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sábado, 27 de julho de 2013

Marcos Caramuru de Paiva

folha de são paulo
A lógica política do crescimento chinês
Expansão elevada do PIB obscurece empenho por reformas defendidas pelo presidente Xi Jinping
Analistas no mundo inteiro perguntam-se hoje que taxa mínima de crescimento o governo da China tolerará sem que recorra a aumentos substanciais dos investimentos estatais. O ministro da Fazenda, Lou Jiwei, indicou que, para 2013, espera 7% e, para mais adiante, considera 6,5% resultado tolerável.
Um fator importante a definir o piso de crescimento será a geração de emprego. O governo chinês sempre temeu a frustração dos recém-formados, sobretudo os que saíram do campo para estudar na cidade e que, sem emprego, dadas as regras de mobilidade geográfica vigentes, têm que voltar ao local de origem.
Na era das redes sociais, lidar com jovens insatisfeitos é, em toda parte, arriscado.
Mas há outros pontos relevantes na equação. O crescimento elevado obscurece o empenho por reformas. Agrada os conservadores e dirigentes locais. A ala reformista do partido sabe que, sem mudanças, a China perderá gás.
A impressão que fica é que formar consensos internos está mais trabalhoso do que se imaginou. Há quem tenha começado a duvidar da própria determinação do presidente Xi Jinping em enfrentar o custo político de grandes transformações.
Esta semana, numa reunião em Hubei, Xi voltou a defender a necessidade de reformas. Numa de suas falas, indicou que "a chave é aprofundá-las em todas as áreas".
Desde que assumiu, em março, o governo parece estar seguindo uma ordem planejada de decisões.
O primeiro passo foi ampliar a disciplina partidária, expor casos de corrupção e condenar diversos membros do partido a penas pesadas.
O segundo tem sido o anúncio de mudanças que funcionam mais como balões de ensaio.
Dois exemplos: (1) Xangai foi autorizada a flexibilizar a regra do hukou (documento de origem territorial das famílias), de modo a facilitar a legalização de trabalhadores originários de outras partes da China; (2) os bancos foram liberados para oferecer juros de empréstimos a seus tomadores, abaixo da faixa fixada pelo Banco Central.
Na verdade, as novas regras de Xangai são tão rígidas que um número reduzidíssimo de profissionais poderá valer-se delas para ganhar um hukou da cidade.
Já a liberalização dos juros terá impacto irrelevante sobre o barateamento do crédito. Talvez ajude algumas estatais. Mas as mudanças nos juros e no hukou indicam um sentido de direção.
O grande projeto anunciado até o momento foi a criação de uma zona de livre comércio em Xangai, uma espécie de versão atualizada do plano de abertura de Deng Xiaoping, em Shenzhen, em 1978, agora envolvendo livre acesso do setor financeiro externo à nova zona e flexibilidade nas regras cambiais.
O primeiro-ministro Li Keqiang, ao que se sabe, teve que usar todo o seu peso político para vencer resistências e emplacar a ideia.
Os cruzamentos de dados dos economistas ajudarão, como sempre, a estimar o crescimento. Mas quem quiser entender o que acontecerá na China terá que lançar um olhar aos sinais políticos emitidos aqui e ali. E esperar com paciência as grandes novidades.

