quinta-feira, 21 de março de 2013

Opinião: Não dá para dourar a pílula: é impedir que pessoa exista


Opinião: Não dá para dourar a pílula: é impedir que pessoa exisa

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REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Defender que qualquer mulher tem direito de abortar até as 12 semanas de gestação é, ao mesmo tempo, uma decisão simples, óbvia até, e uma atitude com repercussões muito sérias, que precisam ser consideradas.
Uma primeira olhada parece fazer a balança pender para o lado do direito de interromper a gravidez.
Leis contra o ato nunca tiveram real efeito restritivo e, nos países nos quais ele é proibido, mulheres ricas pagam por aborto seguro enquanto as pobres enfrentam sequelas, e às vezes a morte.
É consenso entre especialistas que um feto de 12 semanas ou menos é neurologicamente incapaz de sentir dor.
Não dá para fechar os olhos, porém, para dilemas menos claros. O desenvolvimento embriológico humano não é dos mais eficientes, e a maior parte das fecundações nem acaba sendo sentida pela mãe, tão rápido terminam.
Mas, depois de duas semanas de gestação, quando os gêmeos idênticos passam a ser dois organismos separados, é difícil negar que o potencial biológico para gerar novos seres está presente.
Editoria de Arte/Folhapress
Isso ainda é mais verdadeiro perto das 12 semanas. Embora dependente do organismo materno, o feto se comporta como uma forma de vida separada -inclusive fazendo seus tecidos "invadirem" o organismo da mãe em busca de nutrientes.
Escolhe-se interromper essa trajetória, a qual, se não em todos os casos, num número considerável deles, desemboca num ser humano como eu e você. Não dá para dourar a pílula: é impedir que uma pessoa venha a existir.
E daí? Se está demonstrado que, em números líquidos, menos abortos acontecerão se o procedimento for descriminalizado, a hesitação não deveria desaparecer?
Em parte, sim. O buraco que pode ser enxergado mais embaixo, no entanto, é que efeitos a aceitação desse fato pelo Estado -que também é o suposto protetor da vida humana- pode ter sobre a maneira como as pessoas encaram essa mesma vida.
Tenho certeza que todos prefeririam que essa decisão fosse tomada em último caso. O problema é que o Estado não tem como fazer essa distinção sem cometer injustiças ainda mais repulsivas.
De fato, com ou sem permissão, talvez ela aborte -mas talvez faça diferença para pior viver num país no qual o poder de decidir isso esteja nas mãos de qualquer um.
É quase blasfemo que um homem questione o sofrimento de tantas mulheres. Só não parece correto dar a entender que escolher entre justiça e misericórdia seja simples ou óbvio, ou só diga respeito ao corpo que abriga o feto.

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