisa --como eu misturo--, mas aí não vai poder chamar de forró.
Novos nomes
Não acompanho músicos da nova geração. A oferta é muito grande e falta curadoria. Nesse ponto, as gravadoras fazem falta, pois havia algum tipo de filtro, de recorte, mas hoje em dia é um mar de coisas, é muito difícil lidar com tanta informação.
Manifestações de junho
Observei tudo com muita atenção e acho que foi um levante fantástico. Discordo do quebra-quebra, mas é bonito ver o povo nas ruas. Deixou os políticos todos apavorados. Quem é político e é corrupto deve estar em pânico pensando nas próximas eleições e em como vai se apresentar.
Posicionamento
Desde o começo das manifestações eu me pronunciei a respeito, em apoio ou com críticas, nos shows, no meu blog. Mas entendo que é muito difícil artistas brasileiros se posicionarem publicamente. Há um medo danado de desagradar. Ainda mais em se tratando de uma coisa tão difusa como essas marchas.
Eleições 2014
Conheço [o governador de Pernambuco] Eduardo Campos [PSB] desde criança. É um sujeito decente, capacitado, muito inteligente e fez um governo fantástico. Capacitado ele é, mas se vai entrar na disputa é outra coisa --ele ainda não firmou isso.
ALCEU VALENÇA AO VIVO
QUANDO sáb., 7/9, às 22h
ONDE Credicard Hall (av. das Nações Unidas, 17.955, tel. 0/xx/11/4003-5588)
QUANTO de R$ 30 a R$ 50
CLASSIFICAÇÃO 12 anos
CIRCUITO SESC
QUANDO dias 10, 11, 25, 26
e 27/09, às 21h
ONDE Sesc Bertioga, Sesc Piracicaba e Sesc Ipiranga
QUANTO de R$ 6 a R$ 30

ANÁLISE
Artista é, no mínimo, o mais incendiário de sua geração
LUIZ FERNANDO VIANNAESPECIAL PARA A FOLHADa talentosa geração que despontou no Nordeste no início da década de 1970 (Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Fagner, Belchior, Ednardo), Alceu Valença foi, no mínimo, o mais explosivo.
Sua combinação de forró, baião e embolada com rock e performance teatral era incendiária e cativante.
Em seus shows com Jackson do Pandeiro, em 1978, ele fazia uma versão de "Pisa na Fulô" que resume isso: acordeom mais solo de guitarra; trejeitos vocais de repentista mais postura de roqueiro.
Já se passaram quatro anos de seu último disco, "Ciranda Mourisca", em que apresentou versões suaves de alguns de seus sucessos. Um disco com momentos bonitos, refletindo um homem com mais de 60 anos, que deixava um certo gosto de saudade do Alceu incendiário.
Ouvindo-se, por exemplo, "Dia Branco", "Molhado de Suor" e "Dente de Ocidente" no CD de 2009 e no LP de 1974 (seu primeiro solo, intitulado "Molhado de Suor"), percebe-se que as canções em nada envelheceram, mas perderam um pouco de intensidade nas interpretações.
Como 35 anos não são 35 dias, Alceu ainda pode enternecer, mas não levanta mais a poeira. Talvez nem queira.
E, também, o país dos anos 1970, sob a ditadura militar, inspirava uma agressividade que hoje pode soar deslocada, apesar dos protestos nas ruas.
Mas Alceu continua sendo quem combina melhor Olinda e Leblon, Luiz Gonzaga e baladas, irreverência forrozeira e dores de amor. O lugar que conquistou com suas grandes composições ("Maracajá", "Íris", "Espelho Cristalino", "Coração Bobo", "Anunciação") é só dele e ninguém tasca.

