Bad boy do rock nacional, o vocalista
Chorão foi um dos porta-vozes dos jovens dos anos 90. Seu repertório
mesclou rap, hardcore, ska, reggae e letras românticas, influenciando
várias bandas e atraindo fãs no século 21
Eduardo Tristão Girão
Estado de Minas: 08/03/2013
Talvez soe exagerado falar no legado de
Chorão, cantor e compositor da banda Charlie Brown Jr., que morreu esta
semana. Mas não há como ignorar: a sonoridade forjada por ele à frente
do grupo paulista se tornou uma das faces do rock brasileiro na virada
dos anos 1990 e, consequentemente, influenciou uma série de bandas
surgidas desde então.
Preferências e antipatias à parte, o
polêmico vocalista soube arrebatar o público jovem ao unir seu discurso à
mistura benfeita de rock, hardcore, ska, reggae e rap. Para isso, hits
não faltaram. E, logo no primeiro disco, Transpiração contínua
prolongada (1997), foram pelo menos cinco: O coro vai comê!, Proibida
pra mim (Grazon), Tudo que ela gosta de escutar, Quinta-feira e Gimme o
anel. Depois vieram sucessos que garantiram a presença da banda de
Chorão na mídia e em festivais pelo Brasil, como Zóio de lula, Te levar
(tema de abertura da novelinha Malhação), Não é sério, Não uso sapato e
Hoje eu acordei feliz.
Ao lado de bandas como Raimundos, Chico
Science & Nação Zumbi e Planet Hemp, Charlie Brown Jr. ajudou não
apenas a manter vivo o rock brasileiro na década de 1990, mas também a
renová-lo. O sucesso da estética baseada em variadas vertentes musicais
abriu espaço para novos grupos, enquanto Chorão consolidava estilo
próprio ao microfone, reforçando a imagem de skatista bad boy.
Curiosamente, foi dos raros cantores daquela nova cena a falar de amor.
Uma de suas canções românticas fez sucesso até na voz de Zeca Baleiro.
“Nunca
negamos a influência do Charlie Brown Jr. Comparavam o Detonautas com o
grupo e dizíamos que ele foi uma inspiração. Depois, amadurecemos e
desenvolvemos a nossa própria personalidade. O Charlie Brown Jr. sempre
foi banda de grande performance, mas, particularmente, eu me
identificava muito com as letras, as ideias e as mensagens que o Chorão
passava. Aquela banda era cultuada mesmo nos momentos em que a mídia
ignorou o rock. Um genuíno e benfeito rock em português”, analisa Tico
Santa Cruz, vocalista do Detonautas, grupo formado em 1997.
Bandas
criadas depois disso, como Fresno, Forfun e NX Zero, são a prova de
quanto a música de Chorão é relevante. “No começo da nossa banda, ele me
influenciou muito e tem influência até hoje. Mais tarde, viramos
amigos. Ele conheceu meus pais, ficamos próximos”, conta Diego Ferrero,
vocalista do NX Zero. Lucas Silveira, vocalista e guitarrista do Fresno,
diz que Charlie Brown Jr. e Raimundos eram as únicas histórias de
sucesso quando formou sua banda. “No primeiro show do Fresno, tinha
covers do Charlie Brown Jr. A gente curtia muito mesmo”, relembra.
EM BH
“Chorão
era o dia e a noite, o pico e o vale. Muito polêmico. Com seu
temperamento explosivo, podia ser um cara agressivo em certos momentos,
mas tinha um coração enorme e lealdade difícil de se ver. Tinha também
facilidade de compor e construir melodias. Tudo muito claro, com a
linguagem do jovem e, ao mesmo tempo, muito poético”, afirma Luiz Felipe
Barreto Perez, diretor da produtora Plural. Ele organizou várias
edições do festival Pop Rock Brasil, em Belo Horizonte. Charlie Brown
Jr. participou de cerca de seis edições. Em novembro do ano passado,
Chorão fez seu último show em BH. Os ingressos para a apresentação no
Chevrolet Hall se esgotaram.
Perez conta que os dois se tornaram
amigos. “Conheci Chorão quando ele e a banda vieram pela primeira vez a
Belo Horizonte, pouco depois de lançar o disco de estreia. Ninguém os
conhecia. Produzi o evento no Lapa Multshow, com Tihuana e O Surto na
mesma noite. Veio todo mundo em apenas um ônibus, uma confusão danada. O
show fracassou, não teve público. Criei afinidade com ele de cara, e me
lembro de tê-lo levado ao Shopping Cidade para comprar uma touca”.
A
banda sempre foi considerada headline no Pop Rock, afirma o produtor.
“Sempre colocávamos o Charlie Brown para tocar o mais tarde possível,
para segurar o público”, revela Luiz. A propósito, ele estava no show do
grupo em 2002, no Mineirão, quando a plateia destruiu parte do piso
sobre o gramado e começou a atirar pedaços de madeira, ferindo
espectadores. “O Chorão me ajudou a pedir às pessoas que parassem de
fazer aquilo. Como ele era um ícone da rebeldia, acho que tiveram mais
respeito e o acataram”, relembra Perez.
sexta-feira, 8 de março de 2013
DISCO » Troca de afagos gera belo clássico
Estado de Minas: 08/03/2013
Os minutos que marcaram o trajeto do ônibus entre o terminal de embarque e a aeronave, onde se encontraram casualmente na ponte aérea Rio-São Paulo, no ano passado, foram suficientes para que Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, o Guinga, de 62 anos, quebrasse a barreira da inibição e dissesse a Francis Hime, de 63, que tinha vontade de fazer um disco com ele. Algumas reuniões na casa de Francis e surgiria Francis e Guinga, disco da Biscoito Fino que já nascia um clássico.
