sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Painel FC - Bernardo Itri


PAINEL FC
folha de são paulo
BERNARDO ITRI - painelfc.folha@uol.com.br
Bumba meu boi
A Conmebol não tem até hoje estabelecido um órgão disciplinar para julgar casos como o que ocorreu no Morumbi. Por imposição da Fifa, a entidade criou -só no início de 2012 e apenas estatutariamente- uma Tribuna de Disciplina (espécie de STJD), uma Câmara de Apelação e um código disciplinar. Os dois órgãos, porém, não estão constituídos e não podem julgar. O caso ficará com o Comitê-Executivo, estritamente político.
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DIVIDIDA
"Dos R$ 135 milhões, fomos a R$ 220 mi-lhões. Com isenções, ficou em R$ 184 milhões"
LUIZ DE CARVALHO
secretário da Copa em Curitiba, sobre o custo da reforma da Arena da Baixada
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Escalação. O Comitê-Executivo da Conmebol é constituído pelo presidente Nicolas Leoz, seu vice, o secretário-geral, o tesoureiro e outros sete dirigentes. Ou seja, nenhum especialista para julgar casos de indisciplina.
Mundo das ideias. Se fosse julgado de acordo com o recém-criado código disciplinar, o caso envolvendo o Tigre, que abandonou a partida no intervalo, poderia causar de uma multa financeira até a desqualificação do clube em futuras competições da Conmebol. A multa citada no regulamento disciplinar varia entre US$ 100 e US$ 100 mil.
Modelo. "As mudanças disciplinares seriam uma das mais importantes modificações já feitas pela Conmebol para competições. Um sistema rígido de sanções disciplinares, como existe no Brasil, poderia acarretar a diminuição da violência em competições da entidade", destaca Eduardo Carlezzo, advogado especialista em direito desportivo.
Cordialidade. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, vai hoje à Vila Belmiro. Palmeirense, ele entregará placa comemorativa ao centenário do Santos à diretoria do clube. Anteontem, foi ao Morumbi ver o São Paulo.
Conflito. Uma exigência da diretoria santista afastou Willian José da Vila Belmiro. Na negociação com o atacante, o clube pediu que o jogador se comprometesse a ficar pelo menos um ano na equipe. O estafe de Willian José, no entanto, disse que não descartava negociá-lo para o exterior no meio de 2013.
Vai tu mesmo... O impasse culminou com a ida de Willian José para o Grêmio, onde foi apresentado ontem. No clube gaúcho, o atacante ficará por empréstimo até o meio de 2014. O jogador era um dos desejos de Vanderlei Luxemburgo para a Libertadores.
A postos. Membros do Comitê Organizador Local fizeram uma visita anteontem ao Castelão, no Ceará, primeiro estádio da Copa-14 a ser entregue. Testaram diversas instalações -até os chuveiros dos vestiários- e saíram com boa impressão. A constatação é que o gramado é o único item ainda que não está pronto.
Divulgação. Além de Fortaleza, o COL visitou as outras cinco sedes da Copa das Confederações. Trata-se de uma parceria com a Embratur e com a Fifa para levar a imprensa internacional às cidades-sedes.

    VIDA DO INTERIOR » O DONO DO REGISTRO - Paulo Henrique Lobato‏

    Durante 365 dias no ano, chova ou faça sol, homem controla abastecimento racional de água de moradores em distrito do Centro-Oeste de Minas, garantindo justiça e evitando desperdício 

    Paulo Henrique Lobato
    Estado de Minas: 14/12/2012 

    Pitangui – Seu Agenor Luiz de Campos, de 57 anos, é um homem religioso e trabalhador. “De domingo a domingo, faça chuva, faça poeira, estou na lida”, garante Dodô, como é conhecido em Campo Grande, distrito de Pitangui, no Centro-Oeste mineiro. O lavrador é também o homem da chave do povoado. Ele próprio explica o porquê: “A água aqui é racionada. Diariamente, às 7h, abro o primeiro registro da caixa-d’água do lugarejo e uma parte das casas recebe água nas torneiras. Ao meio-dia, fecho o primeiro registro e abro o segundo. Daí, é a outra banda de casas que passa a ter água. À noite, fecho tudo para que a caixa, que comporta 15 mil litros, fique cheia. Na manhã seguinte, começa tudo novamente”.

    Campo Grande, ao contrário da xará capital de Mato Grosso do Sul, é um lugar pacato, com cerca de 500 pessoas. Lá, o gado pasta no gramado do campo de futebol, de onde se vê o pequeno cemitério, o cerrado típico da região e a estrada de terra, que dá acesso, alguns quilômetros adiante, à rodovia estadual que liga Pitangui a Martinho Campos. O dia a dia de boa parte dos moradores é prosear com os vizinhos na varanda das casas ou mesmo nas ruas, calçadas de pedras, pois a irrisória frota de veículos não é uma ameaça aos pedestres do lugarejo. Seu Dodô sempre tem tempo disponível para uma boa conversa. 

