sábado, 17 de agosto de 2013

De olho no Planalto, Campos endivida PE em R$ 7,5 bilhões

folha de são paulo
O ESTADO DA FEDERAÇÃO - PERNAMBUCO
Oposição tucana diz que governador joga a conta para as próximas gestões
Governo diz que Estado precisa melhorar seus indicadores sociais e diz que seca e crise global afetaram a arrecadação
DANIEL CARVALHODO RECIFEEmpréstimos internacionais recordes marcam a reta final da gestão Eduardo Campos (PSB) em Pernambuco.
Nos últimos dias o Estado tomou cerca de R$ 2 bilhões com o Bird (Banco Mundial) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), recursos que têm sido usados para turbinar obras de infraestrutura e de convivência com a seca, entre outras.
Enquanto isso, o provável rival da presidente Dilma Rousseff em 2014 tem percorrido o interior do Estado em inaugurações e assinaturas de ordens de serviço.
Para a oposição, Campos assume mais compromissos do que pode entregar e usa empréstimos para jogar a conta para a frente --os pagamentos se estendem por até 30 anos. Na era Campos, iniciada em 2007, o Estado já soma R$ 7,5 bilhões em empréstimos em instituições nacionais e estrangeiras. Até o final de setembro ele deve tomar mais R$ 1 bilhão no BID.
"O governo tenta criar uma sensação de bem-estar para este momento provisório de algumas obras que estão em andamento, mas que dificilmente serão concluídas", critica o deputado estadual Daniel Coelho (PSDB).
Para o governo, os empréstimos refletem credibilidade e capacidade de gestão. "O Estado só pode avançar seus indicadores sociais se continuar investindo em saúde, educação e segurança. E precisa continuar investindo em infraestrutura. Se não cresce, não se desenvolve", diz o secretário de Planejamento e Gestão, Frederico Amâncio.
Com discurso ancorado na inovação na gestão pública, Campos tem elevado as despesas com pessoal --só em 2013 já gastou mais do que em 2012--, mas sofre pressões salariais, como a dos policiais.
Vitrine da gestão, o programa de redução de homicídios contratou 2.000 policiais neste ano e contribuiu para elevar os gastos com pessoal quase ao limite de alerta. Só nos quatro primeiros meses deste ano a folha já consumiu R$ 10 bilhões, ante R$ 9,7 bilhões nos 12 meses de 2012.
O governo diz se esforçar para controlar esses gastos. Afirma que a arrecadação sofreu o baque da maior seca dos últimos 50 anos e da crise mundial. Entre as três principais despesas do Estado (segurança, educação e saúde), as duas últimas foram as que empregaram mais recursos.
O governo priorizou promessas da campanha de reeleição de Campos em 2010, como construção de hospitais, unidades de pronto-atendimento, escolas técnicas e de ensino integral.
Em 2012, o crescimento do PIB pernambucano ficou em 2,3%, acima do ritmo nacional (0,9%), mas abaixo da previsões do governo, que rondavam 4%. Mesmo com o cenário desfavorável para a economia, os gastos do governo continuam abaixo dos limites de alerta.
A aparente estabilidade contribuiu para que Campos fosse o governador mais bem avaliado do país. Mas os 58% de aprovação não anteciparam o anúncio de sua candidatura, o que deixa incerto o futuro das eleições no Estado.
    RAIO-X
    Série analisa as gestões estaduais
    A reportagem é parte de uma série, iniciada no dia 3, que analisa as administrações dos 26 Estados e do Distrito Federal. O objetivo é avaliar a aplicação dos recursos públicos e o cumprimento das promessas de campanha dos governadores.
      Feira de irmão de governador recebe patrocínio recorde
      Pernambuco dá R$ 3,5 mi à Fliporto, maior valor pago pelo Estado ao evento desde 2008
      DO RECIFEO Estado de Pernambuco destinará neste ano um patrocínio recorde para a feira literária internacional Fliporto, produzida pelo advogado e escritor Antônio Campos, 45, irmão do governador e pré-candidato à Presidência, Eduardo Campos (PSB).