Afinal, não é todo dia que se tem a oportunidade de reunir em estúdio dois compositores e instrumentistas do primeiro time da MPB, cuja admiração mútua contribuiu para que o produto fosse ensaiado e gravado nos intervalos de agenda da carreira solo de cada um. “E ainda tivemos sorte, porque Olivia Hime, mulher de Francis e diretora artística da gravadora, viabilizou o projeto”, reconhece Guinga. Para ele, além de compositor muito inspirado, Francis Hime é um romântico. “Um Tchaikovsky da música brasileira”, empolga-se, salientando ainda o viés nacionalista e as lides eruditas da obra do novo parceiro.
Além de A ver navios, com letra de Olivia Hime, e Doentia, com melodia também composta pelos dois e letra de Thiago Amud, Guinga e Francis traz, entre as inéditas, Cambono, afrossamba de Guinga e o mesmo Thiago Amud. No mais, eles optaram por juntar composições próprias em pares, de forma que uma determinada canção de Guinga tivesse a ver com certo tema de Francis Hime, e vice-versa. Assim foram-se formando os encontros das músicas Nem mais um pio e Passaredo; Saci e Parintintin; Noturna e Minha; e A noiva da cidade e Senhorinha.
Mas Guinga e Francis Hime também gravaram faixas de apenas uma canção, como no caso de Saudades de amar, de Francis e Vinicius de Morais, que Guinga canta acompanhado do piano de Francis, e Mar de Maracanã, de Guinga e Edu Kneip, em que Francis canta acompanhado do violão de Guinga. Para Francis Hime, a música de Guinga é de grande originalidade. “Ele descobre caminhos melódicos e harmônicos surpreendentes, que vão fundo na emoção. Aliás, ele é um poço de emoções”, afirma o cantor e compositor, para quem o trabalho com o novo parceiro flui com naturalidade.
“Guinga me deu a primeira parte de A ver navios e a segunda parte me veio logo, logo. E Doentia foi da mesma forma. Adoro o jeito de ele cantar, como um autêntico seresteiro”, elogia Francis.
Resistência
A despeito do momento de relativa baixa da MPB no rádio e na TV, o violonista carioca diz não ser daqueles que julgam o passado sempre melhor. “Ainda que haja uma visível deterioração da qualidade da música, paralelamente à mediocrização do consumo, Vinicius de Morais já reclamava da mesma coisa há 50 anos”, afirma Guinga, para quem os verdadeiros artistas sempre vão encontrar uma certa resistência da grande mídia. Para ele, “o não entendimento da arte profunda é constante e não é e hoje. Fora o fato de que tudo isso nos obriga a criar mais e melhor”, conclui Guinga.
Um prazer que não chega-Carolina Cotta
Baixo nível de testosterona nas mulheres
pode ser uma das causas da disfunção sexual, seja por falta de desejo,
de estímulo, de orgasmo ou presença de dor
Carolina Cotta
Estado de Minas: 08/03/2013
Ocupamos o sonhado espaço no mercado de trabalho. Estamos no comando de algumas das principais economias. Conseguimos uma visibilidade quase utópica anos atrás. Mas na cama, 46% de nós, mulheres, ainda relatam experiências de disfunção sexual, considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a incapacidade de ter relações sexuais com satisfação. Cansaço, estresse, pouca sintonia com o parceiro, influência de medicamentos constantemente são citados para justificar a ausência de prazer. De fato, esses e outros tantos podem interferir no sucesso de uma relação. Mas uma pesquisa inédita do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG) veio somar causas e buscar novas abordagens para o problema.
A pesquisa “Avaliação da frequência de alterações hormonais em mulheres no menacme com disfunção sexual”, tema da dissertação de mestrado da ginecologista e sexóloga Fabiene Vale, revelou a relação dos baixos níveis de testosterona com desordens, que podem afetar o desejo, a excitação, o orgasmo e causar dor durante ou depois do sexo. Segundo a pesquisadora do HC, para uma função sexual adequada toda mulher precisa de androgênio – sendo a testosterona o mais importante. Os níveis do hormônio começam a diminuir a partir dos 20 anos, de forma lenta, até chegar à menopausa, quando há uma queda abrupta. “A novidade é a descoberta de mulheres em período reprodutivo, com 44 anos no máximo, com níveis de testosterona muito abaixo da normalidade e quadro de disfunção”, explica Fabiane.