    Fã de um cafezinho quentinho, ele serve a bebida em copos novos ou mesmo em vasilhames que um dia já foram embalagens de massa de tomate. Dodô não sai de casa sem a proteção do chapéu de palha. Conhecido por todos do lugarejo, a cerca de 150 quilômetros de Belo Horizonte, o homem da chave da caixa-d’água se acostumou ao sol escaldante do Centro-Oeste de Minas. “O lugar mais longe que conheço é Brasília. Fui lá visitar uma irmã. Também já fui a Belo Horizonte e gostei muito de um shopping. Como é bonito! Tem tudo, né?” 

    Quando puder, deseja ele, voltará ao shopping e levará a mulher, dona Iolanda, de 49. Eles estão juntos há quase três décadas. Tiveram quatro filhas: Lediani, Natália, Francieli e Tatiane. As três primeiras moram com os pais. Camila, a neta de 2, também divide o mesmo teto. “Minha outra neta, Brenda, de 7, mora com os pais dela, em Pitangui. Eles sempre vêm nos visitar”, diz Dodô, acrescentando que, embora a vida seja pacata no lugarejo, algumas coisas mudaram em Campo Grande. Uma delas foi a chegada da internet. A tecnologia é um contraste ao racionamento diário de água. Dodô, nascido e criado lá, já se acostumou com isso. 

    DEPENDÊNCIA Ele é funcionário de uma empresa que presta serviços à prefeitura. Para abrir e fechar diariamente os registros, recebe pouco mais de um salário mínimo. Está nessa lida há oito anos. O homem da chave defende a necessidade da construção de outra caixa-d’água em Campo Grande, pois a demanda exige pelo menos mais um reservatório.

    O racionamento de água dita o ritmo do dia a dia das donas de casa. As famílias cujas torneiras do lar recebem água na parte da manhã precisam lavar roupas e outros objetos antes do meio-dia, horário em que o registro será fechado e a outra banda de Campo Grande receberá água. “O pessoal já se acostumou. É bom dizer que algumas casas têm cisternas, portanto, não dependem da nossa caixa-d’água”, explicou Tatiana Natividade, de 24.

    Mas Dodô ressalta que, de vez em quando, algum vizinho o procura para saber se pode abrir o registro antes do prazo. A caixa-d’água foi construída no morro mais alto da área urbana de Campo Grande. Fica atrás da Capela de São João Batista, cujas missas ocorrem toda terceira sexta-feira do mês. “É celebrada por um padre de Pitangui. O interior da capela é muito bonito”, conta Dodô, que não perde um culto. Nos demais fins de semana, continua Dodô, ministros da própria comunidade administram as orações. 

    Tradições e costumes preservados

    Junho é mês de festa animada no povoado de Campo Grande. No fim de semana anterior a 24 de junho, quando é comemorado o Dia de São João Batista, o lugarejo recebe uma multidão de fiéis para homenagear o profeta e também curtir as guloseimas vendidas nas barraquinhas. Depois das orações, por volta das 20h, há uma grande festa, em que a atração principal é uma fogueira com 20 metros de altura, cujas labaredas clareiam o gramado da praça em frente à capela. O evento, garantem os mais antigos, é festejado há mais de 100 anos.

    “A homenagem a São João Batista é muito boa. Vem gente de toda a região. A cada ano, aumenta a quantidade de pessoas. É uma alegria só”, garante seu Dodô, que mora numa casa a cerca de 50 metros da capela. Ele e a mulher, dona Iolanda, se divertem com foguetes, cantorias, quentões, canjicas e outras comidas e bebidas típicas de festas juninas. 

    Durante a festa, animada por músicos da região, os fiéis cantam os seguintes versos: “Ó senhor São João Batista / a vossa bandeira cheira / cheira a cravo, cheira a rosa / cheira a flor da laranjeira”. Moradores e visitantes dão três voltas ao redor da igrejinha antes de erguerem, no gramado, o mastro com a imagem do santo. Durante o esforço para ficar o mastro na terra, alguns dizem: “Ô, ô, bambeia não”.

