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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Medo da autoridade - Valdo Cruz

folha de são paulo
BRASÍLIA - Por mais que o petismo diga que Marina Silva não mete medo, a candidata verde passou a preocupar, sim, os responsáveis pela missão de reconduzir Dilma Rousseff a um segundo mandato.
Seus recentes movimentos na direção de economistas como André Lara Resende, um dos pais do Plano Real, deixaram desconfiados estrategistas da dona do Planalto.
Sua entrevista na Folha deveria, por sinal, ser levada em conta pela tropa da presidente como sinalizador do que pode ter pela frente, além do que já considera sabido.
Como segunda colocada nas pesquisas, posição conquistada por influência dos recentes protestos de rua, Marina não hesitou em criticar atos que extrapolam os limites da desobediência civil aceitável. Não foi dúbia. Foi bem assertiva.
Algo que, na avaliação de alguns petistas graúdos e lulistas, a atual mandatária do país não foi até aqui. Pelo contrário, dizem eles, Dilma teria deixado a desejar neste ponto.
O risco, no momento, é acreditar, com certo alívio, que o problema não é mais do Executivo. Dado que, agora, os protestos são contra os governadores do Rio e de São Paulo.
Nada mais perigoso. O clima de baderna fere a todos, em maior ou menor grau. Como um assessor presidencial admitiu, investidores estrangeiros postergaram investimentos por causa dos protestos.
Seria péssimo que isso continuasse a ocorrer quando se aproximam os leilões de concessões de rodovias e aeroportos, vitais para o país sair do crescimento medíocre.
Enfim, Marina hoje não é a principal dor de cabeça da presidente, mas mostrou potencial para virar. Seus problemas reais estão na economia, com dólar em disparada, e no Congresso, com ameaças de derrubada de vetos nesta semana.
Áreas em que Dilma precisa restaurar sua autoridade e credibilidade. Justo dizer que deu os primeiros passos, mas falta mais. Para não colecionar derrotas e semear riscos.

    domingo, 18 de agosto de 2013

    Dilma vai discutir disparada do dólar com Mantega e Tombini - Valdo Cruz e Renato Andrade

    folha de são paulo
    Câmbio e seus efeitos sobre empresas, inflação e Estados encabeçam preocupações do governo
    Para Planalto, ideal seria dólar a R$ 2,30, patamar que não teria grande impacto sobre preços e ajudaria as exportações
    VALDO CRUZDE BRASÍLIARENATO ANDRADESECRETÁRIO DE REDAÇÃO DA SUCURSAL DE BRASÍLIAO dólar voltou ao topo da lista de preocupações da presidente Dilma Rousseff. A forte valorização da moeda americana diante do real tem assustado sua equipe pela persistência e pelos possíveis efeitos sobre empresas, inflação e caixa dos Estados.
    Na avaliação de assessores presidenciais, a atual cotação do dólar já reflete uma desvalorização "excessiva" do real, criando uma situação "não confortável" para a administração da política econômica.
    O problema é que o avanço do dólar reflete um movimento "global" e, por isso mesmo, seu controle não depende apenas do Brasil.
    Nas palavras de um assessor, é um quadro que "preocupa", tanto que a presidente tem acompanhado diariamente a evolução do câmbio.
    O temor dentro do governo é que uma alta ainda maior do dólar, como já se fala no mercado, pressione a inflação num momento em que a tendência era de queda.
    O maior receio é que essa pressão ocorra no próximo ano, o da eleição presidencial, o que prejudicaria a campanha da reeleição de Dilma.
    Num cenário de dólar pressionado, o Banco Central teria de apertar ainda mais sua política monetária, com possibilidade de deixar a taxa de juros alta no ano eleitoral.
    Desde que o Federal Reserve (banco central dos EUA) começou a dar sinais de que revisaria sua política de incentivos para a maior economia do planeta, o valor do dólar subiu em relação às moedas de países emergentes.
    Na sexta-feira, mesmo com duas atuações do BC, a moeda americana atingiu seu maior valor desde março de 2009, cotada a R$ 2,375 no mercado à vista. Na semana passada, a alta foi de 4,5%.
    O governo considera que o ideal era o dólar ficar na casa de R$ 2,30, patamar que não teria grande impacto sobre a inflação e ajudaria as exportações, fator considerado importante neste momento de aumento do deficit nas contas externas do país.
    Só que o próprio governo já teme que o dólar passe a oscilar entre R$ 2,35 e R$ 2,40 no curto prazo, o que vai exigir ação mais forte por parte da equipe econômica.
    O tema será discutido pela presidente em reunião nesta semana com Guido Mantega (Fazenda) e o presidente do BC, Alexandre Tombini.
    Em termos práticos, o governo acredita que já está fazendo aquilo que está em suas mãos para suavizar o efeito do movimento global. As amarras para a entrada de dólares no país foram reduzidas e o BC tem atuado de forma "cotidiana" no mercado.
      NÃO PARA DE SUBIR
      16,2%
      foi o aumento do dólar de 28.dez.2012 até a sexta-feira passada (17.ago)
      R$ 2,375
      é o valor do dólar à vista

      segunda-feira, 12 de agosto de 2013

      Fogo de palha - Valdo Cruz

      folha de são paulo
      BRASÍLIA - Na hora certa para o Palácio do Planalto. Cedo demais para a base governista no Congresso. Diria que assim foi recebida a pesquisa Datafolha, que mostra a recuperação de Dilma Rousseff.
      Entre os aliados de Dilma no Legislativo, o receio manifesto em conversas reservadas é que a melhora na popularidade presidencial venha a afetar a súbita disposição da petista em abrir as portas do Palácio do Planalto ao diálogo.
      Os governistas estavam adorando o tombo dilmista nas pesquisas. Obrigou-a a vestir figurino mais humilde no trato com os aliados diante do risco de derrotas no Congresso.
      Antes da recuperação da popularidade da petista, por sinal, governistas falavam em dar um voto de confiança de um mês à presidente para ela mostrar que sua mudança não era simples fogo de palha.
      Agora, o relógio corre contra os aliados. Se a melhora dilmista nas pesquisas for crescente, ela ganha força e tira poder de sua base aliada no Congresso. Talvez o tempo da desforra dos apoiadores de Dilma esteja se encurtando cedo demais.
      Por outro lado, a recuperação presidencial ainda é lenta e recomenda à dona do Planalto manter seu estilo mais afável. Ninguém sabe o dia de amanhã. Cada vez mais incerto, apesar da crença oficial de que está tudo dominado.
      Não está. A inflação deu refresco, mas o ritmo do crescimento ainda é fraco. E a retomada da economia americana, que pode ser mais forte em 2014, vai pressionar ainda mais o dólar no ano da eleição, jogando mais lenha na fogueira da inflação.
      Enfim, a vida ficou um pouco melhor para a petista, mas o cenário pela frente contém desafios. Um deles em seu quintal. Qualquer vacilo e o coro do "volta, Lula" ganha força.
      Afinal, o Datafolha mostrou que ele ganharia a eleição presidencial no primeiro turno. Ela, não. Coincidência ou não, Lula teve o aval de sua equipe médica neste sábado para enfrentar qualquer batalha.

      quarta-feira, 7 de agosto de 2013

      Dilma promete assumir negociação com partidos, mas aliados duvidam

      folha de são paulo
      (GABRIELA GUERREIRO, VALDO CRUZ E TAI NALON)

