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terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Obra do 'Velho Chico' retalha propriedades

FOLHA DE SÃO PAULO

Obra do 'Velho Chico' retalha propriedades
Transposição do rio São Francisco causa prejuízos ao cortar mais de 1.800 pequenas áreas produtivas em 4 Estados
Ninguém sabe ao certo onde serão construídas passarelas sobre a obra, que deveria ter terminado em 2012
Lalo de Almeida/Folhapress
Animais em canal da obra paralisada para a transposição do rio São Francisco em floresta, sertão de Pernambuco; previsão para a conclusão de trabalhos passou de 2012 para 2015
Animais em canal da obra paralisada para a transposição do rio São Francisco em floresta, sertão de Pernambuco; previsão para a conclusão de trabalhos passou de 2012 para 2015
FÁBIO GUIBUENVIADO ESPECIAL A FLORESTA (PE)As obras estão atrasadas e paradas em vários trechos, mas sertanejos que tiveram propriedades cortadas pelos canais da transposição do rio São Francisco querem saber como chegarão ao outro lado de suas terras quando a água começar a correr.
A preocupação dos moradores é que eles sejam obrigados a andar quilômetros na caatinga para chegar à parte isolada de suas propriedades.
O clima é de apreensão, pois a maioria não tem carro e carrega nos braços ou em carroças a lenha para os seus fogões e a vegetação nativa usada como ração.
Folha percorreu o canal da transposição em Floresta (a 435 km de Recife), onde muitos sertanejos tiveram as propriedades divididas.
O agricultor Manoel Menezes Filho, 75, conta que perdeu 40 cabeças de bode após ter sua fazenda de 352 hectares cortada pela obra.
Ele disse que usava os 44 hectares que ficaram do outro lado do canal para criar animais, mas que foi obrigado a recolhê-los após os bodes começarem a sumir.
"Perdi o controle porque eles ficaram soltos, sem ninguém por perto", afirmou. "Os animais não estavam acostumados e sumiram."
O agricultor trouxe a criação para perto de casa, mas o açude para os bichos está do outro lado do canal. Ele usa um aterro para atravessar, mas sabe que terá de retirá-lo para a água passar.
"Quando a obra começou, eu achava que era uma coisa boa, mas agora fico desconfiado porque passa ano e isso não sai do lugar", disse.
GALPÕES SAQUEADOS
Iniciada em 2007, com previsão de conclusão para 2012, a transposição de parte das águas do rio São Francisco está com 43% das obras concluídas. Vários trechos estão abandonados, e a expectativa, agora, é que os trabalhos somente terminem em 2015.
Em Floresta, galpões foram saqueados e estão sem portas e janelas. Há montanhas de brita abandonadas.
A erosão corrói paredes de terra desprotegidas do canal. Plantas crescem dentro dele, contrastando com o cinza que predomina na caatinga.
"Não sei se isso vai trazer água ou não algum dia porque até agora só trouxe dúvida", disse o agricultor Joaquim Cordeiro de Sá, 78.
Ele também teve sua propriedade de 53 hectares dividida pela obra e agora espera que uma passagem seja construída perto da sua casa.
"Eu tiro lenha e macambira [planta nativa] para os animais do outro lado e só tenho carro de boi para chegar lá."
Os 713 quilômetros dos eixos leste e norte da transposição passam por 1.803 propriedades em Pernambuco, na Paraíba, no Ceará e no Rio Grande do Norte.
O Ministério da Integração Nacional não informou quantas delas foram divididas, mas, de acordo com o órgão, passagens sobre o canal serão feitas, em média, a cada 2 km. A localização, informou, foi acertada em reuniões com as comunidades.
Ainda segundo o ministério, dos 16 lotes da obra, 7 estão em atividade e empregam 4.100 pessoas. Os trechos parados, informou, estão em processo de licitação.

    FRASE
    "Quando a obra começou, eu achava que era uma coisa boa, mas agora fico desconfiado, porque passa ano e isso não sai do lugar"
    MANOEL MENEZES FILHO, 75
    proprietário rural em Floresta (PE)

