sábado, 7 de setembro de 2013

Indignação e esperança - Carolina Braga

Livro do sociólogo espanhol Manuel Castells analisa as raízes dos protestos que se alastram pelo mundo. Fenômeno é fruto das novas formas de autocomunicação 


Carolina Braga

Estado de Minas: 07/09/2013 


Desde junho, jovens ocupam as ruas da capital paulista     (Nelson Almeida/afp)
Desde junho, jovens ocupam as ruas da capital paulista


No primeiro momento, ninguém entendeu nada. Do grito de indignação pelo aumento de R$ 0,20 da passagem de ônibus em São Paulo ao clamor nas avenidas do país, a coisa tomou proporção – dentro e fora da rede – capaz de confundir até mesmo quem se dedicava a refletir sobre a sociedade brasileira. No calor da hora, foi um vale-tudo na busca (ou criação) de sentidos para o fenômeno “vem pra rua”.

O sociólogo espanhol Manuel Castells, no entanto, tinha o discurso pronto. Não exatamente sobre a realidade brasileira, mas o ponto de vista de um observador atento ao modelo de manifestação social que nasceu na Tunísia, passou pelo Egito e outros países árabes, conquistou a Espanha, chegou aos Estados Unidos e lotou as ruas brasileiras em junho.

Quando o movimento estourou no país, o livro Redes de indignação e esperança: movimentos sociais na era da internet (Zahar) havia sido publicado em inglês e espanhol fazia mais de seis meses. Curiosamente, não foram necessárias grandes alterações para editá-lo por aqui. “Aconteceu também no Brasil. Sem que ninguém esperasse”, registra o autor no pósfácio à edição brasileira.

Desde a década de 1970, Manuel Castells se dedica a pensar as transformações sociais. Por isso, movimentos gerados pelo povo não são novidade para ele. Muito menos associá-los a mudanças observadas a partir da difusão da internet. Nascido em 1942 na pequena cidade espanhola de Hellín, no Reino de Castilla-La Mancha o pesquisador é um dos pioneiros no estudo dos impactos sociais das novas tecnologias de comunicação.

Redes de indignação e esperança... pode ser dividido em três partes. No prólogo, Castells, além de introduzir o objeto da análise – os movimentos sociais ao redor do globo –, convida o leitor a conhecer algumas ideias que permeiam sua obra. Nem se trata dos tópicos já abordados em Sociedade em rede – A era da informação: economia, sociedade e cultura, lançado em 1997, mas a perspectiva sobre o poder apresentada em Communication power (2009).

Castells parte da premissa de que as relações de poder “são constitutivas da sociedade porque aqueles que o detêm constroem as instituições segundo seus valores e interesses”. Segundo o autor, há dois caminhos para exercer o poder: pela coersão ou pela construção de significados na mente das pessoas.

Embora defenda que essas relações geralmente estão embutidas nas instituições sociais, Castells ressalta: onde há poder sempre haverá contrapoder. A verdadeira configuração do Estado e de outras instituições que regulam a vida das pessoas depende da constante interação entre eles.

Significado

Ao considerar que a luta fundamental pelo poder é a batalha pela construção de significado na mente das pessoas, o sociólogo chama a atenção para a importância de entender os processos comunicativos contemporâneos. “A mudança do ambiente comunicacional afeta diretamente as normas de construção de significado e, portanto, a produção de relações de poder”, ressalta.

Neste contexto, o autor destaca a emergência da autocomunicação, ou seja, os próprios cidadãos são capazes de produzir e manejar mensagens de modo autônomo. Essa característica é determinante tanto da sociedade em rede quanto dos movimentos que emergem dela. Afinal, seja no Brasil ou na Tunísia, Egito, Estados Unidos e Espanha, as recentes manifestações surgiram justamente da capacidade das pessoas de se organizar em rede e de exercer o contrapoder de modo autônomo, por meio de mídias não tradicionais.

Manuel Castells aponta a Tunísia como arauto da nova forma de movimento social em rede. Trata-se do primeiro país em que se pôde observar certo padrão nas manifestações de rua. Coube a um grupo ativo de cidadãos com habilidade no uso da internet agir e estimular os protestos. O vídeo tunisiano com a imagem da autoimolação de um vendedor ambulante, de 26 anos, multiplicou-se na rede, despertando a coragem de jovens para sair às ruas e exigir mudanças.

