sexta-feira, 21 de junho de 2013

Marina Silva

folha de são paulo
Aprendizado essencial
Ninguém deveria estar surpreso, sabíamos que iria ocorrer. A internet ajuda a mudar tudo: a cultura, os negócios, as comunicações. Por que só a política não seria afetada?
Carlos Nepomuceno diz que três fatores ajudaram a transformar o mundo: a impressão em papel, a Revolução Francesa e a independência dos EUA. Eles compuseram a realidade de dois séculos e nos trouxeram até aqui, mas são insuficientes para configurar um mundo com 7 bilhões de pessoas e uma ferramenta que quebra as estruturas convencionais para intermediar a informação, a internet.
Tenho falado, aqui mesmo na Folha, daquilo a que chamo movimentos de borda. Eles se afastam do centro político estagnado, das instituições enrijecidas, das disputas por dinheiro e poder. Neles predomina um ativismo autoral, não mais dirigido por partidos ou lideres carismáticos. A presença destes é residual e produz incômoda sensação de oportunismo. Não há comando único, há relação horizontal e lideranças móveis: hoje lidero, amanhã sou liderado; hoje sou arco, amanhã sou flecha.
Esse ativismo não tem porto, carrega sua âncora e estaciona onde quer. Basta ver quantos sites temporários há na internet, usados numa mobilização ou num momento.
O essencial é perceber o que está latente. Não são os 20 centavos no Brasil, as árvores da praça na Turquia, ou qualquer demanda simbólica visível. O que está em pauta é a democratização da democracia. As pessoas não querem ser meros espectadores, lugar em que foram colocadas pelos partidos que detêm o monopólio da política. Querem ser protagonistas, reconectar-se com a potência transformadora do ato político.
Deve-se reconhecer esse desejo e respeitar o sujeito político que surge. Muitos se apressaram em desqualificar os novos movimentos, os abaixo-assinados, a campanha de defesa das florestas, a solidariedade aos índios, o "Fora Renan". Agora se esforçam para descobrir uma forma de interlocução, mas mantendo a ansiedade de liderar, usurpar, controlar.
Não basta dar 20 centavos para tirar o incômodo da sala. O que está havendo é significativo: no país do futebol, durante a Copa das Confederações, as pessoas protestam contra o custo dos estádios e dizem que queremos nosso dinheiro em saúde e educação.
O Brasil pode aprender a fazer diferente: nem transição eterna e lenta nem ruptura brusca, mas o diálogo produtivo e criativo da democracia ampliada. Temor de vandalismo? Ora, cultivemos uma cultura de paz. Prefiro sentir-me representada pelas pessoas que estão nas ruas, dizendo o que não querem, a exigir que tenham projetos definidos.
Não há salvadores da pátria, há homens e mulheres que trabalham juntos. Que seja este nosso aprendizado essencial, nossa maior mudança.

Leticia Sander

folha de são paulo
Navegar é preciso
RIO DE JANEIRO - No verão passado, o empresário Eike Batista seguiu o itinerário de nove entre dez novos ricos e, com um punhado de amigos, rumou para St. Barths, apelido de St. Barthélemy, uma charmosa ilha no Caribe, destino comum de endinheirados no verão.
Alheio ao alto luxo da rede hoteleira local, o empresário símbolo da ousadia da nova geração de empreendedores alugou um superiate e o ancorou. Os diversos andares, quartos, elevadores e a criadagem estavam à disposição de meia dúzia de amigos, numa noite reunidos à mesa para um jantar informal.
Presente, um publicitário brasileiro importante. A conversa teve um pouco de tudo, até que Eike surgiu com uma ideia: e se o publicitário o ajudasse a convencer a família Marinho a colocar numa próxima novela das nove da TV Globo o personagem de um empresário boa-praça, inspirado nele?
Passaram-se uns bons meses. Na semana passada, pela primeira vez, as ações da petroleira OGX, menina dos olhos do conglomerado X, chegaram a valer menos de R$ 1 nas Bolsas. Numa atitude raríssima para tentar acalmar o mercado, o empresário veio a público para anunciar o alongamento de suas dívidas.
É cada vez mais evidente que as coisas vão mal no mundo X, dos grandes aos pequenos empreendimentos, a despeito de toda a ajuda, pública inclusive, que o conglomerado recebeu nos últimos anos.
A cada semana, demissões e cortes de vagas são anunciadas ao mercado. O estilo Eike de gerenciar tem afastado executivos, e a desconfiança em torno de seus empreendimentos já é generalizada no mercado.
No fim das contas, o projeto de ir parar em rede nacional andou, mas não do jeito que o empresário gostaria. Nos protestos que varrem o Rio desde a semana passada, ele só fica atrás do governador e do prefeito. Malhados, todos os dias.