    sábado, 29 de junho de 2013

    Marcos Caramuru de Paiva

    folha de são paulo
    Um diálogo oriental sobre protestos
    Há muitos pleitos objetivos que podem ser atendidos. Alguns já foram. Outros terão respostas erradas
    Há dias, um chinês me fez a pergunta: esses protestos no Brasil têm algo do episódio da praça da Paz Celestial, em 88, você não acha? Na praça da Paz Celestial, o que se viu foi um grupo de estudantes, num momento de pressão de preços, protestando contra a corrupção. Não é o mesmo entre vocês?
    A pergunta causou-me certa perplexidade. Comparar momentos históricos tão distantes em países com regimes políticos tão diferentes pareceu-me, no mínimo, ousado. Nós, no Brasil, vivemos com o debate. Pagamos por isso: vivenciamos as ineficiências de gestão que regimes democráticos trazem naturalmente consigo. O problema é que as ineficiências aqui passaram do ponto.
    A China tem um regime que lhe permite imprimir à gestão pública toda a eficiência --ou pelo menos a celeridade-- que o unipartidarismo proporciona. Não se lhe pode tirar o mérito. Há países unipartidários que não conseguem produzir bons governos. Mas daí a fazer a comparação é salto muito grande.
    Resisti à tentação de uma resposta que encerrasse a conversa, por desprovida de fundamento. Pedi ao meu interlocutor que fosse mais específico. Ele prosseguiu: em 88, inicialmente, o governo achou que a manifestação moralmente correta dos estudantes fosse algo positivo.
    Em seguida, a coisa foi ficando mais complexa. Os trabalhadores se juntaram, e os protestos se multiplicaram. A população passou a dar comida e água aos manifestantes. Até estudantes protestavam.
    Mas, de repente, disse-me, houve a percepção de que os riscos se tornaram grandes demais. E veio o que o mundo assistiu. Os últimos repórteres da televisão que noticiaram os manifestos fizeram-no em lágrimas.
    Zhao Ziyang, secretário geral do Partido, alguém pré-disposto à conciliação, perdeu o cargo. Ascendeu Jiang Zemin, reformador, bom dirigente, que, oito anos após deixar a Presidência, ainda comanda, de longe, boa parte do mundo político. O resto, acrescentou, você sabe bem.
    O resto nos diferencia extraordinariamente.
    Neste momento em que muitos tentam identificar que antecedentes há para os fatos recentes --Paris 68, a Turquia atual, Ocupe Wall Street-- pareceu-me interessante narrar uma visão descolada das referências ocidentais. Há, no inconsciente coletivo, algo que conecta fatos que diferem diametralmente nos seus desdobramentos.
    Quanto à nossa realidade, creio que a geração mais jovem entenderá melhor o que está ocorrendo. Há muitos pleitos objetivos e razoáveis que podem ser atendidos rapidamente. Alguns já foram. Outros terão respostas erradas. Outros suscitarão decisões atropeladas, com menos reflexão do que demandariam em circunstâncias normais. Vamos esperar que, no cômputo geral, o resultado agregue valor.
    As máscaras e o refrão "sem partido" são como se as ruas dissessem: estamos aqui, as demandas são muitas. Viemos desestruturar uma ordem que não é mais satisfatória. Não nos cabe achar caminhos. Vocês, políticos, que o façam, com decência. Estaremos vigilantes. Pedir coerência aos fatos e às vozes é enfoque velho. E propor saídas verdadeiramente satisfatórias, no curto prazo, uma impossibilidade.

