domingo, 8 de setembro de 2013

Cidadezinha qualquer - Carlos Drummond de Andrade

Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.

Devagar... as janelas olham.

Êta vida besta, meu Deus.

(Alguma poesia in Reunião, 1982)

40 anos depois, o Chile canta Victor Jara - DORRIT HARAZIM


O GLOBO - 08/09/2013

Passaram-se quarenta anos.
Duas novas gerações de chilenos
sequer eram nascidas
quando o dia se fez noite na
manhã do 11 de setembro de 1973 e a
ditadura se instalou no país por 17
anos. Mas, na próxima quarta-feira,
40º aniversário do golpe militar que
desapareceu com 2.300 opositores e
torturou perto de 40 mil, o Chile vai
relembrar.

A cada efeméride tem sido assim. E
nas datas redondas como a deste ano
o passado se aviva mais.

Em Deltona, cidade situada ao sul
de Daytona Beach, no estado da Flórida,
um vendedor de automóveis
americano de 64 anos preferiria permanecer
à margem dessas lembranças.

Ele se chama Pedro Pablo Barrientos,
tinha 24 anos e era tenente do
Exército chileno em 1973. Mudou-se
em 1989 para os Estados Unidos, onde
tratou de adquirir nova cidadania.
Esta semana, a família do músico Victor
Jara entrou com um processo contra
ele numa corte distrital de Jacksonville.
Acusa-o de ter torturado Jara
pessoalmente e sido o autor do primeiro
dos 44 tiros que vararam o corpo
do cantor popular depois de preso.

A ação foi encaminhada em nome
da viúva e de suas duas filhas pelo
Centro de Justiça e Responsabilidade,
de São Francisco, baseada na Lei de
Proteção a Vítimas de Torturas. Sancionada
em 1991, essa legislação federal
permite que cidadãos residentes
nos Estados Unidos sejam processados
em território americano quando
suspeitos de violações de direitos humanos
em outros países.

Pela primeira vez este que é um dos
episódios mais encruados do 11 de
setembro chileno parece ter uma real
chance de ser esclarecido.
Na semana inicial do golpe todos os
boatos eram críveis, por inverificáveis.
A nova ordem militar de Augusto
Pinochet havia cortado boa parte das
linhas telefônicas na capital, e o toque
de recolher era draconiano, impedindo
que uns soubessem com certeza
da sorte dos outros.

No caso de Victor Jara, soube-se apenas
que fora preso junto com uma centena
de estudantes e professores da
Universidade Técnica Estadual e que,
cinco dias depois, a bailarina inglesa
Joan Turner Jara fizera o reconhecimento
do corpo do marido no necrotério
municipal. Sepultou-o sozinha, no
Cemitério Geral de Santiago, com a
ajuda do motorista do rabecão.

O venerado Jara era a voz do Chile
socialista de Salvador Allende. Cancioneiro
e poeta, compositor popular,
professor e ativista político, além de
dramaturgo e apaixonado pelas raízes
folclóricas da Nueva Canción Chilena,
era um letrista engajado e autor
de músicas que arrebatavam a classe
operária (“Te Recuerda Amanda”).
E esta voz tinha sido eliminada. As
primeiras falsas certezas asseguravam
que ele fora levado para o Estádio
Nacional onde lhe teriam decepado
as mãos de músico antes de executá-
lo, como ocorrera com Che Guevara
após sua captura na Bolívia — só
que Guevara já estava morto ao ser
mutilado.

Na verdade, Victor Jara sequer conseguiu
chegar ao Estádio Nacional.
Morreu numa arena menor. No centro
de detenção improvisado do Estádio
Chile foi logo identificado por um oficial
e teve uma primeira avalanche de
chutes e coronhadas à vista de todos.
Com várias costelas quebradas e um
olho inutilizado, permaneceu imóvel
24 horas ao alcance da bota militar,
sem alimento ou água. Naquele mesmo
estádio, quatro anos antes, fora
aclamado vencedor do primeiro Festival
da Nueva Canción Chilena com
“Oração de um trabalhador”.

No domingo dia 16 circulara a notícia
de que alguns detentos seriam libertados,
o que levou os demais a escrever
mensagens para esposas, filhos,
pais, amigos. Victor Jara foi um
dos mais ansiosos. Só parou ao ser arrastado
por dois soldados até uma saleta
de transmissão do estádio. Mas
conseguiu deixar para trás as duas folhas
de papel que escreveu, rapidamente
escondidas pelo advogado Boris
Navia.

