domingo, 6 de janeiro de 2013

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » O des(acordo) ortográfico‏


Estado de Minas: 06/01/2013 
Quem cravou essa expressão – (des)acordo ortográfico – foi o conhecido professor Pasquale Cipro Neto. E agora a presidente Dilma resolveu adiar para 2016 a oficialização da nova ortografia. Segundo Cipro Neto, o “(des)acordo ortográfico é um verdadeiro horror”. Penso que o acordo acertou numas coisas, errou em outras e conseguiu estabelecer confusões várias. 

Acho bom acabar com o trema. Acho realista botar no alfabeto as letras k, w, y. Primeiro porque tais letras não são mais estrangeiras. Segundo porque grande parte da população inventou nomes exóticos para os filhos com y, w e k, como se estivessem recuperando o tupi-guarani por meio do inglês. Mas é um equívoco não diferenciar o verbo “pára” da preposição “para”. Faz falta. E não faz sentido ter que escrever “antirreligioso” sem hífen, com os dois erres, e botar hífen em “hiper-requintado”.

Mas, além dessas minúcias, as falácias do acordo estão nos seus pressupostos. Vejamos:

1) “Melhorar o intercâmbio cultural entre os países em que se fala o português.”
 Isto é falso. O intercâmbio cultural entre o Brasil e outros seis países de língua portuguesa existirá não por causa da presença/ausência de um trema, um hífen ou acento diferencial. O intercâmbio cultural só existirá se o Ministério da Cultura e o Itamaraty tiverem uma política cultural. Não têm. Vivem de expedientes e improvisações. Testemunhei isto de perto durante os seis anos em que dirigi a Fundação Biblioteca Nacional. Não há projetos, nem coordenação. Com todas as dificuldades, o pequenino Portugal faz mais pela divulgação de sua cultura do que nosso gigante adormecido. 

2) “Reduzir o custo econômico da produção e tradução de livros.”
Outra falácia. As editoras gastaram fortunas reeditando livros na nova ortografia. As dificuldades linguísticas não acabam tirando ou botando acentos. As principais dificuldades da língua são naturais e não têm solução. São regionalidades inevitáveis. Cada língua cria seu vocabulário, sua semântica e até variações sintáticas. Se esse quesito fosse verdadeiro, Guimarães Rosa jamais seria lido em Portugal e na África. 

3) “Facilitar a difusão bibliográfica e das novas tecnologias.”
Isto é uma abstração. Primeiro porque os acentos e hifens nunca atrapalharam o entendimento em português. Em segundo lugar, assim como o latim era a língua em que até recentemente os filósofos e cientistas se comunicavam, hoje o inglês é esse esperanto universal. Onde há pesquisa avançada criam-se termos, por isso a grande maioria das palavras importantes em tecnologia são em inglês. Nem o francês nem o alemão podem concorrer com o inglês neste campo.

4) “Aproximar as nações de língua portuguesa.”
Outro equívoco. Não é a ausência do hífen, do acento diferencial e do trema que vai nos redimir culturalmente. O que separa o Brasil dos demais países de língua portuguesa é a incúria brasileira. Nossas novelas de televisão, a música popular e a literatura que chegam a Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e Portugal, e não representam nem 10% do que se pode fazer ordenadamente. Aliás, os industriais, os exportadores, os comerciantes brasileiros que se instalaram na África e na Ásia teriam muito que ensinar aos intelectuais. Tais empresários nem sabem o que é hífen e tremem ao usar o trema, no entanto…

Enfim, estou apenas insinuando coisas que venho repetindo há décadas. Dei fartos exemplos no livro Ler o mundo (Editora Global). Participei de insanas reuniões em Brasília e no exterior. E há pouco tempo fiz, no Itamaraty, a convite do embaixador Jerônimo Moscardo, duas conferências para embaixadores latino-americanos e africanos. A primeira chamava-se “Brasil e América Latina: uma plaza mayor”; e a segunda: “Brasil e África: fraturas geológicas e aproximações culturais”.

O assunto é vasto. Precisamos mais de vontade política do que de vontade linguística.