      Presidente diz que vai se reunir quinzenalmente com congressistas
      DE BRASÍLIARecebida com entusiasmo em público e com ceticismo nos bastidores, a presidente Dilma Rousseff prometeu assumir pessoalmente a articulação política com o Congresso e fazer reuniões quinzenais com deputados e senadores.
      A promessa foi feita para tentar acabar com o clima de rebelião na base aliada no Legislativo. Dentro do novo roteiro, Dilma recebe hoje a bancada de senadores do PT.
      Ela já agendou na segunda reunião com deputados governistas. Na terça, deve ser a vez dos senadores. O acerto foi feito em reunião com líderes governistas no Senado para atender uma das principais queixas da base: a falta de diálogo com o Planalto.
      Nos dias em que Dilma não puder ir às reuniões, elas serão conduzidas pelo vice-presidente Michel Temer ou pela ministra Ideli Salvatti (Relações Institucionais).
      O líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), afirmou que a presidente deu início a uma "fase ampliada" de interlocução com os seus aliados, o que é positivo: "Vamos ter as reuniões para discutir questões estratégicas do governo. Sempre vai estar presente, além dos líderes, o presidente da comissão em que tramita a proposta em discussão".
      Reservadamente, senadores e deputados que estiveram com Dilma nos dois últimos dias revelam ceticismo com a promessa. Sob a condição de anonimato, um deles disse temer que essa "disposição repentina ao diálogo" pode ser apenas "fogo de palha" de quem está acuada.
      Os primeiros testes da presidente serão a votação do projeto sobre a distribuição dos royalties, na próxima semana, e dos vetos presidenciais em sessão do Congresso, marcada para o dia 20.
      A disposição de dialogar não foi suficiente, porém, para o governo barrar a votação, em comissão da Câmara, da proposta que torna obrigatória a liberação dos recursos de emendas parlamentares.
      Dilma teve de negociar para reduzir o tamanho de sua derrota.
        ANÁLISE - ORÇAMENTO
        Lei em debate no Congresso não elimina 'faz de conta'
        Texto aumenta poder de parlamentares e mantém truque de 'criar' arrecadação
        GUSTAVO PATUDE BRASÍLIAO texto discutido na Câmara dos Deputados eleva os poderes dos congressistas sobre o Orçamento, mas, retórica à parte, mantém o Legislativo brasileiro livre de novas preocupações com a qualidade dos gastos e a solidez das contas públicas.
        No atual faz de conta da elaboração da lei orçamentária, deputados e senadores recorrem a um truque para criar novas despesas sem desagradar a ninguém: inventam arrecadação.
        A estimativa de receita para 2013, por exemplo, subiu de um já otimista R$ 1,230 trilhão, no projeto do Executivo, para R$ 1,253 trilhão --o bastante para incluir emendas de R$ 22,7 bilhões.
        Encerrado o primeiro semestre, a receita esperada pela equipe econômica já caiu para R$ 1,185 trilhão. E, assim como a arrecadação fictícia, as obras prometidas pelos congressistas a seus redutos eleitorais evaporaram.
        O relatório que acompanha a proposta de execução obrigatória das emendas reconhece, em meio a eufemismos, a necessidade de uma nova prática. A solução encontrada foi incluir mais uma declaração de boas intenções na Constituição.
        "A previsão de receita e a fixação da despesa no projeto e na lei orçamentária devem refletir com fidedignidade a conjuntura econômica e a política fiscal", dirá o 10º parágrafo do artigo 165, caso a proposta avance.
        REGRA IGNORADA
        O texto constitucional em vigor já estabelece, no artigo seguinte, uma regra para as emendas sistematicamente ignorada: as despesas criadas pelos congressistas devem ser compensadas com a anulação de despesas propostas pelo Executivo.
        Se aplicado, tal modelo submeteria deputados e senadores ao constrangimento político de cortar investimentos em infraestrutura, já escassos, para acomodar uma miríade de despesas miúdas, típicas de prefeituras.
        Algo como remanejar verbas da conservação de rodovias --porque a maior parte do Orçamento é tomada por despesas obrigatórias como o pagamento de salários e aposentadorias-- para o calçamento de ruas ou festas folclóricas no interior do país.
        Na proposta votada pelos deputados, esse ônus ficará, na prática, com o governo. De concreto, a única salvaguarda oferecida pelo Congresso Nacional é a dimensão relativamente reduzida de suas pretensões.
        Os parlamentares contentam-se com pouco mais de R$ 6 bilhões, metade de um centésimo do Orçamento. Ainda assim, é o triplo do dinheiro disponível neste ano para o transporte ferroviário --ou o dobro do reservado à educação infantil.
          Câmara ignora apelo e faz avançar projeto incômodo para Dilma
          Comissão aprova proposta que obriga governo a liberar recursos para iniciativas patrocinadas por parlamentares
          Henrique Alves diz a deputados que presidente nunca lhe pediu para não colocar proposta em votação
          DE BRASÍLIAO presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), ignorou os apelos do Palácio do Planalto e começou a trabalhar pela aprovação de um dos projetos que mais incomodam o governo na pauta atualmente em discussão no Congresso.
          Trata-se da proposta de emenda constitucional que torna obrigatória a execução financeira das emendas que deputados federais e senadores incluem todos os anos no Orçamento da União para destinar recursos a projetos em seus redutos eleitorais.
          A comissão criada para debater a proposta aprovou o texto ontem, após seis horas de debate. Alves promete colocar a proposta em votação no plenário da Câmara hoje.
          As emendas parlamentares são um ponto sensível na relação entre o governo e o Congresso. A liberação das verbas é usada como trunfo sobretudo em meio à discussão de projetos importantes.
          Pela legislação atual, cada parlamentar pode apresentar, anualmente, até R$ 15 milhões em emendas, mas nada obriga o governo a liberar dinheiro para esses projetos.
          Pelo contrário, em geral elas são o alvo preferencial da equipe econômica do governo quando há necessidade de cortes no Orçamento.
          Desde segunda-feira, Henrique Alves deixou claro que se empenharia pela medida, que, segundo ele, acabará com o "toma lá, dá cá" entre o Congresso e o Executivo.
          Seu esforço teve continuidade ontem, mesmo depois de tentativas de convencimento feitas por líderes do PT e de outros partidos aliados.
          À tarde, num gesto incomum, o presidente da Câmara foi à comissão e fez uma espécie de preleção aos deputados, enfatizando que a presidente Dilma Rousseff nunca lhe pediu que não colocasse a proposta em votação.
          "Vim aqui agora para pedir para que votem hoje, porque a matéria já está suficientemente amadurecida", disse Alves. Mais tarde, ele voltou à sala para anunciar que suspendera as votações previstas para o plenário para se concentrar na análise do assunto.
          O governo é contra o projeto por causa dos gastos extras que terá que cobrir. Dilma se reuniu anteontem e ontem com deputados e senadores na tentativa de barrar propostas que a desagradam. Prometeu se abrir mais a negociações e conseguiu adiar a votação de alguns projetos.
          A proposta defendida por Alves estabelece que o governo ficará obrigado a executar as emendas até o limite de 1% da receita corrente líquida verificada no ano anterior.
          Se as novas regras já estivessem em vigor, neste ano o governo seria obrigado a executar R$ 6,2 bilhões em emendas individuais, mesmo valor que o Planalto liberou recentemente para conter a insatisfação na sua base. Isso representaria R$ 10,4 milhões para cada congressista.
          A discussão ontem terminou em impasse sobre a eficiência prática da proposta. Pelo texto aprovado, o governo fica obrigado a pagar as emendas empenhadas (que têm o recurso reservado no Orçamento) no mesmo ano.
          O que ocorre é que o governo, legalmente, só pode pagar após comprovação da prestação do serviço ou realização de obra. Assim, obras financiadas por emendas teriam de ser concluídas em tempo recorde. O assunto dominará o debate hoje.