      O repasse será de R$ 3,5 milhões, maior valor pago pelo Estado ao evento desde 2008, quando começou a patrocinar a feira literária.
      É também o maior patrocínio da Empresa de Turismo de Pernambuco S.A. (Empetur) pago um evento em 2013.
      O Estado paga cerca de dois quintos do valor da feira, orçada em R$ 8,5 milhões, segundo a assessoria da Fliporto, que se realiza de 14 a 17 de novembro, em Olinda.
      O montante repassado à feira pela Empetur só fica atrás do de sua folha de pagamento (R$ 9,3 milhões), de publicidade (R$ 6,5 milhões) e do empenho para a transmissão do Carnaval do Estado (R$ 4,2 milhões).
      Para apoiar a produtora que realizou a festa de São João de Caruaru, uma dos mais importantes do país e que durou 30 dias, a Empetur destinou R$ 1,8 milhão.
      A Fliporto estreou em 2005 na praia de Porto de Galinhas e, em 2010, foi para Olinda.
      Antônio Campos, irmão do governador, é cotitular da marca Fliporto e do evento desde 2007. Os aportes do governo estadual à feira começaram no ano seguinte.
      Neste ano, a feira é realizada pela Carpe Diem, editora de Antônio Campos, e pela Flipe Produções Culturais, da advogada Tatiana Valente e de Luciano Higino da Silva.
      É a Flipe que, desde 2012, recebe os recursos do Estado. No ano passado, foram R$ 3 milhões para a Fliporto, diz a Secretaria de Turismo.
      Em 2011, uma outra produtora, a Carneiro e Vasconcellos, recebeu R$ 1,3 milhão, menos da metade do valor destinado à feira agora.
      Nos anos anteriores, o mais alto valor de apoio à feira foi R$ 600 mil, em 2010.
      O site da Fliporto relata que o evento conta com patrocínio de quatro empresas: Itaú, M. Dias Branco, Souza Cruz e Companhia Pernambucana de Gás, que tem o governo do Estado como sócio.
      A Copergás repassará neste ano R$ 50 mil via Lei Rouanet à ARC - Editora e Produções, de Antônio Campos.
      A assessoria da Fliporto disse já ter captado, até o momento, R$ 6,3 milhões em patrocínio para a feira de 2013.
        OUTRO LADO
        Gasto se justifica por o evento ser 'grandioso', afirma governo
        DO RECIFEA Secretaria de Turismo e a organização da Fliporto dizem que o aporte do governo do Estado se deve à grandiosidade da feira, a terceira maior do país, segundo o secretário Alberto Feitosa.
        Ele disse que o aumento do patrocínio, a partir de 2010, se deveu à transferência da Fliporto de Porto de Galinhas, em Ipojuca, para Olinda.
        "Com a perda do apoio da Prefeitura de Ipojuca, das limitações financeiras de Olinda em arcar com o evento, além da perda do apoio das estatais a projetos culturais em todo o país, o governo do Estado ampliou o aporte."
        Segundo Feitosa, foi a secretaria que sugeriu a mudança de endereço por causa do perfil de turismo da praia.
        Além disso, como a feira literária ocorria no verão, a rede hoteleira não dava conta da demanda de turistas. O secretário afirma que o patrocínio "é um investimento".
        No ano passado, quando repassou R$ 3 milhões, o governo calcula que a Fliporto tenha atraído 90 mil pessoas com um impacto de R$ 20 milhões na economia local.
        Na festa de São João de Caruaru, foram movimentados mais de R$ 200 milhões por 850 mil pessoas, mas não só com a cadeia turística.
        Segundo a secretaria, o São João é um evento consagrado, enquanto a Fliporto ainda necessita de apoio.
        A organização da feira informou que a Fliporto tem atuação durante todo o ano com uma casa de mediação de leitura que atende crianças em Olinda e culmina com a realização da festa literária.
        Além disso, a assessoria da feira disse que neste ano o evento será gratuito. No ano passado, a entrada nos painéis custava R$ 20.

