domingo, 31 de agosto de 2014

O Estado Islâmico está superando a Al Qaeda?


O Estado Islâmico está superando a Al Qaeda?

Samiha Shafy

Em poucos anos, o Estado Islâmico cresceu para se tornar o grupo jihadista mais temido do Oriente Médio. Em uma entrevista, Charles Lister, membro da Brookings Institution, descreveu a ascensão do EI no Iraque e na Síria e o que pode ser feito para impedi-la.
Spiegel Online: Como você explica a história do Estado Islâmico  para as pessoas que estão surpresas com a ascensão aparentemente repentina do grupo ao poder?

Lister: 
Em 1999, o pai do EI, Abu Musab al-Zarqawi, estabeleceu uma base de treinamento para seu grupo no Afeganistão. Depois que os Estados Unidos invadiram o Afeganistão no final de 2011, o grupo fugiu através do Irã e foi parar no norte do Iraque. Em 2003, ele havia se tornado efetivamente o principal movimento de resistência jihadista do Iraque. Durante a ocupação do Iraque pelos EUA, Zarqawi ganhou nome para si mesmo e para seu grupo. Ele implementou a lei da sharia a um nível tão extremo que várias forças tribais se ergueram e expulsaram-no em um movimento chamado "Despertar". O grupo sofreu perdas significativas na época. Quando os EUA começaram a sua retirada, isso marcou o início de uma oportunidade para reavivar o grupo de Zarqawi. A partir de meados de 2009, ele começou a estabelecer uma espécie de influência velada. Ele lançou cada vez mais ataques contra as forças de segurança, em uma campanha de intimidação de extrema violência contra oficiais locais - dentro do Exército, da polícia e dos governos locais. A extensão da campanha criou uma influência significativa para o Estado Islâmico. Ela também ajuda a explicar por que o EI foi capaz de tomar Mosul tão rápido.

Spiegel Online: Você disse que o Estado Islâmico teve sucesso em fazer essencialmente tudo o que a Al Qaeda havia feito antes, só que melhor, com a exceção de realizar um ataque no exterior. Como os dois grupos se comparam?
Lister:
 Ambos buscam estabelecer um estado islâmico governado pela lei da sharia, mas têm estratégias muito diferentes. A Al Qaeda adotou uma abordagem bem mais paciente, de longo prazo, para implementar o controle social e a governança, focada em criar as condições sócio-políticas para essa realidade. O EI é bem menos paciente em relação a esse objetivo. Tanto em meados da década de 2000 quanto agora, o EI sempre buscou implantar imediatamente a lei da sharia e governar a população logo ao tomar controle de um território. A Síria oferece a melhor comparação em termos de estratégia. A Al-Nusra, afiliada síria da Al Qaeda, tem exercido uma influência extensa por todo o país em nível social, mas só recentemente eles escolheram implementar a sharia diretamente porque sentiam que as condições sociais não estavam prontas e que eles seriam rejeitados se as impusessem cedo demais. Em vez disso, eles consideraram o longo prazo.
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Iraque: ofensiva rebelde lembra invasão dos EUA7 fotos

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À direita, soldados norte-americanos checam informações no serviço de rádio em janeiro de 2005 na cidade de Mossul, a segunda mais importante do país. À direita, uma foto tirada um dia depois da invasão de rebeldes sunitas à cidade mostra o uniforme de um soldado iraquiano jogado no chão em uma área alvo de ataques. Dez anos depois da ocupação norte-americana no país, o Iraque vive uma onda de violência que ameaça o governo central do país Leia mais Maurício Lima/Safin Hamed/AFP

Spiegel Online: Você diria que a Al Qaeda é de certa forma menos extrema que o EI?

Lister:
 Certamente. A Al Qaeda vem se comportando de forma relativamente moderada na Síria - pelo menos em comparação com o Estado Islâmico. Isso está começando a mudar, e a Al-Nusra está percebendo um ambiente mais hostil na Síria. Ela está começando a impor a sharia em cidades e vilas na província de Idlib, no nordeste, uma medida que não foi bem recebida pelos moradores locais. A medida é impulsionada por um sentimento, dentro da Al-Nusra, de que ela deve adquirir um controle firme sobre o território.

Spiegel Online: Teme-se que seus combatentes possam se juntar ao EI, em vez disso?