      sábado, 18 de maio de 2013

      Marcos Caramuru de Paiva

      folha de são paulo

      Abrir portas na OMC
      Há uma energia motivadora nas mudanças, mas o novo diretor-geral não pode provocar um "big bang"
      Há que reconhecer que, descontadas as caneladas usuais do jogo, a OMC (Organização Mundial do Comércio) operou com bom senso a seleção de seu novo diretor-geral. Ganhou o candidato mais bem integrado ao seu trabalho.
      Escolher dirigentes por mérito não é prática nas organizações multilaterais econômicas. Se mérito fosse o critério, dificilmente o sanitarista Jim Yong Kim seria presidente do Banco Mundial ou a advogada Christine Lagarde comandaria o Fundo Monetário Internacional.
      Yong Kim foi aprovado a toque de caixa, passando por cima de bons nomes na causa do desenvolvimento. Lagarde derrotou o presidente do Banco Central mexicano, Agustín Carstens, que fez grande parte de sua carreira no próprio Fundo.
      A pergunta enunciada desde a eleição de Roberto Azevêdo -será possível reviver a Rodada Doha e tirar a OMC do marasmo?- requer realismo na resposta.
      Há três processos de negociação que absorverão a energia de países de peso e reduzirão ainda mais seu interesse em avançar Doha: o acordo de livre-comércio EUA-Europa, a iniciativa transpacífica do presidente Obama e o acordo China-Japão-Coreia. Nenhum é de fácil execução. Eles podem ficar pelo caminho e dar espaço ao multilateralismo, mas não é certo que seu eventual fracasso gerará tal resultado.
      A economia internacional não ajuda. Em momentos difíceis, os países não abrem mão dos instrumentos de política econômica. Podem fazê-lo seletivamente, por motivos estratégicos ou para gerar novos estímulos ao crescimento, como parece ser o caso do acordo EUA-UE.
      Finalmente, os próprios membros que elegeram Azevêdo talvez tenham baixo interesse em maior liberalização. Estaria o Brasil, por exemplo, preparado para reduzir as tarifas de produtos industriais para trazer a agricultura à mesa da OMC?
      Há uma energia motivadora nas mudanças de liderança. Mas o que o novo diretor-geral pode fazer é ir abrindo portas, não provocar um "big bang". É assim, aliás, que diplomatas operam.
      Organizações internacionais nem sempre vivem momentos de brilho. O FMI costuma perder relevância quando não há crises. Seu trabalho rotineiro, monitorar a política econômica dos membros, nunca teve o peso esperado. O Banco Mundial esvaziou-se quando países como China, Índia e Brasil deixaram de necessitar de seus recursos -foi o primeiro exemplo de como Brics e emergentes podem mudar agenda e peso de uma instituição. Na OMC, os acordos de livre-comércio se impuseram sobre o multilateralismo.
      As três principais organizações econômicas terão, ao longo do tempo, que promover mudanças substanciais se a ideia for fazê-las recuperar o peso do passado.
      A eleição de Azevêdo foi boa para o Brasil. Mostrar que temos gente da sua qualidade, uma diplomacia respeitada, capilaridade no relacionamento externo e independência de posições é muito positivo.
      Pode se afigurar melhor se ajustarmos as expectativas de curto prazo, admitirmos que Doha não se revitaliza de repente e enxergarmos o novo diretor-geral como arquiteto de uma realidade que ainda não podemos claramente delinear.

      sábado, 4 de maio de 2013

      Marcos Caramuru de Paiva

      folha de são paulo

      Nova dinâmica para debates
      Não há uma Ásia uniforme, nem política, nem culturalmente. Mas há traços comuns a todos
      É difícil para os ocidentais aceitar ser minoria. O Ocidente habituou-se a forjar o pensamento universal. Minorias tendem a ser frágeis, frequentemente demandam proteção.
      Isso não se ajusta à maneira como os ocidentais se veem, nem à importância que adquiriram no contexto internacional.
      A verdade, no entanto, é que os asiáticos são bem mais numerosos do que nós. E com o aumento do seu peso econômico eles se farão ouvir mais e mais nas próximas décadas, até passar a exercer uma influência visível no encaminhamento dos grandes temas. As novas gerações serão testemunhas dessa virada na história.
      Não há uma Ásia uniforme, nem política, nem culturalmente. Mas há traços comuns a todos. Além disso, a ascensão da China e o fato de sua cultura ter influenciado tão fortemente a japonesa e a coreana fazem deduzir que a atitude chinesa será central na definição de uma visão asiática nos debates do futuro.
      Tentar entender a lógica oriental e como ela se diferencia da nossa é um dos temas do momento. Muito se tem escrito sobre ele.
      Num dos livros interessantes, "A Geografia do Pensamento", o psicólogo Richard Nisbett mostra que os ocidentais têm uma tendência a categorizações, à formulação de regras, à proposição de modelos que expliquem e operem as realidades.
      Os asiáticos, por sua vez, acreditam que as realidades são mais complicadas do que parecem. Há múltiplos fatores a influenciá-las e elas estão em permanente mutação. A lógica formal desempenha um papel reduzido na solução dos problemas. Ser demasiado lógico na Ásia pode até soar infantil.
      Fatos simples, a meu ver, ajudam a verificar a reflexão de Nisbett. Basta visitar um museu de arte ocidental e um chinês. As artes plásticas ocidentais são apresentadas a partir de grandes movimentos, escolas. Na China, os artistas são exibidos individualmente. Não há preocupação em vinculá-los a uma corrente. Por isso, frequentemente parece-nos tão difícil absorver o que vemos.
      O cingapuriano Kishore Mabubani, autor de "Podem os Asiáticos Pensar?" defende que o encolhimento da Ásia nos últimos séculos foi um fato da história. Não será sempre assim.
      Os chineses sabem que precisarão aumentar o tom de sua voz. Aprenderão a ser propositivos. Mas não terão um norte ideológico, condutas pré-concebidas, receitas de comportamento. Valorizarão a dinâmica dos relacionamentos e buscarão integrar-se harmonicamente ao que se apresentar. A harmonia é a essência do taoismo: está no coração, no pensamento e no inconsciente de um oriental do Leste.
      Possivelmente, quando se expressar com voz de liderança, a China se mostrará imprevisível para parâmetros ocidentais. Estará movida por seus interesses, é óbvio, mas também pelos múltiplos fatores que compõem a ordem mundial.
      O mundo se acostumou, ao longo do século 20, à rigidez e à previsibilidade das ideias e propostas norte-americanas. Quer antecipar a forma futura de atuar do novo gigante. Não haverá padrão. E isso vai gerar uma nova dinâmica internacional, à qual o Ocidente terá inevitavelmente que se adaptar.

