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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Rubens Ricupero

folha de são paulo
Domando o poder americano
A tendência inelutável do poder, ensinavam os teóricos do realismo, é jamais ficar ocioso
Caía sobre Washington uma chuvinha melancólica no dia em que Nixon renunciou. Confesso que me emocionei com o adeus daquele homem que tinha sido o mais poderoso do mundo e perdia tudo por haver abusado do poder na Guerra do Vietnã e no escândalo de Watergate.
A reação do país aos abusos foi indignada e vigorosa. O Congresso impôs limites estritos às operações clandestinas no exterior --contra Angola, por exemplo. No Senado, uma comissão presidida pelo senador Frank Church, que morreria prematuramente, investigou as sistemáticas violações de direitos pelas agências de inteligência.
Praticamente tudo o que agora causou espanto nas revelações de Edward Snowden já tinha vindo à luz nos depoimentos à comissão. Soube-se que a quase desconhecida National Security Agency (NSA) possuía de longe o maior orçamento das 16 agências americanas de inteligência. Sua missão era, já então, monitorar todas as comunicações telegráficas e telefônicas, decifrando os códigos das embaixadas estrangeiras, cujas sedes eram violadas por agentes disfarçados de funcionários das empresas de telecomunicação ou de operários incumbidos de reformas.
Eu era conselheiro de nossa missão nos EUA e lembro que mandamos todas as informações ao Itamaraty. Quando voltei como embaixador, em 1991, assumi como hipótese que tudo o que eu dizia ao telefone ou transmitia ao Brasil, cifrado ou não, poderia ser facilmente interceptado, dada a superioridade dos meios tecnológicos americanos.
Aproveitei a situação para criticar em linguagem não diplomática o que me parecia absurdo na política exterior de Washington (em particular, a campanha de subversão contra o governo legal e eleito de Angola e o apoio à guerrilha da Unita, de Jonas Savimbi). Nunca acreditei que a lei aprovada pela comissão do Senado proibindo as escutas e violações tivesse sido obedecida.
De qualquer modo, a questão se tornou acadêmica ao se adotar o Patriot Act, legislação antiterrorista de 2001, após os atentados às Torres Gêmeas. De novo o pêndulo se moveu em favor de privilegiar a segurança em detrimento da privacidade e dos direitos individuais.
Desta vez foi pior do que 40 anos atrás. O desastroso epílogo da Guerra do Vietnã e o choque com os métodos criminosos de Watergate haviam desmoralizado a justificativa das agências de espionagem. A sociedade americana, quase de forma unânime, condenou o recurso abusivo a operações clandestinas.
Hoje duvido que a maioria americana, traumatizada duravelmente pela ameaça do terrorismo islâmico, opte por abrir mão da espionagem cibernética devido às revelações de Snowden. Assim como não vai querer renunciar aos "drones" para matar à distância, de modo seguro, terroristas reais ou supostos.
A tendência inelutável do poder, ensinavam os teóricos do realismo, é jamais ficar ocioso. Domar o poder por meio de estritos freios legais é a essência do processo civilizatório. Contudo, como voltamos a ver, inclusive em prejuízo do Brasil, convém não se fiar nas promessas e lutar para que a lei internacional possa um dia submeter efetivamente o arbítrio dos poderosos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Rubens Ricupero

folha de são paulo
Cinzas e diamante
Francisco ocupa vácuo de lideranças, principiando com aquilo que os políticos evitam: a autocrítica
Parte do encanto que emana do papa Francisco se deve ao contraste com o deserto de liderança que o mundo atravessa. Prova disso se encontra na própria Roma, da qual é o bispo, título que prefere por razões ecumênicas. Lá, a Justiça acaba, sem apelo, de condenar Berlusconi, quatro vezes primeiro-ministro.
Como foi possível que se degradasse tanto o posto antes ocupado por De Gasperi e Aldo Moro? Um dos amigos diletos do réu italiano de incontáveis processos é Putin, que sobrou como destroço do naufrágio de 70 anos da mais radical das revoluções, a que pretendia criar o "homem novo".
Itália e Rússia são casos extremos, mas não únicos. O que é Angela Merkel, comparada a Adenauer ou Willy Brandt? Ou Hollande, cotejado a De Gaulle e a Mitterrand; Cameron, a Churchill; Mariano Rajoy ao pacto de Moncloa e a Felipe González? Países que, tempos atrás, tiveram governantes influentes como o Canadá de Trudeau ou a Suécia de Olof Palme mergulharam no completo anonimato.
A China se especializa numa série infindável de clones com o mesmo terno escuro e igual gravata vermelha. O 3º Mundo, que estreava com Nehru, Nasser, Tito, Sukarno, descambou para a irrelevância. Ho Chi Minh virou nome de cidade. A ONU, o FMI, o Banco Mundial, antes dirigidos por personalidades fortes, foram entregues a gente que ninguém conhece. Do Brasil, cuja vida pública se ilustrava com Tancredo, San Thiago Dantas, Ulysses, para só mencionar alguns mortos, nem preciso falar.
As causas podem ser muitas e complexas, mas é inegável que se trata de mediocrização sem precedentes talvez. Nos anos 1930, surgiram lideranças políticas poderosas embora altamente malignas: Hitler, Stalin, Mussolini. Hoje, nem isso.
Deixei para o fim Obama, o caso mais espetacular de frustração de expectativas desde John Kennedy. Pode ser que no futuro os historiadores julguem que ele tenha sido injustiçado; que a diferença de circunstâncias não teria permitido a reprodução do New Deal e o aparecimento de um segundo Franklin Roosevelt. O fato, porém, é que para muitos de seus eleitores ou entusiastas, dentro e fora dos EUA, o presidente é uma decepção.
A frustração vem de muita coisa: a timidez da reforma financeira, o fracasso em reverter a escandalosa concentração de renda, a escolha para postos principais dos homens de Wall Street responsáveis pela crise, o programa de assassinatos a distância e agora a espionagem de tudo e de todos no melhor estilo Big Brother.
Sobram a Obama os instrumentos do poder duro: drones para matar sem risco ou meios eletrônicos para espionar. Apesar do absurdo Nobel da Paz que lhe deram adiantado, faltam-lhe os elementos intangíveis da liderança moral e de ideias.
É esse vácuo que Francisco passa a ocupar, principiando com aquilo que os políticos evitam: a autocrítica rigorosa. A denúncia da "globalização da indiferença", o convite para ir em socorro das periferias, geográficas e existenciais, o exemplo dos gestos concretos, o conceito de poder como serviço são mais que uma promessa. Um diamante começa a brilhar em meio às cinzas.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Rubens Ricupero