Lister:
 Sim. Os ganhos extraordinários do Estado Islâmico no Iraque e agora na Síria impuseram uma ameaça significativa para a Al-Nusra. O EI em um estado onde pode ser identificado e governado pela população, enquanto a Al-Nusra tem pouco a mostrar a favor de si mesma. A Al-Nusra está tentando provar a seus apoiadores que é capaz de governar e que, de fato, está fazendo isso.

Spiegel Online: O EI está mesmo tentando construir um Estado? Parece que ele está tentando substituir o governo, fornecendo serviços sociais como subsídios para alimentação e apoio para os idosos. Como o EI organiza isso e de onde vem o dinheiro para esses serviços?

Lister:
 O dinheiro é a chave. Sabe-se que o EI é quase que inteiramente autofinanciado. Seu dinheiro vem do controle e da venda ilícita de petróleo e gás, produtos agrícolas como trigo, o controle da água e eletricidade e de taxas impostas nas áreas que controla. Ele arrecada literalmente milhões de dólares por semana, e uma boa parte deste dinheiro é injetada nos serviços sociais. É simbólico o fato de que o EI esteja se apresentando exatamente como seu nome implica: como um Estado Islâmico. Para fazer isso, é preciso fornecer os mesmos serviços que um governo ofereceria. As pessoas podem manter seus empregos, mas tornam-se funcionárias do EI, como vimos quando ele tomou temporariamente o controle da hidrelétrica de Mosul. Ameaçando usar a força, e pagando os salários, eles conseguiram manter os profissionais em seus empregos tanto na Síria quanto no Iraque, desde garçons em restaurantes até funcionários da usina hidrelétrica.

Spiegel Online: Você afirmou que o líder do EI, Abu Baqr Baghdadi, tem mais legitimidade religiosa do que Osama bin Laden ou Zawahiri já tiveram.

Lister: 
Embora eles se apresentassem como especialistas em Islã, nem bin Laden nem Zawahiri tinham um treinamento religioso oficial. Sabe-se que Baghdadi tem um PhD em Teologia Islâmica e também foi clérigo em uma mesquita em sua cidade natal de Samara. Isso permitiu que ele adquirisse uma imagem de legitimidade como autoridade religiosa e chefe do Estado Islâmico. Se você olhar para os indivíduos imediatamente abaixo de Baghdadi, verá que a maioria é de militares e funcionários da inteligência, profissionais do Exército iraquiano. Isso por si só mostra a necessidade de ter uma figura religiosa no topo. Baghdadi não parece ser um indivíduo muito carismático, então claramente está nesta posição por causa de sua legitimidade religiosa.

Spiegel Online: Quem está encarregado da estratégia militar do grupo?

Lister: 
É difícil dizer com 100% de certeza, mas minha percepção é que as operações militares estão sendo coordenadas pelos subalternos imediatos de Baghdadi. Na maior parte, são indivíduos que serviram anteriormente como oficiais no Exército iraquiano ou no aparato de inteligência, então estão bem melhor equipados para planejar e implementar esta campanha bastante metodológica e profissional no Iraque e na Síria. É pouco provável que Baghdadi tenha sido o arquiteto disso.
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Avanço de jihadistas leva Iraque a nova onda de violência158 fotos

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28.ago.2014 - Jihadistas do EI (Estado Islâmico) executaram cerca de 200 soldados sírios, que teriam fugido da base aérea de Tabqa, no norte da Síria, capturada pelos extremistas há quatro dias. O EI divulgou vídeos nas redes sociais em que obrigam os soldados a andarem só de cueca no deserto, e depois os matam sem chance de defesa. A afirmação foi feita nesta quinta-feira por Rami Abdel Rahmanel, diretor da ONG Observatório Sírio dos Direitos Humanos Reprodução Youtube/HO/AFP

Spiegel Online: Quantos combatentes o EI tem à sua disposição?

Lister: 
O EI tem cerca de 6.000 a 8.000 militantes na Síria e 15 mil no Iraque. O número no Iraque aumentou substancialmente porque eles cooptaram muitos homens locais armados sempre que entravam em uma cidade. Eles tinham a opção de se render e entregar suas armas ou de se juntar ao Estado Islâmico.

Spiegel Online: O EI parece ter uma estratégia de propaganda bastante sofisticada, incluindo o uso das mídias sociais. Quem você acha que está por trás disso?

