quarta-feira, 1 de maio de 2013

Delfim Netto

folha de são paulo

Selic
O Brasil, obviamente, não se encontra às vésperas de uma hiperinflação como às vezes parecem sugerir analistas mais afoitos. A taxa de inflação namora com o desconfortável nível de 5% a 6% ao ano, mas é evidente que ela não está "fora de controle".
O desconforto pode ser apreciado na tabela abaixo, que revela a taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses dos 41 países acompanhados pelo "Economic and Financial Indicators" da "The Economist":
A tabela exclui a Argentina, onde nem o governo sabe qual é a inflação, e a Venezuela, onde ela é maior do que 30%. De qualquer forma nossa companhia é pouco recomendável: Índia (9,4%); Paquistão (6,6%); Rússia (7%) e Turquia (7%).
À espera do suporte, prometido pelo governo, que não veio (redução da demanda pública e regulação do mercado de trabalho), e à vista das incertezas que habitam o mundo, o Banco Central tem tido "paciência" e "cautela" com o único instrumento horizontal de que dispõe: a manobra da taxa real de juros. E por boas razões, pois ele vem de um processo de redução dessa taxa para introduzir uma política monetária civilizada que realizará seu trabalho com custos sociais mais aceitáveis.
Paradoxalmente, diante da alta da Selic para 7,5%, da ata do Copom e dos "esclarecimentos" de dois competentes diretores do BC, aumentou o "ruído" sobre a política monetária. O BC --a despeito do que dizem seus críticos-- sempre afirmou que manobraria o juro real "se e quando julgasse necessário". Agora cumpriu a sua palavra e mostrou que pode fazê-lo.
Confirma-se, assim, que a crítica do sistema financeiro de que "o BC não teria autonomia" era descabida: produto não de fatos, mas de sua interpretação. Isso deveria levá-lo a reavaliar a "credibilidade" do BC e reconhecer que a diferença de perspectiva e de informação empírica entre ele e o "mercado" é plenamente justificada diante das incertezas da economia nacional e internacional.
O que parece seguro é que a manobra da Selic (e a ideia de que ela vai continuar) deverá ter algum papel para corrigir a deterioração mais recente das "expectativas" e consolidar a possibilidade de redução da taxa de inflação no segundo semestre. Mas, sem uma ajuda da política fiscal e sem uma moderação dos aumentos nominais de salário acima da produtividade do trabalho, é pouco provável que muito mais aconteça.

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