sábado, 7 de dezembro de 2013

Rara chance de desvendar o Rio - WALTER SALLES

O Globo 07/12/2013


Filme dirigido por
Maria Augusta
Ramos atesta a
vitalidade do
documentário
brasileiro

Se existe uma crise
no cinema brasileiro,
ela não se encontra
no documentário.
Do mestre Eduardo
Coutinho aos primeiros filmes
de jovens realizadores,
diretores de diversas gerações
oferecem hoje um dos
retratos mais férteis e plurais
de uma sociedade. Não
é por acaso que documentários
brasileiros têm tido papel
predominante nos festivais
mais relevantes do gênero,
o que tem acontecido
mais raramente na ficção.

Dentro desse universo,
Maria Augusta Ramos vem
desenvolvendo um trabalho
de rara pertinência e acuidade.
Os ótimos “Justiça”
(2004) e “Juízo” (2007) levaram
a câmera para lugares
que a grande maioria dos
brasileiros desconhece: os
tribunais de Justiça do país.
“Morro dos Prazeres”, o novo
documentário de Maria Augusta
que estreou na semana
passada, aprofunda o desejo
de investigar aquilo que está
frequentemente na capa de
jornais, mas permanece parcialmente
desconhecido.
Exatamente um ano
após a instalação de uma
UPP (Unidade de Polícia
Pacificadora) no Morro
dos Prazeres, Maria Augusta
filmou o cotidiano
dessa comunidade de seis
mil habitantes por quatro
meses. É o retrato de uma
realidade em constante
mutação que o espectador
é convidado a mirar.


O filme acompanha personagens
fascinantes dos dois lados
da barreira durante esse
tempo dilatado. Magalhães,
vendedor de livros, que se torna
cada vez mais crítico da
ação da polícia no morro à medida
que os meses passam. Orlando,
carteiro e treinador do
time de futebol feminino, que
oscila entre a crítica
e a percepção
de que as
UPPs são uma
etapa de transição
necessária.
Capitão Odilon,
comandante da
UPP, que parece
estar frente a um
mundo de tarefas que, de tão
agudas, o ultrapassam. Policiais
femininas completam esse
quadro onde tudo desafia o
senso comum.

É desses dramas humanos e
não de teses preconcebidas
que é feita a matéria do filme.
Maria Augusta não mastiga o
que vê ou simplifica o universo
que focaliza. Desde o início
do filme, quando crianças ficcionalizam
um confronto entre
policiais e habitantes do
morro, entende-se que nada
aqui é o que aparenta ser à
primeira vista. Um personagem
é especialmente expressivo
dessa realidade: Brulaine,
uma adolescente que, em
um primeiro
momento, poderia
ser confundida
com
um rapaz. É só
quando Brulaine
confronta
uma juíza, num
momento em
que “Justiça” e
“Morro dos Prazeres” parecem
se fundir, que entendemos
a sua real identidade.


Essa capacidade de sugerir e
não de impor é uma das linhas
de força do cinema de Maria
Augusta Ramos. Ela não nos
convida a olhar pela janela, e
sim a fazer parte de uma paisagem
que é, para muitos, estrangeira.
Se “Morro dos
Prazeres” é tão revelador, é
também porque não pretende
exaurir o tema que
aborda. Cabe ao espectador
completar o filme. Nesse
sentido, Maria Augusta segue
a tradição de seus mestres
no cinema documental,
Johan van der Keuken e
Raymond Depardon.


Convidado a participar de
uma intervenção de artistas
na Favela da Maré (onde
não há UPP), o artista plástico
Marcos Chaves pendurou
uma frase numa passarela
da Avenida Brasil que
dizia: “amarécomplexo”. Para
quem quiser ir além das
matérias sensacionalistas e
entender um pouco mais da
cidade onde vive, “Morro
dos Prazeres” é uma rara
oportunidade. 