Não eram cartas para a mulher nem
para as filhas. Era um poema. Não tinha
título. Descrevia o ambiente à
sua volta. Foi-lhe dado, post mortem,
o título “Estadio Chile”.
Os detentos fizeram duas cópias,
entregues a um estudante e um médico
que seriam libertados. Um deles
foi revistado. Navia, que escondera o
manuscrito original numa fenda
aberta na sola do sapato, foi levado
para o centro de torturas do velódromo.
Mas a terceira cópia alçou voo e
correu mundo.

A última visão que Navia e seus
companheiros tiveram de Jara foi do
seu espancamento a golpes de fuzil
na saleta do estádio. No final da mesma
tarde, cruzaram o saguão principal
para serem transferidos para o Estádio
Nacional. Ali se depararam com
cerca de 50 cadáveres espalhados pelo
chão. Entre eles, o de Victor Jara.
Foi somente em 2009 que a investigação
conduzida pelo juiz Miguel
Vásquez conseguiu chegar ao nome
do homem que teria apertado o gatilho
do primeiro tiro contra a nuca do
prisioneiro. Depois, o oficial teria ordenado
aos soldados presentes que
prosseguissem com a fuzilaria. Embora
Pedro Barrientos negue jamais
ter sequer cruzado com o músico, a
família Jara espera que o Supremo
Tribunal chileno encaminhe o aguardado
pedido de extradição aos Estados
Unidos.

Se Barrientos algum dia retornar,
talvez se pergunte para que serviu
tanta brutalidade. O Estádio Chile foi
rebatizado de Estádio Victor Jara. As
fitas máster das gravações do músico
que a ditadura se empenhou em destruir
foram laboriosamente substituídas
por outras versões. Brotaram remixagens,
remasterizações, foi lançada
uma caixa com 9 CDs, republicada
uma antologia com seus poemas.
Bandas jovens o interpretam como
um dos seus, companheiros velhos o
cantam como no passado. Hoje, Victor
Jara teria 81 anos.

Dorrit Harazim é jornalista

MARTHA MEDEIROS - Trocas íntimas entre estranhos

ZERO HORA - 08/09/2013

Alguns poucos leitores às vezes me confundem com conselheira sentimental e me revelam seus conflitos internos, acreditando que eu possa apontar um caminho para que eles vivam melhor. Logo eu! Escrevo sobre assuntos que me interessam e, se servirem para alguém, é uma honra, mas não me sinto à vontade e nem tenho preparo para entrar na intimidade de cada leitor em particular já me atrapalho o suficiente comigo mesma.

Mas já que todos gostam de conselhos, eu inclusive, uma dica posso dar: leia o livro Pequenas Delicadezas, de Cheryl Strayed.

Já falei dessa autora antes. Foi ela que percorreu sozinha uma trilha nos Estados Unidos e narrou a experiência no aclamado Livre, que frequentou a lista dos best-sellers. Eu nem imaginava que ela escrevia uma coluna de aconselhamentos. Pois me tornei fã declarada dessa mulher.

Pequenas Delicadezas é uma seleção de perguntas e respostas publicadas no site The Rumpus, mas de forma alguma é literatura de bisbilhotice, aquela coisa de olhar pelo buraco da fechadura dos dramas alheios, o que tantas vezes revela-se piegas.

Cada carta gera um ensaio em que Cheryl conta experiências próprias para ilustrar seu pensamento sobre as questões levantadas. Esbanjando sensatez (coisa que não anda sobrando por aí), ela equaliza causas e efeitos com docilidade, mas sem abusar do bom mocismo e sem encontrar solução para tudo.

Ao contrário, ela reconhece que a vida é bem sacana às vezes. Nossos pais nem sempre foram uns anjos, nossa infância “feliz” pode ter sido uma farsa e a maneira como estamos narrando nossa história para nós mesmos pode estar cheia de ficções que já não conseguimos sustentar. Dá para mudar o passado? Não dá. A única coisa que dá para mudar é a maneira como enxergamos tudo o que nos aconteceu (e ainda acontece) e ver o que é possível perdoar, esquecer ou redimensionar.

É comum considerar o escritor como uma espécie de guru – parece que ele é imune a problemas. Cheryl se atreve no papel e se dá como exemplo justamente porque sua vida não foi um passeio de carrossel.

Porém, ela encontrou suas ferramentas de superação – a própria coluna deve ser uma delas. Sem constrangimento e com absoluta empatia, envolve-se com a dor de quem lhe escreve, mesmo suspeitando que todos sabem direitinho o que devem fazer de suas vidas, só estão aguardando que alguém, mesmo um desconhecido, lhes dê uma espécie de licença. “Se é por falta de licença, sinta-se autorizado”, é o que ela parece dizer.