          O tempo da poesia- Nahima Maciel‏


          O tempo da poesia 

          Nahima Maciel

          Estado de Minas: 17/08/2013 


          Antonio Cícero avisa:
          Antonio Cícero avisa: "O poema é bom quando vale por si"

          O poeta admite que não sabe contar histórias, mas passa um bom tempo, praticamente o tempo inteiro, tentando agarrar o “passageiro”, aquilo que é breve, transitório. Ele compara o ofício da poesia com um vasto continente. “(…) ser um poeta é uma África”, escreve. Nessa imensidão sem fim, o poeta cego, abandonado pelo ego e pelo próprio ser, continua a versejar. A poesia é um dos temas mais frequentes de Porventura (Companhia das Letras), o terceiro livro de poemas de Antonio Cícero, que lhe deu o Prêmio ABL em 2013, concedido pela Academia Brasileira de Letras.

          Parece que escrever sobre a própria arte de versejar ajuda a encontrá-la, a agarrá-la e a compreendê-la. Mas há outros temas que permeiam os versos e motivam o poeta. O tempo e a efemeridade da vida são alguns deles. “Conhece da humana lida/ a sorte:/ o único fim da vida/ é a morte/ e não há, depois da morte,/ mais nada”, escreve.

          O conjunto de versos de Porventura é fruto de uma lentidão própria da poesia. Cícero ficou conhecido quando se tornou parceiro da irmã, Marina Lima, ao assinar os versos de canções como Fullgás e Pra começar. A poesia veio em seguida, mas sempre de maneira muito esporádica. Guardar, o primeiro livro de versos dele, foi publicado em 1996, e A cidade e os livros, em 2002.

          Os versos de Porventura levaram uma década para amadurecer. Ao fim de 2011, quando escreveu um poema chamado “Nihil”, Cícero achou que poderia lapidar o livro excluindo alguns versos, escrevendo outros e modificando uns tantos. A poesia, para ele, é uma forma de acessar outra temporalidade, e independe da vontade e da disciplina do poeta. Ela simplesmente acontece e, quando bate à porta, já vem com a intenção de carregar o autor dos versos. “Quem começa a fazer um poema tem que se deixar levar pelo tempo que ele exija”, alerta.

          Não basta querer escrever um poema, é preciso ser escolhido por ele. É diferente da filosofia, à qual Cícero, de 67 anos, dedicou a formação acadêmica e com a qual se posiciona no mundo. “Quando decido escrever um texto filosófico, faço-o para intervir, isto é, para tomar posição, para tomar partido em discussões sobre questões fundamentais que dizem respeito ao sentido do conhecimento, do ser, da vida, dos valores éticos e estéticos etc. Em última análise, quando escrevo um texto filosófico, faço-o porque suponho ter algo a dizer que possa fazer alguma diferença”, diz. No ano passado, ele também publicou Poesia e filosofia (Civilização Brasileira), série de ensaios sobre as ligações entre os dois gêneros.


          Duas perguntas para...

          Antonio Cícero
          Poeta e filósofo

          Qual o espaço da filosofia na sua escrita?

          Em última análise, quando escrevo um texto filosófico, faço-o porque suponho ter algo a dizer que possa fazer alguma diferença: algo que possa mudar para melhor o modo de as pessoas pensarem ou agirem em relação a alguma coisa. E tenho a pretensão de que tal mudança possa ser, de algum modo, importante: de que, ainda que numa escala ínfima, ela possa tornar o mundo melhor. Logo, sinto certa urgência, e mesmo certa obrigação ética de escrevê-lo.

          E qual é o espaço da poesia?

          A maravilha da poesia consiste justamente em nos dar acesso a outra temporalidade, que nada tem a ver com essa temporalidade prática, política, utilitária, instrumental a que, em última análise, a filosofia está ligada. Por isso, não sinto a mesma urgência em escrever poemas. Quem começa a fazer um poema tem que se deixar levar pelo tempo que ele exija. Ele pode ficar pronto em pouco tempo, mas pode demorar dias, semanas, meses, anos. E pode jamais ficar pronto ou ficar bom. E o poema é bom quando vale por si. Ora, nada me dá tanta satisfação quanto fazer algo que penso valer por si.

