terça-feira, 6 de agosto de 2013

Tempo avança mais rápido com a idade [Oliver Sacks]

folha de são paulo

Tempo avança mais rápido com a idade



DO "NEW YORK TIMES"
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The New York TimesA maioria das pessoas mais velhas sente que o tempo avança rapidamente, o que não é o caso dos jovens. Uma maneira de reverter essa sensação é aprender algo novo.
Quando completou 80 anos, no mês passado, o neurologista e escritor Oliver Sacks escreveu no "New York Times": "Oitenta anos! Mal consigo acreditar. Muitas vezes, sinto que a vida está apenas começando, mas então me dou conta de que ela quase acabou." Ele foi o caçula entre seus irmãos e também em sua sala na escola secundária, escreveu, "e conservei esta sensação de ser o mais jovem, apesar de eu hoje ser quase a pessoa mais velha que conheço".
Fica claro que há muitas pessoas que Sacks não conhece: apenas nos EUA, há mais de 10 milhões de pessoas com mais de 80 anos.
As estatísticas nos dizem que os humanos estão vivendo mais tempo graças a avanços na medicina, na saúde e na qualidade de vida em países como Japão, Estados Unidos e em quase toda a Europa. Nas oito décadas passadas, desde que Sacks nasceu, a expectativa média de vida dos homens britânicos ou americanos passou de cerca de 60 anos para quase 80.
Mas essas estatísticas andam sendo evidenciadas de outras maneiras, quando ícones da juventude eterna como Bob Dylan, Paul McCartney e Mick Jagger já chegaram ou passaram dos 70.
Numa coluna publicada na ocasião do aniversário de Mick Jagger, no mês passado, Gail Collins, do "NYT", notou com é estranho ver chegar à terceira idade os heróis culturais dos anos 1960 que criticavam os valores das gerações mais velhas. "É claro que, em 1965, ter 70 anos era ser velho, diferentemente de hoje, quando os 70 anos são os novos 50", escreveu. "Ou, no caso de Jagger, os 17 anos de idade reciclados."
Se você tem certa idade, pode sentir que os 50 anos passados desde que primeiro ouviu Jagger cantar "19th Nervous Breakdown" transcorreram num átimo. Isso é apenas ilusão, diz Richard A. Friedman, professor de psiquiatria clínica na Faculdade de Medicina Weill Cornell, em Nova York. "De modo geral, a maioria de nós tem percepção semelhante dos intervalos de tempo curtos, independentemente de nossa idade."
Mesmo assim, Friedman reconhece que a maioria das pessoas mais velhas sente o tempo passar mais rapidamente que os mais jovens. Isso é porque os idosos tendem a compreender o passado olhando "pelo telescópio do tempo perdido". Os jovens estão mais ocupados aprendendo sobre o mundo e o lugar que ocupam nele. Segundo Friedman, esses atos de aprendizagem e de concentração desaceleram a passagem do tempo.
Para os idosos que queiram acabar com a ilusão de que o tempo passa "voando", Friedman sugere "tornar-se estudantes outra vez. Aprender algo que exija esforço por algum tempo, fazer algo nunca antes feito."
Mas, se você não consegue furtar-se a pensar no passado, não se desespere. "Já foi demonstrado que a nostalgia combate a solidão, o tédio e a ansiedade", escreveu John Tierney, do "NYT". "Torna as pessoas mais abertas a estranhos e mais tolerantes a quem não faz parte de seu mundo."
Tierney cita estudos das universidades de Southampton, no Reino Unido, e de Tilburg, na Holanda, que fundamentam essas afirmações. "A nostalgia tem, sim, seu lado doloroso", escreveu, "mas seu efeito final é conferir mais sentido à vida e fazer a morte ser menos assustadora."
A reflexão de Oliver Sacks sobre sua vida até agora parece induzir esse efeito. "Não penso na velhice como um tempo cada vez mais sofrido que temos que suportar e de alguma maneira procurar encarar", escreveu, "mas como um tempo de lazer e liberdade, liberto das urgências falsas dos tempos anteriores, livre para explorar o que eu quiser e para reunir os pensamentos e sentimentos de uma vida inteira."

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