folha de são paulo
Que falem os fatos
Por trás dessa aparente improvisação do papa Francisco, existe método e coerência
É pela revolução silenciosa dos atos e gestos de cada dia que o papa Francisco vem mudando a Igreja Católica de modo radical e profundo. Não houve relatório bombástico como o de Khruschov no 20º Congresso do Partido Comunista soviético. Tampouco se anunciou novo concílio ecumênico, como fez o papa João 23. Até agora, ninguém ouviu do papa um discurso programático de reforma.
Nesse particular, seu comportamento parece inspirado, mais que em são Francisco, num dos primeiros franciscanos, santo Antônio. Num sermão, dizia este: "A palavra é viva quando são as obras que falam. Cessem, portanto, os discursos e falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras".
Palavras e gestos são simples. Numa manhã, o papa diz na missa, na presença dos funcionários do banco do Vaticano, que São Pedro nunca teve conta bancária... no dia seguinte, desculpa-se por não ir ao concerto onde deveria sentar-se em poltrona majestática isolada dos demais e explica: "Não sou um príncipe da Renascença!". Nas palavras dirigidas aos bispos italianos, censura o "mundanismo", o "carreirismo eclesiástico", lamenta os bispos que se portam como "funcionários preguiçosos". Depois, abraça um a um...
Os tradicionalistas denunciam que ele "fa il parocco, non fa il papa", isto é, que age como pároco de aldeia, que ameaça dessacralizar a função papal ao recusar habitar os apartamentos pontifícios e passar férias em Castel Gandolfo, ao preferir singeleza na liturgia, pondo de lado paramentos e ritos elaborados, ao morar em hotel, tomar refeições junto a outras pessoas e não no esplêndido isolamento onde se tramam as conspirações de mordomos e cortesãos.
Mas que ninguém se engane. Por trás dessa aparente improvisação, existe método e coerência. Tudo --atos, decisões, opiniões-- aponta na mesma direção: pobreza evangélica, serviço dos outros, sobretudo dos mais pobres, dos que habitam as periferias do mundo e da vida, exigência de conversão radical, de esforço para aliviar a dor e o sofrimento.
Num de seus livros, sugere como se deu sua própria conversão: "Os padres das periferias e das favelas impuseram uma transformação nas mentalidades e no comportamento das autoridades eclesiásticas".
O diretor do jornal do Vaticano captou assim os quatro eixos da mensagem de Francisco: "Falar de Deus em termos de misericórdia e ternura; exigir o engajamento cristão concreto; trabalhar na simplificação de si mesmo e da igreja; voltar-se às pessoas que estão na periferia do cristianismo".
Não há nada de melífluo ou piegas nesse programa. Muito mais árduo do que o discurso do moralismo sem compaixão é colocar a vida a serviço dos outros. É o programa de Teresa de Calcutá e Francisco de Assis. Quantos, crentes ou não, são capazes de segui-lo?
A visita ao Brasil e o encontro com a juventude oferecem ao papa a primeira oportunidade de sair da praça de São Pedro e enfrentar os desafios contemporâneos. No momento em que se extingue Mandela, o último herói de um mundo desesperançado, o que dirá Francisco aos jovens vindos de toda a parte e em especial aos jovens brasileiros que nas manifestações deram voz à esperança?

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Rubens Ricupero

folha de são paulo
Tirar os índios da praia
As respostas dos governos aos protestos tiveram apenas objetivo de comprar a volta à normalidade
As respostas dos governos aos protestos tiveram apenas objetivo de curto prazo: comprar a volta à normalidade a qualquer preço. Lembram a explicação de Brizola, no exílio em Lisboa, em entrevista na qual Hermano Alves se surpreendia com a moderação de seus propósitos: "Tenho primeiro de tirar os índios da praia para poder desembarcar!".
Suspender o aumento das tarifas era o mínimo denominador comum das manifestações e foi o único pedido atendido. Não resolve nada no longo prazo nem garante a melhora dos transportes públicos. Intelectuais estrangeiros como Castells elogiam o espírito democrático dos governantes brasileiros, contrastando-o com a obstinação dos turcos.
Confundem com o desejo de atender à população o que pode não passar de maneira diferente de dizer não. Afinal, adiar as soluções práticas equivale à negação.
Se não é assim, por que não fazer logo o que depende só da decisão do Executivo? A bandeira mais frequente após o preço das passagens era o protesto contra a prioridade errada de estádios faraônicos.
Admitindo-se a dificuldade do governo em confessar que o melhor teria sido construir hospitais e facilitar o transporte, restava algo fácil e à mão. Bastava anunciar que recursos fantásticos reservados à mais mentirosa das prioridades --o trem-bala-- seriam destinados à construção de metrôs e trens suburbanos.
Ora, o que se fez foi o contrário: reafirmar o enlouquecido projeto rejeitado por virtual unanimidade do país. O governo confirma que suas prioridades continuam tão confusas como antes. Prova de que não houve contrição, nem desejo sincero de emenda, é que, na mesma semana, renovaram-se as manobras da contabilidade criativa para dissimular aumento de gastos e da dívida pública bruta.
Portanto, omite-se o que apenas depende do Executivo. Em lugar de medidas simples e imediatas, embarca-se o Congresso e a população no mais complexo e demorado dos desafios: a reforma do sistema político. Ainda se por milagre a reforma sair perfeita, os efeitos sobre a mobilidade urbana ou melhorias na saúde e educação serão, na melhor das hipóteses, indiretos e tardios.
O pior é renovar a velha ilusão brasileira de esperar da reforma política mais do que ela pode dar, o que vem gerando frustração desde o Ato Adicional e a Lei Saraiva do Império. As propostas do plebiscito são insuficientes. Lidam com problemas do passado. Nos países onde tudo isso já existe há muito tempo, discute-se como superar a crise da democracia representativa mediante meios diretos de controle e participação. Para esse problema atual da era das redes sociais e da internet, o plebiscito nada sugere.
Tampouco serve para evitar gastos da verba pública com estádios superdimensionados, motivados por um projeto triunfalista de poder. Ou para impedir falsas prioridades como o trem-bala, contabilidade criativa, inflação de ministérios inúteis e outros produtos de governos incompetentes.
O que obriga a uma conclusão: o plebiscito é uma fuga para frente, isto é, não podendo ou querendo fazer o possível agora, dilui-se o desafio na geleia geral das coisas remotas e impossíveis.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Rubens Ricupero