        sábado, 6 de abril de 2013

        Marcos Caramuru de Paiva

        folha de são paulo

        A primeira-dama chinesa e a moda
        O que definitivamente não se pode é, também nessa área da economia, ser indiferente à China
        A China não está acostumada a primeiras-damas. As mulheres dos governantes nunca aparecem.
        Contudo, no final de março, em mais uma manifestação de que a política está mudando de tom -e de hábitos- o presidente Xi Jinping, em sua primeira viagem internacional, desceu do avião em Moscou ao lado da mulher, Peng Liyuan.
        Os chineses notaram, com surpresa, que, ao invés de ostentar as grandes grifes estrangeiras que estão no imaginário das pessoas bem-sucedidas, Peng vestia marcas nacionais.
        Foi o suficiente para que o Weibo (Twitter local) corresse a divulgar quem produziu suas peças e, a partir daí, começasse uma grande discussão sobre "buy China".
        A primeira-dama Peng Liyuan é uma figura conhecida. Militar, general de brigada, cantora nas Forças Armadas, integra o Comitê Consultivo do Partido. Sempre se achou que ela adicionaria leveza à figura do presidente. Mas nunca que sua primeira aparição pública tivesse tanto impacto.
        No meio de comparações de seu perfil com Carla Bruni e Michelle Obama, não faltaram artigos para lembrar que a China já teve produtos nacionais valorizados. De repente, apaixonou-se pelo que vem de fora. Mas isso pode mudar.
        A China é uma grande exportadora de vestimentas e acessórios. As vendas externas desses itens totalizaram US$ 159 bilhões em 2012. O que sai não tem marca. Ganha etiquetas coladas por quem importa.
        Ao mesmo tempo, a febre do consumo fez dos chineses os segundos maiores compradores do luxo no mundo. O cálculo mais comumente divulgado é que eles consomem 25% dos bens nessa categoria, sendo que 55% dos consumidores das grandes grifes na Europa e nos Estados Unidos são turistas chineses.
        O fator primeira-dama pode não mudar radicalmente o panorama do negócio da moda e da vestimenta. Mas traz um dado novo a um mercado já agitado.
        Recentemente, alguns dos conglomerados internacionais do luxo começaram a investir em marcas chinesas de melhor qualidade, possivelmente antecipando um consumidor mais voltado para produtos locais. A Hermès, num movimento diferente, criou a Shang Xia, que nasceu em Xangai, estendeu-se a Pequim e está abrindo em Paris.
        Na direção contrária, grupos chineses compraram marcas europeias que perdiam brilho, para levantá-las em casa. Os exemplos são vários: Cerruti e Gieves and Hawks, adquiridas pelo Trinity, o Lanvin, pelo taiwanês Shaw Lan Wang, a Sonya Rykiel pelo Fung Brands, a Miu Miu pelo fundo Fosun.
        Em complemento a tudo isso, a China agora ganhou uma defensora poderosa das suas próprias grifes, ainda muito desconhecidas dos nacionais, apesar de algumas delas já estarem abrindo na Europa. E os analistas mais alertas dizem aos designers estrangeiros que passem a olhar o gosto oriental.
        Na esteira da São Paulo Fashion Week, não há como ignorar o que está ocorrendo no negócio da moda do outro lado do mundo. Tudo leva a crer que haverá espaço para todos, inclusive para os que ainda não chegaram. O que definitivamente não se pode é, também na moda, ser indiferente à China.