          Alfabeto de Deus - Gustavo Fonseca


          Alfabeto de Deus

          Livros de Marcus du Sautoy e Ian Stewart convidam a conhecer os encantos intelectuais da matemática, dando sequência à tradição inglesa de levar boas informações sobre a ciência dos números a leitores não especialistas
           

          Gustavo Fonseca

          Estado de Minas: 17/08/2013 


          Numbers 1-0, escultura do artista americano Robert Indiana, atualmente instalada na região das instituições financeiras de Londres   (Chris Helgren/Reuters  )
          Numbers 1-0, escultura do artista americano Robert Indiana, atualmente instalada na região das instituições financeiras de Londres


          Uma velha piada entre matemáticos diz que, se até os 25 anos você não produziu nenhum trabalho relevante na área, é melhor começar a fazer outra coisa na vida. Uma verdade cruel que a história dessa disciplina não cansa de confirmar, ainda que muitos grandes matemáticos tenham desenvolvido suas melhores ideias em idade mais avançada. Menos previsível, porém, do que o declínio criativo dos matemáticos é a maneira como eles lidam com esse fato. Em alguns casos extremos, como o do inglês G. H. Hardy (1877-1947), mentor e parceiro intelectual do gênio indiano Ramanujan, o suicídio parece a única solução.

          Tendo constatado em fins dos anos 1930 que não conseguia mais desenvolver boas ideias matemáticas, Hardy, já então um consagrado professor de Cambridge, decidiu se matar, mas sem sucesso. Com o intuito de ajudá-lo a recuperar o gosto pela vida, mesmo sem o brilho intelectual da juventude, seu amigo e biógrafo, C. P. Snow, o convenceu a escrever um livro detalhando como pensa um matemático. O resultado, o clássico A mathematician’s apology (Em defesa de um matemático), de 1940, deu início à tradição entre os matemáticos ingleses de popularizar seus trabalhos com livros acessíveis ao público leigo.

          Nos últimos anos, dois matemáticos ingleses, herdeiros de Hardy, têm levado a tarefa adiante com grande aceitação não só no Reino Unido, mas em todo o mundo: Marcus du Sautoy, professor de Oxford e autor do best-seller A música dos números primos: a história de um problema não resolvido na matemática, e Ian Stewart, professor emérito da Universidade de Warwick e autor dos best-sellers Uma história da simetria na matemática, Mania de matemática e Aventuras matemáticas, entre outros sucessos. Prolíficos, os dois autores continuam nessa empreitada de explicar de modo mais acessível ideias matemáticas complexas e, felizmente para os leitores brasileiros, seus mais recentes lançamentos ganharam edição nacional: Os mistérios dos números: uma viagem pelos grandes enigmas da matemática (que até hoje ninguém foi capaz de resolver), do professor Du Sautoy, e 17 equações que mudaram o mundo, do professor Stewart, ambos pela Editora Zahar.

          Du Sautoy divide seu livro em cinco capítulos, cada qual dedicado a um tema específico da matemática. No primeiro, “O estranho caso dos infinitos números primos”, retoma sua paixão pelos primos (aqueles números que só podem ser divididos por eles mesmos e por 1, como 2, 3, 5, 7, 11, 13...), os quais considera os mais importantes e enigmáticos da matemática. No segundo, “A história da forma imprecisa”, leva o leitor em uma viagem pelas formas da natureza: das bolhas aos flocos de neve, encerrando pela desafiadora questão sobre a forma do Universo. No terceiro, “O segredo da sequência vencedora”, Du Sautoy desvenda os mistérios da lógica e da probabilidade, dando dicas valiosas aos apaixonados por jogos de azar – do Banco Imobiliário até os jogos de cassino. No quarto, “O caso do código impossível de ser quebrado”, apresenta os raciocínios matemáticos que levaram à elaboração de códigos de segurança na internet e na rede bancária, por exemplo. Por fim, no quinto, “Em busca da predição do futuro”, explica como as equações matemáticas são oráculos perfeitos, prevendo todo tipo de fenômeno, inclusive aqueles de que nossa sobrevivência depende, como os relacionados à preservação do planeta.