Das 60 mulheres estudadas, entre 18 e 44 anos e com queixa de disfunção sexual, 75% apresentaram baixos níveis de testosterona, ou a síndrome de insuficiência androgênica feminina. Só foram incluídas na amostra pacientes sem problemas psicológicos, sociais ou no relacionamento, com o objetivo de permitir a observação isolada da influência das alterações hormonais. Nenhuma delas tomava medicamentos, que também poderiam influenciar. Todas as mulheres envolvidas na pesquisa são pacientes do Ambulatório de Sexologia Ginecológica do Hospital das Clinicas, que desde 2011 atende queixas sexuais como ausência do desejo sexual espontâneo ou mesmo após algum estímulo, falta de excitação e/ou dificuldade de lubrificação vaginal, dificuldade ou ausência de orgasmo e dor na relação sexual ou dificuldade de permitir a penetração, o chamado vaginismo.
Para o coordenador do ambulatório e orientador da pesquisa, o professor do Departamento de Ginecologia Selmo Geber, trata-se da primeira pesquisa desenvolvida no ambulatório. “As mulheres com queixas sexuais geralmente estão infelizes e não tinham onde procurar ajuda no Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, a mulher que não sente desejo e não tem orgasmos encontra esse atendimento à disposição. E como estamos em um hospital universitário, temos dados para pesquisas. O próximo passo é um estudo que busque alternativas de tratamentos”, adianta o ginecologista. Os mecanismos responsáveis pela resposta sexual feminina ainda não estão totalmente esclarecidos. Sabe-se que alterações anatômicas, desequilíbrios neuroendócrinos ou a diminuição dos hormônios sexuais podem levar à disfunção. Os fatores biológicos são apenas parte do problema, que envolve fatores psicológicos e sociais.
E.B.S., de 32 anos, vivenciou essa realidade. Casada há oito anos, foi diagnosticada com “Distúrbio do desejo sexual hipoativo, um dos tipos de disfunção sexual” (Veja quadro). “Durante um ano observei diminuição do desejo sexual e nos últimos meses perdi completamente a vontade de fazer sexo. Não tinha vontade nenhuma de começar uma relação e no último mês, antes de procurar ajuda, tive apenas uma relação, muito ruim. Tenho um ótimo relacionamento com o meu marido, ele é bom pai e ótimo companheiro, mas isso estava me deixando triste e ele insatisfeito”, relata. Depois de exames com dosagem de testosterona, foi confirmada a baixa nos índices do hormônio. A paciente passou por seis semanas de tratamento com medicação e terapia sexual. “Resgatei meu desejo sexual, estamos tendo quatro relações satisfatórias por semana. Melhorei a convivência com o meu marido também em outros aspectos.”
Gatilho do sexo As disfunções sexuais são os transtornos mais comuns da sexualidade, que incluem ainda os transtornos de preferência sexual e os transtornos de identidade sexual. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o ato sexual se divide em desejo, excitação e orgasmo. Em todos eles a mulher pode sofrer bloqueios e/ou dor. Entretanto, é necessário que exista sofrimento para se fazer uma intervenção. Geralmente seis meses de evolução do quadro são necessários para fechar o diagnóstico de disfunção sexual. “Não se intervém na primeira semana. Em geral, é preciso avaliar o contexto e tratar também o contexto.”
O sexo, segundo a especialista, começa com um desejo. Esse é o gatilho que acelera a frequência cardíaca e respiratória, alterando também a pressão e a temperatura corporal. Tudo isso leva, no caso do homem, à ereção, e, no caso da mulher, à lubrificação da vagina. Essa fase é a excitação. Se tudo corre bem os parceiros chegam ao clímax de prazer, o orgasmo. A partir daí se entra na resolução do ato, ou saciedade, em que respiração e frequência cardíaca voltam aos níveis anteriores. Mas homens e mulheres passam de forma diferente por essas fases. O homem entra na relação com muito desejo e logo entra na fase de excitação, afinal seu estímulo é visual. O da mulher é auditivo, tátil, seu desejo vem com a proximidade. Daí a necessidade das preliminares. A resolução do homem é rápida, a da mulher paulatina.
Só 10% das mulheres têm desejo sexual espontâneo, a maioria precisa de um desejo responsivo para se excitar. A partir daí, a excitação é maior e ela chega a uma satisfação emocional e física. “A mulher não precisa iniciar o ato com desejo e se isso não ocorrer não significa que é uma disfunção. Não ter organsmo também não é, necessariamente, uma disfunção sexual. Ficar neutra durante o ato é possível sem que seja caracterizada a disfunção. A mulher precisa estar saudável física, emocional, cultural e socioeconomicamente, além de ter um parceiro. É isso que garante integridade e integração. E mulher precisa de estímulo. Ela tem outro perfil hormonal, neuropsicológico e psicossocial.”
Segundo Fabiene Vale, para quem deseja uma vida sexual saudável, carinho e companheirismo podem ajudar. Atualmente, o modelo mais aceito para explicar a resposta sexual nas mulheres reforça a importância da intimidade emocional com o parceiro e a satisfação da própria percepção de desejo e necessidade sexual. A ginecologista alerta não ser possível pelo estudo afirmar qual seria a prevalência desse problema na população em geral. Porém, é certo que seja alto o índice de mulheres afetadas por essa síndrome. “Por isso, é preciso tratar esse assunto como um problema de saúde pública”, defende a pesquisadora, que já prevê que o próximo passo será quantificar essas mudanças. “Com mais esse dado em mãos será possível propor uma melhor abordagem no tratamento”, comemora.
Tipos de
disfunção
Distúrbio do desejo sexual hipoativo – Caracterizado pela falta de libido, a falta de vontade de fazer sexo mesmo diante de motivação. A paciente simplesmente não consegue ter desejo sexual. Essa é a disfunção mais comum.
