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sábado, 2 de março de 2013

USP apura hostilidade a feministas em trote

folha de são paulo

Veteranos simulam masturbação ao reagirem a protesto contra o desfile de calouras 'Miss Bixete' em São Carlos
'Rasgaram nossa faixa e tentaram agarrar as manifestantes', diz aluna; caso repercutiu nas redes sociais
JULIANA COISSIDE RIBEIRÃO PRETOUm jovem nu simulando masturbar-se, outro exibindo-se com o pênis para fora das calças, mais um fingindo que mantinha relação sexual com uma boneca inflável. Essas cenas aconteceram em público, em pleno campus de São Carlos (a 232 km de São Paulo) da USP, Universidade de São Paulo.
Foi assim que um grupo de veteranos respondeu, na última terça-feira, ao protesto contra uma atividade de recepção aos calouros denominada "Miss Bixete".
Organizado pelo auto-intitulado GAP (Grupo de Apoio à Putaria), o "Miss Bixete" inclui o "convite" às calouras para que subam a um palco e exibam seus corpos em um desfile -muitas são estimuladas a erguer a blusa e ouvem dos veteranos os gritos de "peitão" e "bundão" como resposta.
Desde 2005, o Caaso (Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira), entidade representativa dos estudantes do campus de São Carlos, participa dos protestos contra o "Miss Bixete".
Neste ano, o Caaso recebeu o apoio da Frente Feminista de São Carlos. No total, pelo menos 50 jovens (homens e mulheres) manifestaram sua inconformidade com o trote, por julgá-lo "violento" e "machista", conforme consta no site do centro acadêmico.
Segundo uma estudante de 20 anos, membro da Frente Feminista de São Carlos e que pediu o anonimato, pelo menos seis veteranos se irritaram com o ato e começaram a hostilizar os manifestantes.
"Chegaram ao ponto de arremessar sobre nós cerveja e bombinha", disse. "Rasgaram nossa faixa e até tentaram agarrar algumas das manifestantes."
A confusão foi fotografada e filmada. Os arquivos bombaram nas redes sociais. Para Jacira Melo, do Instituto Patrícia Galvão, organização social feminista de São Paulo, a reação dos veteranos ao protesto contra o "Miss Bixete" só confirma que o trote era mesmo "desrespeitoso e violento".
"Diante da crítica, eles usaram de violência grotesca para tentar humilhar e calar. A USP não pode tolerar esse tipo de comportamento de gangue", disse a militante Nilza Iraci, 62, do Geledés, Instituto da Mulher Negra.
EXATAS
Com maioria de cursos da área de Exatas (engenharia, química, física e matemática, além de arquitetura e urbanismo), o campus de São Carlos da USP tem 4.761 alunos de graduação e 2.392 de pós (dados de junho de 2012).
A direção do campus anunciou ontem, quando disse ter tomado conhecimento do acontecido, que tentará identificar "os envolvidos nesse lamentável evento" para então abrir um processo administrativo contra eles.
Em nota, a USP afirmou que a atividade não faz "parte da Semana de Recepção dos Calouros" e que "é veementemente contra qualquer ação que cause constrangimento".
A universidade não divulgou os nomes dos agressores. Mas jovens que participaram do protesto contra o "Miss Bixete" apontaram ao menos seis alunos como protagonistas das cenas constrangedoras. A universidade tem uma linha direta, o serviço Disque-Trote (0800 012 10 90) para que qualquer pessoa denuncie abuso na recepção dos calouros.

    FRASE
    "Rasgaram nossa faixa e simularam sexo com uma boneca inflável na nossa frente. Até tentaram se aproveitar de algumas das manifestantes, tentaram agarrá-las"
    ESTUDANTE DE 20 ANOS
    integrante da Frente Feminista, que pediu o anonimato

    domingo, 10 de fevereiro de 2013

    Agora, cães vão para creche e levam até lancheirinha

    folha de são paulo

    Serviço atende principalmente bichos que vivem em locais pequenos
    Segundo conselho, são cerca de 50 instituições em São Paulo já com recreação, natação e musicoterapia
    JULIANA COISSIDE RIBEIRÃO PRETO
    Eles chegam eufóricos para mais um dia de aula. Pulam do carro para entrar na creche, onde vão encontrar os "colegas". Os pais vêm logo atrás, com as lancheiras.
    O dia será repleto de atividades de recreação, natação e musicoterapia. Em datas especiais, como o Natal, eles até ajudam a confeccionar alguns mimos para os pais.
    A rotina dos cães Zeca, Dudu e Tieta lembra muito a de crianças no jardim de infância. E é quase igual mesmo.
    Com pouco espaço nos apartamentos, donos de bichos de estimação que passam o dia fora de casa têm optado por creches de animais.
    O serviço, também chamado de escola ou "day care", é recente: existe há cerca de cinco anos, segundo o Conselho de Medicina Veterinária de São Paulo. Atualmente, são cerca de 50 instituições do gênero no Estado.
    Dois anos atrás, era metade. O crescimento ainda é "tímido" diante de um mercado com potencial, afirma o presidente do conselho, Francisco Cavalcanti de Almeida. O serviço chega a custar R$ 640 por animal.
    Veterinários aprovam a novidade. É uma opção para os animais se exercitarem em um espaço maior e interagirem com sua própria espécie, dizem. Mas alertam para o risco de "humanização" excessiva dos bichos (leia abaixo).
    Antes uma "regalia" exclusiva dos grandes centros, hoje as creches de pets já chegam ao interior.
    Na Estação Animal Massaro, em Ribeirão Preto (a 313 km de São Paulo), "estudam" Zeca, um beagle de 3 anos, o schnauzer Dudu, 7, e Tieta, 2, uma yorkshire.
    Por lá, passam cerca de dez cachorros diariamente. Metade vai de segunda a sexta-feira, oito horas por dia. Na matrícula, eles ganham uma lancheira, que guarda a ração e "merendas" com frutas e até cenoura ralada.
    Em datas comemorativas, os "pais" ganham presentes como cartões de feltro com a patinha do animal carimbada.
    No Koan Kennel, também em Ribeirão, há uma piscina para natação. Foster, um west highland terrier, adora."Meu marido diz que sou coruja. Mas é como se fosse meu bebê mesmo", diz a "mamãe", a engenheira de alimentos Roberta Mio Brunelli, 32.
    Mas há também as creches mais tradicionais. É o caso da Bandog, de Franca. Lá não tem piscina nem lancheira. A ideia, diz o dono Joel Cursino Junior, é deixar os animais livres na chácara.