          Sendo o mais honesto possível, Du Sautoy deixa logo de lado na introdução os discursos de que a matemática é fácil e igualmente compreensível por todos e provoca o leitor: “A matemática que apresento varia do fácil ao difícil. Os problemas não resolvidos que concluem cada capítulo são tão difíceis que ninguém sabe como solucioná-los. Mas eu acredito firmemente que devemos apresentar as pessoas às grandes ideias da matemática. Nós nos entusiasmos quando deparamos com Shakespeare ou Steinbeck. A música ganha vida quando ouvimos Mozart ou Miles Davis pela primeira vez. Tocar Mozart é uma coisa difícil; Shakespeare pode ser desafiante, mesmo para um leigo experiente. Mas isso não significa que devemos reservar a obra desses grandes pensadores somente para os iniciados. Com a matemática ocorre o mesmo. Logo, se parte da matemática parecer difícil, aproveite o que puder e lembre-se da sensação de ler Shakespeare pela primeira vez”. E o que o leigo aproveita dos livros de Du Sautoy, bem como de seus programas de divulgação da matemática na BBC, muitos dos quais disponíveis no YouTube com legendas em português, sem dúvidas compensa o esforço exigido em certos momentos. Esforço esse de certa forma aliviado com a apresentação ao fim de cada capítulo de problemas que nem mesmo os grandes matemáticos conseguiram resolver ainda, à espera da mente criativa de algum (provavelmente) jovem apaixonado pelos mistérios dos números.

          Difícil e bela

          Ian Stewart, por sua vez, se propõe um desafio ainda maior: recontar boa parte da história perpassando 17 equações que, por razões as mais diversas, mudaram o mundo. A proposta, que a princípio pode parecer mais uma excentricidade de matemático, se revela uma jornada fascinante logo no primeiro capítulo, dedicado ao teorema de Pitágoras. Em seguida, Stewart salta ao século 17 para narrar a invenção dos logaritmos por John Napier e Henry Briggs, passando depois à disputa da autoria do cálculo entre os gigantes Isaac Newton e Gottfried W. Leibniz, no fim do mesmo século. Uma rixa que opôs ingleses e alemães por décadas e com a qual Stewart põe fim definitivamente ao mito dos matemáticos como homens plenos de racionalidade, alheios aos vícios e às paixões tão humanas.

          Em consonância com o colega Du Sautoy, Ian Stewart se propõe a mostrar que, “felizmente, você não precisa ser um gênio para apreciar a beleza e a poesia de uma boa e significativa equação”. O que é verdade, mas deve-se dizer que sólidos conhecimentos em matemática e em física ajudam – e muito – a ler essa coletânea dedicada a equações. Afinal, por mais claro e acessível que seja um texto sobre assuntos como a segunda lei da termodinâmica, a teoria do caos e a equação de Schrödinger – fundamental para a mecânica quântica –, é pouco realista esperar que não iniciados tenham alto nível de compreensão. Stewart, porém, em momento algum deixa transparecer qualquer ilusão quanto a isso. Na verdade, subjacente a todo o livro, novamente em sintonia com Du Sautoy, está a ideia de que a dificuldade inicial não deveria ser um empecilho definitivo, servindo, isso sim, como motivador para um aprofundamento no universo científico.

          Sua estratégia para fisgar o leitor, mais uma vez a mesma do colega Du Sautoy, é tão simples quanto eficaz: abordar temas de apelo popular, como música e televisão, carros de Fórmula 1 e computadores portáteis, ou aspectos de nosso cotidiano pós-moderno, como a navegação por satélite, os raios lasers e a internet. Com isso, Stewart abre ainda a possibilidade de o leitor escolher os capítulos dedicados aos seus interesses, sem necessariamente ter de seguir todos os capítulos do livro. Um apaixonado por astrofísica, por exemplo, pode se ater aos capítulos sobre a lei da gravitação de Newton e sobre a teoria da relatividade de Einstein, bem como um estudioso de economia pode ir direto ao último capítulo, sobre a equação de Black-Scholes, que visava a minimizar riscos no mercado financeiro, mas, provando-se não ser um oráculo perfeito, levou à falência em fins da década de 1990 o mais prestigiado fundo de investimentos dos Estados Unidos, o Long-Term Capital Management.

