terça-feira, 19 de novembro de 2013

Eduardo Almeida Reis-Vias transversas‏

Vias transversas

O tradutor meteu os pronomes em lugares esquisitíssimos e o texto, em português, ficou uma porcaria

Eduardo Almeida Reis

Estado de Minas: 19/11/2013 



Descobri a pólvora! Em vez de ficar procurando determinado livro nas muitas estantes aqui do apê, distribuídas em quatro cômodos, para localizar determinado trecho sobre o qual preciso escrever, vou ao Google, digito quatro ou cinco palavras – nome do autor, assunto desejado – e o texto lá está com todos os efes e erres em blogs ou “portais” de cuja existência jamais desconfiei. Blogs e portais que avisam: “Todos os direitos reservados”.

Sabe o pacientíssimo leitor de Tiro&Queda quem foi o autor do texto que teve todos os direitos reservados pelo portal ou pelo blog? Se não sabia, fique sabendo: este philosopho. E dizer que fico cerimonioso na hora de transcrever um trechinho de escrito alheio, mesmo dizendo o nome do autor.

Indoutrodia, vi-me em palpos de aranha, o que é muito melhor do que ficar em papos de aranha. No papo, o escriba já foi papado pelo aracnídeo, enquanto nos palpos ainda pode escapar: palpo é apêndice segmentado das maxilas ou do lábio dos insetos. Parece que as aranhas não são insetos: são aracnídeos, classe de artrópodes quelicerados, cosmopolita, que reúne 50.000 espécies distribuídas em 11 ordens, vulgarmente conhecidos por aranhas, ácaros e escorpiões; caracterizam-se pela presença de quatro pares de patas e um par de palpos, pelo corpo dividido em cefalotórax e abdome e pela ausência de antenas.

Explico: resolvi transcrever um texto copiado de revista semanal, traduzido do inglês ou do francês para o português. Acontece que o tradutor meteu os pronomes em lugares esquisitíssimos e o texto, em português, ficou uma porcaria. Por isso, tomei a liberdade de ajeitar a tradução à moda aqui do degas. Não creio que tenha cometido um crime. A autora, uma jornalista francesa que vem de publicar livro em inglês, gostará da penteada que dei na tradução do seu texto. Portanto, descobri a pólvora: a partir de hoje, só procuro meus escritos no Google.


Chou e os fatos

Faz tempo que ando às voltas com produtos alimentícios Mon Chou, os únicos à venda nos mercados daqui. Exigem que a vítima seja assaz cautelosa para não quebrar os dentes. O último potinho de 150 gramas de ameixas sem caroços ainda não chegou à metade e já encontrei quatro caroços.

Fui ao dicionário eletrônico francês-português para ver que diabo é chou? Em botânica é couve: le chou de Bruxelles (a couve de Bruxelas), le chou-fleur (a couve-flor). Os cultivares da colza, Brassica napus, do grupo Napobrassica, que o leitor deve conhecer como rutabaga ou túrnepo, em francês são chou-navet e no supermercado aí da sua esquina talvez atendam pelo nome de nabiça, couve-nabo ou nabo-redondo. E o belo repolho, danado para produzir gases, é le chou prommé. Portanto, se você descolar um namorado gasoso, pode chamar de chou que ele entende. Namorada, outrossim.

Chou é também pequeno bolo ou pastel. Mon chou, mon petit chou é meu amorzinho, meu queridinho. Que c’est chou!, como é amoroso! Mas se você pensa viver no campo produzindo geleias e cultivando hortas orgânicas, parece que vai plantar couves: aller planter ses choux.

Falhando seu plano de geleias e hortas orgânicas, perdido o dinheirinho que você investiu na roça, babau: être dans les choux. Seu filhinho, antes de operar as orelhas de abano, cirurgia hoje muito simples, tadinho do menino, seria conhecido por avoir les oreilles en feuilles de chou.

Fair chou blanc é exatamente o que faz um monte de ministros: resultado nulo. De outro lado, há gente que se aproxima da Esplanada dos Ministérios para faire ses choux gras de quelque chose, isto é, tirar bom partido de qualquer coisa. Se criticados, esses ladrões costumam dizer que o crítico trabalha num feuille de chou – um jornaleco.

Rentre dans le chou de quelqu’un é atacar alguém, precipitar-se sobre alguém para lhe bater, dar uma sova em alguém, exatamente o que o leitor deve ter vontade de fazer com o cronista que escreve 328 palavras sobre chou.


O mundo é uma bola

18 de novembro de 1095: início do Concílio de Clermont, convocado pelo papa Urbano II para discutir o envio da Primeira Cruzada à Terra Santa. Em 1307, reza a lenda que Guilherme Tell flechou maçã posta sobre a cabeça de seu filho. Figura lendária, Guilherme seria craque no manejo da besta, antiga arma portátil que consiste em um arco de madeira, chifre ou aço, montado em uma coronha, cujas extremidades são ligadas por uma corda que se retesa por meio de mola e que, ao ser solta, arremessa setas curtas, pelouros etc.; balesta, balestra.

O Formulário Ortográfico, aprovado pela Academia Brasileira de Letras na sessão de 12 de agosto de 1943, não permite que a distinção de timbre entre besta \é\ e besta \ê\ seja registrada com acento circunflexo diferencial; em caso de equívoco, um recurso possível seria usar a informação de timbre entre barras depois da palavra: uma multidão de bestas \é\ tomou de assalto as muralhas da cidadela.

Hoje é o Dia do Tabelião e Registrador, bem como o Dia do Conselheiro Tutelar.


Ruminanças

“A pessoa que se vende recebe sempre mais do que vale.” (Barão de Itararé, 1895-1971)

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