folha de são paulo
Fantasia desorganizada
Se nossos jovens quiserem purificar o sistema político, eles terão de canalizar a insatisfação para as eleições
Não é com as Diretas Já ou o Fora Collor que se parecem as manifestações atuais.
Aquelas iniciativas foram enquadradas e dirigidas por líderes políticos. Possuíam objetivo único e bem definido: o fim da ditadura, o fim de um presidente. Visavam, no fundo, substituir os que detinham o poder.
O movimento de agora é um primo pobre e muito longínquo de Maio de 68. Não apenas na maciça participação de jovens e estudantes, na caótica desorganização (Maio de 68 era bem mais estruturado), na rejeição do sistema político.
As maiores semelhanças são de essência: não querem conquistar o poder, mas, num caso, o de 68, "mudar a vida", no outro, "mudar o Brasil".
O Movimento Passe Livre é muito mais prosaico no ponto de partida: o protesto contra o aumento das passagens. Se desta vez o protesto "pegou", foi porque o descaso com a inflação provocou o agravamento dos conflitos distributivos, como dizem os economistas.
O MPL não tem nem de longe a radicalidade universal do sonho utópico de Maio de 68. Tampouco se compara com os parisienses no sopro poético de buscar no Manifesto Surrealista a inspiração para inesquecíveis slogans como: "Seja realista: exija o impossível!".
Não obstante, os manifestantes brasileiros não carecem de virtudes estimáveis. Restabeleceram o exercício direto da cidadania, demonstraram que o mar de corrupção não afogou a consciência moral dos jovens, revelaram senso de hierarquia de valores e prioridades superior ao de um governo empenhado em anestesiar os cidadãos com o desperdício circense da Copa.
Onde os nossos jovens se meteram num beco sem saída foi na rejeição em bloco de toda a política. Se quiserem purificar o sistema político, terão de enfiar as mãos na massa, canalizar a insatisfação para as eleições, único meio legítimo de conquistar o poder e mudar a sociedade.
Os discípulos de Marcuse não queriam virar governo por crerem que todo poder é dominação e alienação. Condenaram-se à impotência e ao niilismo: não é de surpreender que tenham dado lugar aos movimentos terroristas dos anos de chumbo.
Nosso movimento é uma manifestação a mais da crise mundial da democracia representativa. A saída, porém, está em construir mecanismos de participação direta que corrijam os desvios do sistema. Como, por exemplo, o "recall", a revogação do mandato pelos eleitores.
Não será fácil, mas um foco claro como esse é mais exequível do que esperar que um sistema irremediavelmente sórdido e corrupto se reforme sem pressão irresistível do povo.
A euforia das passeatas, a intoxicação de se sentir ator e sujeito do próprio destino, traz de volta o que ensinavam os gregos: a mais nobre expressão da vida humana é participar do governo da cidade. Para isso, é preciso ter, como dizia Celso Furtado, uma "fantasia organizada".
Não se pode ter manifestação sem itinerário, sem segurança que elimine os provocadores, sem respeito à liberdade e propriedade alheia.
Na falta disso, cai-se no "espontaneismo". Na Espanha, espontâneo é aquele entusiasta de tourada que salta na arena para tourear com o paletó. Quase sempre acaba em tragédia e chifrada...

segunda-feira, 10 de junho de 2013

250 anos de José Bonifácio - Rubens Ricupero

folha de são paulo
250 anos de José Bonifácio
Ao fazer a independência possível e sonhar o Brasil moderno, Bonifácio tornou-se 'o primeiro brasileiro'
O melhor do que o Brasil é hoje e boa parte do que ele ainda não conseguiu ser se deve à herança ou ao sonho de um homem nascido no dia de Santo Antonio, 250 anos atrás, na vila de Santos. José Bonifácio não foi apenas um dos primeiros a perceber que a independência se tornara inevitável. No momento decisivo, os 18 meses entre janeiro de 1822 e julho de 1823, foi quem a fez possível, criando o Estado brasileiro sob a forma da monarquia constitucional moderada e centralizada.
Sabia que só o comando de um príncipe garantiria ao novo poder a legitimidade capaz de desarmar resistências e evitar a tragédia de guerras atrozes como as que esfacelaram a unidade da América espanhola. No imenso território então chamado de "os Brasis" em razão da diversidade e da falta de comunicação, não tardariam a surgir os caudilhos que retalhariam entre si o patrimônio nacional.
Não se fiando apenas na autoridade de Pedro 1º, organizou o Exército e criou a Marinha com os quais foram submetidas tropas portuguesas na Bahia, no Maranhão e no Pará. Em estudo sobre sua atuação como primeiro chanceler, o diplomata e historiador João Alfredo dos Anjos demonstrou que Bonifácio antecipou a união latino-americana ao propor aliança defensiva do continente contra o colonialismo europeu. Não aceitou pagar concessões humilhantes pelo reconhecimento, como depois o fez o imperador.
Na última conferência que proferiu, em Paris, pouco antes de morrer, José Guilherme Merquior lembrou que Bonifácio sonhou o primeiro projeto de Brasil moderno. Propunha extinção do tráfico de escravos e abolição da escravidão, tratamento humano e integrador para com os índios, divisão dos latifúndios em pequenas e médias propriedades. Original como cientista num continente de militares e advogados, dedicava espaço prioritário no projeto à abertura de minas, à promoção da siderurgia e da metalurgia, ao fomento da indústria por meio de financiamento do Banco do Brasil.
Seus escritos de advertência contra a destruição das matas e os métodos predatórios da agricultura conservam atualidade e poderiam ser usados no debate sobre o Código Florestal. Antevia, no futuro, um povo unificado pela miscigenação e civilizado pelo acesso à educação. Como observou sua biógrafa Miriam Dolhnikoff, traçou o retrato do que o Brasil ainda não deixou de ser ao afirmar que "A maior corrupção se acha onde a maior pobreza está ao lado da maior riqueza".
Com tais ideias, comentou Joaquim Nabuco em "O Abolicionismo", não poderia mesmo durar no poder. Os setores ligados à propriedade escravocrata que dominariam o país nas décadas seguintes abominavam a coerência do homem que se orgulhava em carta de construir sua casa só com trabalho livre e alugado.
Merece ser chamado de "o primeiro brasileiro", até no temperamento, nos gostos e na capacidade, conforme testemunhou Eschwege, de "dançar magistralmente o lundu africano"...
Ao iniciar-se a contagem regressiva para os 200 anos da independência, oxalá o Brasil faça finalmente jus ao sonho de José Bonifácio, completando o projeto que teve de deixar inacabado.

    segunda-feira, 27 de maio de 2013

    Rubens Ricupero

    folha de são paulo

    É inevitável o suicídio coletivo?