Distúrbio da excitação – A mulher não consegue manifestações do corpo diante de um estímulo sexual. Pode ficar com a vagina seca, não ter ereção dos pelos e dos mamilos, nem taquicardia e aumento da frequência respiratória. O corpo não responde ao estímulo.
Distúrbio do orgasmo – Caracteriza-se pela não capacidade de atingir o orgasmo, o relaxamento completo da tensão sexual que dá satisfação e leva ao bem-estar e sensação prazerosa.
Disfunção da dor sexual – Pode ser por dispareunia, que é a dor durante o ato sexual, ou vaginismo, quando a mulher tem a impossibilidade da penetração devido a uma contração involuntária da musculatura pélvica. É comum em jovens que têm desej, mas não conseguem ser penetradas. O vaginismo não tem causa psicológica e é o mais fácil de tratar.
Carolina Cotta
Estado de Minas: 08/03/2013
Ocupamos o sonhado espaço no mercado de trabalho. Estamos no comando de algumas das principais economias. Conseguimos uma visibilidade quase utópica anos atrás. Mas na cama, 46% de nós, mulheres, ainda relatam experiências de disfunção sexual, considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como a incapacidade de ter relações sexuais com satisfação. Cansaço, estresse, pouca sintonia com o parceiro, influência de medicamentos constantemente são citados para justificar a ausência de prazer. De fato, esses e outros tantos podem interferir no sucesso de uma relação. Mas uma pesquisa inédita do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Minas Gerais (HC/UFMG) veio somar causas e buscar novas abordagens para o problema.
A pesquisa “Avaliação da frequência de alterações hormonais em mulheres no menacme com disfunção sexual”, tema da dissertação de mestrado da ginecologista e sexóloga Fabiene Vale, revelou a relação dos baixos níveis de testosterona com desordens, que podem afetar o desejo, a excitação, o orgasmo e causar dor durante ou depois do sexo. Segundo a pesquisadora do HC, para uma função sexual adequada toda mulher precisa de androgênio – sendo a testosterona o mais importante. Os níveis do hormônio começam a diminuir a partir dos 20 anos, de forma lenta, até chegar à menopausa, quando há uma queda abrupta. “A novidade é a descoberta de mulheres em período reprodutivo, com 44 anos no máximo, com níveis de testosterona muito abaixo da normalidade e quadro de disfunção”, explica Fabiane.
Das 60 mulheres estudadas, entre 18 e 44 anos e com queixa de disfunção sexual, 75% apresentaram baixos níveis de testosterona, ou a síndrome de insuficiência androgênica feminina. Só foram incluídas na amostra pacientes sem problemas psicológicos, sociais ou no relacionamento, com o objetivo de permitir a observação isolada da influência das alterações hormonais. Nenhuma delas tomava medicamentos, que também poderiam influenciar. Todas as mulheres envolvidas na pesquisa são pacientes do Ambulatório de Sexologia Ginecológica do Hospital das Clinicas, que desde 2011 atende queixas sexuais como ausência do desejo sexual espontâneo ou mesmo após algum estímulo, falta de excitação e/ou dificuldade de lubrificação vaginal, dificuldade ou ausência de orgasmo e dor na relação sexual ou dificuldade de permitir a penetração, o chamado vaginismo.
Para o coordenador do ambulatório e orientador da pesquisa, o professor do Departamento de Ginecologia Selmo Geber, trata-se da primeira pesquisa desenvolvida no ambulatório. “As mulheres com queixas sexuais geralmente estão infelizes e não tinham onde procurar ajuda no Sistema Único de Saúde (SUS). Hoje, a mulher que não sente desejo e não tem orgasmos encontra esse atendimento à disposição. E como estamos em um hospital universitário, temos dados para pesquisas. O próximo passo é um estudo que busque alternativas de tratamentos”, adianta o ginecologista. Os mecanismos responsáveis pela resposta sexual feminina ainda não estão totalmente esclarecidos. Sabe-se que alterações anatômicas, desequilíbrios neuroendócrinos ou a diminuição dos hormônios sexuais podem levar à disfunção. Os fatores biológicos são apenas parte do problema, que envolve fatores psicológicos e sociais.
E.B.S., de 32 anos, vivenciou essa realidade. Casada há oito anos, foi diagnosticada com “Distúrbio do desejo sexual hipoativo, um dos tipos de disfunção sexual” (Veja quadro). “Durante um ano observei diminuição do desejo sexual e nos últimos meses perdi completamente a vontade de fazer sexo. Não tinha vontade nenhuma de começar uma relação e no último mês, antes de procurar ajuda, tive apenas uma relação, muito ruim. Tenho um ótimo relacionamento com o meu marido, ele é bom pai e ótimo companheiro, mas isso estava me deixando triste e ele insatisfeito”, relata. Depois de exames com dosagem de testosterona, foi confirmada a baixa nos índices do hormônio. A paciente passou por seis semanas de tratamento com medicação e terapia sexual. “Resgatei meu desejo sexual, estamos tendo quatro relações satisfatórias por semana. Melhorei a convivência com o meu marido também em outros aspectos.”