    Helio Schwartsman

    folha de são paulo
    Tarifa zero, um delírio?
    SÃO PAULO - O ônibus deve ser grátis? Embora a proposta de tarifa zero seja, muitas vezes, pintada como uma utopia de jovens desmiolados ou radicais, a pergunta faz sentido.
    Metrópoles desenvolvidas arcam com parte do custo do transporte público. Fazem-no não só por populismo dos políticos locais mas também para imprimir mais eficiência ao sistema. E, se a discussão se dá em termos de definir o nível ideal de subsídio, a gratuidade deixa de ser um delírio para tornar-se a posição mais extrema num leque de possibilidades.
    Defendo o realismo tarifário para quase tudo, mas há casos em que ele não funciona. O ônibus é um deles. Se o passageiro tivesse de pagar integralmente o valor da viagem, a tarifa aumentaria sempre que os custos subissem por fatores tão diversos como o dissídio dos motoristas e a piora do trânsito. Isso seria um incentivo a mais para o cidadão trocar o transporte público pelo carro particular, com impacto negativo sobre o tráfego. O resultado é um círculo vicioso em que todos andamos mais devagar.
    O remédio é criar estímulos para as pessoas deixarem o carro em casa e usarem o transporte coletivo. O mais óbvio deles é o preço. Viajar de ônibus tem de ser bem mais barato do que de carro. Se for mais rápido também, melhor, daí a necessidade dos corredores exclusivos. Outro mecanismo eficaz é o pedágio urbano, mas ainda não surgiu prefeito macho o bastante para adotá-lo.
    Apesar dessas considerações, sou contra a tarifa zero, porque ela traz uma outra classe de problemas que já foi bem analisada pelo pessoal da teoria dos jogos: se não houver pagamento individual, aumenta a tendência de as pessoas usarem ônibus até para andar uma esquina, o que é ruim para o sistema e para a saúde. A passagem barata é preferível à grátis.
    Para complicar mais, vale lembrar que a discussão surge no contexto de prefeituras com Orçamentos apertados e áreas ainda mais prioritárias como educação e saúde para atender.