Lister:
 É difícil saber, mas o uso dessas contas [nas mídias sociais] certamente parece uma estratégia coordenada. Nos últimos dias, todas as contas do Estado Islâmico na mídia sumiram da noite para o dia nos fusos horários europeus. O Twitter está retirando esses perfis todas as noites e, interessantemente, eles aparecem novamente no dia seguinte, sugerindo um esforço coordenado. Contudo, o EI não parece ter abandonado por completo o Twitter como uma plataforma oficial, embora a maior parte de seu conteúdo tenha sido transferido para outras plataformas menores de mídias sociais.

Spiegel Online: O EI tem tido algum sucesso em recrutar jihadistas na Europa?

Lister: 
Este conflito atraiu um número sem precedentes de combatentes estrangeiros, e muitos deles vêm da Europa. O EI agora tem cerca de 2.000 a 3.000 recrutas da Europa. Isso poderia ajudar se eles quisessem realizar ataques na Europa, mas não acredita que eles querem fazer isso nesse momento.

Spiegel Online: Em retrospectiva, o que poderia ter sido feito para impedir a ascensão do EI? A situação hoje seria diferente se o Ocidente tivesse armado os rebeldes moderados da Síria na eclosão da guerra civil três anos atrás?

Lister: 
Este é o tema de um imenso debate internacional agora. Acredito que o EI já havia começado a crescer no Iraque em meados de 2009, então no Iraque ele estaria perto do que é hoje mesmo que a revolução na Síria não tivesse acontecido. Pode-se com certeza debater se o fornecimento de armas para a oposição moderada na Síria em 2011 teria ajudado a evitar que o EI conquistasse alguns territórios na Síria - com a revolução e a guerra civil, o ambiente estava propício para isso. Ainda assim, um apoio anterior à oposição moderada poderia ter reduzido significativamente a capacidade de o EI operar na Síria.

Spiegel Online: Por que o presidente Obama autorizou ataques militares no Iraque, mas não na Síria?

Lister: 
Os EUA há muito sustentam a visão de que a situação na Síria é complexa demais em termos regionais para se envolverem. Os EUA e o Irã têm interesses opostos na Síria, no geral, enquanto que no Iraque, esses interesses coincidem em grande parte. Este é um motivo pelo qual os EUA sentem mais liberdade para intervir em algum nível no Iraque. Além disso, os EUA têm interesses na região curda do norte do Iraque e relações de longa data com os combatentes peshmerga do Governo Autônomo Curdo. Acho que não veremos uma expansão além dos ataques aéreos limitados que estamos vendo hoje e de uma presença extremamente modesta e mínima em solo para garantir a segurança dos refugiados. Contudo, não acho que seja suficiente pressionar o EI. Os ataques aéreos desaceleraram o avanço do grupo, mas não o enfraqueceu. Eles estão contra-atacando e provavelmente começarão a ameaçar Aleppo na Síria em breve.

Spiegel Online: Que tipo de relações o Ei tem com outros grupos jihadistas na região?

Lister: 
Elas são mínimas. O EI não tem aliados na Síria. Ele tem vários grupos que prometeram lealdade, mas em termos de grandes grupos jihadistas, ele tem poucas alianças. Ele tem muitas no Iraque, mas principalmente com grupos tribais e do partido Baath, não com militantes. Ao apresentar a si mesmo como superior à Al Qaeda, que tradicionalmente recebia o apoio de outros grupos jihadistas, o EI se isolou de estruturas jihadistas mais amplas.

Spiegel Online: Como será a cara do Estado Islâmico daqui a 12 meses? E o que isso significará para o Iraque e para a Síria?

Lister:
 Se os EUA não escalarem sua intervenção no Iraque, e as condições continuarem tal como estão, acredito que o EI vai expandir bastante o território sob seu controle na Síria. Entretanto, não vejo as relações do grupo com outros ativistas sunitas no Iraque como duradouras. Não são relações naturais e eles só compartilham o objetivo comum de derrubar o governo em Bagdá. Dentro de 12 meses, essas relações começarão a ruir, oferecendo uma oportunidade para um novo governo ou para que o Ocidente restabeleça algumas relações antigas que se formaram durante o Despertar. Nós já estamos vendo isso em pequeno escala na Síria e sinais disso no Iraque, onde pode ser reproduzido.

Spiegel Online: O que o Ocidente pode fazer para ajudar a impedir o avanço do Estado Islâmico?