    Em 10 mil anos de história, é a primeira vez que a humanidade tem o poder de cometer suicídio coletivo. Era essa a tese central de Emmanuel Mounier em "O Grande Medo do Século 20".
    Publicado em 1947, o livro se referia à ameaça de uma catástrofe atômica, angústia constante na fase aguda da Guerra Fria entre EUA e URSS. Passaram-se 66 anos e conseguimos evitar o pior.
    Na época de Mounier não se sabia que os homens poderiam liquidar o mundo não só com bombas, mas com o aumento desenfreado da produção econômica e do abuso dos combustíveis fósseis. Quinze dias atrás, ultrapassamos o sinal amarelo no rumo da destruição. A atmosfera registrou 400 partículas de dióxido de carbono por um milhão.
    É preciso recuar 4,5 milhões de anos para encontrar concentração comparável. O clima era então muito mais quente, quatro ou cinco graus a mais em média. No ritmo atual, não existe nenhuma possibilidade de limitar o aquecimento global a dois graus como decidido em Copenhague. Se algo não mudar, vamos chegar ao fim do século com 800 partículas e mudança de clima de dimensões que ameaçam a sobrevivência da civilização tal como a conhecemos.
    A violação da marca simbólica de 400 por milhão não provocou nenhuma declaração ou alerta de chefes de Estado. Um dia depois, os jornais esqueceram o assunto e voltou-se ao dia a dia como se nada tivesse acontecido. Como explicar tal indiferença diante da morte anunciada que espera o mundo dos homens?
    O silêncio é inexplicável numa sociedade na qual a ciência substituiu a religião como crença unificadora. Ora, a ciência climática não permite dúvidas: de 12 mil estudos científicos sobre o tema em 20 anos, 98,4% confirmam as previsões!
    Há muitas explicações para a inércia. Uma delas tem a ver com a natureza da ameaça. Crises como a dos mísseis de Cuba em 1962 precisam ser resolvidas em horas ou dias. Se o presidente Kennedy tivesse hesitado, em poucos dias seria tarde demais. Já o desastre ambiental é como um câncer de expansão lenta: sabe-se que ele está lá, que se nada se fizer, a morte é inevitável. Mas não se sabe o dia nem a hora. Isto é, uma catástrofe em futuro indeterminado carece da força para precipitar soluções difíceis.
    O provável por isso é que só haverá ação decisiva para evitar o colapso definitivo depois de uma sucessão de calamidades espantosas. Quando isso suceder, muitas das consequências já se terão tornado irreversíveis como o derretimento das geleiras, a elevação do nível dos oceanos, a inundação de cidades, a desertificação, a extinção de milhares de espécies.
    Toynbee lembrava num dos seus últimos livros que nisso os homens deveriam invejar insetos como as formigas, condicionados do ponto de vista psicossomático a agir coletivamente por instinto de sobrevivência. Estudo recente comprovou que os peixes já estão migrando para o norte em busca de águas mais frias. Enquanto isso, os seres humanos se deslumbram com o avanço em produzir e queimar mais gás a partir do xisto...
    A razão talvez esteja com o poeta T.S. Eliot: o mundo acaba não com um estrondo, mas com um gemido.
    rubens ricupero
    Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento), ministro da Amazônia e do Meio Ambiente, ministro da Fazenda (governo Itamar), embaixador em Genebra, Washington e Roma. Escreve quinzenalmente, aos domingos, na versão impressa de "Mercado".

    segunda-feira, 13 de maio de 2013

    Deveres da vitória - Rubens Ricupero

    folha de são paulo

    Deveres da vitória
    Seria absurdo pretender que a obediência à OMC impeça o Brasil de desejar um comércio saudável
    A vitória dá direitos, ao contrário da frase bem intencionada de um estadista do Império. Mas ela também cria deveres, como terá de reconhecer o governo brasileiro em decorrência da campanha para eleger o embaixador Roberto Azevêdo como diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).
    É óbvio que, ao persuadir a maioria dos membros da organização de que o candidato brasileiro é o melhor para concluir com êxito as negociações comerciais paralisadas, o Brasil contraiu o dever moral e político de ajudar o diretor eleito a tornar possível esse objetivo.
    Terá de voltar à postura proativa que assumiu em julho de 2008, quando, junto da União Europeia, propôs fórmula de compromisso em agricultura que teria permitido fechar as negociações.
    Caso a proposta não tivesse sido sabotada pelos EUA de um lado e pela Índia do outro, o país teria tido ganhos em agricultura, mas seria obrigado a fazer concessões em indústria e serviços. À luz do agravamento da crise de competitividade da indústria nesses cinco anos, seremos ainda capazes de renovar as ofertas daquele tempo?
    Não é o que indica a política comercial e industrial do governo, que vem multiplicando medidas contrárias, se não à letra do mandato de negociações, ao menos a seu espírito. Um exemplo é o aumento das tarifas de cem produtos; outro, as medidas de favorecimento a fornecedores nacionais. Tais decisões contrariam claramente a cultura de liberalização comercial e não discriminação que constitui a essência da identidade da OMC.
    Prova de que há gente no governo consciente do problema é o episódio relatado por Paulo Sotero em magnífico artigo no "Financial Times".
    Segundo o relato, um alto representante brasileiro numa organização internacional teria criticado a decisão de apresentar candidato à direção da OMC porque a "entidade representava um obstáculo à política industrial brasileira". Pode-se replicar que não são todas as políticas industriais que se chocam com a organização, mas é indiscutível que, no caso da brasileira, a frase reflete uma contradição real.
    O dever nascido da vitória nos obriga a conciliar a reconstrução da competitividade com as normas internacionais. Seria absurdo pretender que a obediência à OMC implique o sacrifício do legítimo desejo brasileiro de ter um comércio exterior saudável e competitivo. A conciliação desses dois objetivos é possível, exigindo, porém, que os setores do governo responsáveis por essas decisões deixem de marginalizar o Itamaraty no momento de definir políticas contestáveis e, além disso, ineficazes.
    Se a diplomacia brasileira dispõe de pessoas brilhantes como Azevêdo, que ajudou o país a ganhar as causas do algodão contra os EUA, do açúcar contra os europeus e agora obteve consagradora eleição, por que não utilizar esse conhecimento especializado no desenho de políticas compatíveis com a OMC?
    Ganhar a eleição não é um fim em si mesmo. Deve ser um meio para o Brasil demonstrar não só que tem prestígio, mas que é capaz de contribuir para desbloquear as negociações, restaurar a credibilidade da OMC e ajudar o mundo a recuperar o comércio e sair da crise.