Walter Salles é diretor de
“Central do Brasil”, “Diários
de motoci

A invenção de Belo Horizonte Aos 116 anos

A invenção de Belo Horizonte 
 
Aos 116 anos, a capital de Minas Gerais abriga o sonho de progresso dos construtores pioneiros, em permanente diálogo com a dinâmica da história e a necessidade de preservação da memória

Leônidas Oliveira
Estado de Minas: 07/12/2013


Museu Abílio Barreto ocupa hoje a única construção que permanece dos primeiros anos de BH, em foto de 1946 (Fotos: Acervo MHAB)
Museu Abílio Barreto ocupa hoje a única construção que permanece dos primeiros anos de BH, em foto de 1946


Em fins do século 19, decidiu-se pela construção de nova sede para o Governo do Estado de Minas Gerais que representasse as ideias de progresso e modernidade, consolidadas com a instauração do regime republicano no Brasil. Uma cidade planejada, racional, controlada, organizada. Entretanto, a consolidação desse projeto exigia a destruição do Arraial de Bello Horisonte, antigo Curral del Rey, fundado no início do século 18, acomodado no leito do Córrego do Leitão e do Ribeirão dos Arrudas. Ao longo das décadas, segundo Luana Maia, a lembrança desse arraial representou a origem que se quis esquecer, o símbolo de uma identidade que permaneceu subliminar em discursos que buscavam, repetidamente, apagá-la. E a cidade então nasce, com forma regular, influenciada pelo positivismo europeu.

Contudo, tal regularidade não constituiu novidade. Na escrita hieroglífica egípcia, a cidade se representa como uma cruz inscrita num círculo, duas figuras recorrentes na história da criação das urbes, com sua correspondente leitura: linhas geométricas elementares, como instrumento capaz de conseguir uma ordem diferente e positiva em relação à natureza exterior, que não conhece nenhum sistema alheio a ela mesma. O círculo hieroglífico insinua a ideia de recinto do terreno da casa e do território da cidade, enquanto a cruz representa a disposição das ruas que conformam as quadras das casas.

Assim posto, conclui-se que Hipodamos de Mileto não foi, portanto, o primeiro a criar cidades quadriculadas, ainda que seja o único nome de urbanista da Antiguidade do qual nos chegam notícias, algumas vezes imprecisas, mas fiéis, como vemos em Aristóteles, em sua Política. O ideário de linha reta e de eixos visuais nos acompanha, então, desde cronologias muito antigas, como expressão magna da racionalidade da vida civilizada. No Egito, como na Grécia, o traçado se reflete, palidamente, como tentativa de ordenamento do caos, preceito que o homem busca impor sobre a paisagem natural, sobre o território e sobre si mesmo.

Projeto de igreja feito para integrar o conjunto da nova capital
Projeto de igreja feito para integrar o conjunto da nova capital

Em Belo Horizonte, cidade da Minas barroca, há uma redescoberta da linha reta no projeto da nova capital, em contraposição à irregularidade colonial do traçado anterior, ou seja, temos o regular como norma e o irregular como sistema. No entanto, a cidade se expande rapidamente e os contrapontos de cidade planejada, imaginada e vivenciada tornam-se elementos importantes para compreender a paisagem cambiante que se reinaugura a cada momento. Nessa dinâmica, os grupos sociais que aqui chegaram continuaram o trabalho ao refazer a cidade: formaram novos núcleos fora do ordenamento, contrapondo-se ao plano regular, como imposição do artifício sobre a paisagem. Assim, leva implícita a gênesis de uma cidade ideal, que cumpre, em parte, suas pretensões segundo as previsões – um pequeno e absoluto traçado geométrico. No entanto, abre e amplia suas possibilidades, submetida ao crescimento genérico, materializado no desenvolvimento de traçado irregular, nascido pelas mãos das diversas gentes, uma vez que nessas mesmas culturas se mantiveram vivas as memórias de outros sistemas, com atitudes éticas e estéticas diversas.

O modelo de plano regular de Aarão Reis, assim como o dameiro hipodâmico, se desenvolve segundo a mais antiga das propostas conhecidas: a criação de uma superfície de cidade que ainda não existe, uma cruz circunscrita sobre um círculo, reservando para ela o solo necessário, como se fosse possível medir e controlar o próprio tempo de sua jornada como urbe. Portanto, o plano como documento equivale a um projeto de futuro em contraposição ao passado. Eis o espírito higienista do fim do século 19, que levou à invenção de Belo Horizonte e ao apagamento ilusório da ideia do arraial colonial e, consequentemente, das paisagens reinventadas pelo novo modelo urbanístico.