Lister: 
Infelizmente, o EI teve espaço para crescer e se desenvolver a uma extensão tão grande que qualquer estratégia para combatê-lo levará anos e exigirá recursos muito significativos -- e não apenas militares. Ela precisará incluir medidas sociais, econômicas, religiosas, políticas e diplomáticas. Também precisamos encontrar uma forma de colocar fim ao conflito na Síria, que oferece um convite em aberto para um grupo como este. E no Iraque, o governo em Bagdá terá de começar a buscar o apoio das tribos sunitas e reincorporá-las no sistema.

Entenda a violência no Iraque
  • O que está acontecendo?
    Desde que as tropas americanas saíram do Iraque, em 2011, o grupo islâmico EI vem rapidamente ocupando cidades do país. Desde 6 de junho, já tomou Mosul, segunda maior cidade e bastião da resistência à ocupação dos EUA e aliados, e partes de Tikrit, cidade de Saddam Hussein próxima da capital Bagdá. Desde então, cerca de 500 mil pessoas fugiram da região.
  • Quem está atacando?
    O EI (Estado Islâmico), um grupo islamita sunita que declarou ter criado um califado nas áreas sob o seu controle no Iraque e no Levante (parte de Síria e Líbano). Seu principal líder foi Abu Musab al-Zarqawi, morto em 2006. Hoje a liderança tem vários nomes, mas o principal é Abu Bakr al-Baghdadi. Surgiu da união de grupos que lutaram contra a ocupação do Iraque pelos EUA.
  • O que é um califado?
    É uma forma de governo centrada na figura do califa, que seria um sucessor da autoridade política do profeta Maomé, com atribuições de chefe de Estado e líder político do mundo islâmico. O Estado, que seguiria rigorosamente a lei do Islã, compreenderia a região entre o mar Mediterrâneo e o rio Tigre.
  • Qual o tamanho do confronto?
    O governo, que tem forte apoio xiita, perdeu o controle de grande parte de norte e oeste do Iraque, e agora pede que civis peguem em armas para lutar contra a milícia. O Exército de 930 mil integrantes, que, em tese, seria suficiente para derrotar o grupo, não conseguiu barrar o EI em outras cidades já tomadas. Até agora, mais de 5.500 iraquianos foram mortos só neste ano, segundo a ONU.
  • Qual a força do EI?
    O grupo, que recebe grandes doações ocultas de dinheiro, tem milhares de militantes, inclusive "jihadistas" americanos e europeus, e se aproveita da disputa entre o governo de Maliki, apoiado pelos xiitas, e a minoria sunita para conquistar espaço. Acredita-se que seja patrocinado por governos da região. Embora seja considerado um braço da Al-Qaeda, se rebelou e foi expulso pelo líder Al-Zawahiri.
  • O Iraque pode se dividir?
    Apesar de o governo central de Bagdá ainda controlar oficialmente as províncias do país, é possível que haja a fragmentação em ao menos três territórios. Isso porque a divisão do Iraque entre árabes sunitas, xiitas e curdos já está bem avançada

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Conheça grupos guerrilheiros antigos e novos ao redor do mundo12 fotos

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EXÉRCITO REPUBLICANO IRLANDÊS (IRLANDA DO NORTE) - O Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês) foi um grupo paramilitar católico separatista fundado em 1919 na Irlanda do Norte. Seu objetivo era separar o país do Reino Unido e reanexá-lo à República da Irlanda. Em seu período de maior atuação, recorreu a métodos terroristas, com ataques à bomba e emboscadas contra alvos protestantes. Mais de 3.500 pessoas morreram ao longo de mais de duas décadas de guerrilha. Em 28 de Julho de 2005, o IRA anuncia o fim da luta armada e a entrega de armas. No entanto, alguns grupos dissidentes do IRA, contrários à política de desarmamento, continuam tentando realizar atentados. Na imagem, integrante do IRA posa com arma em localidade desconhecida da Irlanda em 2003 AFP


MARTHA MEDEIROS - Histórias de amor

Zero Hora - 31/08/2014

Você vive um amor ou uma história de amor?

Tem diferença, sim. Um amor é a realização plena de um sentimento recíproco. Passa por alguns ajustes, negociações, mas desliza. Pode perder velocidade aqui, ganhar ali, mas não é interrompido pelas dúvidas, não permite a entrada de terceiros, tem a consistência das coisas íntegras, duráveis. O amor, amor mesmo, é uma sorte que se honra, uma escolha em que se aposta diariamente, o amor é algo que nasce e frutifica.