Gatilho do sexo As disfunções sexuais são os transtornos mais comuns da sexualidade, que incluem ainda os transtornos de preferência sexual e os transtornos de identidade sexual. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, o ato sexual se divide em desejo, excitação e orgasmo. Em todos eles a mulher pode sofrer bloqueios e/ou dor. Entretanto, é necessário que exista sofrimento para se fazer uma intervenção. Geralmente seis meses de evolução do quadro são necessários para fechar o diagnóstico de disfunção sexual. “Não se intervém na primeira semana. Em geral, é preciso avaliar o contexto e tratar também o contexto.”
O sexo, segundo a especialista, começa com um desejo. Esse é o gatilho que acelera a frequência cardíaca e respiratória, alterando também a pressão e a temperatura corporal. Tudo isso leva, no caso do homem, à ereção, e, no caso da mulher, à lubrificação da vagina. Essa fase é a excitação. Se tudo corre bem os parceiros chegam ao clímax de prazer, o orgasmo. A partir daí se entra na resolução do ato, ou saciedade, em que respiração e frequência cardíaca voltam aos níveis anteriores. Mas homens e mulheres passam de forma diferente por essas fases. O homem entra na relação com muito desejo e logo entra na fase de excitação, afinal seu estímulo é visual. O da mulher é auditivo, tátil, seu desejo vem com a proximidade. Daí a necessidade das preliminares. A resolução do homem é rápida, a da mulher paulatina.
Só 10% das mulheres têm desejo sexual espontâneo, a maioria precisa de um desejo responsivo para se excitar. A partir daí, a excitação é maior e ela chega a uma satisfação emocional e física. “A mulher não precisa iniciar o ato com desejo e se isso não ocorrer não significa que é uma disfunção. Não ter organsmo também não é, necessariamente, uma disfunção sexual. Ficar neutra durante o ato é possível sem que seja caracterizada a disfunção. A mulher precisa estar saudável física, emocional, cultural e socioeconomicamente, além de ter um parceiro. É isso que garante integridade e integração. E mulher precisa de estímulo. Ela tem outro perfil hormonal, neuropsicológico e psicossocial.”
Segundo Fabiene Vale, para quem deseja uma vida sexual saudável, carinho e companheirismo podem ajudar. Atualmente, o modelo mais aceito para explicar a resposta sexual nas mulheres reforça a importância da intimidade emocional com o parceiro e a satisfação da própria percepção de desejo e necessidade sexual. A ginecologista alerta não ser possível pelo estudo afirmar qual seria a prevalência desse problema na população em geral. Porém, é certo que seja alto o índice de mulheres afetadas por essa síndrome. “Por isso, é preciso tratar esse assunto como um problema de saúde pública”, defende a pesquisadora, que já prevê que o próximo passo será quantificar essas mudanças. “Com mais esse dado em mãos será possível propor uma melhor abordagem no tratamento”, comemora.
Tipos de
disfunção
Distúrbio do desejo sexual hipoativo – Caracterizado pela falta de libido, a falta de vontade de fazer sexo mesmo diante de motivação. A paciente simplesmente não consegue ter desejo sexual. Essa é a disfunção mais comum.
Distúrbio da excitação – A mulher não consegue manifestações do corpo diante de um estímulo sexual. Pode ficar com a vagina seca, não ter ereção dos pelos e dos mamilos, nem taquicardia e aumento da frequência respiratória. O corpo não responde ao estímulo.
Distúrbio do orgasmo – Caracteriza-se pela não capacidade de atingir o orgasmo, o relaxamento completo da tensão sexual que dá satisfação e leva ao bem-estar e sensação prazerosa.
Disfunção da dor sexual – Pode ser por dispareunia, que é a dor durante o ato sexual, ou vaginismo, quando a mulher tem a impossibilidade da penetração devido a uma contração involuntária da musculatura pélvica. É comum em jovens que têm desej, mas não conseguem ser penetradas. O vaginismo não tem causa psicológica e é o mais fácil de tratar.
A genética por trás da música-Paloma Oliveto
Diferentes estudos sugerem que a capacidade de tocar bem um instrumento tem relação com
o DNA das pessoas
Paloma Oliveto
Estado de Minas: 08/03/2013
Aos 8 anos, Wolfgang Amadeus Mozart compôs sua primeira sinfonia. A essa altura, já era um veterano, com duas pequenas obras — um andante e um allegro — escritas quando tinha apenas 5. O que pouca gente sabe é que a genialidade musical estava no sangue. Maria Anna Mozart, irmã do pequeno Wolfgang, fez sucesso nos palcos europeus tocando piano. Ela foi chamada de virtuose, prodígio e gênio porque, com 12 anos, já executava peças consideradas dificílimas diante de plateias numerosas. Histórias como a dos dois levam os cientistas a questionarem se o que muitos chamam de talento pode ser, na verdade, uma predisposição genética.
Ainda não se descobriu um gene que explique por que algumas pessoas podem estudar arduamente um instrumento e jamais se destacar, enquanto outras, mesmo sem saber ler partituras, caso de John Lennon e Paul McCartney, parecem ter nascido abraçadas a pianos e guitarras. Contudo, estudos sugerem que variações genéticas podem estar associadas à musicalidade, seja ela expressa no talento para compor, cantar e tocar, ou no interesse intenso por música. Além disso, a evidência de que o homem já produzia ritmos e sons milhares de anos atrás indica que a musicalidade é algo inerente, tanto quanto a linguagem.