Dilma e a política- Tereza Cruvinel‏


Estado de Minas: 06/01/2013 
Em seu primeiro biênio de governo, a presidente Dilma Rousseff (PT) fez valer, quase sempre, sua maioria parlamentar, embora tenha sofrido derrotas dignas de nota, de cujos efeitos se defendeu com vetos ou medidas provisórias. Assim foi no caso do Código Florestal e no dos royalties do petróleo. Dilma não faz política. Não tem gosto nem paciência para os jogos que seduzem os políticos. Seus aliados reclamam há dois anos do descaso dela. Apesar disso, e dos resultados econômicos decepcionantes, ela fidelizou a base graças à alta popularidade. Agora, começa o difícil terceiro ano. Os institutos de pesquisas, por meio de séries históricas, mostram que ele costuma derrubar a popularidade dos presidentes. Dilma talvez precisasse ser mais afável com aqueles de quem precisará para disputar a reeleição. Mas, de seu círculo próximo, vem o aviso: não há chance de isso acontecer.

Neste comecinho de ano, voltaram os rumores de que a ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, poderia deixar o cargo. Foram catalizados pela descoberta de que ela não foi convocada para uma reunião com Dilma e outros auxiliares, em 27 de dezembro, para discutir vetos e medidas legislativas. Nem ela nem o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, enfraquecido pelo envolvimento de seu adjunto na Operação Porto Seguro. No palácio, o fato é minimizado por um colaborador. Dilma, que trabalha em ritmo frenético, esticou o expediente até altas horas naquele último dia de despacho em 2012. Nem sempre ela convoca todos os auxiliares afetos a um tema para reuniões que improvisa. Pode ter sido apenas isso, mas o desconforto da ministra Ideli, de tão conhecido, já nem é negado dentro do governo. E ele decorre da inapetência política da presidente. Ela gosta é de gestão. A coordenadora política pauta a si mesma, faz os acordos possíveis ou necessários, mas depois, se não gosta deles, Dilma os desautoriza. Nessas condições, nem Ideli nem o mais hábil articulador político fará uma ponte segura entre o Executivo e o Legislativo.

Essa ponte se baseia no cumprimento dos acordos, na reciprocidade, no compartilhamento do poder, por meio de nomeações ou liberações de verbas, e também nos pequenos mas significativos gestos que Dilma não faz. Todo líder parlamentar quer poder dizer aos liderados que tem acesso ao governante, que encaminha os pleitos e consegue o atendimento de alguns. Dilma não tem tempo para isso. Quando as coisas azedam com algum ator político, faz um afago reconciliador e a vida segue. Assim foi há pouco tempo, quando o líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), quis lhe entregar o cargo, sentindo-se desprestigiado. Ela o recebeu, o encheu de atenções, tiraram fotografias e ficou tudo bem. Por ora. Menos sorte têm os líderes partidários, que são muitos. De vez em quando ela os recebe coletivamente, como no coquetel que lhes ofereceu no fim do ano passado. Ela promove um sarau, mas eles gostam é de conversa ao pé do ouvido.

Em 2013, o Congresso terá novos presidentes e novos líderes. Todos estarão pensando intensamente em se reeleger em 2014. Dilma vai se tornar alvo mais claro da oposição, até agora ocupada pelo esforço de desconstruir o mito Lula. Na economia, tudo indica que o pior passou e ela colherá melhores resultados. Se a popularidade cair, do alto em que está, ainda ficará em posição vantajosa. Mas, gostando ou não, será tempo de fazer política, de arbitrar conflitos, de ter mais presença nos debates que passam pelo Congresso e, principalmente, de estreitar nós e laços.


Em defesa da política

Na semana passada, os políticos foram muito espancados, particularmente um, José Genoino (PT-SP), por tomar posse como deputado apesar de condenado no julgamento do mensalão. Antes do trânsito em julgado, seus direitos políticos são plenos, precisou lembrar o ministro Marco Aurélio Mello, do STF. Políticos devem ser criticados por seus erros, mas, quando a crítica transborda das individualidades, fragilizamos a ideia da representação política. É o que tem acontecido no mundo e no Brasil, embora não possamos retornar à praça grega da democracia direta. Em defesa da política é o titulo de um livro do cientista político Marco Aurélio Nogueira, lançado em 2001 mas atualíssimo. Deve ser lido pelos que estão envenenados pelo antipoliticismo. Como seria a sociedade em que não houvesse mais políticos? Quem faria o que eles fazem? O seu fim não significaria o renascimento da autoridade em estado bruto? Questões como essas são discutidas com argúcia no livro da serie Livre Pensar, do Sesc. 