          Como Hardy, tanto Du Sautoy quanto Stewart deixam transparecer em cada linha de seus textos o amor à matemática, essa busca humana milenar de enxergar padrões em um mundo aparentemente caótico. Assim, de certa maneira, ambos continuam o projeto iniciado com A mathematician’s apology não apenas de esclarecer ao público leigo o que realmente fazem os matemáticos, quais suas motivações, seus objetivos, mas também atrair mentes capazes de ler o alfabeto com que Deus escreveu o universo, segundo a famosa definição da matemática feita por Galileu Galilei. O próprio Du Sautoy, como revela em Os mistérios dos números, foi decisivamente influenciado pelo clássico de Hardy num período crucial de sua formação pessoal e intelectual: “Li esse livro quando estava no colégio, e foi uma das coisas que me fizeram decidir pela matemática”.

          Sempre bem-humorados e simpáticos em suas palestras e programas de rádio ou de TV, Du Sautoy e Stewart também ajudam a desfazer o velho mito do matemático carrancudo, angustiado e obsessivo, sempre envolto em números e equações, incapaz de viver sem seu trabalho e de simplesmente apreciar a vida. Um mito que Hardy, infelizmente, ao conseguir por fim se matar alguns anos depois do lançamento de A mathematician’s apology, apenas reforçou.

          17 equações que mudaram o mundo

          De Ian Stewart
          Editora Zahar, 408 páginas, R$ 49, 90

          Os mistérios dos números: uma viagem pelos grandes enigmas da matemática (que até hoje ninguém foi capaz de resolver)

          De Marcus du Sautoy
          Editora Zahar, 304 páginas, R$ 44, 90

          Olhos de Sarajevo (Aleksander Hemon )‏


          Olhos de Sarajevo 

          Nascido na Bósnia, Aleksander Hemon fala de exílio, descobertas e paixões em O livro das minhas vidas, seleção de memórias escritas em tom ensaístico
           

          André di Bernardi Batista Mendes

          Estado de Minas: 17/08/2013 


          Alexander Hemon, depois de obras de ficção, mergulha no passado e em sua relação com lugares e pessoas (Zoomzg/Divulgação)
          Alexander Hemon, depois de obras de ficção, mergulha no passado e em sua relação com lugares e pessoas

          Um livro sobre descobertas, um livro sobre o exílio, um livro sobre a riquezas e as misérias de uma vida; um livro sobre nostalgia e saudade, um livro sobre aventuras, belas, trágicas, cômicas, profundamente superficiais, grandemente bobas, como tudo. Aleksandar Hemom, autor de O projeto Lazarus, E o Bruno? e Amor e obstáculos, acaba de lançar pela Editora Rocco O livro das minhas vidas. Nascido na Bósnia, em 1964, e vivendo nos Estados Unidos desde 1992, o escritor relata o seu périplo, tendo o exílio como condição, como tema e berço para a literatura. Originalmente contista (ele foi descoberto pela revista New Yorker, para a qual  segue colaborador assíduo), Aleksandar volta às origens com esta seleção de memórias ensaísticas, que explora sua vida de maneira ao mesmo tempo reflexiva, leve, sem concessões e profundamente triste.

          O escritor começa traçando um panorama amplo do cenário cultural de seu país antes da guerra e sua segunda vida nos Estados Unidos, onde se exilou por acaso. Ele passava férias em Chicago, em 1992, quando a guerra eclodiu. O resultado: ele não mais conseguiu voltar. Aleksandar mostra uma Sarajevo habitada não por vítimas sem rosto, mas por pessoas com planos, ideias, bichos de estimação, angústias e alegrias, pequenas alegrias.

          Toda palavra é valiosa, todo verbo carrega doses de espinhos e bálsamos. Hemon sabe disso tudo, pois escreve para as pessoas. Ele, por meio das palavras, escreve sobre pessoas e sabe como poucos arquitetar o perfil de pessoas que amam, que se identificam com a arquitetura, com a alma de uma cidade, no caso, Sarajevo e Chicago. Hemon conta, com altas doses de sensibilidade, sobre as dificuldades de um aprendizado estranho, sobre sua difícil adaptação numa terra mais que estrangeira, num país frio, distante. Hemon, contudo, aprendeu, pois não tinha escolhas, a amar uma Chicago que também é feita de pessoas com rosto, pele, medos, e principalmente, alma.

          Hemon, um apaixonado pelo futebol, um aficionado pelo cinema, transforma suas experiências numa alquimia propensa e aberta ao outro. Não por acaso, o escritor tem uma necessidade visceral de percorrer, como um flâneur de Baudelaire, ruas, vielas e avenidas, “como alguém que queria estar em todos os lugares e em nenhum lugar em particular da cidade, para quem perambular era o principal meio de comunicação com ela”.