“A música é uma das coisas mais antigas da sociedade. Existem flautas feitas de ossos e tambores cobertos por pele de animais que datam de 15 mil anos. Muitas ferramentas antigas escavadas em sítios arqueológicos eram, na verdade, instrumentos musicais”, afirma o neurocientista e psicólogo cognitivo Daniel Levitin, da Universidade McGill, no Canadá, que estuda a relação entre cognição e música, além de ser guitarrista e produtor — ele já trabalhou com Joe Satriani, Santana e a banda Greatful Dead. “Não há sociedade que não seja musical. Já se sugeriu que a música é até mais antiga que a linguagem porque ela está relacionada a áreas do cérebro muito primitivas”, diz Levitin, que participou recentemente de um simpósio sobre o tema, na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).
Há alguns anos, um estudo da Universidade de Maryland em College Park investigou e encontrou conexões entre genes e música em 39 culturas africanas. O geneticista populacional Floyd Reed comparou um banco de dados genéticos de 3 mil africanos a um catálogo de canções elaborado pelo etnólogo Alan Lomax na década de 1960. Lomax, que passou a vida coletando 5,5 mil músicas de 857 povos, classificou as canções de acordo com 37 características. A música produzida pelas etnias africanas caçadoras, como os juhoansi, é semelhante às das tribo de pigmeus, como os aka, por exemplo. Ambas alternam o tom normal ao falsete e também são marcadas pelo cânone, em que uma pessoa começa a cantar e as outras vão entrando sucessivamente, de forma que a primeira nunca encontra com a última. Já os hutus, da África Central, são bem diferentes e costumam cantar em uníssono.
Ao cruzar os dados, Reed notou que indivíduos de culturas cujas canções são semelhantes não compartilham apenas o estilo, mas também marcadores genéticos. Essa associação é mais forte do que a geográfica: uma tribo pode viver perto da outra e cantar de forma completamente diversa, enquanto povos de diferentes localidades produzem músicas parecidas quando seus genótipos coincidem. Em uma entrevista ao site da Nature, o especialista ressaltou que diversos aspectos culturais das tribos analisadas enfrentaram mudanças ao longo do tempo, enquanto a música persistia, sugerindo a existência de um componente biológico.
Marcador Se Reed estudou a genética da música entre culturas, pesquisadores da Universidade de Helsinque e da Academia Sibelius, da Finlândia, foram atrás de um marcador individual que expresse o talento ou o gosto mais intenso pela música. Eles sequenciaram o genoma de 437 pessoas de 8 a 93 anos, pertencentes a 31 famílias. Havia tanto músicos profissionais quanto amadores, assim como indivíduos sem nenhum contato com instrumentos ou canto. Em um questionário, os cientistas perguntavam se o participante se considerava um ouvinte ativo, que se interessa muito pela música e vai a concertos e shows, ou passivo, aquele que só escuta quando, por exemplo, há um fundo musical na TV ou no restaurante.
Além do questionário, havia três testes de aptidão, que forneciam uma avaliação mais objetiva. Os resultados foram, então, comparados ao DNA dos 437 participantes. “Esse é o primeiro estudo que explora o hábito de escutar música em um nível molecular e encontra um gene associado a isso”, diz Irma Järvelä, pesquisadora da Universidade de Helsinque. O que os cientistas descobriram é que pessoas mais dedicadas à música e que se saíram melhor nos testes de aptidão tinham uma variação do gene AVPR1A, encontrado em todos os membros da família. “Esse gene está associado à comunicação social entre humanos, e a música é uma forma de se comunicar e de interagir socialmente”, explica Järvelä.
De acordo com ela, estudos mais aprofundados poderão descobrir se a presença da variante realmente predispõe um indivíduo a se interessar pela música ou a ser mais talentoso que os demais. Há pouco mais de dois anos, o DNA do cantor e compositor inglês Ozzy Osbourne foi sequenciado. Além de revelar que ele tinha um risco maior de se tornar dependente químico, o teste mostrou que o astro é portador da variante do AVPR1A detectada pelos cientistas finlandeses.
Apesar de acreditar que o talento pode ter um fundo genético, o neurocientista Daniel Levitin alerta que os testes de musicalidade já realizados até agora não são precisos e, portanto, ainda não há meios de detectar esses genes. Ele conta que até poucos anos atrás, as escolas públicas americanas que tinham orçamento apertado realizavam testes entre as crianças para ver quem poderia participar das aulas de música. A ideia era selecionar aquelas que pareciam predispostas a se sair bem com os instrumentos. “Há algum tempo, um colega meu aplicou o mesmo teste em instrumentistas da Filarmônica de Los Angeles, considerada uma orquestra de elite. Metade dos músicos teve pontuação abaixo da média”, relata. “Pelo menos para mim, isso mostra que os testes podem estar avaliando algo, mas, seja o que for, não está relacionado à música”, afirma.