Já uma história de amor é, como diz o termo, uma invenção. Algo para ser contado ao analista, desabafado para os amigos, uma narrativa chorosa e trágica, um acontecimento beirando o folclórico, um material bruto pedindo para ser transformado em obra de arte. Toda história de amor está impregnada de obstáculos que lhe conferem um status de ficção.

Amor proibido pela família, rejeitado pela sociedade, condenado por preconceitos, amor que exige fugir de casa, pegar em armas, trocar de identidade: virou história de amor. Perde-se um tempo enorme roteirizando o dia seguinte. Se fosse amor, simplesmente amor, o dia seguinte amanheceria pronto.

Amor que coleciona mais brigas que beijos, mais discussões que declarações, mais rendições que entrega: virou história de amor. Pode subir aos palcos, transformar-se em filme, faturar na bilheteria: tem enredo. Mas não tem continuidade. Sai de cartaz rapidinho.

Amor que sobrevive à distância, que se mantém através de cartas e telefonemas (permita-me a nostalgia, sobreviver pelo whattsapp não combina com literatura), o amor sem parceria, sem corpo presente, o amor que não se pratica, que não se lubrifica, que enferruja por falta de uso: virou história de amor. Sofrido como pedem os poemas, glorificado pela vitimização, até o dia em que a ausência do outro deixa de ser um ingrediente pitoresco e você descobre que cansou de dormir sozinha.

Amor que exige insistência, persistência, paciência: virou história de amor. Se fosse amor, nada além de amor, navegaria em águas mais tranquilas, não exigiria tanto de seus protagonistas, o entendimento seria instantâneo, sem exagero de empenho, desgaste, sofrimento. Aff. Histórias de amor são fantásticas na primeira parte, tiram o ar, movimentam a vida, mas da segunda parte em diante viram teimosia dos autores, que relutam em colocar o ponto final na saga que eles próprios criaram.

Amor ou história de amor, o que se prefere?

Aventureiros, notívagos, hereges, rabugentos, sedutores, inquietos, fetichistas, insaciáveis, pecadores, estrangeiros, narcisistas, intrépidos, dramáticos, agradecemos cada verso e cada noite mal dormida que vocês deixaram de lembrança, mas um dia a gente cresce e a fantasia cede lugar à sensatez: um amor está de bom tamanho.

EM DIA COM A PSICANÁLISE » Variações freudianas Regina Teixeira da Costa

Regina Teixeira da Costa
Estado de Minas: 31/08/2014



O que dizer da relação entre teatro e psicanálise? Desde sempre o teatro imitou a vida e representou a experiência humana tal como ela é. Dramática, trágica e também cômica. No entanto, enquanto representadas, essas relações nos permitem refletir sobre esse jogo relacional que ocorre lá, fora do espaço interno. Essa distância permite que assimilemos melhor o conteúdo apresentado, uma vez que não se refere a nós mesmos. Estamos livres das implicações que tanto nos levam a negações e atitudes defensivas.

Shakespeare é magistral ao criar em Hamlet um personagem capaz de conceber uma peça dentro da peça, para denunciar uma verdade que não poderia ser escutada de outro modo. Mas assim fez-se clara uma verdade escondida.

O teatro imita a vida e a demonstra. Jean-Martin Charcot, por exemplo, ensinava por meio de demonstrações exemplares que podemos nos aproximar de alguma forma do modelo teatral. Ele foi um neurologista e cientista francês famoso no terreno da psiquiatria, na segunda metade do século 19; Freud era um de seus alunos.

Suas aulas consistiam na apresentação das crises de conversão de pacientes histéricas nas mais diversas formas. Eram cenas “teatrais” que hoje vemos representadas em fotografias e que parecem simulações, de tão caricaturais. Os alunos sentados na sala assistiam ao vivo a tais manifestações enquanto o mestre ensinava suas impressões e descobertas.

A psicanálise pode também ser transmitida por meio do teatro. O que é realizado por Quinet transmite a psicanálise por meio de textos que utilizam a ética da psicanálise. No primeiro livro, O sintoma – Variações freudianas 1, trata do sintoma e, nas palavras da psicanalista Elizabeth Rocha Miranda, os atores emprestam seus corpos para dar voz ao sintoma como mensagem cifrada, que guarda a verdade do sujeito, mantendo-o em seu lugar, o do “semidizer”.

O sintoma obsessivo e a conversão histérica apresentam a dança do acasalamento sempre fracassado entre o desejo impossível e o desejo insatisfeito, com os passos marcados pela conversão de uma e a ruminação de outro. A transmissão do drama do ser falante, a impossibilidade da relação sexual, é transmitida com arte e beleza.