Territórios do poder

Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), provável presidente da Câmara, não planeja exatamente “desobedecer” ao Supremo, mantendo os deputados condenados no mandato depois do trânsito em julgado. Em campanha, ele tem dito aos pares que, se eleito, pretende é chamar o assunto para a Câmara, reafirmando sua prerrogativa constitucional exclusiva, abrindo os processos de cassação logo que se conclua o trânsito em julgado. Está visto que essa disputa prosseguirá, impondo ao Congresso, em 2013, uma tarefa importante: a definição clara dos limites do Judiciário para interferir no funcionamento da democracia representativa.

Brasil brasileiro ( Ary Barroso ) - Ailton Magioli‏

Diogo Vilela estreia dia 18, no Rio de Janeiro, espetáculo musical de sua autoria, dedicado ao mineiro Ary Barroso, com participação de Tânia Alves, Mariana Baltar e Marcos Sacramento 

Ailton Magioli
Estado de Minas: 06/01/2013 
Além da caracterização física, Diogo Vilela se preocupou em trabalhar a voz do compositor e radialista
Nos últimos dois anos, o carioca Diogo Vilela, de 55 anos, passou grande parte do tempo estudando a voz do compositor, locutor e radialista mineiro Ary Barroso (1903-1964), que vai interpretar no teatro. “Ele tinha uma voz anasalada, articulada, de um tempo que não existe mais”, justifica o ator, que estreia Ary Barroso – Do princípio ao fim dia 18, no Teatro Carlos Gomes, do Rio de Janeiro.

Para Diogo Vilela, Ary, uma pessoa polêmica, de notória personalidade, tem tudo para conquistar o público do teatro. “Quem tem idade acima de 45 anos vai receber o espetáculo bem. Já os mais novos terão a oportunidade de aprender muito sobre a MPB”, aposta ele. “Teatro é voz”, defende Diogo, que começou a construir o personagem a partir daquele que um dia se tornaria conhecido como a “voz do gol”, na narração do futebol, ao lado da de Mário Filho. Posteriormente, ele incorporou ao personagem detalhes como o uso dos óculos de lentes grossas. 

Além da ajuda de familiares, que doaram filmes e gravações do compositor, Diogo contou com a participação indispensável da fonoaudióloga Glorinha Beuttenmüller. Velha conhecida do autor de Aquarela do Brasil, ela acabou chamando a atenção de Diogo para o humor ferino que Ary Barroso transmitia na própria voz. Autor, diretor e intérprete daquela que classifica como “peça musicada”, Diogo Vilela teve ideia de homenagear Ary Barroso quando fazia o musical A gaiola das loucas, sob a direção do amigo Miguel Falabella. 

“Ficava pensando em fazer algo no teatro sobre a nossa música”, recorda o ator, que, depois de pesquisar a vida do compositor, a partir do livro de entrevistas Recordações de Ary Barroso, de Mário de Moraes, resolveu escrever o espetáculo com o qual pretende excursionar país afora. Em Ary Barroso – Do princípio ao fim, Diogo Vilela passa grande parte do espetáculo deitado em uma cama, na qual, à beira da morte, delírio e realidade se entrelaçam para trazer à cena a vida do autor de vários clássicos da MPB. 

O espetáculo, que é o primeiro escrito pelo ator, fala dos últimos dias de vida de Ary Barroso, que, sob atenção da mulher, Ione, é homenageado pelo Grêmio Recreativo Escola de Samba Império Serrano, da qual foi tema do desfile do carnaval de 1964. Enquanto o samba Aquarela brasileira é cantado na avenida, o compositor vai recordando detalhes da vida e da criação de seus grandes sucessos. A realidade vem à cena por intermédio da mulher de Ary, que será interpretada pela atriz Tânia Alves, em participação especial. Atores e cantores completam o elenco, formado por Ana Baird, Alan Rocha, Esdras De Lucia, Mariana Baltar, Reynaldo Machado e Marcos Sacramento.

 A banda, que interpretará as canções ao vivo, é formada por Josimar Carneiro (violão, guitarra e direção musical), Henrique Band (saxofones e flauta), Antônio Guerra (piano e acordeom), Marcelo Müller (contrabaixo) e André Boxexa (bateria e percussão). Sob a supervisão artística do diretor Amir Haddad, o espetáculo terá iluminação de Jorginho Carvalho, cenário de Beli Araújo e figurinos de Pedro Sayad. Para fazer uma ligação entre o delírio e a realidade presentes na encenação, Diogo compôs especialmente para o espetáculo, todo escrito em versos, o samba de breque Quantas vezes já morri (leia a letra na página 6).