Um conjunto de habilidades
Um problema que precisa ser resolvido antes de se buscar a genética da música, de acordo com o neuropsicólogo Daniel Levitin, é medir a musicalidade. “Existem diferentes habilidades musicais, como coordenação, memória, capacidade de improviso. Não podemos começar a procurar por genes até saber o que é ser musical”, defende. “Podem existir genes relacionados ao ouvido absoluto, ao controle motor, à capacidade de absorver novas experiências… Tudo isso tem a ver com a música, mas quais desses genes uma pessoa deve ter para ser considerada predisposta à música?”, questiona.
Para Tim Spector, pesquisador do King’s College de Londres, ter uma dessas características é suficiente para classificar um indivíduo como geneticamente predisposto. “Eu acreditava que ser exposto à música, como ir a concertos e fazer aulas desde pequeno, era muito mais importante do que os genes. Mas parece que a genética tem 80% de participação na musicalidade”, acredita. Há mais de uma década, Spector realizou testes de habilidade musical com 568 gêmeas britânicas. O cientista pediu que as participantes ouvissem partes de músicas compostas por 26 sons diferentes, como Parabéns pra você, e dissessem quais tinham notas erradas. As gêmeas idênticas, que compartilham o DNA, mostraram habilidade musical semelhante — quando uma delas detectava notas erradas, a tendência era que a outra também conseguisse fazer isso. Contudo, gêmeas não idênticas, cujo material genético é 50% igual, tinham menos probabilidade de dar respostas parecidas.
Spector reconhece que sua pesquisa, publicada na revista Science, explorou apenas uma das muitas características relacionadas às habilidades musicais, mas acredita que essa é uma capacidade fundamental: “Quem não reconhece um tom errado não pode ser um bom músico”. Além disso, ele acha que o fato de gêmeas idênticas terem os mesmos índices de erros e acertos no reconhecimento das notas é um forte indício de que a musicalidade está mais associada à genética do que a fatores ambientais. “Muitos pais compram discos para seus bebês ouvirem, achando que, com isso, eles poderão se tornar bons músicos mais tarde. Nada impede que uma pessoa não predisposta geneticamente aprenda a tocar um instrumento ou se torne compositora, mas não adianta tentar forçar alguém a se envolver com a música se seus genes não a favorecem”, ensina. (PO)
Paloma Oliveto
Estado de Minas: 08/03/2013
Aos 8 anos, Wolfgang Amadeus Mozart compôs sua primeira sinfonia. A essa altura, já era um veterano, com duas pequenas obras — um andante e um allegro — escritas quando tinha apenas 5. O que pouca gente sabe é que a genialidade musical estava no sangue. Maria Anna Mozart, irmã do pequeno Wolfgang, fez sucesso nos palcos europeus tocando piano. Ela foi chamada de virtuose, prodígio e gênio porque, com 12 anos, já executava peças consideradas dificílimas diante de plateias numerosas. Histórias como a dos dois levam os cientistas a questionarem se o que muitos chamam de talento pode ser, na verdade, uma predisposição genética.
Ainda não se descobriu um gene que explique por que algumas pessoas podem estudar arduamente um instrumento e jamais se destacar, enquanto outras, mesmo sem saber ler partituras, caso de John Lennon e Paul McCartney, parecem ter nascido abraçadas a pianos e guitarras. Contudo, estudos sugerem que variações genéticas podem estar associadas à musicalidade, seja ela expressa no talento para compor, cantar e tocar, ou no interesse intenso por música. Além disso, a evidência de que o homem já produzia ritmos e sons milhares de anos atrás indica que a musicalidade é algo inerente, tanto quanto a linguagem.
“A música é uma das coisas mais antigas da sociedade. Existem flautas feitas de ossos e tambores cobertos por pele de animais que datam de 15 mil anos. Muitas ferramentas antigas escavadas em sítios arqueológicos eram, na verdade, instrumentos musicais”, afirma o neurocientista e psicólogo cognitivo Daniel Levitin, da Universidade McGill, no Canadá, que estuda a relação entre cognição e música, além de ser guitarrista e produtor — ele já trabalhou com Joe Satriani, Santana e a banda Greatful Dead. “Não há sociedade que não seja musical. Já se sugeriu que a música é até mais antiga que a linguagem porque ela está relacionada a áreas do cérebro muito primitivas”, diz Levitin, que participou recentemente de um simpósio sobre o tema, na reunião anual da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS).
Há alguns anos, um estudo da Universidade de Maryland em College Park investigou e encontrou conexões entre genes e música em 39 culturas africanas. O geneticista populacional Floyd Reed comparou um banco de dados genéticos de 3 mil africanos a um catálogo de canções elaborado pelo etnólogo Alan Lomax na década de 1960. Lomax, que passou a vida coletando 5,5 mil músicas de 857 povos, classificou as canções de acordo com 37 características. A música produzida pelas etnias africanas caçadoras, como os juhoansi, é semelhante às das tribo de pigmeus, como os aka, por exemplo. Ambas alternam o tom normal ao falsete e também são marcadas pelo cânone, em que uma pessoa começa a cantar e as outras vão entrando sucessivamente, de forma que a primeira nunca encontra com a última. Já os hutus, da África Central, são bem diferentes e costumam cantar em uníssono.