Em tal itinerário, é notório que o projeto de Aarão Reis, como é próprio de qualquer tentativa de instaurar nova ordem, busca mudar os desígnios culturais de seu povo. Mas, em algum ponto ou em muitos, faz renascer – considerando que estamos em Minas – os arraiais. Lugares impregnados na alma mineira, distribuídos e formados irregularmente, instalam-se nos contornos do ideário da mineiridade: em volta das nossas cozinhas, de nossas montanhas e vales, no barroco das nossas igrejas, no desenho irregular, quase medieval, das nossas cidades e vielas.

Capela Nossa Senhora do Rosário, década de 1910
Capela Nossa Senhora do Rosário, década de 1910


Calcular e embelezar


A Comissão de Estudos das Localidades Indicadas para a Nova Capital (Celinc) foi assim formada, sob a chefia de Aarão Reis. O clima ameno, a abundância de recursos hídricos e a beleza da paisagem natural, entre outros atributos, concorreram para que Belo Horizonte e Várzea do Marçal fossem as indicadas pela Celinc para o cobiçado destino. Após hesitações e manobras políticas, em 1893, a região do antigo Curral del Rei foi finalmente escolhida para ser a nova capital. Os habitantes do pacato vilarejo receberam com entusiasmo a notícia e vislumbraram na novidade oportunidades de enriquecimento, bons negócios, modernização e mudanças.

A Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC) foi oficialmente constituída em fevereiro de 1894, com o objetivo de aprofundar os estudos sobre o Arraial de Bello Horisonte, elaborar projetos do traçado urbano e de edificações, orçar os gastos e, finalmente, executar todas as obras necessárias à construção da nova cidade. O coordenador dos trabalhos formou uma equipe de “arquitetos-projetistas,” engenheiros e artistas, responsáveis por projetar, calcular e embelezar os edifícios e as vias públicas. Em maio de 1895, Aarão Reis deixa a CCNC, sendo substituído por Francisco Bicalho, que se manteve na chefia até o fim dos trabalhos, seguindo rigorosamente os projetos e ideais concebidos por seu antecessor.

O cenário do então sossegado arraial foi profundamente transformado com a chegada dos engenheiros e demais trabalhadores. Material de construção, entulhos e ora a poeira dos dias ensolarados, ora a lama dos dias chuvosos definiam a paisagem belo-horizontina.

O projeto dividia o espaço urbano em zonas de ocupação, indicava percursos predefinidos e segregava alguns grupos sociais, proporcionando dinâmica urbana estratificada e hierarquizada. Apesar da atenta supervisão e do controle da CCNC, conferindo o andamento dos trabalhos, percorrendo diariamente os canteiros de obras, examinando e aprovando os projetos de todas as edificações a serem construídas, nem tudo saiu como o previsto, no entanto, em 12 de dezembro de 1897, a cidade foi inaugurada com vários trechos inacabados.

Quando a dinâmica da construção de Belo Horizonte já estava em curso, os antigos moradores do arraial perceberam que seu modo de viver, então obsoleto, não teria mais espaço naquela nova realidade planificada e ordenada. Primeiramente, muitos horizontinos foram convidados a ceder suas casas aos membros mais importantes da CCNC, que demandavam os melhores alojamentos, acostumados com o que consideravam ser o conforto do progresso. Para o restante dos trabalhadores, eram oferecidas vagas em hotéis, pensões ou casas para alugar.

Progresso e memória


Cento e dezesseis anos depois, o que vemos é um espaço urbano de múltiplas interpretações. Fragmentado, articulado, simbólico, ou seja, produto social resultante de ações acumuladas, a partir de temporalidades engendradas por agentes que produzem e consomem espaço na urbe chamada Belo Horizonte cujo desígnio do nome leva intrínseca a paisagem, como elemento primordial do nascimento da cidade e de seu desenvolvimento.

A despeito das intenções disciplinadoras da ideologia positivista, a paisagem, profundamente manipulada, mostra-se plural e paradoxal. Os espaços planificados dividem o horizonte com incômodos resquícios do arraial, com o fortuito, com o improviso. Nesse contexto moldado pelo antagonismo entre o acaso e o planejado, a dinâmica própria do local e os conflitos oriundos das profundas transformações no espaço são, por vezes, esquecidos ou subestimados.