          segunda-feira, 5 de agosto de 2013

          Furtando as vozes futuras - Valdo Cruz

          folha de são paulo
          Furtando as vozes futuras
          BRASÍLIA - A pretexto de ouvir as vozes das ruas, nosso Congresso, de volta de seu recesso branco remunerado, pode acabar furtando recursos que deveriam ser destinados às gerações futuras do Brasil.
          Acuados pelos protestos da juventude de hoje, deputados querem tirar metade do dinheiro do fundo social do petróleo do pré-sal para destinar à educação. Até parece justo, mas não é tanto assim.
          O novo modelo de exploração de petróleo tem distorções, mas acertou em cheio ao criar um fundo a ser capitalizado pelo lucro da União com a retirada do óleo do pré-sal.
          A lógica é poupar o dinheiro de uma riqueza finita para financiar as gerações futuras do país. Tal como fez a Noruega em seu modelo bem sucedido, que tem hoje cerca de US$ 800 bilhões poupados do petróleo.
          A proposta do governo era destinar 50% dos rendimentos do fundo social, jamais metade de seu capital, como desejam deputados para se livrarem das pressões das ruas.
          O Palácio do Planalto já havia cedido ao destinar, agora, os royalties do pré-sal --grana dos impostos-- para educação e saúde. A ideia original era que esse dinheiro também fosse guardado para o amanhã.
          Ou seja, as vozes das ruas de hoje já levaram sua parte desta riqueza. Muito certamente elas não sabem, mas sacar capital do fundo é furtar o dinheiro de seus filhos e netos.
          Pior, gera danos na economia ao inundar o mercado de dinheiro, pressionando a inflação e desvalorizando o dólar, péssimo para nossa indústria. Só o campo de Libra, a ser leiloado em 2013, vai gerar US$ 16 bilhões por ano ao fundo.
          O problema é que baixou, de vez, o espírito populista no Congresso, o que leva à aprovação de propostas enganosas e imediatistas.
          Sem falar que a base aliada, irritada com o Planalto, ameaça derrotar Dilma Rousseff. Que o faça, mas em temas lógicos, como derrubar o veto presidencial ao fim da multa adicional de 10% do FGTS.

            segunda-feira, 29 de julho de 2013

            O valor da palavra - Valdo Cruz

            folha de são paulo
            O valor da palavra
            BRASÍLIA - Francisco foi embora, o papa que foi ao encontro das ruas e não das autoridades. Para muitos, deixa palavras de esperança e renovação. Para outros, sentimentos de decepção ao não tocar em temas tabus, como aborto.
            Respeito e compreendo a reação do segundo grupo, mas fico com o primeiro. Não esperava do pontífice pregação revolucionária de questões morais, mas nutria grande expectativa sobre sua mensagem à juventude quanto a seu lugar no atual cenário político e social.
            Digo que não me frustrei. Pelo contrário. Ele conclamou os jovens a assumir o protagonismo das mudanças sociais, estimulou-os a seguir nas ruas e pediu que nunca desanimem nem percam a confiança diante de notícias de corrupção.
            Diria que o papa cumpriu muito bem sua missão de semeador. Suas palavras tocaram mentes e corações e partiram de quem dá exemplos concretos de segui-las. Se vão produzir frutos, só o tempo dirá.
            É bom lembrar, para desgosto da nossa classe política, que foram lançadas em período de terreno fértil, propício para que tenham impacto real no cotidiano daqueles que o seguiram nestes dias no Brasil.
            Por aqui, a turma das ruas redescobriu sua força e temos pela frente eventos catalisadores de atenção, como Copa do Mundo e eleições. Cenário que gera insegurança no mundo político e pode ser oportunidade única para sairmos de vez do quadro de acomodação.
            A tendência é que, nas próximas eleições, a taxa de renovação no Congresso seja a mais alta da história. Nada mais merecido. Afinal, a classe política estava totalmente divorciada da população. Acordou no susto e ainda não sabe muito bem o que fazer para sobreviver.
            Poderia começar dando mais valor à palavra empenhada e dando exemplos concretos de segui-la, tal como Francisco. Só que aqui, na capital federal, isso tem sido produto cada vez menos valorizado.

              segunda-feira, 22 de julho de 2013

              Dilma proporá ao papa ação articulada contra a pobreza - Valdo Cruz e F.Maisonnave

              folha de são paulo
              O PAPA NO BRASIL
              Presidente recebe hoje o pontífice no Rio com agenda de cooperação social
              Porta-voz do Vaticano diz que Francisco não tomará posição política durante visita para a Jornada da Juventude
              VALDO CRUZDE BRASÍLIAFABIANO MAISONNAVEENVIADO ESPECIAL A ROMAA presidente Dilma Rousseff vai propor hoje ao papa Francisco apoio a projetos internacionais de combate à pobreza e à exclusão social, como iniciativas voltadas para o continente africano.
              O tema fará parte da conversa reservada da petista com o pontífice, na qual Dilma dirá que o governo brasileiro e o Vaticano podem unificar ações internacionais nessas duas áreas, citando as medidas que o Brasil já desenvolve em relação à África.
              Dilma vai receber o papa às 16h, na base aérea do aeroporto do Galeão, no Rio. Depois, participará da cerimônia oficial de chegada do pontífice, às 17h, no Palácio Guanabara. Em seguida, às 18h, terá o encontro privado.
              Na saudação formal, Dilma vai destacar a "coincidência" que acredita haver entre a opção do papa pelos pobres e a "prioridade histórica" de seu governo e do de Lula com programas para combater a pobreza no Brasil.
              A presidente não deve tocar em temas religiosos nas conversas com o papa. Quando seu antecessor, Bento 16, visitou o país, em 2007, havia na agenda diplomática a assinatura de acordo com a Santa Sé, o que foi consolidado no ano seguinte por Lula em viagem ao Vaticano.
              Na campanha presidencial de 2010, as relações do PT com a Igreja Católica foram abaladas quando Dilma foi alvo de bispos que pregavam boicote à petista por seu posicionamento em relação ao aborto, que seria "dúbia", segundo ala mais conservadora da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).
              Para assessores, Dilma está "impressionada positivamente" com o estilo simples e conectado do novo papa com as questões sociais e faz a avaliação de que ele terá papel importante para estimular um debate mundial sobre o combate à pobreza.
              As recentes manifestações de rua também podem fazer parte da conversa, caso o papa toque no assunto, quando Dilma deve destacar os programas na área da saúde e da educação que está lançando.
              O porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, disse à Folha que o pontífice "não tomará posição política" durante sua passagem pelo Brasil. "O papa fala sempre que a boa nova do Evangelho é para todos. Não toma partido, fala à consciência de cada um na construção da sociedade. São fortes mensagens de responsabilidade, com acentos sobre a solidariedade e o respeito aos direitos individuais."
              Para Lombardi, as 17 falas do papa no país não terão "fio condutor único". "Naturalmente há temas do pontificado de Francisco: o missionarismo, o anúncio da boa nova cristã com grande abertura, a solidariedade aos pobres e às pessoas com dificuldade."
              SEGURANÇA
              Fora da troca de ideias e propostas de ações unificadas na área social, o que mais preocupa o governo brasileiro é a segurança do papa durante sua estada no Brasil.
              Diante da recusa do pontífice de usar carros blindados, o Palácio do Planalto decidiu montar um esquema especial de segurança para "minimizar e diminuir a margem de risco de incidentes".