No segundo livro, O ato – Variações freudianas 2, mostra variações dos atos humanos com suas determinações inconscientes e suas formas de laços sociais. De acordo com o próprio autor, o ato define o homem como o único ser capaz de agir de forma responsável e ética, mesmo que seja inconsciente. É a primeira comédia da Cia. Inconsciente em Cena, uma sátira da sociedade que a espelha e, por meio do humor, pretende fazer um furo no discurso capitalista da tecnociência que transforma todos em acéfalos consumidores de um gozo efêmero.

Antonio Quinet lançará, em Belo Horizonte, esses dois novos livros (O sintoma – Variações freudianas 1 e O ato – Variações freudianas 2 – SP: Giostri, 2014 –, que inauguram uma coleção sobre suas peças. Ao seu extenso currículo, o psicanalista e doutor em filosofia somou a dramaturgia. Quinet é professor do mestrado e doutorado de psicanálise, saúde e sociedade (UVA), onde desenvolve a pesquisa “Teatro e psicanálise”. Diretor-fundador da Cia. Inconsciente em Cena, fez formação em psicanálise em Paris, na Escola de Lacan e na Universidade Paris VIII.

Renato Icarahy, dramaturgo e professor de teatro (Unirio), confessa que ficou apreensivo a princípio, sem saber de que forma uma discussão tão específica e técnica poderia ganhar forma sobre o tablado e ainda mais com a presença do psicanalista, travestido ele mesmo de ator e elemento integrante da encenação. Ainda mais quando o personagem-psicanalista é autor da obra que se desdobra em ator, diretor de cena, conferencista e observador. Concluiu que, sim, a psicanálise e o teatro têm muito a dizer. O lançamento será em 5 de setembro, às 20h30, no auditório do Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, Rua Dom José Gaspar, 290, Coração Eucarístico.

TeVê

TV paga

Estado de Minas: 31/08/2014



 (Leonardo Nova/Divulgação )
Música
Na edição de hoje do Ensaio, às 23h, na Cultura, Fernando Faro vai receber o grupo de percussão Orkestra Rumpilezz e entrevista o maestro Letieres Leite (foto). No SescTV, às 21h, o baterista Nenê é o convidado de Passagem de som e Instrumental Sesc Brasil, com  Írio Júnior no piano e Alberto Luccas no contrabaixo. E no Multishow, às 20h, tem o Festival de Inverno da Bahia, com Paralamas, Capital Inicial e Luan Santana.

Dança
O FIlm&Arts exibe também hoje, às 19h, mais um episódio inédito de Breaking pointe, a série que desvenda a intimidade de bailarinos da Ballet West, de Salt Lake City, nos Estados Unidos. Chega finalmente a noite de estreia do espetáculo da companhia, deixando todos os participantes estressados, já que querem dar o seu melhor. Tudo isso para uma plateia de 2 mil pessoas!

Enlatados
Mariana Peixoto

Sem roupa, não!

Locação de boa parte das magníficas cenas externas de Game of thrones, a Croácia está causando alguns problemas para a produção do quinto ano da saga da HBO. Dois cenários importantes poderão não entrar na série. Um deles seria a Catedral de St. James, na cidade de Sibenik, que não poderá ser usada como cenário da Casa Preto e Branco, templo do Deus de Muitas Faces. Outra proibição é para uma cena muito importante (spoilers a seguir), em que Cersei Lannister caminharia nua entre centenas de pessoas. Seria em Dubrovnik, a cidade mais conhecida da Croácia e que guarda boas cenas das temporadas anteriores da série. A rainha de Westeros, em sua caminhada, sairia da Catedral de St. Nicholas. Como, pelo jeito, não haverá acordo, os produtores da série vão ter que arrumar uma solução.

Brasuca – Com a obrigatoriedade de os canais gringos terem programação produzida no Brasil, agora é o Universal que estreia uma atração nacional: o reality show Cinelab, quarta-feira, às 19h45. O programa acompanha três especialistas em efeitos especiais realizando uma cena de ação com baixo orçamento e muita criatividade. O reality será exibido também nos canais Syfy e Studio Universal.