          sábado, 9 de março de 2013

          Marcos Caramuru de Paiva

          folha de são paulo

          Confiança: um bem escasso
          Se o chinês moderno acompanhar outros países, vai ver que confiança em política é um bem escasso
          Neste mês de março, o Congresso do Povo nomeia o novo governo chinês. Muitos se perguntarão, no exterior, o que acontecerá com a política econômica. A resposta possível no momento ainda é vaga: as mudanças serão mais profundas do que as realizadas nos últimos anos, sem alterações radicais no curtíssimo prazo.
          Ansiedades externas à parte, como dizia Tip O'Neil, legendário porta-voz do Congresso americano, toda política é local. Assim, é lícito averiguar que expectativas nutre o cidadão moderno chinês quanto aos seus futuros líderes.
          Quem indagar a pessoas de classe média urbana como veem os temas da sociedade possivelmente acabará concluindo que a demanda latente é por maior confiança nos governantes.
          Desde que a política de abertura se iniciou, há 35 anos, o mais forte fator a gerar confiança na China foi o crescimento com baixa inflação.
          Continuará sendo. Não é de surpreender que, em seu primeiro dia, o Congresso do Povo tenha tratado do assunto: o crescimento previsto para 2013 é de 7,5%, a inflação projetada, 3,5% e o deficit fiscal, 2% do PIB. Ou seja, haverá espaço para estímulos governamentais se o crescimento faltar.
          Numa sociedade onde o crescimento é dado como certo e ninguém duvida que o governo fará tudo para gerar emprego, as pessoas começam a olhar os bens comuns, aqueles que a riqueza individual não pode comprar.
          De uma maneira geral, o cidadão chinês de classe média urbana orgulha-se de gastar com a educação do filho único, ajustou-se à saúde paga, sente-se seguro e acredita na polícia.
          Sua preocupação mais recente é com a poluição. Em Pequim, durante o mês de janeiro, apenas por cinco dias a poluição e o "fog" deram alívio aos residentes.
          Outro tema que incomoda é a corrupção. O Partido, aliás, tem falado muito dele. Outro, as opções de investimento. Todo chinês que tem salário ou renda poupa e busca ter retornos maiores de suas aplicações.
          Finalmente, o cidadão parece querer menos tributos e menos heterodoxia nas políticas. Eis um exemplo: as famílias recentemente têm feito mirabolâncias para circundar uma legislação que taxa em 20% o ganho de capital com a venda de imóveis.
          Os casais estão se divorciando para gozar da vantagem dada aos proprietários de um único imóvel de vendê-lo sem imposto. Recasam-se em seguida. Em Xangai, os funcionários do cartório que produz os certificados de divórcio dizem que os primeiros casais simulavam desentendimentos. Agora vão direto ao ponto.
          O novo governo terá que combinar um ambicioso projeto de redução da pobreza rural (a meta é urbanizar 400 milhões de pessoas em dez anos), novos rumos para uma economia -que gera grandes expectativas- e, sobretudo, respostas à grande classe média urbana.
          A bem da verdade, se o chinês educado moderno acompanhar a realidade da Itália e dos demais países europeus, as discussões partidárias americanas e o sempre frágil quadro japonês, vai se dar conta de que confiança em política é um bem escasso no mundo de hoje. Mas isso não reduzirá a sua expectativa por dias melhores.