          Aleksandar transforma as dificuldades em desenvolvimento pessoal. Os desmandos da vida, os desencontros, as quebras, serviram bem para aguçar uma personalidade singular, mas plural nos modos de enxergar a vida. Poder escolher os próprios caminhos é uma bênção; ser escolhido por uma cidade já é outra história. Não se trata de reconciliação, mas de descoberta. De Sarajevo a Chicago, de Chicago para dentro de si mesmo, Aleksandar realiza um périplo de idas e vindas, tombos e recomeços.

          Hemon revive o seu processo de aceitação ao tentar se adaptar a uma nova rotina, a um novo país, a um novo estado de alma e espírito. Chicago torna-se, assim, um lugar repleto de luzes e muitas sombras que, aos poucos, transformam-se num processo inexorável de luta e de conquista: “Pouco a pouco, as pessoas em Edgewater (Bairro de Chicago) começaram a me reconhecer; comecei a cumprimentá-las na rua. Com tempo, adquiri um barbeiro, um açougueiro, um cinema e um café com um conjunto regular de coloridos personagens – que eram, como eu aprendera em Sarajevo, os nós necessários em qualquer rede urbana pessoal”.

          Duas cidades Não deixa de ser incrível os mecanismos de salvação criados por uma pessoa quando a situação fica sinistra e complicada: “Compreendi que meu interior de imigrante havia começado a se fundir com o exterior americano. Grandes partes de Chicago haviam penetrado em mim e se instalado ali. Eu possuía essas partes agora. Eu via a cidade através dos olhos de Sarajevo e as duas cidades agora criavam um cenário interno complicado, em que histórias podias ser geradas. Quando voltei de minha primeira visita a Sarajevo, na primavera de 1997, a Chicago para a qual voltei me pertencia. Ao voltar de casa, eu voltei para casa.”

          Aleksandar também aproveita brechas no seu discurso para, entre fendas de pensamento, divagar sobre questões que vão do multiculturalismo até os limites culturais das democracias ocidentais, passando, claro, pelos meandros e as sombras da memória que é, talvez, a melhor arma para um bom escritor. Ele, assim, encontra um jeito peculiar, criativo, de explicar deslocamentos, de falar sobre a nostalgia e sobre os desmandos de se encontrar num país distante, diferente de tudo, entre todos. A questão da identidade ganha cores e contornos, ganha definições – muitas vezes engraçadas – através dos filtros de um modo de olhar, através dos olhos atentos de um observador privilegiado.

          A palavra diversidade, para aquele que é, ou que se sente diferente, ganha e agrega outros sabores. O mesmo vocábulo pode ter múltiplas interpretações, para o fundo, para o alto, rumo a desentendimentos ou pactos sempre provisórios. Não sem razão, o autor de O livro de minhas vidas quebra o texto com subtítulos instigantes: “Quem somos nós?”; “Este sou eu”; “Quem são eles?”; “O que você é?”. Aleksandar tem um estilo, tem um texto afiado, inteligente, lúcido, ácido de boas ideias e concepções. Ele detona, na medida, a “filosofia neoconservadora da diversidade”, a idiotice de George W. Bush, a ignorância, a burrice, mas com humor e sensibilidade. Aleksandar conta, melhor seria dizer confessa, ou revela, sem nenhum pudor, suas desventuras em série, suas mínimas conquistas, suas mazelas.

          Hemon descreve suas conquistas, dentre elas, a sua capacidade de encontrar dentro de si algo parecido a um amor, um amor incondicional, tema do texto final do livro, “O aquário”, um relato extremamente delicado, triste de faltar palavras, quando ele recorda a morte de sua filha Isabel, que tinha pouco mais de 1 ano quando um tumor cerebral a vitimou. Sem sentimentalismos, Hemon encara, de olhos bem abertos, a fúria, o vazio da saudade, os mistérios – insondáveis – da vida e, de quebra, da literatura.

          O LIVRO DAS MINHAS VIDAS
          • De Aleksandar Hemon
          • Editora Rocco
          • 224 páginas, R$ 25