      segunda-feira, 29 de abril de 2013

      Mudar, mas não tanto - Rubens Ricupero

      folha de são paulo

      Governos de desempenho econômico melhor que o social e sem reeleição têm sido derrotados
      O vencedor da eleição para suceder a Hugo Chávez foi o próprio Hugo Chávez, conforme observou um analista americano. Isto é, não só a apertada vitória de Maduro se deve ao voto de simpatia decorrente da morte do líder venezuelano. Também no sentido de que a campanha do opositor Capriles foi em boa parte pautada pela agenda chavista.
      Capriles deu à sua equipe o nome de Simon Bolívar, enxertou em seus discursos frases e símbolos chavistas, declarou que seu modelo é o presidente Lula! Mais importante, prometeu manter todas as missões sociais de Chávez (30 e tantas) e acrescentar outras, anunciou aumentos significativos para salários e aposentadorias. Estreitou assim de dez pontos para menos de dois a margem de derrota em relação a outubro de 2012.
      Esses fatos geralmente ignorados na maioria dos relatos jornalísticos sugerem que, em países pobres e marcados por desigualdade, o eleitor tende a conservar as conquistas sociais e limita o desejo de mudança à margem: corrigir excessos, retificar desvios.
      Isso vale até para a Argentina. Lá, segundo me dizem, aspira-se por uma espécie de Cristina Kirchner melhorada, sem a corrupção e o espírito de "vendetta". No caso argentino, haveria razão adicional. O profundo trauma de 2001 vacinou os argentinos contra as soluções extremas como a convertibilidade de Cavallo-Menem. Ninguém crê que tenha chance uma plataforma de negação total e mudança radical, um "tiro para matar o tigre" como o confisco da poupança de Collor. As pessoas querem melhorar, mas devagar, sem balançar o coreto.
      Se isso ocorre em dois países nos quais o agravamento da crise econômica e política já leva milhares de pessoas às ruas, o que dizer do Brasil, onde o processo de desgaste é mais recente e a sensação de bem-estar prevalece para a maioria? Aqui também tudo indica que o apetite por mudança não ultrapassa a proposta expressa na sentença "é possível fazer mais".
      Terá sido muito diferente o espírito da "Carta ao Povo Brasileiro" de 2002 e a campanha vitoriosa de Lula em garantir que os contratos seriam honrados e a estabilidade preservada?
      Na América Latina, os governos de desempenho econômico melhor que o social e sem reeleição (Peru, Chile, México) têm sido derrotados pelos opositores, que conservam, no entanto, a orientação econômica. Já os sociais e desastrados economicamente (Chávez, os Kirchner) ganham as eleições, mas aprofundam as políticas econômicas disfuncionais. Dessa maneira, o êxito eleitoral acaba sendo em longo prazo o bilhete para o desastre definitivo.
      O Brasil se parece cada vez mais à Venezuela e à Argentina. A afirmação choca porque estamos longe de falsificar a inflação ou perseguir a imprensa. Contudo, nos indicadores econômicos básicos --inflação e, sobretudo, acelerada deterioração das contas externas e da dívida bruta-- vamos pelo mesmo caminho.
      O atraso na crise e a demora na percepção pública favorecem as chances eleitorais do governo. A dúvida maior, portanto, é se após 2014 o país mudará para sustentar as conquistas sociais ou arriscará perder mais uma década de crescimento.

        segunda-feira, 15 de abril de 2013

        Médici às avessas - Rubens Ricupero

        folha de são paulo

        Os regimes sul-americanos mais identificados com as aspirações das massas têm piores índices econômicos
        "O Brasil vai bem, mas o povo vai mal", a frase com que o general Médici definiu o milagre econômico brasileiro, foi pronunciada quando o PIB chegava a crescer 14% ao ano em meio a aumento da desigualdade. Hoje, fica-se tentado a dizer que o povo vai melhor, enquanto vão mal o Brasil, a Argentina, a Venezuela.
        Sucede que esses países são justamente os que se definem pela prioridade de redistribuir e transferir renda. Haveria relação de causa e efeito entre redistribuição e queda do crescimento? Seria incompatível manter pleno emprego e inflação baixa, melhoras salariais e avanços em competitividade?
        Há uma coincidência perturbadora: os três regimes sul-americanos que melhor se identificaram às aspirações de melhoria de vida e dignidade das massas das periferias ostentam os piores indicadores econômicos da região. Em todos, o panorama se caracteriza por inflação em alta, crescimento em baixa, deterioração da posição fiscal e das contas externas, competitividade precária. Em compensação, seus índices sociais são tão favoráveis que até agora lhes vêm garantindo elevado apoio eleitoral, apesar da mediocridade da economia.
        Trata-se de mera coincidência ou uma coisa seria consequência da outra? Trágico seria se assim fosse. Não se justifica, porém, atribuir as falhas dessas economias às conquistas sociais. Não só porque Bolívia e Equador, de semelhante orientação social, conseguem números econômicos razoáveis. Ademais, Chile e Peru, menos ideológicos, também dependentes de commodities, combinam os resultados econômicos mais brilhantes do continente com avanços sociais comparáveis aos distributivistas.
        O desempenho insatisfatório dos maiores parece derivar, portanto, não de um compromisso maior com as causas populares, mas de defeitos no desenho e na execução de políticas públicas que se estendem além das estritamente econômicas.
        No Brasil, é o que se vê no vasto cemitério de desgoverno que vai da proliferação de ministérios ao atraso de obras bilionárias, da crise do programa do etanol ao retrocesso na matriz energética, da politização e corrupção das agências reguladoras à inexplicável obsessão do trem-bala. Como o dinheiro do trem aliviaria muito mais o sofrimento dos trabalhadores se aplicado em metrô e trens urbanos, o exemplo revela que a preocupação social está longe de ser decisiva.
        Esses governos erram pelos motivos usuais: incompetência, idiossincrasias e caprichos de dirigentes, excessiva indulgência com fisiologismo político, corrupção. Desculpá-los com nobres motivações sociais e ideológicas equivale a afirmar que o preço do combate à desigualdade e à pobreza passa pelo desgoverno e pelo desperdício. E constitui, no fundo, um desserviço a esses mesmos regimes.
        Com efeito, eles só se salvarão se corrigirem suas políticas e voltarem a crescer, a fim de assegurar a sustentabilidade dos avanços sociais.
        Do contrário, a combinação dos maus resultados econômicos com a saída de cena de Nestor Kirchner, Hugo Chávez e Lula cedo ou tarde encerrará mais um ciclo desapontador na história das frustrações sul-americanas.