Canto

Na Islândia, o “herói rebelde” foi o cantor Hordur Rorfason. Munido de sua guitarra, ele se sentou diante do Parlamento e expressou a fúria em canto. Outra cena multiplicada pela internet. No Egito, publicações do YouTube e comunidades no Facebook convocaram o cidadão a protestar em público. Uma delas surgiu em alusão à memória de um jovem espancado até a morte pela polícia depois de distribuir vídeo sobre a práticas corruptas naquela instituição.

No Brasil, na Espanha e nos Estados Unidos também foi assim. Na segunda parte do livro, a partir de sua observação e da tese de que o modelo dos protestos contemporâneos é o mesmo, Castells registra “convocações pela internet, constituição de redes no ciberespaço e apelos pela ocupação do espaço urbano para pressionar o governo”. No caso de países árabes, a abertura do processo de democratização estava em foco. Por aqui, escreve Castells, “a democracia foi reduzida a um mercado de votos em eleições realizadas de tempos em tempos, mercado dominado pelo dinheiro, pelo clientelismo e pela manipulação midiática”.

Crise
Ao longo do livro, o sociólogo faz questão de ressaltar seu objetivo: não quer defender teses, apenas refletir sobre o que viu, ouviu ou leu, pois aprendeu a investigar processos de transformação social. Eis o que estamos vivendo. Sendo assim, no sexto capítulo, Manuel Castells amarra todos os fios que porventura tenha deixado soltos.

O autor entende que os movimentos sociais geralmente nascem de crises nas condições de vida. Independentemente de onde seja, ou de qual modelo siga, há sempre profunda desconfiança em relação às instituições políticas. Embora os protestos exibam padrões determinados e o papel da internet seja inquestionável, Castells identifica um problema de compreensão. Para ele, a mídia e círculos acadêmicos têm dificuldade em identificar o papel das tecnologias da comunicação.

“O que é irreversível tanto no Brasil quanto no mundo é o empoderamento dos cidadãos, sua autonomia comunicativa e a consciência dos jovens de que tudo o que sabemos do futuro é que eles o farão. Móbil-izados”, conclui. Em tempo: móbil, em espanhol, quer dizer celular.

Trechos

EGITO
“A forma social básica do movimento foi a ocupação do espaço público. Todos os outros processos de formação de rede foram maneiras de atingir a libertação de determinado território que havia escapado ao controle da autoridade do Estado e experimentava formas de autoadministração e solidariedade.”

PAÍSES ÁRABES
“Sem dúvida alguma, a centelha da indignação e da esperança nascida na Tunísia e que derrubou o regime de Mubarak, produzindo uma Tunísia democrática e um Egito protodemocrático, espalhou-se rapidamente por outros países árabes, seguindo o mesmo modelo: convocações pela internet, constituição de redes no ciberespaço e apelos pela ocupação do espaço urbano para pressionar o governo a renunciar e abrir um processo de democratização.”

ESPANHA
“Indignados é um um movimento de múltiplos e ricos discursos. Slogans criativos, frases de efeito, palavras significativas e expressões poéticas constituíam um ecossitema de linguagem indicativo de novas subjetividades.”

EUA
“O movimento Occupy Wall Street construiu uma nova forma de espaço, uma mistura de espaço de lugares, num determinado território, e espaço de fluxos, na internet. Um não conseguia funcionar sem o outro; esse espaço híbrido caracterizava o movimento. Os espaços tornam possível interagir face a face, compartilhar a experiência, o perigo e as dificuldades, assim como, em conjunto, enfrentar a polícia e suportar a chuva, o frio e a perda do conforto em suas vidas cotidianas. Mas as redes sociais da internet permitiram que a experiência fosse divulgada e amplificada, trazendo o mundo inteiro para o movimento e criando um fórum permanente de solidariedade, debate e planejamento estratégico.”

BRASIL
“Nesse clima de fratenidade encontrado nas redes e percebido nas ruas se difunde a defesa dos direitos dos mais indefesos, dos povos indígenas massacrados pela indiferença pública numa Amazônia espoliada. Esse movimento sem nome, porque do Passe Livre se passou ao clamor pela liberdade em todas as suas dimensões, surgiu das entranhas de um país perturbado por um modelo de crescimento que ignora a dimensão humana e ecológica do desenvolvimento.”



REDES DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA: MOVIMENTOS SOCIAIS NA ERA DA INTERNET

De Manuel Castells
Editora Zahar, 271 páginas, R$ 49,90 e R$ 37,90 (e-book)

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