    Agricultores perderam suas fontes de água
    DO ENVIADO A CUSTÓDIA (PE)
    Em meio à maior seca das últimas décadas no sertão nordestino, a agricultora Maria de Amorim, 67, perdeu suas duas únicas fontes de água durante a construção do canal da transposição das águas do rio São Francisco em Custódia, a 340 km de Recife.
    Seu poço foi soterrado pela obra e a pequena mina que existia a cem metros do seu sítio secou. Empreiteiras, segundo ela, usaram toda a água para construir o canal.
    "Moro aqui há 37 anos e a mina nunca tinha secado", disse. "Antes de as empreiteiras chegarem, a água dava para todo mundo. Podia vir gente com tambor, lata, do jeito que fosse, sempre tinha." As construtoras, diz, usaram carros-pipa e bombas de sucção.
    "Eles botaram dois motores: um ficava ligado de dia, e o outro, de noite. Quando a mina secava, eles cavavam a areia com máquina. Nunca pararam de puxar, só quando faltou mesmo. Aí pararam."
    Segundo ela, nesse período as empresas lhe forneciam dois carros-pipa por mês. Quando elas se foram, há cerca de um ano, a ajuda acabou. "Ficaram de fazer meu poço novo e nunca fizeram. Agora estou pagando R$ 600 por mês por dois caminhões."
    Os carros-pipa vêm da cidade de Serra Talhada; o dinheiro, das aposentadorias dela e do marido, o que dá cerca de R$ 1.200 mensais. "Até agora, a transposição só tirou a água que a gente tinha, não trouxe nada."
    Além do canal, a propriedade de Maria de Amorim também foi atravessada pela obra da ferrovia Transnordestina. Apesar dos transtornos, ela diz que não pensa em reivindicar compensações: "Não vou fazer questão porque com o governo a gente é piaba em boca de tubarão."
    No sítio vizinho, o agricultor Antonio Brasiliano Siqueira, 67, também responsabiliza as construtoras pelo fim da água na mina. A exemplo de Maria, diz, resignado, que não vai tomar providências.
    "A firma carregou a água todinha para fazer o canal, mas com o governo a gente não pode dizer nada, não é? Eles não pediram para usar, mas fazer o quê?"

    segunda-feira, 12 de novembro de 2012

    Após incêndio, canteiro da usina de Belo Monte (PA) tem quebra-quebra


    Após incêndio, canteiro da usina de Belo Monte (PA) tem quebra-quebra


    FÁBIO GUIBU
    DE RECIFE
    Um grupo de cerca de 30 pessoas encapuzadas e portando pedaços de pau depredou e saqueou instalações em um dos canteiros de obras da hidrelétrica de Belo Monte (PA), na tarde de sábado (10).
    A ação ocorreu menos de 24 horas após um incêndio destruir quatro galpões de lona usados para a estocagem de material, em outro canteiro da mesma obra. Ninguém foi preso nem se feriu.
    A Polícia Civil e os bombeiros investigam os casos. Uma das hipóteses a serem apuradas é a eventual ligação dos incidentes com o processo de renovação do acordo coletivo de trabalho dos operários, que começou neste mês.
    O incêndio aconteceu na noite de sexta-feira (9), véspera de uma assembleia geral dos trabalhadores, no sítio Belo Monte, o maior canteiro de obras da hidrelétrica.
    Segundo o tenente dos bombeiros de Altamira (PA) que comandou a operação no local, Gilmares da Silva, o fogo destruiu "totalmente" os quatro galpões, onde havia equipamentos de proteção, material hidráulico e elétrico.
    "Quando chegamos, a brigada interna de segurança já combatia o fogo com carros-pipa e os operários estavam no refeitório", declarou Silva. Ninguém sabe o que provocou o incêndio. O resultado da perícia sai em 15 dias.
    No sábado, as depredações e o saque aconteceram no sítio Pimental, durante a assembleia dos operários com o sindicato da categoria.
    O grupo de encapuzados forçou o fim do evento e, segundo a polícia, tentou impedir a saída dos ônibus que transportavam funcionários.
    Houve confusão e quebra-quebra. De acordo com o CCBC (Consórcio Construtor Belo Monte), computadores, mesas, cadeiras e arquivos da empresa foram destruídos.
    Ainda segundo o consórcio, houve tentativa de incêndio em uma cozinha. Uma farmácia e a lanchonete do canteiro de obras também foram depredadas. O dinheiro que estava nos caixas sumiu.
    Um helicóptero da Polícia Civil foi ao local, mas os policiais não conseguiram identificar os responsáveis. "Assim que nos viram, os encapuzados se misturaram aos operários", disse o superintendente regional da Polícia Civil, Cristiano Nascimento.
    SINDICATO
    O vice-presidente do Sintrapav (Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada do Pará), Regimel Gobbo, negou que o vandalismo tenha sido cometido por trabalhadores.
    "Não temos domínio sobre quem pode estar infiltrado entre os operários, se tem incendiários, encapuzados", disse ele. "Se existe esse problema no canteiro, cabe à empresa resolvê-lo", afirmou.
    Em nota, o CCBM informou que "repudia ações desse tipo" e disse que "formalizou registro dos atos de violência de vandalismo junto aos órgãos de segurança do Estado" para "identificação e punição dos responsáveis".
    Ainda segundo a nota, o consórcio "prosseguirá com as negociações junto ao Sintrapav, confiando no bom senso dos seus dirigentes e trabalhadores".
    Cerca de 15 mil pessoas trabalham nas obras da hidrelétrica.