Vida e morte “Precisei construir algo para as pessoas entenderem o medo que ele tinha da morte. Não havia no repertório de Ary uma música sequer que falava da premonição da própria morte do compositor, que teve nove comas”, revela Diogo Vilela. A data da morte de Ary marcava, ainda, o aniversário de Carmen Miranda (1909-1955), que se tornaria uma das maiores intérpretes da música do compositor. 

Personagens como a própria Carmen, além de Linda Batista, Lamartine Babo, Aracy Cortes, Alda Garrido e tantos outros que tiveram o privilégio de conviver com Ary, virão à cena no espetáculo, que vai compor um verdadeiro painel da vida artística brasileira das décadas de 1930-40. Afinal, o compositor, que nasceu em Ubá, na Zona da Mata mineira, seria responsável por fixar o conceito de Brasil brasileiro. Cerca de 20 das mais de 400 canções que ele compôs serão interpretadas ao vivo no espetáculo.

ARY BARROSO – DO PRINCÍPIO AO FIM
Estreia dia 18, no Teatro Carlos Gomes, Praça Tiradentes, s/nº, Centro, Rio de Janeiro. Classificação etária: 12 anos. Ingressos: de R$ 10 a R$ 60. Até 31 de março.

Um Ary Barroso engraçado, desaforado, mal-humorado e até mal-educado. Em síntese, este é o personagem que o público vai encontrar no palco, segundo o supervisor Amir Haddad. Mineiro como o compositor, o diretor radicado no Rio diz que, apesar de profundamente ligado à Ubá natal, Ary foi um narrador de futebol capaz de revelar uma brasilidade enorme dentro dele, além de ter-se tornado conhecido como um exigente apresentador de programa de calouros no rádio.

“As músicas de Ary não são mais dele. São da partitura do imaginário nacional”, empolga-se Amir, lembrando que o compositor tem aquela “saudade e melancolia” tão características dos mineiros, que normalmente cantam muito bem. Tratava-se, ainda de acordo com o supervisor do espetáculo, de um caboclo sem papas na língua, que se destacava desde a música à narração de futebol, passando pelo programa de calouros que apresentava na Rádio Nacional. 

Acusado de nacionalista, diante das letras cívicas de algumas de suas músicas, o compositor, de acordo com Amir, fala do Brasil de forma restauradora da autoestima. O que teria contribuído para as suspeitas da simpatia dele ao regime nazista, depois de compor sambas-exaltação em pleno Estado Novo de Getúlio Vargas. “Villa-Lobos recriminava as letras cívicas de Ary, que, na verdade, refletiam o seu amor pelo país”, defende Amir Haddad. De acordo com ele, apesar de Diogo Vilela ainda estar em processo de composição do personagem, o ator está cada vez melhor na pele de Ary Barroso.

 “Além da angústia e do desespero característicos do meio, Diogo é uma pessoa visceralmente do teatro. Poucos são assim como ele. Daí o fato de representar sem medo de ser ator”, afirma Amir Haddad, que destaca ainda a coragem que o ator tem para dirigir e produzir teatro. “O dinheiro que o Diogo ganha ele investe todo no teatro. Ele leva e divulga o Brasil na arte dele. Isto é muito valioso em momento que o teatro é ameaçado pela virtualidade”, conclui o supervisor.


• Quantas vezes já morri

De Josimar Carneiro e Diogo Vilela

Ary – Eterno? Só hoje? (Breque)
Então não sabem? 
Não ouviram por aí, o que falam da pessoa do seu convidado?
Que estive em coma, quantas vezes já morri
De tísica, acamado, alcoolizado
E que já estive pra morrer, desde o ano passado!
Moreno/Sambistas – De quê?
Ary (falando) – Eu sei lá! Morte morrida, de velhice, acidentado!
Moreno (falando) – Que é isso, Ary, Sua importância é maior que um boato
Sambista 3 – E, com certeza, nós
Vamos abafar o fato
Ary (voltando ao breque)
De manhã cedo
Quando acordo, ligo o rádio
Ouvindo minhas canções
Como já estava acostumado
Escuto o locutor
Blefando
Me jogando pra escanteio
Me deixando apavorado!
(no breque)
Moreno/sambistas – Anunciando para o Rio de Janeiro
Que já tinham publicado!
Moreno – Que o Ary tinha morrido
E que passou pro outro lado
Ary (cantando)
E eu nessa agonia
Se mudasse de estação!
Outro locutor também dizia
Que era pneumonia, que eu estava com febrão!
(sambistas cantando)
Sambista 1 
– E que mui doente tu jazias
Não entravas fevereiro
Sambista 2 – Que até março tu não ias!
Nem durava o mês inteiro!
Sambista 3 – Ah! Mas isso não, não!
(todos) – Mas isso não! 