    Dono deve evitar 'humanização' de cães e gatos
    DE RIBEIRÃO PRETOTratar bicho como ser humano pode prejudicar o bem-estar físico e psíquico do animal, dizem veterinários do Conselho de Medicina Veterinário do Estado de São Paulo e da WSPA Brasil, ONG de proteção animal.
    "Termos como pais ou mesmo creches são errados. Eles precisam ser tratados como animais", diz Rosangela Ribeiro, gerente de programa veterinário da WSPA.
    Excesso de roupas, com pedras e brilhos, por exemplo, pode incomodar algumas raças. Perfumes ou pintar as unhas também devem ser evitados porque irritam a maioria dos bichos.
    "É questão de ver que isso agrada ao dono, mas está incomodando muito o bicho", diz Rosangela.
    Tratamento humanizado, chamado de antropomorfização, deve ser evitado tanto por donos como por proprietários das "day care".

      domingo, 6 de janeiro de 2013

      Minha história: Vovô aviador

      FOLHA DE SÃO PAULO

      Vovô aviador
      O tcheco Zdenek Volf, 82, pilota desde os 15; ele saiu da então Tchecoslováquia num avião do Exército, fugindo da Guerra Fria
      JULIANA COISSIDE RIBEIRÃO PRETORESUMO O tcheco Zdenek Peter Vaclav Volf, 82, é o mais idoso piloto a voar sozinho no Brasil com um planador -avião sem motor-, segundo a Federação Brasileira de Voo a Vela. Ele fugiu da então Tchecoslováquia em 1953, com um avião roubado do Exército. No Brasil, participa de campeonatos em planadores.
      Vi um planador pela primeira vez aos quatro anos, em Klatovy, na então Tchecoslováquia [atual República Tcheca].
      Quando os alemães ocuparam meu país [na Segunda Guerra (1939-45)], eles ampliaram o aeroporto, construíram hangares e colocaram uns 50 planadores de treinamento. Pegavam meninos de 15 anos e botavam dentro. Hitler precisava de milhares de pilotos.
      Quando eu tinha 15 anos, com o fim da Segunda Guerra, eram os soviéticos que estavam no meu país. Eles chamavam os jovens: "Quem quer voar?" Todo mundo queria.
      Como piloto, fiz quatro recordes tchecos em distância percorrida. Ganhava um campeonato atrás do outro. Voava todos os dias. Quando não, ficava triste no chão.
      Para mim, política tanto fazia. Eu queria era voar. Se eu tivesse continuado lá, ia morrer. Eu não me conformava. Por que, diabos, se o cara não gostava de política, deveria ser perseguido? Tinha de fugir daquela opressão [do regime comunista na Tchecoslováquia] para um país livre.
      Decidimos fugir, eu e meu colega Jorge. Roubamos um avião do Exército Tcheco. Era dezembro de 1953, um dia com muitas nuvens, temperatura de zero grau. Péssimo tempo para voar. E, justamente por isso, ótimo tempo para fugir.
      Eu era o oficial do dia. Mandei abastecer o avião. O mecânico estranhou, porque não havia voo programado.
      Ordenei: "Tira os calços". Eu acelerei com toda a força e fui raspando o chão. Quando eu decolei, saíram caças atrás.
      Voamos baixíssimo, entre as árvores. Olhei para a frente e vi uma montanha, bem na nossa cara. Aí o motor congelou. Ele pipocava. O avião começou a subir até o topo.
      Quando cheguei lá, apareceu uma tora de madeira com dois ou três homens com submetralhadora. Vi um apontando para a minha cara.
      A tora era uma das colunas da cortina de ferro [que separava os comunistas do Ocidente]. Voamos bordeando o arame farpado. Quando vi a torre do lado direito, pensei: "Já estou na Bavária [Alemanha Ocidental]. Estou livre!".
      Pouco depois de passarmos a fronteira, o motor fez: pla-la-la-...Pof. Parou. Fim da gasolina. "Pronto, agora virou planador", pensei. Mas eu sou piloto de planador, tanto faz. Só deu tempo de puxar o manche. Quando íamos parar, capotamos.
      Pousamos em Pfarrkirchen, na Alemanha Ocidental. Quando perguntaram para qual país queríamos ir, escolhi o Brasil, porque tinha um tio em São Paulo. Desembarcamos em Santos, em 1954.
      Foi uma fase triste, porque passei longos anos sem voar. Foi só quando me mudei para Ribeirão Preto, com tráfego aéreo mais limpo, que voltei a competir com planador.
      Eu tenho 82 anos. Ninguém acredita que voo na minha idade. Você me pergunta qual é a sensação de voar? Façamos o seguinte. Estou agora me recuperando de saúde, mas daqui a três meses, quer fazer um voo comigo?