A preservação da memória e da identidade do povoado não interessava aos anseios progressistas do poder público. Às tradições locais, consideradas retrógradas, foram sobrepostos novos modos de pensar e de viver, concorrendo para que uma nova cidade, com aspirações a metrópole cosmopolita, se formasse, sobre os escombros dos símbolos culturais do Arraial de Bello Horisonte.

Contudo, as identidades de Belo Horizonte ressurgem cotidianamente e são, por natureza, múltiplas, fragmentadas, multifacetadas e dinâmicas. Em eterna mutação, criação, destruição e reestruturação, as referências possuem característica peculiar e basilar: a negação de seu passado. A memória do arraial surge em alguns momentos como herança que se tenta esquecer, que envergonha a pretensa cidade cosmopolita, na qual o vilarejo pretendia se transformar. Assim, segue o embate, de suas gentes, entre a metrópole e esse passado de arraial simbólico que sempre volta, produzindo discurso que enaltece o desenvolvimento e busca apagar a memória, caracterizando Belo Horizonte como a cidade do eterno porvir.

Completando 116 anos em 12 de dezembro, essa reflexão torna-se importante para todos nós, que aqui vivemos, bem como a de conhecer o outro lado: a necessidade de pensarmos a cidade, no entanto, considerando sua complexidade e, sobretudo, sua memória e a necessidade vital de pertencimento, tão essenciais para o pleno desenvolvimento da vida. Nós todos somos arraial, terra, edifício, praça e mundo. Buscar o equilíbrio entre essas forças e compreender seu alcance torna-se elemento primordial para a felicidade na cidade que escolhemos para viver.

. Leônidas Oliveira é presidente da Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.

Uma mulher de verdade [Inezita Barroso] - Ângela Faria

A cantora paulista Inezita Barroso tem sua vida corajosa retratada por Arley Pereira. Biografia revela uma artista com dom para a pesquisa e a defesa da cultura brasileira


Ângela Faria
Estado de Minas: 07/12/2013



A jovem morena deixava o público seduzido. Nem o galã italiano Vittorio Gassman escapou de seus encantos (O Cruzeiro/Arquivo EM/D.A Press)
A jovem morena deixava o público seduzido. Nem o galã italiano Vittorio Gassman escapou de seus encantos

Mário de Andrade de saias”, Inezita Barroso é a estrela rainha da música sertaneja brasileira. Perto dela, Paula Fernandes, Maria Cecília e Roberta Miranda são satélites. A conta bancária pode até ser maior, mas nenhuma dessas “majestades sabiás” é páreo para Ignez Magdalena Aranha de Lima, de 88 anos – apresentadora do programa Viola, minha viola (TV Cultura) há 33. Essa “caipira” filha de quatrocentões paulistas é uma das mulheres mais valentes do Brasil.

No livro Inezita Barroso – A história de uma brasileira (Editora 34), o jornalista Arley Pereira (1935-2007) revela uma desbravadora, que lutou por suas convicções muito antes de o feminismo virar moda. Conta ele que já nos anos 1920 a menininha bem-nascida preferia comandar a turma de garotos ao mundo cor-de-rosa dos laços de fita. Na fazenda, a jovem sinhazinha preferia a companhia da caipirada aos saraus de piano. Só passava as férias no meio dos peões.

Aos 7 anos, Ignezinha – ainda com g – ganhou o primeiro violão. Mas ela gostava mesmo era de viola – coisa proibida para mulheres. Nas suas festas de aniversário, o presente era ouvir o compositor Raul Torres. Amigo de seu pai, Bico Doce vinha tocar para ela. Bom ouvido, a aniversariante aprendia com o mestre as sutilezas da arte caipira.

Bela morena, a adolescente tomava chá das cinco no elegante Mappin, dedicava-se à natação (era aluna de Paul, pai da campeã Maria Lenk). No tradicional Clube Paulistano, conheceu o marido, Adolfo Cabral Barroso. Graças a ele, enturmou-se com estudantes da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Ficou amiga dos atores Paulo Autran e Renato Consorte. Cunhada de locutor da Rádio Tupi, a universitária Inezita, estudante de biblioteconomia, juntou-se para sempre às rodas boêmias e artísticas.

