segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Caça ao tesouro de Joaquina‏

Caça ao tesouro de Joaquina 
 
Crença de que Dama do Sertão enterrou presente de dom João VI debaixo do seu casarão, demolido em 1954, leva curiosos a Pompéu com equipamentos que detectam metais 


Paulo Henrique Lobato
Estado de Minas: 03/02/2014


Vandeir percorreu a região com um detector de metais em busca do tesouro. Sempre que acha algo valioso, doa para museus ( Paulo Henrique Lobato/EM/D.A Press  )
Vandeir percorreu a região com um detector de metais em busca do tesouro. Sempre que acha algo valioso, doa para museus

Pompéu – Desde pequena, a agricultora Léia Faria, de 39 anos, ouve histórias de que um tesouro está enterrado no lugar onde existiu o casarão de Joaquina Bernarda da Silva de Abreu Castelo Branco (1752-1824), uma importante personagem mineira do século 19 e com estreitos laços com a família real portuguesa. Em 1808, por exemplo, ela enviou centenas de gados e outros mantimentos para matar a fome de dom João VI (1767-1826) e dos cerca de 10 mil súditos que fugiram da invasão das tropas de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e desembarcaram, no Rio de Janeiro, sem alimentação suficiente para todos. Já em 1822, Joaquina enviou tropas de cavalos e mantimentos para reforçar o exército de dom Pedro I (1798-1834) na luta pela independência do Brasil.

O tesouro em questão seria um presente de João VI em gratidão à ajuda financeira de Joaquina. Há quem acredite que se trata da escultura de um cacho de bananas folheado com ouro. Outros afirmam que o objeto tem o formato de uma única banana coberta com pó do precioso metal. Ainda há quem sugere um pote com objetos valiosos. Muita gente, porém, alerta que tudo não passa de uma lenda que surgiu em razão da riqueza acumulada por Joaquina, considerada uma grande empreendedora à frente de seu tempo.
Cemitério dos escravos de dona Joaquina também é alvo da caça ( Paulo Henrique Lobato/EM/D.A Press  )
Cemitério dos escravos de dona Joaquina também é alvo da caça

Ela deixou aos herdeiros, segundo escreveu o historiador Gilberto Cézar no artigo “As duas faces da matriarca”, publicado na edição de 14 junho de 2008 da Revista de História, “11 fazendas, 40 mil cabeças de gado e algumas centenas de escravos, fora baixelas de prata e bandejas e barras de ouro, entre outros tesouros”. Para se ter ideia do tamanho das terras da amiga da corte, basta dizer que suas fazendas abrangiam áreas que hoje pertencem às cidades de Abaeté, Dores do Indaiá, Paracatu, Pitangui, Pequi, Papagaios, Maravilhas, Martinho Campos e Pompéu.
Foto de 1945 mostra casarão onde Joaquina pode ter enterrado o presente (Raquel Mascarenhas Viana/Divulgação)
Foto de 1945 mostra casarão onde Joaquina pode ter enterrado o presente

Foi nessa última cidade que Joaquina e o marido, o capitão Inácio de Oliveira Campos, passaram os últimos anos de vida. O sobrado-sede, com 79 cômodos, foi erguido de esteio de aroeira, em sistema de pau a pique, no Pompéu Velho, um povoado a 22 quilômetros de Pompéu e a 190 de Belo Horizonte. O imóvel foi derrubado em 1954. “Pessoas acreditavam que debaixo do solar havia um saco de ouro ou outra peça do metal e associaram a existência (do tesouro) à derrubada do imóvel”, disse Hugo de Castro, coordenador do Centro Cultural Dona Joaquina do Pompéu.

ESPERANÇA O certo é que, de lá para cá, muita gente revirou aquele solo na esperança de encontrar algum objeto de valor e – quem sabe – até mesmo o cacho de banana folheado em ouro. Léia, a agricultora, mora a menos de 100 metros do terreno, hoje ocupado por um canavial. Ela mesma cavacou a terra e retirou dois objetos antigos. O primeiro é uma enxada com a lâmina toda enferrujada. A ferramenta teria sido usada por escravos de Joaquina e foi negociada a um colecionador fora de Pompéu por R$ 700: “Eu precisava do dinheiro”.

O segundo objeto encontrado por Léia tem cerca de 20 centímetros e é exibido com orgulho pela mulher. Trata-se de uma chave de ferro de uma das janelas de madeira da antiga fazenda. A agricultora já garimpou ofertas pela peça, mas o valor oferecido por um senhor da sede do município está bem aquém do que ela deseja. “Ele me ofereceu R$ 150. Acho que a chave vale bem mais do que isso. Para mim, uns R$ 600 ou R$ 700”, completou a moradora, mãe de dois filhos e que ganha a vida vendendo alface e outras verduras numa feira na região. Léia não se importa em mostrar a chave a visitantes que buscam conhecimentos sobre Joaquina. Vários deles foram lá para, como diz a agricultora, “revirar a terra”.

Nem todos, porém, querem fazer fortuna às custas da amiga de João VI. Há quem chegue ao Pompéu Velho apenas para pesquisar o local. Foi o que fez, no último domingo, Vandeir Santos, morador de Contagem. Apaixonado pela história do Centro-Oeste mineiro, ele já percorreu diversas partes da região equipado com seu detector de metal. Quando acha algum objeto antigo, o doa para museus. Há dois anos, numa mina de ouro desativada em Pitangui, que fica a 90 quilômetros de Pompéu, Vandeir encontrou um ponteiro de ferro do século 18 e o doou ao acervo do museu do município. Em Pompéu, porém, ele não teve a mesma sorte.

SINAIS Vandeir percorreu parte do terreno com seu detector. O equipamento emitiu alguns sinais, mas o barulho foi provocado pelo arame de uma cerca debaixo de algumas árvores de mamonas. Ele ainda tentou garimpar algo no antigo cemitério dos negros, mas o aparelho só apitou nas proximidades de outra cerca de arame farpado.

Em seu livro Dama do Sertão, Antônio Campos Guimarães descreve uma ordem de Joaquina ao mestre de obras Tomé Dias: “Tomé: quero construir, a quatrocentos metros do lado esquerdo do casarão, um cemitério com uma capela e uma cruz de aroeira para a minha família (cemitério dos brancos). Do mesmo lado, distante mil metros, um cemitério para os meus escravos (cemitério dos negros), cercado com lascas de aroeira, bem fundo, para que os tatus não comam os meus negros depois de mortos, e uma cruz do mesmo tamanho da cruz do cemitério da minha família”.

Tanto o cemitério dos brancos, onde está sepultado o corpo de Joaquina, quanto o dos negros estão às margens da estrada de terra que liga Pompéu a Papagaios. Os dois locais são pontos turísticos da região, mas foram alvos da ação de vândalos. A capela do cemitério dos negros e o piso em seu entorno devem ser reformados pela prefeitura.
Léia encontrou chave antiga quando esvacou o terreno ( Paulo Henrique Lobato/EM/D.A Press  )
Léia encontrou chave antiga quando esvacou o terreno

MEMORIAL
O Conselho Municipal do Patrimônio Cultural, Artístico e Histórico de Pompéu pretende construir uma praça ou um marco no local onde havia o casarão de dona Joaquina. “Seria uma extensão do museu. Os moradores da região poderiam, inclusive, vender (mimos) relacionados à memória da Dama do Sertão, aumentando a renda deles”, disse Hugo de Castro.

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