terça-feira, 26 de março de 2013

Para Alfredo Bosi, obra de Graciliano segue atual

folha de são paulo

Autor está em livro do crítico que hoje sente falta de 'força e beleza' similares
Texto do crítico literário sobre escritor foi apresentado em conferência e será publicado em 2013
RAQUEL COZERCOLUNISTA DA FOLHA"Não conheço escritor tão senhor dos segredos da linguagem literária que haja padecido tanto para dominar o alfabeto quanto o autor de 'Infância'", ponderou o crítico literário Alfredo Bosi, 76, na última quarta-feira, ao se propor a uma abordagem renovada sobre Graciliano Ramos (1892-1953).
O professor emérito da USP fez, no auditório da faculdade de história da universidade, a palestra de abertura do colóquio em homenagem aos 60 anos de morte do escritor alagoano.
"Quando fui convidado a falar sobre Graciliano, pensei: 'E agora, como dizer alguma coisa nova com interesse sobre sua obra, depois de tantos anos em que a li pela primeira vez?'."
Decidiu discorrer sobre "Infância", título de 1945 "que não é romance, não é história, não é memória" e sobre o qual nunca tinha meditado mais detidamente.
Sua análise do sofisticado modo de construção da memória do autor partiu de reflexão sobre passagens que o comoveram, como o testemunho de Graciliano sobre a palmatória e outros antigos expedientes de abuso de poder que o fizeram padecer com o aprendizado.
O texto da conferência estará no livro "Entre a Literatura e a História", que a editora 34 lança ainda neste ano. Integrará a seção de ensaios sobre teoria estética e literária, na qual serão abordados também Cecília Meireles, Machado de Assis e outros.
O título terá ainda uma parte dedicada à história literária, outra retomando temas de seu "Ideologia e Contraideologia" (Companhia das
Letras, 2010) e uma terceira com artigos publicados na imprensa, como aqueles motivados por sua militância ambiental.
Para encerrar o volume, haverá três entrevistas: sobre Otto Maria Carpeaux, sobre Celso Furtado e sobre sua trajetória como estudioso.
A última entrevista, pode-se dizer, resume a proposta do livro, pinçando temas centrais da ampla gama de interesses de Bosi nessas mais de quatro décadas de atuação na vida intelectual brasileira.
CLÁSSICOS
"Graciliano Ramos é um desses poucos escritores que continuam a nos repropor temas da nossa sociedade tratados com vigor e rigor estilístico excepcional", disse Bosi àFolha por e-mail, depois da palestra.
O crítico evita o pessimismo ao analisar nossa atual produção literária -o poeta e colunista da Folha Ferreira Gullar é o único autor vivo que, a princípio, cita entre os que estarão no livro.
Antes de comentar o tema, esclarece que "é preciso considerar a existência de uma questão de gosto".
Mas argumenta: "Quem se formou na leitura de Machado, Raul Pompeia, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, para citar alguns pontos altos, tem a impressão de que, a partir dos anos 1970-1980, a ficção brasileira não atingiu, se não em casos raros isolados, o patamar de força e beleza que aqueles criadores nos legaram." E ressalva: "Só o futuro julgará se tal impressão é correta".
Bosi inclui José Lins do Rego, Lima Barreto, Cornélio Pena e Dyonélio Machado entre os pontos altos do passado. Toma mais cuidado ao ser questionado sobre os "raros casos isolados" dignos de nota hoje.
"Eles já conhecem minha opinião favorável sobre suas obras, mas, se forem divulgados, isso produzirá constrangimento e mal-estar entre os numerosos autores que não seriam citados. Nem as omissões involuntárias seriam perdoadas."
Há anos distante da rotina de crítica literária na imprensa, diz que os bons suplementos do gênero "foram rareando por conta de alterações ocorridas na estrutura do mercado cultural".
Mas, complementa, "ainda cabe aos jornais o papel de informar o que vem sendo editado. De preferência, com textos que não sejam apenas expressão dos humores deste ou daquele jornalista".


FRASE
"Quem se formou na leitura de Machado, Raul Pompeia, Guimarães Rosa e Clarice Lispector tem a impressão de que a partir dos anos 1970-1980 a ficção brasileira não atingiu, se não em casos raros isolados, o patamar de força e beleza"
ALFREDO BOSI
crítico literário

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