A senhora Adolfo Barroso participava de recitais e peças do Teatro Brasileiro de Comédia, o famoso TBC, cantou para o astro Vittorio Gassman (ele quis levá-la para a Europa), tornou-se amiga da fadista Amália Rodrigues. A estreia no rádio veio em 1950. A moça sorridente fez shows na famosa boate carioca Vogue, mas se tornou artista profissional apenas em 1951, em recital em Pernambuco, para onde viajou com o marido. O convite veio do maestro Capiba, o famoso autor de frevos.

A partir da temporada na Rádio Clube do Recife, a bela morena não parou de deslumbrar plateias. Apresentava-se nos microfones da Record e da Tupi, foi estrela da nascente TV, virou estrela de cinema e levou o Troféu Saci por seu papel no filme Mulher de verdade. Era artista, profissão malfalada, mas jamais lhe botaram cabresto.

De lá para cá, foram mais de 80 discos. Um deles completou seis décadas este ano e dá a medida do quilate de Inezita. De um lado, ela gravou Moda da pinga, aquele clássico do “co’a marvada pinga é que eu me atrapaio”; do outro estava a estreante Ronda, ícone da dor de cotovelo composto por Paulo Vanzolini. Nos anos 1950, a moça fina cantava na noite, criava a filha e se sustentava sem ligar para quem olhava torto para “a desquitada”. Inezita não limitava seu repertório à música de raiz. Aracy de Almeida não gostou de ver a “grã-fininha mascarada”, de quem se tornaria amiga, exibindo a bela voz em clássicos de Noel Rosa.

Microfones e estúdios eram pouco para Inezita: em 1957, ela se entusiasmou pelo jipe Willys. A bordo de um deles, com dois “copilotos” que não sabiam guiar, a estrela dirigiu por mais de seis mil quilômetros entre São Paulo e o Nordeste. Tal qual Mário de Andrade, recolheu melodias, letras, versos, instrumentos musicais e tesouros da cultura popular. Folclorista diplomada na estrada, nunca mais abandonou a lida. Pesquisou a cultura rural, apurou ainda mais o ouvido para o Brasil profundo.

Nos anos 1960, Inezita sentiu o golpe, mas não se deixou abater quando os meios de comunicação se tornaram templo do pop e da cultura jovem. A viola foi desbancada sem dó pela guitarra elétrica. Contratos à míngua, ela chegou a queimar seu querido violão amarelo na churrasqueira de casa. Começou a dar aulas de música – viu-se obrigada a ensinar iê-iê-iês de Roberto –, abriu um restaurante no Brooklin, chamado Casa de Inezita, onde servia comida caseira e cantava para a freguesia. Foi à luta, mas nunca abandonou a sua música.

Em 1980, a cantora passou a comandar uma trincheira da cultura popular brasileira: o programa Viola, minha viola, transmitido pela TV Cultura. Ali, sertanejo universitário e dupla famosa e moderninha não tinham vez. Astros são gente do quilate de Pena Branca e Xavantinho (então desconhecidos, ganharam de Inezita estímulo para prosseguir – e estourar) e da genial Helena Meirelles. A violeira chegou à televisão graças a Inezita – e muito antes de se tornar famosa nas páginas da americana Guitar player, bíblia dos instrumentistas.

No rádio, a apresentadora comandou vários programas dedicados à cultura popular. Almir Sater, Sérgio Reis, Renato Teixeira, Roberto Correia (com quem ela gravou dois discos) e Tonico e Tinoco são alguns de seus companheiros de microfone. Patativa do Assaré deu a Inezita sua última entrevista.

Bibliotecária, ela guarda um verdadeiro museu de folclore em dois imóveis. Aos 55 anos, virou professora do Conservatório de Pouso Alegre, no Sul de Minas, ensinando coisas do Brasil à garotada. Em vez de provas caretas, desafiou: vamos fazer desfile de carro de boi? A moçada teve de se virar, mas aqueles carrões de madeira ressurgiram desfilando pelas ruas e arrancando lágrimas dos antigos. Em Mogi das Cruzes (SP), onde ela ensinou na faculdade, estudantes se desdobraram para reproduzir uma festa de São João como as de antigamente. Com mastro, cartomante e até cigano...