Família quer preservar acervo 

Na Justiça para tentar reaver parte da obra do avô, administrada pelas editoras Irmãos Vitale e Mangione, o neto Márcio Barroso, de 53 anos, diz que a família está feliz com a iniciativa de Diogo Vilela em levar a vida de seu avô para os palcos. “Diogo é um grande e respeitado ator”, elogia. Como esclarece o neto, os Barrosos também acabaram de autorizar uma produtora de São Paulo a lançar um box de 20 discos de gravações originais de obras de Ary, que foram remasterizadas. 

Paralelamente, Márcio, que criou a editora Aquarela do Brasil para administrar as músicas de Ary (são cerca de 450), diz que a mãe dele, Mariusa Barroso, tem dois livros prontos para serem lançados – um biográfico, sobre a relação dela com o pai; e outro de resenhas do próprio compositor – aguardando apenas o interesse das editoras em publicá-los. Já o acervo pessoal de Ary Barroso, segundo o neto, continua sob a guarda da própria família, na expectativa de ser levado para a sede do novo Museu da Imagem e do Som (MIS), ainda a ser inaugurada em Copacabana, no Rio de Janeiro. 

Em Ubá, ainda de acordo com Márcio Barroso, há projeto de construção de um Memorial Ary Barroso, que, no entanto, ainda não saiu do papel. Troféus, diplomas de honra ao mérito, caricaturas e uma série de objetos pessoais, como o primeiro piano, compõem o acervo do compositor. O neto também não esconde o desejo de realização de um documentário sobre Ary Barroso, que além de compositor foi radialista e locutor esportivo. 

Polêmico, Ary Barroso chegou a ser vereador pela União Democrática Nacional (UDN), tendo recebido, em 1946, a segunda maior votação do Rio de Janeiro, então capital da República, ficando atrás apenas de Carlos Lacerda. O vereador mostrou visão ao propor, ainda em 1949, a criação da coleta seletiva de lixo no Rio de Janeiro, e foi autor de manobras que foram decisivas na escolha do Maracanã como região para abrigar a construção do novo estádio de futebol da capital federal.


Um caboclo polêmico 
Para Amir Haddad, supervisor de Ary Barroso - Do princípio ao fim, obra do compositor ajudou a restaurar a autoestima do brasileiro. Memorial em Ubá ainda não saiu do papel 


Ailton Magioli
Ary Barroso compôs mais de 400 canções para vários intérpretes. Cerca de 20 fazem parte do espetáculo de Diogo Vilela