              Francisco e as ruas - Valdo Cruz

              folha de são paulo
              BRASÍLIA - Em dimensões diferentes, o papa Francisco e o mundo político brasileiro enfrentam desafios bem semelhantes: suas instituições se desconectaram das vozes das ruas e correm o risco de serem destronadas. Uma, a médio e longo prazos. Outra, a curtíssimo.
              Se os governantes brasileiros, Dilma Rousseff à frente, têm sangria de popularidade, pondo seus projetos de poder sob perigo no ano que vem, a Igreja Católica só fez perder fiéis nos últimos anos, como mostrou a pesquisa Datafolha --os católicos são hoje 57% dos brasileiros, bem abaixo dos 75% em 1994.
              Daí que, nesse contexto, ganha relevância para lá do simbólico a vinda do papa ao Brasil. Pode ser uma oportunidade única de início de transformações na vida dos rebanhos de católicos e de eleitores.
              Primeiro papa latino-americano, Francisco assumiu o comando da Igreja Católica como um sopro bendito de renovação. Talvez seja a pessoa, isso mesmo, pessoa, não santidade, certa para o momento de questionamentos do catolicismo.
              Hoje espírita, nasci em família católica e tive intensa atividade na igreja entre os 15 e os 25 anos. Em grupos ligados à ala progressista, participei de trabalhos sociais na periferia de Belo Horizonte. Meu grupo era tachado de comunista pelo padre da nossa paróquia.
              Nossos líderes, entre eles o saudoso padre Toninho Haddad, foram perseguidos e afastados de nós. Como os dogmas da igreja já não tocavam mais meu coração e mente, acabei dela me afastando.
              Quando Francisco foi escolhido, confesso ter sentido saudades dos dias de católico. Só que tomei caminho sem volta, mas torço para que o pontífice consiga, de fato, resgatar a opção preferencial pelos pobres.
              Seus bons exemplos indicam ser esse seu rumo e objetivo. Algo bem em falta entre os políticos brasileiros --de direita, centro e esquerda. Enfim, talvez o papa e as ruas, juntos, operem milagres por aqui.

              domingo, 14 de julho de 2013

              Entrevista Luciano Coutinho BNDES

              folha de são paulo

              Governo de Dilma não apostou sozinho em Eike, diz presidente do BNDES

              VALDO CRUZ
              DE BRASÍLIA
              RAQUEL LANDIM
              DE SÃO PAULO

              Presidente do BNDES, Luciano Coutinho diz que a aposta do governo Dilma Rousseff em Eike Batista foi "uma expectativa compartilhada por todo o mercado".
              À frente do banco que emprestou R$ 10,4 bilhões ao empresário, Coutinho afirmou àFolha que a exposição do banco a Eike é "baixíssima" e se concentra nas empresas com ativos para equacionar financeiramente o grupo: "Quem estiver apostando no caos vai se frustrar".
              Eduardo Knapp/Folhapress
              O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, dá entrevista em São Paulo
              O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, dá entrevista em São Paulo
              Leia a entrevista:
              *
              Folha - Duas apostas do BNDES --Marfrig e grupo EBX-- estão com problemas graves. Houve equívoco nas escolhas?
              Luciano Coutinho - Não posso falar de casos específicos, mas são companhias que têm ativos altamente atraentes. Tiveram problemas de gestão ou de endividamento, que naturalmente se resolvem. Não é um insucesso.
              O banco divulgou que aprovou empréstimos de R$ 10,4 bilhões para Eike Batista. No pior cenário, qual o prejuízo?
              Baixíssimo. Tanto do BNDES como dos bancos privados. A exposição está concentrada nos ativos de alta qualidade do grupo, principalmente na MPX, que já mudou de controlador e hoje é uma empresa sob liderança alemã. Outro ativo de maior exposição dos bancos é a MMX, que também é cobiçada publicamente. A exposição direta do BNDES ao grupo é pequena.
              O governo Dilma apostou em Eike. Foi uma aposta errada?
              Foi uma expectativa compartilhada por todo o mercado privado em um conjunto de projetos --a maioria, meritórios e consistentes. Houve um negócio específico que foi frustrante, e essa frustração provocou uma crise profunda de credibilidade em relação ao investidor. Mas o conjunto de ativos gerados é suficiente para equacionar financeiramente e patrimonialmente o grupo e propiciar uma saída organizada. Quem estiver apostando no caos vai se frustrar.
              Os empresários estão preocupados com o ritmo da economia, sinalizando risco de redução de investimento. Esse pessimismo vem de onde?
              Estamos vivendo um momento de mudança, com a perspectiva de uma política monetária americana mais apertada [juros mais altos]. Esse movimento teve efeito muito forte não só no Brasil, mas no mundo todo, e gerou ansiedade em muitos setores. Porém, esse processo tende a se ajustar em algum momento. No médio e longo prazos, teremos apenas um pequeno soluço e vamos retomar o crescimento.
              O soluço não está longo?
              Começou há seis semanas. Tivemos um primeiro trimestre fraco, mas o investimento foi forte. Apesar dos efeitos das manifestações, vamos ter um primeiro semestre de bons resultados. Essa mudança teve impacto, mas quero chamar a atenção para oportunidades nos investimentos em infraestrutura, energia, óleo e gás, agronegócio e manufatura. Depois desse ajuste, o quadro é benigno. Teremos um câmbio estimulante para vários setores.

              RAIO-X LUCIANO COUTINHO
              OCUPAÇÃO
              Presidente do BNDES
              FORMAÇÃO
              Doutor em economia pela Universidade de Cornell (EUA)
              CARREIRA
              Foi secretário-executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia (1985-1988) e sócio da LCA Consultores
                BNDES oculta reuniões de Coutinho com empresários
                Ao contrário dos representantes do setor privado, encontros com pesquisadores, jornalistas e políticos são listados
                Banco diz querer evitar oscilações no mercado; "[BNDES] aplica recurso público sem controle", diz Ministério Público
                FERNANDO MELLODE BRASÍLIAEnquanto Dilma Rousseff promete transparência em resposta aos protestos, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) esconde encontros do seu presidente, Luciano Coutinho, e dos principais diretores com empresários.
                Nos últimos anos, o BNDES financiou grandes negócios, em prática que foi chamada de escolha de grupos para serem "campeões nacionais".
                Para o banco, esconder as agendas é uma exigência da lei, pois sua divulgação pode gerar oscilações no mercado.
                A Folha teve acesso a elas pela Lei de Acesso à Informação. Compromissos públicos, seminários, encontros com políticos, ministros ou com ONGs são descritos com detalhes, incluindo o nome dos participantes e seus cargos.
                Em 4 de maio de 2011, por exemplo, está descrito o encontro com os deputados João Paulo Cunha e Candido Vacarrezza, do PT de São Paulo.
                São nominais também encontros com pesquisadores, economistas e presidentes de associações como a Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base) e a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Entrevistas a jornalistas também são identificadas.
                Mas a maior parte da agenda é composta de "reunião com empresários do setor privado". De 2010 e 2013, a descrição apareceu quase 800 vezes na agenda de Coutinho.
                Há dias, como 27 de maio de 2011, em que a agenda é toda tomada por esses encontros, entre as 10h e as 19h, quando foram dez reuniões com diferentes empresários.
                O mesmo acontece nas agendas das diretorias do banco. Há descrição de encontros com embaixadores e delegações de outros países, interessados no financiamento de obras no exterior. Mas encontros com empresários brasileiros são registrados como "reunião com setor privado".
                No mês passado, o Ministério Público Federal no Distrito Federal recorreu ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região para garantir transparência aos financiamentos realizados pelo BNDES.
                A Procuradoria tenta reverter decisão da 20ª Vara Federal de Brasília, que negou pedido provisório para que os dados sobre empréstimos do banco nos últimos dez anos (e todos os contratos no futuro) sejam divulgados na internet.
                Para o MP, "o vetor a ser perseguido não é o do sigilo --geralmente empregado-- mas, sim, o da transparência. É urgente que o BNDES divulgue seus investimentos, uma vez que são feitos com recursos públicos federais que estão sendo livremente aplicados sem qualquer tipo de transparência ou controle".
                  OUTRO LADO
                  Para banco, sigilo evita oscilações nos mercados
                  DE BRASÍLIAPor meio da sua assessoria de imprensa, o BNDES afirmou que o sigilo na reunião com empresários é uma determinação da Lei de Acesso à Informação. De acordo com a assessoria, "toda e qualquer informação que esteja protegida por qualquer outro tipo de sigilo está excluída da aplicação" da legislação de acesso à informações públicas.
                  "Então, divulgar nome da empresa, nome do empresário que teve reunião com o presidente do BNDES é informação que entra na regra geral do sigilo empresarial."
                  O BNDES afirmou que divulgar encontros entre seu presidente, diretores e empresários "são informações relacionadas ao setor privado, que, se divulgadas, podem gerar oscilações no mercado, oscilações nos ativos da empresa etc.".
                  Diz que no caso de autoridades públicas e entidades empresariais "não há esse tipo de sigilo porque estão todos sujeitos à publicidade".