        segunda-feira, 1 de abril de 2013

        Rubens Ricupero

        folha de são paulo

        Periferias existenciais
        Maior fenômeno social da América Latina, as periferias são para nós um mundo desconhecido
        É significativo que Hugo Chávez (1954-2013) e o papa Francisco coincidam na prioridade das periferias, geográficas ou existenciais.
        A extraordinária carreira do líder venezuelano se deve à intuição de que as periferias eram diferentes. Não se sentiam representadas pelos partidos e políticos tradicionais de classe média e alta.
        Os mesmos que, assustados pelo "caracazo", o violento protesto de 1989 contra o pacote do FMI, denunciavam: "Os macacos desceram dos morros"!
        As periferias constituem o maior fenômeno urbano e social da América Latina dos últimos 80 anos. Da cidade do México a Buenos Aires, das palafitas de Salvador e Recife à árida desolação de La Paz ou Lima, elas reúnem em condição precárias dezenas de milhões de migrantes e descendentes que jamais contaram com políticas públicas razoáveis de urbanização, transportes, educação e saúde.
        Tendo perdido a estrutura de proteção das comunidades rurais de origem, as periferias inventam novas formas de sociabilidade. Geram cultura própria, como se vê nos bailes funk e na música de nossa periferia. Possuem estética original, estilo inconfundível.
        Em religião, são pentecostais, evangélicos, preferem as pequenas igrejas de proximidade e acolhimento emotivo. Em política, libertados dos coronéis do interior, se identificam com líderes como Chávez ou Morales, mestiços ou índios como eles, pertencentes ao que os populistas russos do século 19 chamavam de "o povo escuro".
        Em 1961, o antropólogo Oscar Lewis escreveu "The Children of Sanchez", onde, a partir da trajetória de uma família miserável da periferia da Cidade do México, afirmava existir uma "subcultura da pobreza" capaz de criar valores e padrões de comportamento originais.
        O importante em Lewis não é sua teoria, mas ter chamado a atenção para a irredutível alteridade das periferias, para um fenômeno em que a diferença radical de condições materiais acaba por gerar culturas distintas da envolvente.
        Quase ninguém percebeu isso, nem os governos, nem as igrejas, nem os partidos, nem as universidades. Para nós, a periferia é um mundo mais desconhecido que a Amazônia.
        Conclamar a igreja a "ir às periferias" foi o discurso que elegeu o cardeal Bergoglio, segundo o cardeal de Havana. Não só as periferias geográficas, mas "as existenciais, do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e ausência da fé, de toda a miséria".
        Se não sai de si mesma, a igreja se torna autocentrada, adoece de mundanismo e narcisismo espiritual. É indispensável deixar de "viver em si, de si, para si" e ir para a periferia.
        Para o papa, a periferia é a situação limite, a fronteira do humano, a condição onde os valores se encontram sob ameaça. Francisco a descobriu na sua América Latina, mas ela hoje se expande na Ásia e na África, onde, a cada semana, mais de 1 milhão de pessoas trocam o campo pela cidade.
        Se o conselho é bom para as igrejas, para os governos, as universidades, os hospitais, ele é ótimo. A única questão é: será seguido?

          segunda-feira, 18 de março de 2013

          Rubens Ricupero

          folha de são paulo

          Dever de candidatura
          A escolha de Roberto Azevedo daria à OMC credibilidade ética e competência imparcial
          Mais que aspiração, a candidatura do embaixador Roberto Azevedo a diretor geral da Organização Mundial de Comércio (OMC) é dever incontornável. Nenhuma outra reúne condições comparáveis de credibilidade, competência e viabilidade para encarnar o que constitui moralmente e em termos de coerência o problema maior da organização: como tornar o sistema multilateral de comércio menos desequilibrado e desfavorável à maioria dos países em desenvolvimento?
          Várias razões concorrem para a paralisia e desgaste atuais da OMC e de sua Rodada Doha de negociações, que se arrastam há mais de dez anos sem esperança de conclusão. A crise econômica e seu destrutivo impacto no emprego geram o "sacro egoísmo" do nacionalismo protecionista. A revolução desestabilizadora provocada pela invasão chinesa dos mercados convida a uma atitude de esperar para ver.
          As disfunções do pesado sistema decisório não ajudam a construir consenso.
          Antes, porém, que esses motivos aparecessem existia já um problema continuamente postergado desde os anos 1960: a reforma do sistema comercial no sentido da correção dos desequilíbrios e injustiças que afetam, em especial, os países menos desenvolvidos.
          O conjunto dessas questões conforma o que se denomina de "agenda inacabada" das rodadas negociadoras do passado. Os dois componentes principais da agenda são a agricultura e a recusa de tratar os desiguais de maneira diferenciada.
          Em cada impasse das negociações, empurram-se esses desafios para futuro indefinido. Em Tóquio, a prioridade invocada foi o combate ao dumping. Na Rodada Uruguai, sacrificou-se tudo aos temas "novos": serviços, propriedade intelectual, investimentos.
          Desta vez, o pretexto é a necessidade de facilitar o comércio, isto é, as importações. Pode-se alegar que, no passado, não havia um compromisso de resolver a agenda pendente. Agora, contudo, essa agenda inacabada se confunde com a própria agenda oficial da Rodada Doha.
          Eu estava em Doha quando a rodada foi lançada em 2001 e posso atestar o que é amplamente conhecido: que os países menos desenvolvidos só aceitaram negociar mediante o compromisso explícito de que a agricultura e os problemas do desenvolvimento seriam a ênfase central do processo.
          Negar isso é renegar o compromisso, confirmando que a promessa e o nome de "rodada do desenvolvimento" não passavam de estratagemas para enganar incautos.
          Enquanto isso, nem os apertos da crise financeira nem a imposição de cortes (sobretudo sociais) foram capazes de levarem os Estados Unidos, a Europa e o Japão a reduzirem ou abandonarem os injustos subsídios à agricultura.
          Ora, ninguém contribuiu tanto à condenação jurídica dos subsídios americanos ao algodão e europeus ao açúcar, marcos culminante da afirmação do direito contra o arbítrio, como Roberto Azevedo, então chefe do contencioso do Itamaraty.
          Sua escolha daria à OMC a credibilidade ética e a competência imparcial para redimir a agenda inacabada e devolver à organização a relevância que perdeu.