Aos 88 anos, a mestra continua na lida. Dê uma espiada em www.inezitabarroso.com.br: lá está o contato para shows – são quatro números de telefone! Entretanto, quem quiser assistir in loco à gravação de Viola, minha viola vai ter de esperar. A função deste ano já se encerrou, mas em fevereiro começa a temporada 2014. Inezita – a nossa Hebe caipira – estará lá, firme e forte. Com aquele sorrisão do tamanho do Brasil.

INEZITA BARROSO – A história de uma brasileira
. De Arley Pereira
. Editora 34
. 207 páginas, R$ 44

Inquietação e prazer - Caio Junqueira Maciel

Inquietação e prazer - Caio Junqueira Maciel


Novo livro de contos de Luiz Vilela sugere contraponto entre natureza e cultura, com a presença discreta, mas significativa, de animais em todas as histórias 
 
Estado de Minas: 07/12/2013


Romancista e contista, Luiz Vilela mira nos eventos banais para mergulhar no sentido da existência  (Rodrigo Clemente/EM/D.A Press)
Romancista e contista, Luiz Vilela mira nos eventos banais para mergulhar no sentido da existência

 “Andava pelo quinteiro, muito asno, muito parvo, como se mesmo a dois passos não estivesse a acontecer aquela grande desgraça. É certo que também ele, Nero, vira morrer o gato, um sem-número de frangos e galinhas, e cada ano seu porco, sem o menor estremecimento. A verdade, acima de tudo. Mas desta vez, o caso mudara de figura: finava-se um cão...”


Miguel Torga, “Nero”, Bichos


Para tratar da recente coletânea de contos de Luiz Vilela, Você verá, lanço mão de um texto do português Miguel Torga, autor de um belo e estranho volume de contos intitulado Bichos, publicado em 1940.

 Sabe-se que o escritor mineiro, com certa obsessão, sempre valorizou os animais irracionais em sua obra, muitas vezes até relativizando a noção de racionalidade no confronto entre bicho e homem. E, ao pôr em cena um cão, um gato, uma lagartixa, um pássaro, um gambá, um tatu, o que se vê, em verdade, é o drama humano, é a situação limite que ronda todos os seres perecíveis. Se Miguel Torga centrava toda a ação narrativa em personagens-bichos com nomes humanos, Luiz Vilela nem sempre situa o bicho como protagonista, mas frequentemente como discreto coadjuvante, e, com isso, sutilmente estabelece um contraponto entre natureza e cultura, premiando o leitor com alta voltagem de inquietação e também de prazer.

São 11 os contos de Você verá e, a rigor, apenas o primeiro, “Zoiuda”, apresenta uma lagartixa como personagem marcante, cuja participação é a de fazer companhia a um solitário e desiludido professor de português. A aparição e sumiço desse animalzinho pontuam uma vida de tédio do protagonista, mas que chega a pressentir um “minúsculo coração” que poderia estar “batendo um pouquinho mais forte” (p.7). Não seria a literatura exatamente uma das artes que provocam esse tipo de emoção?

No conto “Era aqui”, o homem mostra à namorada o lugar onde outrora havia o campinho de futebol de sua infância. Em meio à crítica sobre as promessas mentirosas dos políticos (prefeitos que iriam fazer a praça), o que impera é o poder da nostalgia, mediada por um sabiá que, “escondido na folhagem de uma árvore, emitia, a intervalos, o seu canto, sempre igual e sempre belo” (p.14). E é ouvindo o canto dessa ave que o homem, mergulhado em suas recordações, dali emerge e faz uma declaração de amor à companheira.

Em “O que cada um disse” temos uma narrativa polifônica, em vários blocos, criando uma dramática expectativa sobre o que teria feito um certo sujeito. Num determinado ponto, aparecem os bichos como eloquentes metáforas dos mistérios entranhados nas criaturas racionais: “O ser humano é como uma floresta: você olha de fora, e a floresta é aquela maravilha; mas você entra, e lá dentro você dá com onças, cobras, escorpiões” (p.21). Nessa mesma narrativa há o comportamento irracional de um Tidião que pegara uma espingarda e deu tiro em tudo que era bicho: “Vaca, porco, o cavalo, o cachorro. Nem o gato escapou. Nem o galo. Ele deu tiro até em passarinho na árvore”(p.24).