                    segunda-feira, 8 de julho de 2013

                    Fadiga de material - Valdo Cruz

                    folha de são paulo
                    BRASÍLIA - Pois bem, o que era dito à boca pequena passou, de repente, a ser falado às claras e diretamente para Dilma Rousseff. Algo inimaginável meses atrás, dado o temor que a presidente desperta nos subordinados e aliados.
                    Parece que a fragilidade atual do governo criou coragem em ministros e petistas que, na semana passada, sapecaram críticas na direção da presidente. Desceram a lenha, com gosto, na articulação política e na condução da economia.
                    O fato é que fala mais alto o instinto de sobrevivência. O retrato do momento mostra um governo acuado e enfraquecido, com a base aliada em pé de guerra. Daí o medo de que, se o barco não mudar de rumo, todos possam naufragar juntos.
                    Em momentos com esse, primeiro surgem as críticas de auxiliares e aliados, com pedidos urgentes de correção de rumo. A turma deixa de insinuar e dá o recado direto ao mandatário. Estamos nesta fase do jogo da manutenção do poder.
                    A fase dois depende do que a chefe fizer para mudar o clima geral. Se for criada a sensação de que o titanic palaciano segue na direção do naufrágio, o desembarque, já analisado nos bastidores, pode começar mais cedo do que se imagina. As conversas de aliados com a oposição, por sinal, já recomeçaram.
                    No meio desse temporal, Dilma passa a impressão, segundo auxiliares, de que retomou o controle da situação, depois de ter ficado perplexa, atônita e acuada com a onda de protestos e o tombo nas pesquisas.
                    Pressionada, resiste a fazer trocas na equipe que ela mesma considera necessárias. E aposta numa recuperação da economia neste segundo semestre do ano. Algo posto em dúvida até por subordinados.
                    Afinal, do lado de fora e de dentro do governo, a avaliação é de fadiga de material e de necessidade de reparos no navio. O risco é a comandante não querer enxergar os perigos pela frente. Algo já diagnosticado por gente próxima a ela.

                      quinta-feira, 4 de julho de 2013

                      Lula sugere a Dilma corte de ministérios

                      folha de são paulo
                      Ex-presidente, que ampliou total de pastas de 24 para 37, pediu à sucessora enxugamento para sinalizar 'austeridade'
                      Redução de cargos no primeiro escalão já havia sido proposta ao governo pelo PMDB e por líderes da oposição
                      VALDO CRUZFERNANDO RODRIGUESCATIA SEABRADE BRASÍLIAA proposta de reduzir o número de ministérios, feita pela oposição e encampada pelo PMDB, já havia sido sugerida à presidente Dilma pelo ex-presidente Lula como uma medida para sinalizar austeridade num momento de turbulências na economia.
                      Segundo a Folha apurou, Lula, em conversas com interlocutores, também disse que defendeu mudança nas principais áreas do governo, como articulação política e equipe econômica.
                      Dilma chegou a indicar, segundo petistas próximos a Lula, que iria analisar a possibilidade de mudar a equipe ministerial durante o recesso do Congresso, em julho.
                      Só que o surgimento da onda de manifestações nas ruas fez a presidente mudar o foco de sua agenda e, segundo assessores, adiar as trocas.
                      Recentemente, Lula queixou-se a interlocutores que a presidente é "teimosa" e não queria "fazer ajustes" no governo, considerados por ele necessários para reverter o clima de pessimismo na área econômica e política.
                      Oficialmente, a assessoria de Lula diz que o ex-presidente não tratou desse tipo de assunto com Dilma, afirmando que "é atribuição da presidente definir ministério". Informou ainda que o petista faz palestras no exterior.
                      Petistas ligados ao ex-presidente disseram à Folha, porém, que a sugestão era, inclusive, o governo fazer uma redução de 39 para cerca de 30 ministérios e assumir um discurso de maior rigor fiscal.
                      Quanto ao discurso na área fiscal, Dilma decidiu no mês passado, depois de se reunir com Lula num hotel em São Paulo, determinar que o ministro Guido Mantega (Fazenda) assumisse compromisso com a meta de superavit primário de 2,3% do PIB.
                      A proposta de reduzir o número de ministérios já havia sido feita à presidente pelo empresário Jorge Gerdau, membro da Câmara de Gestão da Presidência da República.
                      Dilma tem hoje 39 ministros. São 24 ministérios, dez secretarias e cinco órgãos com status de ministério. Ela criou duas novas pastas, a Secretaria de Aviação Civil, cujo titular tem status de ministro, e o Ministério da Micro e Pequena Empresa. Seu antecessor deixou para ela 37 ministros.
                      Lula herdou do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso 24 ministérios. Ele converteu em secretarias com status de ministério várias áreas ligadas até então a outras pastas, como Portos, Direitos Humanos e Pesca. FHC chegou a ter nove secretarias, sem status de ministério.
                      Lula fez também, recentemente, críticas à estratégia política do Planalto, depois negadas oficialmente por ele. Na semana passada, reservadamente, ele classificou de "barbeiragem" a articulação do governo para a instalação de constituinte exclusiva para a reforma política.

                        segunda-feira, 1 de julho de 2013

                        Valdo Cruz - Zonzo e dividido

                        folha de são paulo
                        BRASÍLIA - Zonzo com o tombo na pesquisa Datafolha, o governo Dilma finge tranquilidade e difunde o discurso ensaiado com o marqueteiro de que o "terremoto" político atingiu a todos os chefes do Executivo, sem exceção.
                        Tem lá suas razões, endossadas inclusive pelo tucano Aécio Neves, de que a insatisfação da voz das ruas é contra todo o mundo político.
                        Só que a queda de popularidade não adveio somente de quem foi para as ruas. Quem ficou em casa, teve a loja depredada, ficou preso no trânsito também está irritado.
                        O fato é que o governo não está apenas zonzo com o tamanho do recuo na popularidade e na intenção de voto presidencial, mas também dividido sobre o diagnóstico do tombo e a melhor forma de reação.
                        Uma ala diz que há uma sensação de "falta de pulso e autoridade" vinda da autoridade máxima, que teria sido muito tímida ao condenar os vândalos e arruaceiros. A hora seria de agir com mais energia.
                        Outra diz que o governo não pode nem pensar em passar a imagem de que irá reprimir a liberdade de expressão. E que é preciso calma quando se está entre dois fogos --críticas ao vandalismo, de um lado, e ao excesso de policiais, de outro.
                        Há quem garanta que a pesquisa captou tão somente um impacto político-emocional do momento, dado que não teria havido mudança na vida das pessoas, como aumento do desemprego e queda da renda e do consumo no país.
                        Visão não compartilhada por outro grupo, que defende mudanças na política econômica, inclusive de nomes na equipe, por pressentir que o cenário na economia está desandando e pode se agravar em breve.
                        Enfim, algo está fora do lugar. Até aqui, Dilma Rousseff não havia sido testada. Agora, fragilizada, mesmo que momentaneamente, terá de ceder e agregar. Caso contrário, vai se isolar. Hoje, a verdade é que há muita gente bem próxima a ela saboreando seu momento ruim.