          segunda-feira, 4 de março de 2013

          Rubens Ricupero

          folha de são paulo

          Signo de contradição
          Ao revelar sua fragilidade, Bento 16 alcançou mais corações que no uso dos meios do poder de papa
          Se vivemos em tempos sem fé e se a Igreja Católica é irrelevante e fala sozinha, segundo se apregoa, como explicar a fixação de manchetes de jornais e TV na renúncia de um papa octogenário?
          Em razão do ineditismo do gesto, da sensação criada por escândalos romanos, até se compreenderia o impacto do choque inicial.
          Mas, dia após dia, semanas a fio, o fascínio da história convida a buscar outros motivos.
          Um deles seria a carência de uma figura paterna, sobretudo em época pobre de grandes homens, quando os líderes são, por toda a parte, mornos e insossos. Mesmo desse ponto de vista, Bento 16 se enquadra de modo diferente.
          Ele não é, como o antecessor, um grande papa político, cujo papel enérgico teria sido decisivo na queda do comunismo.
          Tampouco tem aquele ar bonacheirão de avô bem humorado e contador de histórias de João 23.
          Seu jeito é mais do mestre escolar de sorriso tímido. Todo seu pontificado não foi mais que uma lição repetida com infinita paciência.
          Nisso me lembra Julius Nyerere, o fundador da Tanzânia, que conheci bem em Genebra. Um dos raros heróis da independência africana capaz de criar um país que superou os ódios tribais, Nyerere só aceitava um título -o de Mwalimu, o singelo professor que tinha sido e jamais cessou de ser.
          Nyerere ensinou que não é o exercício absoluto do poder que constrói, mas sim o exemplo da abnegação, a capacidade de se impor limites, de deixar o poder quando o julgavam insubstituível.
          Da mesma forma que seu vizinho Mandela, soube sair no momento em que todos queriam que ficasse.
          Não foram os grandes líderes da guerra e da paz -Churchill, Roosevelt ou de Gaulle- os gigantes morais que dominaram o século.
          O ensinamento do perdão e da reconciliação de Mandela e a pregação da não violência até o sacrifício da própria vida por Gandhi ou Martin Luther King se mostraram muito mais fecundos e duráveis que os efeitos do poder.
          Ninguém exerceu o poder de modo mais brutal e absoluto que Stálin, do qual nada ficou a não ser a maldição dos descendentes de suas incontáveis vítimas. O próprio ditador confessou, num instante de melancolia, que, no final, quem ganhava sempre era a morte.
          Ao confessar que em horas difíceis "o Senhor parecia dormir", ao revelar sua fragilidade, Bento 16 fez mais pela nova evangelização, alcançou mais corações que no uso dos meios do poder centralizado de pontífice.
          Abrir mão da "glória de mandar", da vã cobiça "dessa vaidade a quem chamamos fama", faz parte do processo pelo qual o grão de trigo tem de morrer para poder dar fruto.
          Sinal de contradição, Jesus legou à igreja a herança de continuar a ser a força dos fracos, a grandeza dos pequenos e humildes.
          Ao encarnar de novo o signo de contradição, Bento 16 nos dá esperança de que tinha razão François Mauriac ao dizer pouco antes de morrer: "Às vezes penso que somos os últimos cristãos, mas depois me pergunto -será que somos os últimos cristãos ou seremos os primeiros?"

            segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

            Rubens Ricupero

            folha de são paulo

            Iguais aos Bourbons
            Como a realeza do Antigo Regime, governos dos EUA e da Europa pouco ou nada aprenderam com a crise
            "Os Bourbons", escreveu Napoleão no começo dos Cem Dias, "não esqueceram nada e não aprenderam nada." Referia-se às lições da Revolução Francesa e tinha razão: com a queda de Carlos 10º, 15 anos depois, os Bourbons desapareciam para sempre da história da França.
            Os governos dos EUA e da Europa são iguais aos Bourbons: pouco ou nada aprenderam com a crise financeira. Quando provocaram a crise, os cinco bancos "grandes demais para quebrar" possuíam ativos correspondentes a 43% da economia americana. Inexplicavelmente, o governo deixou que chegassem agora a 55%, aumentando ainda mais o risco sistêmico!
            Em cada aniversário da crise, a tônica dos comentários é de surpresa com o tempo que está durando essa incerta superação. A mim o que espanta é outra coisa: a ausência quase total de mudanças significativas, como as realizadas por Franklin Roosevelt durante a Grande Depressão dos anos 30. As poucas reformas introduzidas na lei bancária dos EUA se encontram em permanente perigo de revogação devido ao poder do lobby financeiro.
            No âmbito internacional, o G20 se viu condenado à irrelevância pela recusa de americanos e ingleses de permitir que ele se ocupe de sua razão de ser: a regulamentação de derivativos e produtos financeiros tóxicos, a reforma da arquitetura financeira com vistas a evitar a repetição de crises similares.
            Como nada se fez para eliminar os incentivos aos bancos para assumirem riscos excessivos, os escândalos se repetem a cada dois ou três meses. Já não se trata dos esqueletos escondidos de antes da crise; agora, as estafas nascidas da inesgotável criatividade criminosa dos bancos pertencem todas ao período pós-crise. Uma das últimas, inimaginável até sua recente exposição, consistiu na conspiração de alguns dos maiores bancos mundiais para manipular a taxa Libor em escala planetária!
            Nenhum dos celerados foi julgado e enviado à prisão; nenhum dos bancos admitiu culpa. Todos se safaram pagando multas bilionárias que não será difícil recuperar. Os governos de Washington e Londres, palmatórias do mundo em matéria de hipócrita condenação seletiva de delitos alheios, rivalizam no zelo suspeito de enterrar os escândalos sem julgamento público!
            Os Bourbons sonhavam em voltar à "doçura de viver" pré-Revolução. Seus sucessores sonham com a "normalidade" pré-crise. Esquecem que, da mesma forma que a "doçura" do Antigo Regime, a "normalidade" do atual se ampara em três monstruosidades: desigualdade crescente, desemprego maciço e destruição do equilíbrio climático.
            Um quarto dos empregos nos EUA paga salários abaixo da linha de pobreza. O desemprego na Europa atingiu 12%, 25% na Espanha e na Grécia, 60% entre os jovens!
            Não é só o aquecimento global que constitui a maior falência de mercado da história, nas palavras do relatório Stern. A desigualdade e o desemprego não ficam atrás.
            Querer resolver com maiores doses de mercado três problemas derivados de falhas de mercado é repetir a suicida incapacidade bourbônica de esquecer privilégios e aprender com as lições da história.

              segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

              Rubens Ricupero

              FOLHA DE SÃO PAULO

              Chavismo sem Chávez?
              Socialdemocracia do século 19 na Europa e populismo na América Latina têm o mesmo papel histórico
              O chavismo resistirá à morte de Chávez? Analistas europeus e americanos tendem a achar que não, ao passo que na América Latina os comentaristas se inclinam pela permanência. Por que a diferença? A resposta se encontra na divergência de experiências com líderes carismáticos.
              O problema desses líderes, dizia Max Weber, reside em que o carisma é pessoal e não se transmite. Alguns populistas em países avançados chegaram a conquistar quase 14% em eleições (o ex-governador de Alabama George Wallace) ou como Poujade ou Le Pen ameaçaram transtornar o equilíbrio político da França. Em nenhum caso, porém, alcançaram o poder e depois de pouco tempo se evaporaram.
              Já Vargas no Brasil, Perón na Argentina e Haya de La Torre no Peru continuaram a pairar sobre a política décadas após a morte. O caso brasileiro talvez seja único.
              Aqui a eficácia eleitoral do partido fundado pelo antigo chefe, o PTB e suas ramificações, só se esgotou quando um líder popular mais novo como Lula ofuscou o brilho dos herdeiros diretos.
              Na Argentina, onde nunca surgiu um sucessor à altura de Perón, sua herança se revelou tão avassaladora que hoje praticamente nenhum partido ou grupo pode aspirar ao poder se não se proclamar peronista, ao menos de boca.
              Na América Latina, como já se observou, o populismo desempenhou o mesmo papel histórico encarnado na Europa do século 19 pela socialdemocracia: o de servir de canal para a ascensão das massas populares surgidas da urbanização e da industrialização.
              A lealdade a movimentos como o peronismo não é muito diferente da fidelidade que os assalariados europeus demonstraram até data recente pelos partidos socialistas que os representavam.
              Seria, portanto, arriscado subestimar o potencial de sobrevida do chavismo mesmo sem Chávez. Isso não quer dizer que os sucessores não venham a enfrentar derrotas por faltar o carisma, o gênio tático do fundador ou por efeito da desorganização da economia. Os altos preços do petróleo possibilitaram ao chavismo beneficiar as maiorias; a incompetência e o desperdício, no entanto, esticaram a corda até perto da ruptura.
              A afirmação de um novo ator social e político sempre provoca desestabilização, pois se faz à custa de posições e privilégios de outros. Seu caráter mais ou menos violento ou penoso depende da capacidade desses outros em acomodarem o inevitável. Na Venezuela, o processo tem sido mais polarizado e radicalizado que no Brasil, mas no fundo o desafio é o mesmo.
              Nada pode deter por muito tempo os setores emergentes que aspiram por reconhecimento da própria dignidade e melhoria tangível nas condições de vida.
              Mais determinante do que as pessoas dos líderes e seus carismas, é a necessidade histórica e a base social que sustentam tais movimentos. Getúlio, Goulart, Brizola, Lula passam, da mesma forma que Perón, Evita, Chávez: o que permanece é uma exigência de ascensão dos que eles bem ou mal representam.
              Pode-se não gostar desses líderes, mas se os novos atores populares se identificam com eles e não com os partidos que antes governavam, de quem é a culpa, das maiorias ou dos partidos que não souberam canalizar suas aspirações?

                segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

                Neorrealismo - Rubens Ricupero


                Folha de São Paulo
                Crise atual dá força à teoria segundo a qual crescimento rápido é exceção, não regra na experiência humana
                Ou será neopessimismo? O fato é que, no bojo desta crise interminável, ganham ar de verossimilhança as previsões de que o crescimento rápido é mais uma exceção do que regra na experiência humana.
                Contrariando a crença dos iluministas num progresso infinito e eterno, os dias felizes da expansão acelerada não voltariam mais.
                Houve uma onda parecida logo após os choques do petróleo que puseram fim aos "30 anos gloriosos" depois da Segunda Guerra Mundial. O retorno da estagnação e a instalação na Europa do desemprego estrutural alimentaram então especulações sombrias sobre o futuro.
                A fase coincidiu, não por acaso, com os chamados "anos de chumbo" do terrorismo europeu. Escrevendo nessa época, Fernand Braudel se perguntava em "Le Temps du Monde" se o primeiro choque petrolífero (1973) não marcaria o início da longa descida de um dos seus ciclos seculares de expansão.
                Passada a ascensão, iniciada em 1896, o ciclo declinaria por umas duas gerações até atingir o fundo do poço, mais ou menos meio século a partir de 1973.
                O que não se imaginou, foi o impacto que teria o vertiginoso crescimento da China por mais de 25 anos e o efeito dinamizador trazido pela revolução dos computadores, das telecomunicações e da internet.
                Tampouco se calculou, no lado negativo, o agravamento dos limites ocasionados pelo aquecimento global, subestimando-se igualmente a perda de dinamismo consequente ao colapso da demografia e o envelhecimento da população.
                Dos estudos recentes, o que mais faz pensar é "Is U.S. Economic Growth Over?", do professor Robert J. Gordon, que pode ser facilmente acessado na internet. A primeira versão é de 2006, não sendo assim produto da crise financeira.
                O autor estabelece vínculos entre períodos de expansão rápida e as inovações características das três revoluções industriais: 1ª) a das ferrovias, vapores e indústria têxtil, de 1750 a 1830; 2ª) a da eletricidade, motor de explosão, água encanada, banheiros e aquecimento dentro de casa, petróleo, farmacêuticos, plásticos, telefone, de 1870 a 1900; 3ª) a dos computadores, internet, celulares, de 1960 até hoje.
                A segunda teria tido importância superior às outras, garantindo 80 anos de acelerado avanço na produtividade. Desta vez Gordon receia que os Estados Unidos não sejam capazes de aproveitar o impulso de futuras inovações devido a seis problemas graves: demografia, desigualdade, educação deteriorada, obstáculos ambientais, competição da globalização e o peso da dívida dos particulares e do governo.
                O autor se limitou aos EUA e convidou estudiosos a compararem os resultados com suas experiências nacionais. No caso do Brasil, é óbvio que só agora a maioria da população começa a ter acesso às inovações da segunda e terceira revoluções industriais. Só isso nos garantiria boas décadas de expansão.
                Por outro lado, muitos dos obstáculos dos EUA nos afetam de modo agudo. Sem falar em educação, desigualdade ou competitividade, basta lembrar que o envelhecimento da população será aqui mais fulminante não só que nos EUA, mas até na Argentina e no Uruguai!