Estrelas – O Universal promove hoje, a partir das 12h30, maratona com episódios de Law & order: Special Victims Unit que tiveram participações especiais. Os episódios “Selfish”, “Torch”, “Monster’s legacy” e “Criminal stories”, que contam com Hilary Duff, Sharon Stone, Mike Tyson e Alec Baldwin, respectivamente, no elenco, serão exibidos em sequência.

Maratona – Já no próximo fim de semana, a partir das 14h30, o Universal promove maratona com 10 episódios da segunda temporada de Grimm – serão cinco no sábado e outros cinco no domingo.

Reprise – Finalizada semana passada na Fox, Bones começa a ser exibida amanhã na Fox Life, às 22h, na sexta temporada.


CARAS & BOCAS » Só bambambãs
Simone Castro

 (João Miguel Jr./TV Globo %u2013 8/5/2012)
Babilônia, novela de Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, que vai substituir Império, na Globo, no início do ano que vem, terá um elenco estelar. Entre os bambambãs, duas atrizes que todo autor sonha contar em sua trama: Glória Pires e Adriana Esteves (foto). E com um detalhe: vão interpretar vilãs, e ainda por cima rivais. Vem briga das boas por aí! Adriana volta à cena quase três anos depois do sucesso estrondoso como a malvada Carminha, de Avenida Brasil (Globo). Na nova produção, ela será mãe da personagem de Sophie Charlotte, uma garota de programa, com quem terá uma relação difícil. Mas ela vai infernizar mesmo é a vida de outra cobra, Beatriz, vivida por Glória. “Beatriz é uma mulher rica, muita rica e má”, contou Glória ao site Uol. “Ela volta ao Brasil viúva, depois de morar fora um tempo, em busca de arrumar sua vida por aqui também, e aí começam as armações do Gilberto. Bia começa a pesquisar suas presas, quem é que vai pegar.” A última vez em que Glória trabalhou com Braga foi em Insensato coração (Globo), em 2011, no papel de Norma, uma mulher do bem que se transformou depois da traição de um falso amor. Em Babilônia, a mocinha da vez será interpretada por Camila Pitanga. No elenco, entre outros, estão também Fernanda Montenegro e Nathália Timberg, que vão formar um casal; Marcos Palmeira, Gabriel Braga Nunes, Herson Capri, Louise Cardoso e Deborah Evelyn.

PARQUE FAZ ANIVERSÁRIO E O
VIAÇÃO MOSTRA SUA BELEZA


O Viação Cipó deste domingo, às 10h, na Alterosa, comemora o aniversário do Parque Estadual do Rio Doce. A atração destaca as belezas do lugar, explorando matas para mostrar a fauna e lagos. O parque é um dos mais antigos do estado. Vale a pena conhecer um dos poucos remanescentes de Mata Atlântica do Brasil e uma lagoa com 30 metros de profundidade, além dos viveiros e uma cavalgada. Mais: uma deliciosa receita de doce.

RETORNO DE JÔ SOARES ESTÁ
CONFIRMADO PARA SETEMBRO


Depois de três meses internado por causa de uma infecção pulmonar e atualmente se restabelecendo em casa, Jô Soares já tem data prevista para voltar ao trabalho. O diretor do Programa do Jô (Globo), Willem van Weerelt, confirmou o retorno na primeira quinzena de setembro. Na ausência do apresentador, a emissora optou por reprisar entrevistas.

DUPLA ESPERTA É DESTAQUE
NO VRUM DESTE DOMINGO


No Vrum deste domingo, às 8h30, no SBT/Alterosa, fique por dentro das novidades de uma dupla esperta da Volkswagen, com o lançamento do Fox reestilizado e da Saveiro cabine dupla, conferido por Enio Grecco. O programa traz, ainda, a nova Yamaha T-Max 530 e um scooter invocadão testado por Téo Mascarenhas. A Ferrari tem novidade: o California equipado com motor turbinado no quadro “Sonhando auto”. Já Emílio Camanzi acelera o Nissan New March, agora feito no Brasil.

DIDI WAGNER DESEMBARCA
NA SUÍÇA COM O MULTISHOW


A apresentadora Didi Wagner afivela as malas e desembarca em breve na Suíça. Ela vai mostrar as belas atrações do país na próxima temporada do Lugar incomum, atração do Multishow (TV paga). As cenas só serão exibidas em novembro.