                          segunda-feira, 24 de junho de 2013

                          Valdo Cruz

                          folha de são paulo
                          Caminho do desconforto
                          BRASÍLIA - Ainda não é possível dizer até quando a centelha de mobilização que risca o país se manterá forte e acesa. O mais importante, contudo, é que um grupo da sociedade descobriu um caminho para impor desconforto aos donos do poder, em todas as suas dimensões.
                          Isso é o que mais aterroriza o tradicional mundo político, seja ele de centro, direita ou esquerda. Principalmente às vésperas de uma eleição para presidente, governadores, deputados federais e senadores.
                          A força da mobilização por meio de redes sociais chegou ao Brasil e deixa tontos os grupos que disputam o poder. Até ontem, achavam que o jogo seguia seu curso normal. Só eles em campo. O resto aplaudia ou vaiava das arquibancadas.
                          Tanto que alguns dias atrás governo e oposição travavam o debate sobre o copo meio cheio, meio vazio na economia. Um acusando o outro de criar uma situação irreal. Não perceberam que outro copo transbordava logo ali ao lado.
                          Aí, a turma cansou e invadiu o gramado. Pode até sair momentaneamente. Mas aprendeu o caminho virtual que leva ao centro de campo e voltará a ocupá-lo se os donos do poder seguirem divorciados de setores da sociedade. Ainda mais em ano eleitoral, o que mete medo, literalmente, na classe política.
                          Representante máxima do poder no país, Dilma demorou a reagir, não chegou a empolgar toda a plateia, mas obedeceu duas regras claras do jogo: disse ter ouvido a voz das ruas e condenou as arruaças, que precisam parar. Até em nome da sequência do movimento.
                          Agora, ela e os demais donos do poder precisam, de fato, agir. Não basta apenas ouvir e discursar. Como político faz tudo pela manutenção do poder, a expectativa é que produzam algo de concreto.
                          Bom lembrar que o tempo é curto, e as condições de jogo não são nada favoráveis. A turbulência na economia tende a aumentar e pode complicar o andamento da partida.

                            segunda-feira, 17 de junho de 2013

                            Valdo Cruz

                            folha de são paulo
                            Apertem os cintos
                            BRASÍLIA - Se a semana passada foi ruim para a presidente Dilma, com queda de popularidade, dólar em alta e vaias, esta pode reservar notícias piores na economia.
                            Amanhã e depois, o FED (banco central americano) pode fazer a tensão no mercado cambial subir ainda mais. Seu presidente, Ben Bernanke, dirá se e quando vai retirar os estímulos à economia americana.
                            Dependendo do que ele falar, vai aumentar a revoada de dólares dos países emergentes, Brasil incluído, para os Estados Unidos. Aí está o maior risco para a presidente.
                            Hoje, apesar da piora nos números da economia brasileira, explorada pela oposição, a petista tem razão em dizer que o Brasil não está uma tragédia, vai até, de certa forma, bem. O suficiente para mantê-la bem na foto. Por enquanto.
                            Afinal, o próprio governo reconhece que, como mostrou a última pesquisa Datafolha, a inflação é um dado-chave para Dilma se manter favorita na eleição presidencial.
                            Neste momento, quando a equipe econômica aposta no seu recuo, um dólar mais valorizado irá exercer pressão de alta sobre os preços e jogar contra o Planalto. Aí, o Banco Central terá de subir os juros bem mais do que o previsto.
                            Poderia até não pegar tão pesado, mas dependeria de uma mãozinha do Ministério da Fazenda, com um aperto maior na política fiscal. Mas isso, pelo visto, não virá, além do já prometido: cumprir um superávit primário de 2,3% do PIB.
                            O fato é que o governo segue, neste momento, confiante no seu receituário bastante desbalanceado. BC subindo juros sem grande ajuda na área fiscal. Planalto lançando programas para elevar o crédito quando o BC tenta contê-lo. É um para cá e outro bem para lá.
                            Enfim, as previsões indicam riscos de turbulências no ar. Recomenda-se apertar os cintos. Caso contrário, as vaias vindas "da classe média alta" no estádio de Brasília podem se alastrar para outros setores.

                            segunda-feira, 10 de junho de 2013

                            Valdo Cruz

                            folha de são paulo
                            Sinais de alerta
                            BRASÍLIA - Dilma Rousseff chacoalhou demais o barco brasileiro, provocando náuseas generalizadas tanto em sua tripulação como entre seus passageiros/eleitores.
                            É o que mostra a última pesquisa Datafolha, com sinais negativos em todos os recortes: a popularidade presidencial caiu oito pontos, queda registrada em todo o país, principalmente entre mulheres.
                            A equipe dilmista admitia que pesquisas reservadas mostravam recuo na popularidade da petista. Mas garantia que já havia ocorrido uma recuperação e que a intenção de voto dela não fora atingida.
                            Não é o que aponta o Datafolha. A queda segue na mesma linha dos levantamentos petistas feitos em abril. E a declaração de voto em Dilma Rousseff caiu sete pontos.
                            Sinal de que os resultados ruins na economia foram tonificados por mais notícias negativas, como a trapalhada da Caixa no pagamento antecipado do Bolsa Família e os conflitos com indígenas no país.
                            O cenário ainda não é alarmante. Dilma segue melhor do que seus antecessores em igual período e continua favorita na disputa presidencial. Só que há nuvens carregadas pela frente, indicando mais do que risco de turbulências.
                            O Datafolha mostrou que cresceu o pessimismo do brasileiro em relação ao futuro da economia. A percepção é que a inflação vai subir, e o desemprego, aumentar. Isso num momento em que os dois indicadores vão sofrer pressões.
                            O dólar tem viés de alta pelo cenário internacional, gerando combustível para nova elevação de preços. E o Banco Central deixou claro que os juros vão subir mais para frear a inflação, o que pode levar a um aumento do desemprego.
                            Enfim, o Datafolha mostra sinais de alerta --o que hoje é uma sensação ruim pode virar um dado da realidade na vida do brasileiro. Aí, o tombo será mais forte. Dilma terá de recolocar o barco no rumo e parar de balançá-lo. A conferir.

                              segunda-feira, 3 de junho de 2013

                              Valdo Cruz

                              folha de são paulo
                              Meio cheio, meio vazio
                              BRASÍLIA - Um clima de indignação reina na equipe da presidente Dilma. Seus assessores reclamam de um pessimismo generalizado em relação ao Brasil que, segundo eles, está superdimensionado.
                              Vamos ao rosário desfiado por um assessor da petista. O desemprego segue baixo, a renda, alta, e o crescimento não será uma maravilha, mas melhor do que 2012.
                              A Petrobras captou US$ 11 bilhões lá fora. Uma seguradora do Banco do Brasil realizou a maior oferta pública inicial de ações deste ano no mundo, cerca de R$ 11 bilhões.
                              O governo fez um leilão, com sucesso, de áreas de petróleo fora do pré-sal. Fará um do pré-sal em outubro e pode pôr no caixa mais R$ 10 bilhões. Ainda neste ano serão realizados os leilões de concessão dos aeroportos de Confins e Galeão, de rodovias, ferrovias e portos. Bem atrasados, mas devem ser feitos.
                              Sem dúvida, um cenário, visto deste ponto de vista, de copo meio cheio na economia brasileira.
                              Vendo por outro prisma, até bem pouco tempo o Brasil era o queridinho do mundo, nada ia nos segurar. O país iria bombar com as obras da Copa do Mundo e da Olimpíada. Havíamos descoberto o pré-sal, nosso passaporte para o futuro.
                              Construímos um mercado interno forte, carro-chefe do nosso crescimento, que subiu para taxas superiores a 4%. Esse seria, por sinal, o novo piso para o PIB brasileiro.
                              De repente, o paraíso prometido foi adiado. A inflação subiu e forçou o Banco Central a elevar os juros. O crescimento ficou medíocre, o consumo caiu e os empresários seguraram os investimentos. Nossas contas externas se deterioraram.
                              Um cenário, diríamos, de copo bem meio vazio, de frustração. Tudo bem, não estamos uma tragédia. Estamos melhores do que muitos países mundo afora. Mas poderíamos estar pelo menos perto do céu.
                              Enfim, algo saiu errado e não dá para culpar só o cenário externo. É tempo de reflexão. E de ação.