            sábado, 23 de fevereiro de 2013

            Marcos Caramuru de Paiva


            Folha de são paulo
            Oportunidade a passar
            O comércio chinês exibe crescentemente produtos importados, com marcas europeias se acotovelando
            Poucos duvidam de que o mercado mais promissor dos próximos anos será a China. Por duas razões óbvias: o número de consumidores e as características do projeto econômico chinês.
            O país crescerá pelo menos cinco a seis por cento ao ano, apenas pela via da redução da pobreza. Mas certamente crescerá mais que isso e será um motor da economia mundial por algumas décadas.
            É sempre possível adotar uma atitude derrotista diante das possibilidades de entrar na China.
            Mas o comércio chinês exibe crescentemente produtos importados. Marcas europeias de todo tamanho têm-se acotovelado na disputa por pontos de venda.
            O dilema é que não se pode pensar na China de maneira casual: como um país que absorverá o excedente de produção ou um local para onde vamos canalizar vendas quando a economia brasileira estiver desaquecida. O gigantismo do mercado não permite tratá-lo como um coadjuvante.
            Explorar todo o potencial que ele exibe requer estratégia, investimento pesado e audácia.
            As gôndolas dos supermercados chineses são exemplo de desafio para um país com a força agrícola do Brasil. Estão cheias de leite francês e alemão, de produtos europeus, japoneses, norte-americanos, australianos e neozelandeses que vão da água às mais variadas iguarias. Exceção feita ao frango, não se veem produtos brasileiros.
            Muitas razões dificultam um bom desempenho exportador brasileiro. O custo Brasil apequena o nosso potencial de vendas. O custo China, por sua vez, mesmo mais elevado, ainda é baixo.
            Mas há pontos que não podem passar despercebidos. No setor de alimentos, por exemplo, os chineses têm baixa confiança nos produtos de origem local.
            Quando aumentam um pouco a sua renda, compram importados. O mesmo se passa com remédios e produtos de higiene pessoal.
            O chinês é ávido por conhecer novas marcas de bens de consumo. Há pesquisas que tentam medir quantas marcas o cidadão de classe média identifica, quantas procura quando viaja. As pessoas com um nível razoável de renda vão três vezes por ano ao exterior e gastam US$ 800 por compra que fazem.
            Talvez estejamos fadados a deixar passar a oportunidade na China ou a entrar modestamente num mercado que nada tem de modesto.
            O problema é que outros (chineses e estrangeiros) preencherão os espaços vazios. E os que tiverem escala no mercado chinês precisarão utilizar só uma fração de sua musculatura para conquistar o nosso mercado.
            A onda de grifes de luxo que chegam com força ao Brasil depois de anos de receitas gordas na China é uma boa mostra disso.
            Vai mudar, em casa, o cenário para as grifes brasileiras. Expulsá-las para andares menos nobres dos shoppings, tomar uma parte de suas vendas.
            Para contrarrestar essa tendência, temos, é verdade, a possibilidade das medidas protecionistas. Mas elas estarão longe de resolver definitivamente o problema, se as empresas não se dispuserem a avançar no processo de internacionalização.