      Editoriais FolhaSP

      folha de são paulo
      Além da linha vermelha
      Ao menos na retórica, o presidente americano, Barack Obama, aumentou a pressão sobre o ditador da Síria, Bashar al-Assad.
      O governo dos Estados Unidos afirmou na semana passada que o regime sírio cruzou uma "linha vermelha" ao usar armas químicas contra os rebeldes. De 100 a 150 pessoas teriam morrido em ataques com o gás sarin (agente paralisante que dificulta a respiração).
      Em resposta, um conselheiro de Segurança Nacional dos EUA anunciou que o país aumentará a ajuda aos insurgentes sírios. Ainda em 2012, Obama havia dito que passar daquela linha seria inaceitável.
      Embora não esteja claro como esse auxílio será incrementado, parece certo que o tom mais assertivo de Washington é um aviso para Vladimir Putin, presidente da Rússia e principal aliado de Assad.
      Em maio, as duas potências haviam acordado a realização de uma conferência de paz sobre a Síria, mas o encontro continua sem data marcada. A indefinição favorece Assad, que tem obtido vitórias contra os revoltosos, e Putin, fornecedor militar de Damasco.
      Nesta semana, Obama e Putin tiveram encontros tensos na reunião de cúpula do G8. Por pressão da Rússia --único membro do grupo a apoiar o regime sírio--, o documento sobre os confrontos não fez menção direta a Assad. Houve apenas a promessa vaga de incentivar uma solução negociada.
      Com o conflito aparentemente longe de terminar, cresce a expectativa quanto ao novo apoio militar americano em favor dos rebeldes. Zonas de exclusão aérea poderiam funcionar, mas a venda direta de armas aos insurgentes tornou-se uma operação arriscada.
      Se armas leves resultariam inócuas diante do arsenal sírio, as pesadas poderiam cair em mãos erradas. Uma das forças na fragmentada oposição a Assad tem vínculos com os terroristas da Al Qaeda.
      Sem um acordo, o fracasso diplomático se traduz em mais mortes nas zonas de confronto. Segundo estimativa da ONU, já são 93 mil vítimas desde que os combates começaram, há 27 meses. Um ano atrás, eram 10 mil mortos.
      Mais de duas décadas após o fim da Guerra Fria, Moscou e Washington poderiam empenhar-se mais para dissolver conflitos em que se posicionam de lados opostos --a exemplo da promessa de redução do arsenal atômico feita anteontem por Obama em Berlim.
        EDITORIAIS
        editoriais@uol.com.br
        Ressaca monetária
        Dólar sobe no mundo todo após anúncio de reviravolta do Fed, e efeito no Brasil se agrava com as deficiências da política econômica de Dilma
        Se o governo Dilma Rousseff antes perdia o sono com o "tsunami monetário" --como caracterizava o fluxo de entrada de capitais resultante da política do Fed (banco central americano) de inundar o mercado com recursos--, sobram agora razões para se preocupar com a retração da onda.
        Os sinais de reversão da maré estão à vista de todos. Há mais otimismo com a recuperação da economia americana, que deve crescer 2% neste ano e talvez bem mais que isso em 2014. Com a melhora, o estímulo monetário deixaria de ser necessário.
        O Fed já navega nessa direção. Seu presidente, Ben Bernanke, disse que as compras de títulos no mercado --hoje no ritmo de US$ 85 bilhões ao mês-- serão contraídas em breve e suspensas até meados de 2014. Para prevenir sobressaltos, disse que a retirada será gradual e que a taxa de juros deve permanecer perto de zero até 2015.
        O mercado financeiro não tem paciência com detalhes. Quando identifica mudanças como essa, antecipa as consequências: menos recursos no mercado global, juros em alta nos EUA e valorização do dólar perante outras moedas, especialmente de países emergentes.
        No caso do Brasil, há o fator agravante da política econômica errática, em particular na questão da austeridade fiscal, que prejudica a imagem do país. Acentua-se, com isso, o temor pela perda de valor dos investimentos aqui realizados, o que provoca a saída de dólares e a consequente desvalorização da moeda nacional.
        A cotação do real frente ao dólar fechou em quase R$ 2,26, ontem, mesmo após o Banco Central comprometer US$ 3 bilhões para conter a desvalorização. Foi o pior nível desde abril de 2009, quando a crise internacional estava no auge.
        Um sintoma da deterioração do cenário foi o adiamento da oferta de ações da Votorantim Cimentos na Bolsa, que deveria levantar até R$ 10 bilhões. É notável o contraste com a situação de abril passado, quando a BB Seguridade conseguiu captar R$ 11,4 bilhões.
        Salvo uma improvável grande decepção com a economia americana, nos próximos anos haverá um enxugamento do capital farto em circulação pelo mundo.
        O Brasil está mais preparado que no passado para enfrentar a turbulência: tem US$ 375 bilhões em reservas, e a dívida em dólar do governo foi eliminada, entre outros fatores. Mas aproveitou mal a liquidez externa: não aumentou a taxa de investimento, não ajustou as contas públicas como deveria e não reforçou a competitividade da economia para enfrentar a saída de capitais.
        A alta do dólar encarece importações e incentiva aumentos de preços domésticos, realimentando a inflação. O Banco Central se vê forçado a elevar ainda mais os juros. Nesse mar revolto, vai a pique o otimismo postiço do governo federal nos últimos anos.