                              sexta-feira, 31 de maio de 2013

                              Consumo não será mais o carro-chefe do crescimento, diz presidente do Banco Central

                              folha de são paulo
                              VALDO CRUZ
                              DE BRASÍLIA

                              Um dia depois de comandar a reunião que elevou a dose dos juros, o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, disse à Folha que a partir de agora o "carro-chefe do crescimento deve ser o investimento", e não o consumo, e que o BC "decidiu de forma unânime apertar" a política monetária para reforçar "a confiança" no órgão no combate à inflação.
                              Tombini rebate as críticas de que a elevação dos juros de 7,5% para 8%, decidida no mesmo dia em que foi divulgado o fraco PIB do primeiro trimestre de 2013, pode prejudicar o crescimento.
                              Sérgio Lima/Folhapress
                              O presidente do BC, Alexandre Tombini, na sede do banco
                              O presidente do BC, Alexandre Tombini, na sede do banco
                              "Inflação mais baixa milita na direção de um salário real mais preservado" e "é condição necessária para o planejamento dos empresários, logo para o investimento", insistiu ele, numa linha oposta à visão petista de que é possível aceitar uma inflação mais alta para não sacrificar o crescimento.
                              Em março, a presidente Dilma Rousseff afirmara que não concordava com políticas que "matavam o doente", numa referência à alta de juros para conter a inflação. Depois, teve de contemporizar, dizendo que havia sido mal interpretada.
                              Questionado se não teme o fogo amigo depois de aumentar a dose dos juros, Tombini afirmou que o BC tem o "integral apoio do governo Dilma".
                              Folha - O PIB veio fraco, abaixo do esperado, e mesmo assim o BC intensificou a alta dos juros? Por quê?
                              Alexandre Tombini - O Banco Central tem dito que está num processo de combate à inflação, querendo fazer que a inflação decline e que esse processo se prolongue no médio prazo.
                              Para que isso se consolide, é preciso que o Banco Central atue. Já vínhamos comunicando que esse processo seria bastante firme e que ele ajuda a reforçar a confiança, tanto dos consumidores, da dona de casa, quanto dos empresários. Esse processo de combate firme à inflação é compatível com o reforço da confiança na economia brasileira.
                              O que mudou da última reunião do Copom para esta, quando subiu a dose de aumento de juros?
                              O Banco Central iniciou o processo de aperto das condições monetárias em abril, e, neste momento, decidiu de forma unânime apertar no combate à inflação, o que reforça seu compromisso com uma inflação mais baixa, tanto no curto prazo quanto em períodos mais à frente.
                              A inflação alta foi responsável pelo PIB fraco?
                              Uma inflação mais baixa milita na direção de um salário real mais preservado e reforça a confiança de empresários, dá tranquilidade quanto ao horizonte de planejamento.
                              Qual o objetivo deste novo ciclo em termos de inflação?
                              Uma inflação menor neste ano do que no ano passado, quando foi de 5,84%, e no ano que vem menor do que neste ano, indo na direção da nossa meta.
                              É possível uma inflação abaixo de 5% em 2014?
                              É possível, certamente.
                              Este ciclo trabalha com a ideia de inflação abaixo de 5%?
                              Trabalhamos neste horizonte para convergência da inflação para meta, de 4,5%.
                              Abaixo de 5% em 2014?
                              Sim.
                              Qual foi a reação da presidente Dilma quando o sr. falou com ela sobre o resultado da reunião do Copom?
                              Não vou falar sobre diálogos dentro do governo. Agora, o que posso dizer é que o trabalho do Banco Central é integralmente apoiado pelo governo Dilma.
                              Empresários temem um efeito negativo da alta de juros sobre os investimentos. Isso pode acontecer?
                              Não, na nossa visão isso vai na direção de reforçar a confiança na economia brasileira, nos seus fundamentos.
                              Sua avaliação então é que, para os investimentos subirem, uma componente necessária é inflação baixa?
                              Inflação baixa, sob controle, é uma condição necessária para o planejamento dos empresários, logo para o investimento.
                              O BC não demorou muito a subir os juros?
                              O Banco Central tem dito que a comunicação é parte integrante da política monetária. Desde janeiro iniciamos um processo de sinalizar que as condições monetárias poderiam ser apertadas. E, de fato, os mercados reagiram a esse processo.
                              Quanto o PIB vai subir neste ano, depois do resultado fraco do primeiro trimestre e da alta dos juros mais forte decidida nesta semana?
                              Achamos que o PIB em torno de 3% é factível no Brasil neste ano neste contexto de política econômica.
                              Pode ser menor?
                              Em torno de 3%.
                              O BC está sozinho no combate à inflação?
                              Não, o objetivo do Banco Central é o combate à inflação. Temos de fazer nosso trabalho, em qualquer contexto, para atingir nosso objetivo de inflação estabelecido pelo governo.
                              Quando digo sozinho me refiro à política fiscal, que o próprio BC tem dito que tem sido expansionista. Não seria melhor conter os gastos públicos neste momento?
                              Vamos avaliar a política fiscal a cada momento do tempo. É uma das variáveis que analisamos para tomarmos decisão de política monetária, não tomamos decisão de política fiscal.
                              Há uma avaliação de que o BC, em 2012, mirava duas metas, inflação e crescimento econômico, tolerava certa inflação para não sacrificar o crescimento. Isso mudou?
                              Não, o objetivo do Banco Central sempre foi a inflação. Se você voltar no tempo, junho do ano passado, tínhamos uma projeção de 4,7%, 4,8%. A política estava toda apontando na direção de uma inflação na meta. Tivemos um choque externo e houve uma depreciação do câmbio, fatores que levaram a inflação para cima, combinados com um choque de alimentos no país.
                              Estamos trabalhando, desde janeiro, com a comunicação e, desde abril, com a política monetária para trazer a inflação de volta.
                              O dólar voltou a se valorizar nos últimos dias. Isso prejudica o trabalho do BC?
                              Temos um movimento internacional de valorização do dólar nas últimas semanas. Vamos acompanhá-lo para ver onde se estabiliza. O câmbio é flexível, vai refletir os fundamentos da economia. O Banco Central intervirá sempre que necessário para reduzir a volatilidade.
                              O cenário internacional é inflacionário ou deflacionário neste momento para o Brasil?
                              É mais para neutro. Temos algum declínio no preço das commodities e, ao mesmo tempo, esse processo recente de valorização do dólar em relação a outras moedas. Então, essas questões se neutralizam.
                              O ministro Guido Mantega disse que a alta de dólar não preocupa, pelo contrário, é boa para as exportações. O BC tem a mesma visão?
                              Esse é um processo global de valorização do dólar, vamos ver onde vai parar. O repasse do câmbio para inflação é moderado num regime de câmbio flutuante.
                              Temos hoje inflação alta e crescimento baixo. Corremos o risco de ter estagflação?
                              A inflação está sob controle, vai declinar. A economia brasileira começa agora uma recuperação gradual. Não caracterizaria isso como processo de estagflação.
                              O consumo ficou praticamente estável, contribuindo para o fraco desempenho do PIB. Isso significa que esgotou-se o modelo de focar no consumo o crescimento brasileiro?
                              O carro-chefe do crescimento deve ser, neste período à frente, o investimento. O consumo, naturalmente, ajuda a propagar o crescimento, mas não necessariamente vai ser o carro-chefe, definir a dinâmica de quanto a economia cresce no período à frente.
                              Ano que vem é de eleição presidencial. No PT e no próprio governo há o temor de que a alta dos juros prejudique a campanha da reeleição da presidente Dilma. O sr. concorda com essa avaliação?
                              A política de combate à inflação vai no sentido de assegurar uma preservação da renda real do assalariado, de dar mais confiança ao consumidor, à dona de casa e ao próprio empresário para investir. Então, o combate à inflação não tem esse elemento, na minha visão, de colocar em risco a evolução da economia brasileira.
                              O sr. teme o 'fogo amigo' neste momento de alta dos juros?
                              A política de combate à inflação do Banco Central tem o integral apoio do governo Dilma, isso que é importante.