    Elio Gaspari

    Como a raiva reelegerá Dilma

    A recuperação da popularidade do governo da doutora Dilma foi audaciosamente prevista pelo marqueteiro João Santana, durante o rescaldo das manifestações de junho, quando ele disse que tudo não passava de um desabafo temporário. A doutora, que tivera 57% de aprovação, tomara uma vaia de estádio e caíra para 30%. Acredita-se que já retornou à faixa dos 40%.
    Santana tinha motivos para acreditar na força de Dilma. Não foi ela quem aumentou as tarifas de transporte (pelo contrário, torceu o braço dos prefeitos Eduardo Paes e Fernando Haddad para baixá-las).
    Enquanto a doutora tocava o expediente, a oposição dedicou-se a fortalecê-la. É uma oposição que converte crentes.
    Seu primeiro alvo foi o programa Mais Médicos, que trouxe profissionais estrangeiros. Em vez de discutir também a reserva de mercado que as associações médicas estimulam, as pegadinhas do programa Revalida ou a burocracia das universidades federais, partiram para baixarias e ameaças. Uma equipe de repórteres da “Folha de S. Paulo” descobriu um rombo no programa: em 11 cidades de quatro estados, prefeitos pretendem demitir médicos brasileiros que estão em suas folhas, trocando-os por estrangeiros que serão pagos pela Viúva federal. “Mais médicos” onde não os há é uma coisa. Menos médicos brasileiros, bem outra. Basta lançar o programa “trocou, dançou”.
    A desqualificação dos cubanos tem um ingrediente de ingenuidade. O Raúl Castro não está mandando para o Brasil médicos que flanavam por Havana. Ele já enviou 113 mil profissionais para 103 países e fez da iniciativa uma fonte de dólares. São quadros selecionados, com formação política. Em tempos passados, cubanos iam para guerras onde morreram pelo menos três mil deles. O governo trabalha com a certeza de que o programa trará benefícios. A oposição, com o desejo de que dê tudo errado.
    No caso da solidariedade que deram ao diplomata que desovou o senador boliviano no Brasil, esqueceram-se de pedir uma avaliação da sua conduta aos notáveis que estão entre seus quadros. Disputam a bola atrás da linha de fundos, pois pode-se detestar o PT, mas, no dia em que um encarregado de negócios fizer o que acha melhor, a diplomacia vira bagunça.
    Dilma vai para a reeleição (isso se não for preciso tirar Lula do banco de reservas) porque o PSDB tem mais ressentimentos que planos e mais queixas que projetos. Em 2010, o PT teve 55,7 milhões de votos. Desse jeito, a oposição corre o risco de sair da eleição de 2014 com os mesmos 43,7 milhões de 2010, satisfeita por ter conseguido que esse eleitores ficassem com muito mais raiva dos comissários.
    A Câmara pode criar o anexo dos condenados
    A situação em que ficou o deputado Natan Donadon pode ser absurda, produto dos piores instintos do plenário da Câmara, mas é o jogo jogado. Seus pares acharam que ele não ofendeu o decoro do Parlamento. Por ser um criminoso, ficará na penitenciária da Papuda.
    Há precedentes de diversos países, e nos Estados Unidos chegou-se a situações ainda mais esquisitas. Dois deputados foram reeleitos enquanto estavam na cadeia. Um deles, depois de solto, assumiu a cadeira e deu o voto que garantiu a Presidência a Thomas Jefferson. Um terceiro, Jay Kim, condenado a um ano de prisão domiciliar em 1988, ia ao Congresso com uma pulseira eletrônica, sabendo que sua rotina seria de lá para casa.
    O que parece ser uma monstruosidade poderia ser uma solução. Se os parlamentares ladrões condenados pelo Supremo Tribunal forem para a Papuda, fica estabelecido que todos os brasileiros são iguais perante a lei. Deputado em regime fechado não faz mal a ninguém. A Câmara pode até construir o anexo 5 para a carceragem.
    Um sábio
    Quando começou o julgamento do mensalão, e nove em dez pessoas temiam que o STF fizesse uma pizza, um conhecedor da Casa avisou:
    “Haverá uma farta distribuição de condenações. Muitas com penas superiores a dez anos.”
    Esse sábio acha que os recursos infringentes, capazes de aliviar a vida dos comissários e de seus tesoureiros, morrerão na preliminar:
    “Meu palpite é uma maioria de seis a cinco ou sete a quatro, mantendo as penas.”
    Alguns interessados já sentiram o cheiro da brilhantina e mudaram seus domicílios para Brasília, onde começou uma pequena reforma na penitenciária da Papuda.
    Para os condenados a regime semiaberto, será um conforto. Irão da Papuda para a Câmara, e dela para a cela. Já a turma do regime fechado safa-se das condições a que são submetidos os demais cidadãos no presídio do Tremembé.
    Não aprendem
    Um pedaço do comissariado petista namorou a ideia de salvar o comissário João Paulo Cunha do regime fechado por conta de sua condenação pelo STF a nove anos e quatro meses de reclusão.
    Recordar é viver
    O risco de um asilado vir a suicidar-se não é fantasia.
    Depois da deposição de João Goulart, seu secretário particular, Eugenio Caillard, pediu asilo ao embaixador do México, Vicente Sanchez Gavito.
    O diplomata negou-lhe o pedido, e, na mesma hora, Caillard ameaçou matar-se, pulando para a janela da sala em que conversavam. Gavito não quis arriscar e asilou-o.
    Semanas depois, Caillard matou-se na embaixada, com barbitúricos.
    Garibaldi no Brasil
    Está chegando às livrarias “Garibaldi na América do Sul: o mito do gaúcho”, do jornalista Gianni Carta. É o resultado de oito anos de trabalho em oito países. Republicano, corsário e namorador, antes de ser o herói da unificação da Itália, Giuseppe Garibaldi foi um subversivo na América Latina, metido na Revolução Farroupilha. Carta estudou o mito que envolveu o personagem, construído, entre outros, pelo romancista francês Alexandre Dumas.
    Para quem acompanha as atuais vicissitudes da diplomacia brasileira, vale relembrar o episódio em que o ministro brasileiro em Montevidéu chamou-o de “pirata” e pediu que fosse expulso do Uruguai. Garibaldi foi à legação brasileira e desafiou-o para um duelo. O ministro (João Francisco Regis) não aceitou, sustentando que representava o governo de seu país e não duelaria com um delinquente. Depois a diplomacia brasileira amansou-se.
    Cadê o Amarildo?
    Sabe-se que o major Edson Santos poderá deixar o comando da UPP da Rocinha.
    Só não se sabe:
    1) Onde está o pedreiro Amarildo;
    2) Com que frequência as câmeras da PM pifam. (As da UPP pifaram na hora de registrar a saída de Amarildo.)
    3) Com que frequência as viaturas da PM rodam com os GPS desligados. (Os da UPP não funcionavam naquele mesmo dia.)
    Às duas últimas perguntas, o secretário José Mariano Beltrame pode responder. É só querer.
    Ócio
    Nos quatro próximos domingos, o signatário usufruirá o programa Mais Ócio, financiado pela Bolsa Nada.
    daqui