Pequenas Delicadezas não explora as churumelas do amor nem pretende ser um oráculo. Apenas confirma que viver não é fácil, mas é o que temos pra hoje.

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » Voltando a Tiradentes‏


Estado de Minas: 08/09/2013 


–Você sabe o que é uma biela?

Pois lá ia eu a Tiradentes, creio que em 1962 (já havia biela naquele tempo). Se você olhar na internet vai descobrir que biela é toda peça de uma máquina “que serve para transmitir ou transformar o movimento retilíneo alternativo em circular contínuo”. Entendeu? Mas o fato é que lá íamos nós: Ivan Ângelo, Maria Ângela, Fernando Gabeira e Marília, Frederico de Morais e Vilma, eu e Nena, lá íamos, com mais uns amigos e vários carros, a Tiradentes. Nada era asfaltado, creio que levamos umas cinco ou seis horas…

E o pior: houve o episódio da biela, relatado também por Gabeira na sua autobiografia. Saindo de BH, minha Vemaguete parou. De repente. Um chofer de caminhão veio ajudar e afirmou categórico: “É a biela!”. E foi embora. Desolado, 15 minutos depois tentei religar o carro. Não era a biela. O carro simplesmente estava afogado.

Voltei uma vez mais a Tiradentes nesta semana. Dizem que tem 6 mil habitantes e 30 mil visitantes no Festival Gastronômico. No tempo da biela, as portas e janelas estavam todas fechadas, não havia vivalma nas ruas. Só fantasmas. Juro que cruzei com a alma de Tiradentes com uma corda no pescoço.

Agora, Tiradentes é só festa. Fui parar lá por obra e graça de amigos que acreditam na música e poesia. A culpa é de Luciana e Carlos Perktold – ela paisagista e decoradora, ele psicanalista e colecionador de obras de arte. Outra culpada é Zenilca Navarro, do Tragaluz, nossas mães já eram amigas. Há tempos me surpreendi sabendo que Zenilca cuidava da divulgação do grupo Corpo e agora, nova surpresa ao ver o esplêndido restaurante que ela (e sua parentela) montou em Tiradentes.

E tem a Elisa Freixo. Na hora que cheguei a Tiradentes ela dava um concerto de órgão na Matriz de Santo Antônio. Aquele ciclópico instrumento, com seus 680 tubos, que veio da Europa para as montanhas de Minas ainda no século 18. A essas horas, Elisa está na Alemanha com um grupo de felizardos, percorrendo uma vez mais os caminhos de Bach, com outro organista, o belga Jean Ferrard. Pois a Elisa, essa paulista que pousou em Minas por amor ao barroco e aos órgãos, achou que seria interessante que fizéssemos um concerto de cravo e poesia. Assim, ela dava uma no cravo… e eu na ferradura. Já havíamos feito umas experiências desconcertantes na Serra do Cipó e no Museu do Oratório, em Ouro Preto.

Há muito tento me acercar da música, mas quem sou eu, sem ouvido absoluto, absolutamente inepto para instrumentos musicais. Vou revelar: um dia, tentando aprender violão, a professora me disse assustada: “Engraçado, você está fazendo tudo certo, só que ao contrário…”.

Desisti dos instrumentos, apesar de ter cantado no inesquecível Madrigal Renascentista e ter feito uma ou outra música com Fagner, Martinho da Vila e Rildo Hora.

Estar em Minas. Na Minas profunda. Ser em Minas. Visitar o futuro Museu de Sant’Ana, que a industriosa Ângela Gutierrez logrou levar para Tiradentes. Ali era uma cadeia para homens e mulheres. Agora, vai reinar Sant’Ana, a avó de Jesus. Como dizia aquela música que o Simão Lacerda cantava:

“Sant’Ana é a maior santa que tenho visto,

Sant’Ana é a mãe de Deus,

Sant’Ana é a vó de Cristo!”.

E, de repente, estamos no jardim do Tragaluz ouvindo música e poesia. E quando me falaram de certas dificuldades encontradas para levar a arte a Tiradentes, estando num jardim, lembrei-me de um poeminha, tipo hai-k
ai, que expressa muitas coisas. A vida é cheia de bielas e, no entanto, temos que viajar. E lá vai o poeminha:

 “Meu conceito de jardim
determina
o que é praga ao redor de mim”.