    Anos a mais de vida têm menos qualidade


    Aumento da longevidade e número de décadas vividas com saúde estão se distanciando, segundo estudo global
    Transtornos como depressão e de ansiedade estão entre os que mais roubam tempo de vida saudável
    DÉBORA MISMETTIEDITORA-ASSISTENTE DE “CIÊNCIA+SAÚDE”da FOLHA DE SÃO PAULOO aumento da expectativa de vida da população mundial nos últimos 20 anos veio acompanhado de uma má notícia: os anos a mais estão sendo vividos com menor qualidade de vida por causa de problemas de saúde.
    Um conjunto de estudos publicados ontem pela revista médica "Lancet" avaliou o impacto das doenças na população global. Pesquisadores de 50 países, Brasil inclusive, analisaram um grande volume de dados, como incidência de doenças, motivos de internação hospitalar e mortalidade em todos os cantos do mundo para produzir um retrato das condições de saúde em 2010.
    Um dos artigos, liderado por Joshua Salomon, da Escola de Saúde Pública de Harvard, mostra o descompasso entre a vida longa e a vida saudável. O trabalho comparou as condições de saúde entre 1990 e 2010 em 187 países.
    Os resultados mostram que um ano a mais de vida corresponde, na verdade, a 0,8 ano vivido com saúde. E, quanto mais a expectativa de vida aumenta, maior é o degrau entre a longevidade e a qualidade de vida.
    Em 2010, a expectativa de vida saudável média era de 58,3 anos para um homem e de 61,8 anos para uma mulher. Em relação a 1990, isso representou um ganho de quatro anos com saúde, mas a expectativa de vida total cresceu bem mais nesse período (4,7 anos para eles e 5,1 anos para elas).
    Isto é, todos vivem mais, mas com menos qualidade.
    O problema, dizem os autores, é que os ganhos na saúde observados nas últimas décadas se deveram mais à redução da mortalidade infantil do que ao combate às doenças crônicas e suas consequências.
    Transtornos mentais como a depressão são responsáveis por metade dos anos vividos com alguma sequela incapacitante, segundo os pesquisadores Alan Lopez e Theo Vos, da Universidade de Queensland, na Austrália.
    A pressão alta é, agora, o maior fator de risco para doenças, causando 9,4 milhões de mortes em 2010, seguido pelo tabagismo e o consumo excessivo de álcool.
    Os dados devem servir como alerta para a comunidade global, diz a equipe de Harvard. "As Metas do Milênio [estabelecidas pelas Nações Unidas] se concentraram na redução da mortalidade por causas específicas como HIV, tuberculose e malária. Enquanto isso, a prevalência de doenças incapacitantes mudou pouco."
    Jarbas Barbosa, secretário de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, afirma, no entanto, que o enfrentamento às doenças crônicas começa a ganhar a visibilidade devida. Ele lembra que, no ano passado, a ONU realizou uma reunião de cúpula para discutir o impacto das doenças crônicas e que, em maio de 2013, devem ser estabelecidas metas para o combate a doenças como câncer, diabetes e problemas cardíacos.
    Segundo Barbosa, que foi entrevistado para a série de estudos, podem ser decididos requisitos para o acesso a exames de mamografia e câncer do colo do útero, redução no consumo de sal e mortalidade precoce.
    "Se não atacarmos as doenças crônicas, as pessoas vão viver mais mas com sequelas de AVC (acidente vascular cebral), amputação por causa de diabetes, diálise."

      Mata tropical tem 18 mil espécies de artrópodes por ha


      Estimativa, feita no Panamá, é a mais precisa já realizada e deve ajudar em contas globais de biodiversidade
      Jürgen Schmidl/Universidade de Erlangen
      Pesquisadores usam gaiola presa a guindaste para coletas
      Pesquisadores usam gaiola presa a guindaste para coletas
      REINALDO JOSÉ LOPESEDITOR DE “CIÊNCIA+SAÚDE” da FOLHA DE SÃO PAULOUm esforço sem precedentes, reunindo mais de uma centena de cientistas, esquadrinhou uma floresta tropical do Panamá de alto a baixo na tentativa de responder uma pergunta aparentemente simples: quantas espécies de artrópodes (o grupo dos insetos e aranhas, entre outros bichos) existem ali?
      O resultado -nada menos que 18 mil tipos de artrópodes em apenas meio hectare de mata- é a estimativa mais precisa já obtida a respeito da diversidade desses seres, que correspondem a mais de 80% dos animais da Terra.
      "Até onde sabemos, conseguimos amostrar todos os habitats, do solo da floresta ao alto das árvores, e todos os principais grupos de artrópodes", diz o brasileiro Sérvio Pontes Ribeiro, da Universidade Federal de Ouro Preto, coautor do estudo na edição de hoje da revista "Science".
      Ribeiro é especialista na diversidade de bichos no chamado dossel superior, a área mais alta da floresta.
      Paradoxalmente, diz ele, o ambiente nessa região lembra o do cerrado: muita luz solar, pouca umidade e nutrientes mais escassos.
      As condições especiais favoreceram a evolução de insetos que põem seus ovos dentro das folhas e formam uma espécie de tumor vegetal nelas -um abrigo mais úmido e nutritivo para elas.
      Mapeando esse e outros ambientes com vários tipos de armadilhas e redes, os cientistas estimam que, em toda a floresta de San Lorenzo, com seus 6.000 hectares, há cerca de 25 mil espécies.
      Curiosamente, um único hectare é suficiente para abrigar dois terços desse total.
      "Essa é a grande mudança trazida pelo nosso estudo", afirma Ribeiro. "Achava-se que a maioria das espécies de artrópodes existia em espaços muito pequenos. O que nós estamos vendo é que elas ocorrem em áreas amplas e provavelmente precisam de territórios grandes."
      A equipe está replicando a metodologia em outros lugares, como a Austrália e Vanuatu, na Polinésia.
      Com mais dados, a expectativa é que seja possível ter uma ideia mais clara sobre outro número misterioso: quantas espécies, no total, existem na Terra toda.