Uma das melhores histórias do livro é “Céu estrelado”: o homem regressa de carro para sua cidade, numa noite de passagem de ano, e cruza na estrada com um tatu, e o trata respeitosamente em seus pensamentos. (Em Tremor de terra, um dos personagens acaba se transformando em tatu.) Essa cordialidade com o bicho contrasta com o ambiente de sua casa, repleta de gente e dominada por uma mulher estúpida com quem ele conversa pelo celular. O desfecho desse conto, com direito ao aroma dos eucaliptos, é digno das grandes narrativas de Luiz Vilela sobre as angústias do bicho homem.

Em “Todos os anjos”, o mais lúdico dos textos, o pai conversa com seu filho que vem de uma aula de catecismo. A história gira sobre a existência dos anjos, que se assemelham a pássaros e a cobras voadoras. E a certa altura do diálogo o pai fala que “a minhoca só falava na língua delas: o minhoquês” (p.42). Como o menino estava com a cabeça cheia das informações da freira que lhe dava aulas, é irresistível a associação entre esse anelídeo e as ideias que botavam na cabeça das crianças...

Crueldade
No mais longo dos contos, “Bem”, em que o narrador ocupa dois planos da narração (o momento da enunciação e o tempo em que fizera amizade com um limpador de privadas, o “Bem” do título), temos uma espécie de ensaio sobre a crueldade humana: o narrador acaba tendo prazer de ouvir pelo telefone todas as desgraças que abatem sobre o pobre diabo que só atraía males, pois afinal os males vêm para o bem. Muitos trocadilhos perpassam pela narrativa em que o autor explora mais uma vez a catarse através da conversa telefônica, como já fizera em “Tarde da noite”. Num determinado momento, o gato que quebra o vaso da esposa de Bem e o cachorro que adoece e morre marcam e prenunciam mais desgraças que cercam o personagem.

O passado retorna no conto “Quando fiz sete anos”, em que o narrador recorda-se da bússola estragada que ganhara do avô. Num instante de intensa alegria, surge o bicho expresso em metáfora: “Eu agradeci e, doido para abrir o embrulho, fui para casa, a três quarteirões dali, voando como um alegre pássaro da manhã” (p.80).

Na mais mórbida das narrativas, “Corpos”, o autor expõe traços negativos da curiosidade humana: duas pessoas vasculham um site procurando detalhes dos corpos estraçalhados num desastre aéreo. Os bichos aparecem em dois planos: num dito popular: “abra um corpo e verás teu corpo, dizia minha avó” (p.85); e nos bichos da floresta em que o avião caíra: um passarinho que estava “todo tranquilo” (p.87) num galho, indiferente à tragédia, e nos supostos bichos que poderiam ter arrastado corpos das vítimas (p.89).

O caráter trágico e irônico retorna em “Noite feliz”, um dos contos mais pungentes, sobre uma mulher solitária numa noite de Natal. O autor é extremamente econômico em suas informações, deixando ao leitor a construção mais completa do quadro que se verá. Mas um gato aparece nas lembranças da protagonista, o macio e quentinho felino que se chamava Pretinho, nome que, metonimicamente, remete ao desfecho inesperado.

Em “Mataram o rapaz do posto” há o mal-entendido sobre a morte do homem citado no título. O bicho que aparece na história é um gambá. Mas o grande fedor está implícito (novamente) na crueldade humana.

No conto “Você verá”, que fecha o livro, você, leitor, não verá bicho algum. O protagonista encontra-se, de madrugada, num bar da rodoviária de Brasília, nos primeiros tempos da nova capital. O dono do barzinho é esperançoso em relação à cidade construída pelo “maior dos mineiros” (p.109). Crê o homem que este é “um país onde todos terão oportunidade, onde ninguém mais passará fome, ninguém mais precisará pedir esmola nas ruas” (p.108). O narrador se encontrava empoleirado num banquinho (p.105). Empoleirado, como uma ave, talvez como um bem-te-vi. E é a sensação que temos ao fechar o livro, bem-te-vi, com todos bens e males do bicho humano neste mundo tão pequeno...

Caio Junqueira Maciel é escritor.


 (editora record/reprodução)

Você verá
• De Luiz Vilela
• Editora Record
• 128 páginas, R$ 30