    Marcelo Gleiser

    folha de são paulo

    Sol novo, Sol velho


     
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    Você gostaria de se ver mais velho? Se houvesse um espelho mágico capaz de mostrar sua imagem em uma, duas ou mais décadas, você olharia?
    Imagino que a opinião seria dividida, uns tantos sim, outros tantos não. Afinal, ver o futuro teria repercussão sobre como viveríamos no presente, o que criaria uma série de paradoxos estranhos.
    Se no futuro eu me visse gordo e resolvesse fazer uma dieta, emagreceria? Se emagrecesse, não estaria mudando o futuro? E será que isso é possível? Afinal, o espelho me mostrou gordo... Ou, quem sabe, o futuro não seja um apenas, mas feito de múltiplas opções, como no conto de Jorge Luis Borges "O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam".
    Deixando essas preocupações um tanto humanas de lado (voltaremos a elas em outro dia), o fato é que em astronomia, ao menos, ver o futuro e o passado é extremamente útil.
    Tanto assim que um time internacional de astrônomos, liderados pelo brasileiro Jorge Meléndez, da USP, vem buscando estrelas semelhantes ao Sol, mais velhas e mais novas, para que possamos aprender sobre a evolução da nossa estrela-mãe. Para tal, o grupo usa o gigantesco telescópio em Paranal no Chile conhecido como VLT (do inglês Very Large Telescope, "Telescópio Muito Grande"), do ESO (Observatório Europeu do Hemisfério Sul), um consórcio de 15 países com vários instrumentos de grande alcance e precisão. O Brasil deve ratificar sua presença como membro oficial do ESO ainda este ano.
    Em artigo de abril publicado no prestigioso "Astrophysical Journal Letters", com TalaWanda Monroe, também da USP, como primeira autora, o grupo revela dados de duas estrelas "gêmeas" do Sol, uma bem mais nova, a 18 Scorpii, e outra bem mais velha, a HIP 102152. Ou seja, um olho no nosso passado e outro no nosso futuro ou, ao menos, no futuro do Sol.
    HIP 102152, com 8,2 bilhões de anos, é bem mais velha do que o Sol, que tem 4,6 bilhões de anos. A questão de maior importância para o público é se o Sol é uma estrela típica ou atípica. É bom sabermos, pois nossa sobrevivência na Terra depende do Sol e da sua estabilidade.
    Caso seja uma estrela normal, dentro de sua classificação (estrelas aparecem em classes diferentes, dependendo da sua massa, temperatura etc.), o Sol continuará a gerar luz por muitos bilhões de anos, em torno do dobro da sua idade. Caso não seja normal, as coisas podem complicar. E, se complicarem, a vida na Terra poderá estar em apuros mais cedo do que gostaríamos.
    Estudando 21 elementos químicos presentes nas três estrelas, o grupo mostrou que o Sol é uma estrela normal. Em particular, que o elemento lítio, que é bem mais raro no Sol do que em estrelas gêmeas mais novas, é destruído com o envelhecer da estrela: HIP 102152 tem aproximadamente a metade do lítio que temos aqui.
    O grupo mostrou também que a HIP 102152 não tem planetas gigantes como o nosso Júpiter ou Saturno na região mais próxima dela, onde podem existir planetas rochosos como a Terra. Ou seja, da imagem do Sol idoso, aprendemos que o nosso Sol não foge à regra; o que possibilita que outros como ele tenham planetas como a Terra que, quem sabe, abriguem também formas de vida.
    Marcelo Gleiser
    Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti e autor, mais recentemente, de "Criação Imperfeita". Escreve aos domingos na versão impressa de "Ciência".