                              RAIO-X - ALEXANDRE TOMBINI
                              IDADE
                              49 anos
                              FORMAÇÃO
                              PhD em economia pela Universidade de Illinois (EUA)
                              CARGOS
                              . Presidente do Banco Central desde janeiro de 2011 (governo Dilma)
                              . Já ocupou as diretorias de Normas e Organização e de Assuntos Internacionais do Banco Central
                              . Foi diretor de Estudos Especiais do BC

                                segunda-feira, 27 de maio de 2013

                                Valdo Cruz

                                folha de são paulo
                                Rugido ou miado?
                                BRASÍLIA - "BC: inflação baixa, estável e previsível é condição para crescimento sustentável." Esta era a manchete do Blog do Planalto no dia 6 de janeiro de 2011, início do governo Dilma, da primeira entrevista de Alexandre Tombini como presidente do Banco Central.
                                Próxima de completar dois anos e meio de mandato, Dilma Rousseff viu seu governo conviver com inflação alta, instável e sem previsibilidade. Resultado: não houve crescimento sustentável no período.
                                Agora, às vésperas da eleição e com a oposição explorando o tema, o governo parece ter descoberto que estava brincando com fogo. Pelo menos o Banco Central.
                                Tanto que Tombini voltou a falar grosso desde o início do ano e retomou o tom da fala inaugural. Passou ainda a alertar que o combate à inflação vai contribuir para fortalecer a confiança de empresários e consumidores na economia.
                                Recado com endereço certo, o Palácio do Planalto: a inflação alta ajudou a adormecer o espírito animal de empresários e a corroer o poder de compra dos eleitores.
                                O BC distancia-se, assim, da imagem de alinhamento com a visão petista de que, para não sacrificar o crescimento, é possível tolerar uma certa inflação elevada.
                                O próprio banco flertou com tal linha no ano passado, na crença de que a inflação cederia no médio prazo. Só que ela ficou nas alturas por tempo demais e recua num ritmo aquém do recomendável.
                                Daí a subida de tom nas falas de Tombini, que já desperta de novo o fogo amigo no governo e levou o mercado a apostar que a taxa de juros deve subir numa dose mais salgada nesta semana --com aval e sem reação contrária do banco.
                                O risco é o rugido do BC virar um miado caso os juros subam no mesmo ritmo do mês passado. Nunca é demais lembrar, porém, que 2014 é ano de eleição. Ao PT, em vez de bater no BC, pode interessar mais que todo serviço seja feito agora.

                                segunda-feira, 20 de maio de 2013

                                Valdo Cruz

                                folha de são paulo

                                Riscos da vitória
                                BRASÍLIA - Na base do sufoco, o governo Dilma demonstrou força e ganhou a batalha da votação da MP dos Portos. Agora, terá de administrar os riscos gerados pela vitória.
                                O primeiro deles reside dentro do próprio Palácio do Planalto. Há uma tentação de usar a vitória para sancionar um modelo de articulação política que mostrou falhas durante boa parte do processo.
                                O governo avalia, por exemplo, que o resultado fragilizou a visão de que o PMDB é imprescindível para suas disputas na Câmara. Em várias votações da MP, o partido ficou contra o Planalto, mas perdeu.
                                Na questão atual, análise correta. Dilma derrotou o PMDB do líder Eduardo Cunha. Em futuras, como CPIs, pode não ser. Uma aliança entre peemedebistas e oposição tende a ser fatal para o governo.
                                Daí que fechar os olhos para os erros políticos não é prudente. Melhor não reagir com o fígado e discutir já a relação com a base aliada.
                                O segundo risco foi o preço da votação-relâmpago da MP no Senado, que ali chegou a horas de perder validade. Presidente da Casa, Renan Calheiros avisou o Planalto que aprovaria o texto, mas teria de fazer concessões à oposição.
                                Resultado: MPs devem cair em breve no Senado, pois o compromisso é não mais votá-las caso cheguem com prazo de vencimento inferior a sete dias. O ritmo lerdo da Câmara e a desarticulação governista podem tornar isso frequente.
                                O terceiro risco está em gestação. Cresce o apoio na Câmara à proposta de tornar obrigatória a liberação das emendas parlamentares, pelas quais congressistas enviam dinheiro para suas bases eleitorais.
                                Reação à tática governista de bloquear essa grana e soltá-la na véspera de votações importantes, como voltou a ocorrer na MP dos Portos.
                                No governo, há quem releve tais ameaças no ar. Afinal, nada de vital deve ser enviado ao Congresso a partir de agora. A conferir. Brincar com fogo costuma ser perigoso.

                                  quinta-feira, 16 de maio de 2013

                                  Valdo Cruz

                                  folha de são paulo

                                  Duelo
                                  BRASÍLIA - O governo Dilma começou o dia celebrando, reservadamente, a derrota do líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha, na votação da MP dos Portos. Terminou pedindo ajuda daquele que havia derrotado na tentativa de destravar a votação da medida.
                                  A própria presidente havia festejado o infortúnio do pretenso aliado, que fracassou em sua tentativa de alterar a MP do governo. O que, na avaliação palaciana, mostrou que o "temido" Eduardo Cunha pode ser "enfrentado e derrotado".
                                  O estado de espírito da presidente Dilma indica como havia uma disputa paralela entre os dois, que não se bicam desde o governo Lula, na apreciação da proposta que busca modernizar os portos brasileiros.
                                  Dilma estava determinada a derrotar o líder peemedebista. Conseguiu seu objetivo, mas acabou vítima do pretenso aliado, que passou a obstruir as votações pedindo verificação de quórum e deixando o barco rolar solto. Deu o troco.
                                  Duelo à parte, a vitória dilmista tem sua importância no xadrez palaciano, mas também evidenciou como errou a articulação política do governo ao longo do processo.
                                  Afinal, votos para aprovar a medida, pelo visto, o Palácio do Planalto tinha, caso contrário não teria derrotado o líder do PMDB. Derrotou pois fez, na reta final, algo que só empurrou com a barriga: negociar e fazer promessas a seus aliados.
                                  Tivesse atuado com mais competência, a votação não estaria sendo feita às pressas, com o governo buscando fazer em apenas três dias tudo o que não fez em quatro meses desde a edição da medida.
                                  Resultado: mesmo com a ajuda de última hora do líder peemedebista, aquele que foi dado como derrotado, o governo corria o risco de não conseguir terminar a votação.
                                  Aí, o Planalto partirá para seu Plano B. Fará a reforma dos portos por medidas administrativas --com o recado de que não irá incluir as concessões feitas nos últimos dias.