ESPECIAL DÁ VOZ A MULHERES
DETIDAS POR PROSTITUIÇÃO


Dramas reais acontecem nos presídios femininos dos Estados Unidos, onde mulheres repensam suas vidas enquanto estão longe da liberdade. Hoje, às 21h30, no Discovery Home & Health (TV paga), vai ao ar Deixando a prostituição, especial que dá voz a detentas que fazem parte de um programa de reabilitação, destinado a mulheres presas por conta da prostituição. Com duas horas de duração, o documentário percorre corredores e salas do presídio de Cook County, em Chicago, onde vivem 9 mil detentas, muitas delas envolvidas no crime organizado enquanto se prostituíam. Elas falam sobre a situação que as levaram à cadeia, como enfrentam a detenção e o que esperam do futuro.

SERTANEJOS VÃO COMANDAR
O NOVO DE FESTIVAL DO SBT


A dupla Chitãozinho & Xororó foi convidada pelo SBT para comandar a nova versão do programa Festival sertanejo. A atração deve ir ao ar a partir de 20 de setembro. A ideia é que eles ajudem a escolher um novo hit da música sertaneja. O que não deverá ser tarefa tão difícil assim para os experts. E enfrentar a TV também não é novidade na carreira dos artistas. Na década de 1990, os cantores apresentaram o programa Amigos (Globo), dividindo o palco com Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo. A atração durou três anos.


DE OLHO NA TELINHA » Sem pegada

Cristina (Leandra Leal) já não parece uma mocinha tão diferente assim (João Miguel Jr./Globo)
Cristina (Leandra Leal) já não parece uma mocinha tão diferente assim

Quando se fala em novelão, logo se pensa, entre outros ingredientes, numa mocinha clássica. Sim, aquela que passa os capítulos inteiros derramando lágrimas, desfiando um rosário de lamúrias, perseguida pela vilã, que, no mínimo, quer roubar o seu par romântico. Convenhamos, ninguém aguenta uma protagonista assim por meses a fio. Em Império (Globo), mesmo prometendo um novelão, logo no início deu para perceber que o autor Aguinaldo Silva criou uma heroína mais moderna: batalhadora, decidida e até voluntariosa.

Agora, no entanto, o que se vê é uma Cristina, da ótima Leandra Leal, quase apagada. Depois de um começo promissor, em que arregaçou as mangas para chamar para si a responsabilidade de cuidar da família com a morte da mãe, a personagem praticamente estagnou. No máximo, noiva, deu uns amassos em um namoradinho de infância.

Filha bastarda do Comendador José Alfredo (Alexandre Nero), o primeiro embate entre eles, assim que a notícia veio à tona, foi um dos grandes momentos da trama. No entanto, parou por aí. Assim que Cristina, revoltada, pois acusada de aproveitadora, disse que não queria mais saber do suposto pai e fez um acordo com a mulher dele, Maria Marta (Lília Cabral), a garota meio que saiu de cena.

De certa forma, Cristina até virou coadjuvante. Se não fosse pela luta de Cora (Drica Moraes), a tia vilã, que sonha em botar a mão na fortuna, o assunto da paternidade do Comendador já teria se tornado página virada. Pelo menos, é essa a impressão que dá. Um assunto central como esse não pode ficar em segundo plano do jeito que está. Os capítulos evoluem, mas o tema emperrou. O que o telespectador espera são embates cada vez mais inflamados entre os principais personagens do caso. Afinal, o que move Império – ou deveria – é a disputa pela fortuna do Comendador e na linha de frente além de Maria Marta e os filhos, também está Cristina, ainda que a jovem não queira.

O que pode ocorrer é que adiar certos encontros – e deixar de apostar neles como um bom ingrediente – acabe mal como ocorreu na trama de Em família (Globo), de Manoel Carlos, em que os personagens centrais, Helena (Júlia Lemmertz) e Laerte (Gabriel Braga Nunes), de uma história mal resolvida, espinha dorsal da sinopse, passaram a novela inteira praticamente sem se encontrar para valer e sem ter um real acerto de contas. Valia até um revival, é claro. José Alfredo e Cristina ainda têm um bom caminho pela frente, mas já deveriam se esbarrar por aí – e se estranhar – mais do que temos visto. É a pitada do novelão que está faltando. (Simone Castro)

PLATEIA

VIVA
O ator mirim Gabriel Palhares, o Tomás de Geração Brasil (Globo). Carismático, faz ótima dupla com Rodrigo Pandolfo, o Shin-Soo.

VAIA
Troca-troca de casais em Geração Brasil. Até os que se imaginava felizes já pularam a cerca. Não vale tudo para sacudir a trama.