Ao cruzar os dados, Reed notou que indivíduos de culturas cujas canções são semelhantes não compartilham apenas o estilo, mas também marcadores genéticos. Essa associação é mais forte do que a geográfica: uma tribo pode viver perto da outra e cantar de forma completamente diversa, enquanto povos de diferentes localidades produzem músicas parecidas quando seus genótipos coincidem. Em uma entrevista ao site da Nature, o especialista ressaltou que diversos aspectos culturais das tribos analisadas enfrentaram mudanças ao longo do tempo, enquanto a música persistia, sugerindo a existência de um componente biológico.
Marcador Se Reed estudou a genética da música entre culturas, pesquisadores da Universidade de Helsinque e da Academia Sibelius, da Finlândia, foram atrás de um marcador individual que expresse o talento ou o gosto mais intenso pela música. Eles sequenciaram o genoma de 437 pessoas de 8 a 93 anos, pertencentes a 31 famílias. Havia tanto músicos profissionais quanto amadores, assim como indivíduos sem nenhum contato com instrumentos ou canto. Em um questionário, os cientistas perguntavam se o participante se considerava um ouvinte ativo, que se interessa muito pela música e vai a concertos e shows, ou passivo, aquele que só escuta quando, por exemplo, há um fundo musical na TV ou no restaurante.
Além do questionário, havia três testes de aptidão, que forneciam uma avaliação mais objetiva. Os resultados foram, então, comparados ao DNA dos 437 participantes. “Esse é o primeiro estudo que explora o hábito de escutar música em um nível molecular e encontra um gene associado a isso”, diz Irma Järvelä, pesquisadora da Universidade de Helsinque. O que os cientistas descobriram é que pessoas mais dedicadas à música e que se saíram melhor nos testes de aptidão tinham uma variação do gene AVPR1A, encontrado em todos os membros da família. “Esse gene está associado à comunicação social entre humanos, e a música é uma forma de se comunicar e de interagir socialmente”, explica Järvelä.
De acordo com ela, estudos mais aprofundados poderão descobrir se a presença da variante realmente predispõe um indivíduo a se interessar pela música ou a ser mais talentoso que os demais. Há pouco mais de dois anos, o DNA do cantor e compositor inglês Ozzy Osbourne foi sequenciado. Além de revelar que ele tinha um risco maior de se tornar dependente químico, o teste mostrou que o astro é portador da variante do AVPR1A detectada pelos cientistas finlandeses.
Apesar de acreditar que o talento pode ter um fundo genético, o neurocientista Daniel Levitin alerta que os testes de musicalidade já realizados até agora não são precisos e, portanto, ainda não há meios de detectar esses genes. Ele conta que até poucos anos atrás, as escolas públicas americanas que tinham orçamento apertado realizavam testes entre as crianças para ver quem poderia participar das aulas de música. A ideia era selecionar aquelas que pareciam predispostas a se sair bem com os instrumentos. “Há algum tempo, um colega meu aplicou o mesmo teste em instrumentistas da Filarmônica de Los Angeles, considerada uma orquestra de elite. Metade dos músicos teve pontuação abaixo da média”, relata. “Pelo menos para mim, isso mostra que os testes podem estar avaliando algo, mas, seja o que for, não está relacionado à música”, afirma.
Um conjunto de habilidades
Um problema que precisa ser resolvido antes de se buscar a genética da música, de acordo com o neuropsicólogo Daniel Levitin, é medir a musicalidade. “Existem diferentes habilidades musicais, como coordenação, memória, capacidade de improviso. Não podemos começar a procurar por genes até saber o que é ser musical”, defende. “Podem existir genes relacionados ao ouvido absoluto, ao controle motor, à capacidade de absorver novas experiências… Tudo isso tem a ver com a música, mas quais desses genes uma pessoa deve ter para ser considerada predisposta à música?”, questiona.
Para Tim Spector, pesquisador do King’s College de Londres, ter uma dessas características é suficiente para classificar um indivíduo como geneticamente predisposto. “Eu acreditava que ser exposto à música, como ir a concertos e fazer aulas desde pequeno, era muito mais importante do que os genes. Mas parece que a genética tem 80% de participação na musicalidade”, acredita. Há mais de uma década, Spector realizou testes de habilidade musical com 568 gêmeas britânicas. O cientista pediu que as participantes ouvissem partes de músicas compostas por 26 sons diferentes, como Parabéns pra você, e dissessem quais tinham notas erradas. As gêmeas idênticas, que compartilham o DNA, mostraram habilidade musical semelhante — quando uma delas detectava notas erradas, a tendência era que a outra também conseguisse fazer isso. Contudo, gêmeas não idênticas, cujo material genético é 50% igual, tinham menos probabilidade de dar respostas parecidas.
Spector reconhece que sua pesquisa, publicada na revista Science, explorou apenas uma das muitas características relacionadas às habilidades musicais, mas acredita que essa é uma capacidade fundamental: “Quem não reconhece um tom errado não pode ser um bom músico”. Além disso, ele acha que o fato de gêmeas idênticas terem os mesmos índices de erros e acertos no reconhecimento das notas é um forte indício de que a musicalidade está mais associada à genética do que a fatores ambientais. “Muitos pais compram discos para seus bebês ouvirem, achando que, com isso, eles poderão se tornar bons músicos mais tarde. Nada impede que uma pessoa não predisposta geneticamente aprenda a tocar um instrumento ou se torne compositora, mas não adianta tentar forçar alguém a se envolver com a música se seus genes não a favorecem”, ensina. (PO)
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