Na Índia, pôr do sol é toque de recolher das mulheres

FOLHA DE SÃO PAULO

Depoimento
Regras para evitar estupro incluem não usar roupa chamativa e chegar cedo em casa
FLORÊNCIA COSTAESPECIAL PARA A FOLHAO país que deu ao mundo o primeiro manual sexual, o Kamasutra, e que reverencia a energia feminina -a deusa Shakti- vive hoje uma revolução de costumes. Duas Índias -a nova e a antiga- se chocam diariamente.
Nos últimos dias, o mundo tem visto esse embate, com protestos gigantescos após o estupro coletivo dentro de um ônibus e a tortura que resultou na morte de uma jovem de 23 anos em Nova Déli.
A mulher indiana está no olho do furacão dessa disputa em uma das sociedades mais patriarcais do mundo. Há quase meio século, a Índia recebia a sua primeira governante mulher: Indira Gandhi assumiu o cargo de primeira-ministra em 1966. Mas isso não impediu as mulheres de continuarem sendo cerceadas. Até hoje elas lutam para ter o mesmo direito ao espaço público que os homens tem.
Voltar para casa antes do anoitecer é um mantra ouvido por milhões de indianas todos os dias. O pôr do sol é o primeiro aviso desse "toque de recolher". Se a mulher não obedecer e acontecer algo, ela pediu. A culpa é sempre da mulher. Nunca do homem.
As grandes empresas indianas que queiram ter funcionárias mulheres devem abrir os cofres. A lei obriga as empresas a colocar um carro com motorista a disposição das funcionárias após as 22h.
Nos seis anos em que vivi na Índia -de 2006 a 2012-, cansei de ler nos jornais notícias dessas agressões, em geral, estupro em gangue, como chamam os indianos.
Eu mesma, e muitas outras estrangeiras que conheci por lá, tomava cuidados especiais para evitar o assédio: evitava roupas chamativas e não andar de noite sozinha, pelo menos em Déli, onde o problema é mais grave. Na avalanche de comentários sobre o estupro no ônibus, muitos se perguntavam por que ela andava na rua de noite.
Há poucos meses, um político chegou a culpar o macarrão chinês cada vez mais consumido no país por aumentar a libido dos indianos.
O irônico é que mesmo na Índia moderna todos os tipos de violência contra a mulher permanecem latentes. Segundo o Departamento Nacional de Crimes, ligado ao governo, houve um aumento de 7% em crimes contra a mulher entre 2010 e 2011. Alguns casos mobilizaram a opinião pública. Em 2008, jornais e televisões estampavam que em Mumbai duas garotas foram atacadas e assediadas sexualmente por uma multidão em numa festa de Réveillon na rua.
Há alguns meses, a maior democracia do mundo parou para debater o caso de humilhação pública de uma moça que cometeu o erro de curtir uma noite em um bar.
Ela foi arrastada pelos cabelos e humilhada por 18 homens durante 45 minutos na frente de uma câmera de televisão em uma cidade no nordeste da Índia.
Enquanto rasgava a sua roupa, a gangue masculina sorria para a lente do cinegrafista com orgulho.
O grande nó da questão é a apatia da Justiça e do governo nos casos de violência contra a mulher. Os homens não temem a polícia -que costumam acusar as mulheres sempre que acontece algo. Em uma sociedade patriarcal, meninos valem mais do que meninas. Mães se legitimam dentro de suas famílias ao darem à luz um menino e caem em desgraça quando nasce uma menina.
Que bom que dessa vez os indianos -muitos homens entre eles- foram às ruas protestar. Não foi um protesto só contra o estupro, mas contra a aceitação sutil da punição a mulheres que "ousam" ignorar "o toque de recolher" não oficial. Enquanto os conservadores culpam a influência ocidental por tudo de ruim que acontece com as mulheres, a nova Índia grita cada vez mais alto.

    Ninguém parou para ajudar, diz amigo de vítima
    DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIASPessoas que passavam pelo local se recusaram a ajudar a vítima de estupro nua, sangrando, em uma rua de Déli, na Índia, e a polícia demorou 30 minutos para levá-la ao hospital.
    Esses são alguns detalhes da primeira entrevista do amigo da estudante indiana estuprada em 16 de dezembro e que morreu oito dias depois. O caso gerou violentos protestos e deu início a uma discussão nacional sobre violência contra mulheres.
    A estudante de fisioterapia de 23 anos foi estuprada por seis homens dentro de um ônibus e espancada com barras de ferro, junto com seu amigo. Os dois foram jogados para fora do ônibus em movimento, nus. Ela morreu em um hospital em Cingapura, por causa de ferimentos graves no intestino.
    "Não consigo descrever, o ataque foi brutal...nem animais se comportam daquele jeito", descreveu o amigo.
    A entrevista veiculada por uma TV indiana deve acirrar os ânimos em um país onde acontece um estupro a cada 20 minutos e o assédio sexual de mulheres é sistemático.
    Os dois ficaram deitados na calçada, sangrando e nus, por quase uma hora antes que carros da polícia chegassem. "Algumas pessoas se aproximaram e ficaram olhando, mas ninguém ajudou. Minha amiga estava muito ferida e sangrava muito. Nós estávamos nus. Tentamos parar os transeuntes. Durante uns 25 minutos, riquixás, carros e bicicletas desaceleraram para olhar, mas ninguém parou. Aí, alguém parou e chamou a polícia."
    Quando os policiais chegaram, ficaram meia hora discutindo onde deveria ser registrada a ocorrência antes de levar a vítima ao hospital.
    Cinco indiciados pelo crime vão se apresentar ao tribunal amanhã. Um promotor disse à juíza do caso que exames de DNA mostraram que as manchas de sangue na roupa dos acusados correspondem ao sangue da vítima.