              sábado, 9 de fevereiro de 2013

              Marcos Caramuru de Paiva

              folha de são paulo

              A serpente e o combate à corrupção
              O esforço contra a corrupção exigirá mudanças maiores do que exigir declaração de bens de autoridades
              O Carnaval este ano coincide com a celebração do Ano-Novo chinês.
              Enquanto, no Brasil, a animação domina as ruas, os chineses reúnem-se em família. Nesses encontros, evitam temas tristes ou pesados, moderam-se na linguagem, pressionam os solteiros ao casamento e queimam bombinhas para espantar os maus espíritos. Celebram, em 2013, o ano da serpente.
              De uma maneira geral, os chineses não parecem ligados na astrologia. Mas não subestimam seus mistérios.
              Em Xangai, onde os viadutos se sobrepõem uns aos outros em alturas elevadíssimas, um deles tem uma coluna de sustentação adornada com desenhos em relevo de um dragão.
              Diz a lenda que a coluna foi erguida diversas vezes, mas não se assentava. Como a engenharia não oferecesse solução, os construtores convidaram um mestre de "feng shui" para avaliar o caso. O mestre olhou atentamente a área e deu o seu veredito: aqui neste ponto do subsolo vive um dragão. Ele se incomoda com a fundação da coluna e não deixa que ela fique de pé.
              Mas o dragão tem a sua hora de repouso. Se a fundação for plantada no momento certo, ele se deslocará. Assim se fez e, conta-se, tudo se resolveu. Sempre que passo na área acompanhado de um chinês indago se ele duvida da lenda. Nunca encontrei quem duvidasse.
              Na mitologia oriental, a serpente é elegante como o dragão, o animal mais reverenciado do zodíaco. Mas, ao contrário deste último, procura passar despercebida. Colada ao chão, está sempre antenada. É capaz de antecipar facilmente os tremores de terra.
              Transplantada a mitologia ao mundo dos homens, a serpente significa a capacidade de expor armações e escândalos.
              Não acredito que a astrologia tenha a mais mínima influência na política. Mas tudo leva a crer que um dos focos da política chinesa este ano será lidar com novos escândalos de corrupção.
              Nas últimas semanas, vários episódios de má conduta vieram à tona. Além disso, o combate à corrupção tem sido o tema de maior relevo na transição governamental.
              É assunto recorrente nos discursos do próximo presidente, Xi Jinping, que chegou a dizer que a corrupção, se deixada solta, pode levar ao fim do Partido Comunista.
              Xi fala em controles sobre autoridades de todos os níveis, em supervisão mais rigorosa do uso do poder e na definição de um melhor quadro regulatório. A comissão disciplinar do partido, na esteira de suas declarações, anunciou um plano de cinco anos com verificações regulares da renda dos membros.
              Controlar a corrupção pela via da educação, vigilância e punição é procedimento correto em qualquer realidade. Mas num país onde o setor público tem o grau de influência que se registra na China, o esforço exigirá mudanças maiores do que passar a exigir declaração de bens das autoridades.
              Será inevitável reduzir o papel do Estado e abraçar uma proposta mais liberal de gestão. Esse é um passo que alguns dos novos chefes partidários parecem dispostos a dar. Mas, a que ponto chegarão, dependerá de difíceis consensos internos.

                sábado, 26 de janeiro de 2013

                Marcos Caramuru de Paiva

                FOLHA DE SÃO PAULO

                Compreensão do futuro
                Mesmo que o governo não tenha propensão a reformas corajosas, a China está sempre se transformando
                No início desta semana, o chinês Jack Ma, 48 anos, dono dos famosíssimos "Alibaba" e "Taobao", sites de vendas na internet, anunciou que passará o comando de suas empresas à geração dos anos 70 e 80 porque "ela tem uma melhor compreensão do futuro".
                Os asiáticos do leste, de uma maneira geral, estão sempre mais propensos a pensar no futuro do que a revisitar o passado.
                Há exceções: os japoneses não se enquadram exatamente nesse perfil. Mianmar, até há pouco, valorizou deliberadamente o atraso. Mas a regra geral é olhar adiante e antecipar o que for possível.
                Vale para os grandes temas e para o dia a dia. Os chineses, por exemplo, costumam chegar antes da hora aos compromissos. Estão sempre buscando negócios para fazer dinheiro rapidamente. Quando revelam a idade, acrescentam um ano ao tempo real de vida. A tradição é mudar de idade na virada do calendário lunar, não no aniversário.
                A fixação no futuro explica os trens-bala, a ousadia arquitetônica, a falta de cerimônia ao derrubar construções ou mudá-las de lugar, levantando-as pelos alicerces e as movendo por inteiro, para encaixá-las no desenho urbano moderno.
                Facilita também entender a lógica de certas políticas: a da previdência social, sobretudo. Na China, as mulheres aposentam-se aos 55 anos, os homens aos 60.
                O Estado deve focar sua atenção nas novas gerações. Os idosos são principalmente responsabilidade dos jovens. A tal ponto que vários governos locais mantêm programas de auxílio financeiro regular para quem perdeu o seu filho único. Estima-se que haja dez milhões de famílias nessa situação.
                Na administração pública, prefeitos aposentam-se aos 60 anos, líderes provinciais aos 65, sendo que vice-líderes não podem ascender se tiverem mais que 60.
                O Partido Comunista, no entanto, no último Congresso, contornou a sua própria inclinação. Dos sete novos membros do Comitê Permanente, a mais alta instância decisória, se excluirmos os dois primeiros, Xi Jinping e Li Keqiang, que têm 60 e 58 anos respectivamente, a idade média é 66,6 anos.
                Talvez muitos se indaguem: que compreensão do futuro terá o governo que se inicia em março?
                Um fato é seguro: fora Xi e Li, os demais membros do Comitê permanecerão por, no máximo, cinco anos. Ou seja, o peso dos dois mais jovens, que ficarão por uma década, será mesmo grande.
                Outro fato: mesmo que o Comitê não tenha propensão a promover reformas corajosas, a China está sempre se transformando.
                Os dados de 2012, divulgados nos últimos cinco dias, parecem sinalizar novas tendências: crescimento menos vigoroso do PIB (7,8%), setor industrial crescendo menos do que em anos anteriores (8,1%), queda de 4% do investimento direto externo -reflexo de custos de produção mais elevados-, aumento expressivo dos investimentos chineses no exterior (28%), maior peso do consumo interno no PIB (51%), redução, pela primeira vez, da população em idade de trabalho.
                Ou seja: é possível que o futuro também se tenha antecipado e, por si só, force a liderança a inovar.

                  sábado, 12 de janeiro de 2013

                  Marcos Caramuru de Paiva

                  FOLHA DE SÃO PAULO

                  Consensos, competição, preços na China
                  Quem já se engajou numa transação comercial na China viu que preço envolve variáveis imperscrutáveis
                  O TEMA foi tratado em editorial do "China Morning News": enquanto o custo das festas de casamento em Hong Kong aumentou 37% em 2012, a contribuição dos convidados permaneceu entre HK$ 500 e 1.000 (cerca de R$ 260) por pessoa. Não é correto, argumentou o jornal.
                  Na China, os convidados a um casamento não dão presentes. Oferecem dinheiro, no envelope em que recebem o convite, para ajudar os noivos a custear a celebração. Há uma espécie de consenso quanto ao valor: o que devem dar os amigos mais íntimos, os menos chegados, os que vão à festa sós ou em casal.
                  Aparentemente, a "tabela" necessita de reajuste. O "China Morning Post" tomou a si a tarefa de levantar o tema, mesmo com o risco de desagradar aos que têm salários baixos e muitos amigos, para quem HK$ 500 por casamento já é caro.
                  A prática da contribuição "tabelada" é uma proteção, própria de uma sociedade em que buscar sobressair-se é mal visto e, ao mesmo tempo, ninguém quer ficar para trás.
                  O curioso é observar como ela contrasta com o comportamento no mundo empresarial.
                  A concorrência entre empresas chinesas é acirradíssima. O mercado é grande, ninguém pode supri-lo integralmente. E, como há uma tendência natural à cópia, quando um produto gera interesse, o número dos que investem para oferecê-lo multiplica-se com rapidez.
                  Isso explica por que diversas cidades são especializadas: óculos em Shenzhen, Wenzhou e Danyang, porcelana em Jingdezhen, enfeites de toda ordem em Yiwu e assim por diante. Ou porque uma cidade como Xangai passa a ter, de uma hora para outra, um número excessivo de lojas de vinho.
                  No extremo, avaliam os locais, a empresa destrói os concorrentes e se arrisca a quebrar junto para não perder a venda.
                  A cooperação empresarial, por sua vez, é reduzida ou nula. Frequentemente, dentro de uma holding, diferentes unidades produzem o mesmo item e concorrem entre si no mercado interno e nas exportações. É o caso das estatais produtoras de máquinas e bens pesados, como trens e equipamentos para aeroportos.
                  Quem já se engajou numa transação comercial na China viu que o preço envolve variáveis imperscrutáveis. Nos mercados tradicionais de rua, onde a barganha funciona, já se sabe de antemão que cada comprador desembolsa um montante diferente pelo mesmo item.
                  A prática, no entanto, vai além das feirinhas urbanas. Há diversos mercados atacadistas no país. É comum compradores de fora os frequentarem à cata de alguma barganha para importar. Os atacadistas sabem quem é do ramo e precificam de acordo com o cliente, não com o produto que é vendido.
                  Como, em geral, os artigos chineses ainda são relativamente baratos, os importadores saem satisfeitos. Mas quem entende a lógica pode obter melhor resultado.
                  Só vai aqui um conselho: caso se torne amigo do vendedor e algum dia seja convidado para o casamento de sua filha, pergunte primeiro qual é a tabela local. Errar no montante que vai no envelope pode destruir a perspectiva de negócios futuros.