sábado, 29 de junho de 2013

Walter Ceneviva

folha de são paulo
Tropeços da governança
O caminho para a efetividade do voto democrático não é fácil, mas é sempre melhor que o das ditaduras
Governança não foi palavra de emprego comum na língua portuguesa, até alguns anos atrás. Passou a ser usada no direito empresarial para definir a estrutura de comando da empresa. Daí foi transposta, nos estudos de ciência política e aceita para caracterizar o próprio governo ou a ação de governar.
Em inglês, o tradicional "Black's Law Dictionary" não incluíra "governance" no rol dos vocábulos aceitos pelo direito norte-americano ou inglês até os anos 70. Já o dicionário moderno de Bryan A. Garner, em 1995, aceita o termo. É o modo de dirigir um governo ou uma empresa, assim como em nosso país, do "Dicionário Jurídico" de Maria Helena Diniz.
A razão para incursionar por essa pesquisa se liga ao fato jurídico-político de que o ato de governar o país corresponde a dirigir a máquina estatal com qualidade e competência, marcadas por equilíbrio e imparcialidade. Afasta a má governança.
A alternância livre do poder político é essencial. A dignidade do equilíbrio depende, porém, de que conchavos, imediatamente posteriores à definição dos vitoriosos, não leve a recomposições e trocas espúrias, com adesões de segmentos do legislativo às posições do Executivo e, vez por outra, à "compreensão" pelo Judiciário de dubiedades dos vitoriosos em pleitos sucessivos.
As eleições brasileiras --do nível federal, ao estadual e ao municipal -- não deixam o eleitor tranquilo com o resultado das urnas ante as alterações decorrentes dos quocientes partidários. É frequente que o eleitor veja seu escolhido, com número superior de sufrágios, mas ser preterido por força dos coeficientes partidários.
A reavaliação das regras eleitorais é subordinada, quanto aos preceitos gerais, pelos arts. 18 a 30 da Constituição Federal e no referente aos partidos políticos, pelo art. 17. Os limites impostos à elegibilidade são sujeitos às normas do art. 14, aí incluído o voto secreto. Os preceitos da Carta Magna são regulados, especialmente pelo Código Eleitoral. Nesse campo há certo desencanto do povo, pois terminada a eleição (em todos os níveis) as promessas são passadas para o segundo plano e os "acertos", marcados por trocas de favores em que são poucos os aptos para atirar pedras ao telhado dos vizinhos.
Sabe-se que o aprimoramento do sistema não tem condição fácil de ser encaminhada. Sabe-se também que o presente momento não parece conveniente para o completo reexame das garantias da contagem justa nas eleições, a benefício do povo.
O progresso resultante do pleito eletrônico, legitimando quanto aos números, as escolhas (dos menores municípios à republica) deve ser completado, no campo de garantia da licitude do número de votos, para mais além dos conchavos pós-eleitorais.
Falou-se muito em plebiscito, referendo e iniciativa popular como procedimentos constitucionais para a efetividade da soberania do povo (art. 14 da Constituição, regulamentado pela Lei n. 9.709 de 1998). São úteis, mas devem ser objeto de longo esclarecimento do povo, para colher os efeitos benéficos que deles podem resultar.
O caminho para a efetividade do voto democrático não é fácil, mas é sempre melhor que o das ditaduras, quando subsistem apenas as manifestações dos detentores do poder, sejam eles quais forem.

LIVROS JURÍDICOS
CLÁUSULAS DE EXONERAÇÃO E DE LIMITAÇÃO DE RESPONSABILIDADE
AUTOR Wanderley Fernandes
EDITORA Saraiva (0/xx/11/3613-3344)
QUANTO R$ 104 (432 págs.)
Em tese de doutorado, Fernandes produz obra que Tereza Ancona Lopez, sua orientadora, considera "imprescindível" para quem trabalhe na área dos contratos. A estrutura começa com temas básicos e avança até a súmula das conclusões.
SÉRIE "PRODUÇÃO CIENTÍFICA"
EDITORA Saraiva e Direito GV
Inclui "Formas Jurídicas e Mudança Social", Marcus F. de Castro, R$ 69, 246 págs.; "Os Desafios de Vencer na OMC", Michelle R. Sanchez Badin, Gregory Shaffer e Barbara Rosenberg, R$ 62, 182 págs.; "Governança Corporativa e Novo Mercado", Angela Rita F. Donaggio, R$ 65, 216 págs. e "Estudos Empíricos sobre Temas de Direito Societário", obra coletiva, R$ 54, 266 págs.
ANOTAÇÕES À LEI DE PROTEÇÃO AOS JUÍZES CRIMINAIS
AUTOR Amaury Silva
EDITORA J. H. Mizuno (0/xx/19/3571-0420) Quanto R$ 55 (252 págs.)
A Lei n. 12.694 ("Lei do Juiz sem Rosto") recebe exame em longa avaliação. Na apresentação, o autor considera o juiz criminal um esquecido na história, mas adita que agora assume alguma viabilidade. O texto se completa com três inserções: decisões judiciais e modelos de petições e exercícios.
ANÁLISE ECONÔMICA DA RESPONSABILIDADE CIVIL
AUTOR Diógenes Naves Mendonça
EDITORA Atlas (0/xx/11/3357-9144)
QUANTO R$ 49 (139 págs.)
A obra abarca o espaço da responsabilidade, universo muito ampliado nos últimos anos. Mendonça dá, em subtítulo, o âmbito dessa dissertação de mestrado: "o dano e a sua quantificação" (Fadusp). É avaliação científica do que se indeniza e do quanto deve ser indenizado, no que denomina "responsabilidade repensada".
LITÍGIOS SOCIETÁRIOS 1 INVENTÁRIOS E 2 DIVÓRCIOS
AUTOR Roberta Nioac Prado e Renato Vilela
EDITORA Saraiva e Direito GV
QUANTO R$ 114 (518 págs.) e R$ 117 (400 págs.)
Os volumes incluem entendimentos construídos pelo TJ-SP, em relação a matéria litigiosa nos temas examinados.
CONTRATOS DE PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA (PPP)
AUTOR Kleber Luiz Zanchin
EDITORA Quartier Latin (0/xx/11/3101-5780)
QUANTO R$ 65 (272 págs.)
Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka, orientadora desta tese de doutorado, elogia a qualidade e a profundidade da revisão feita sobre a incerteza.

    Marcos Caramuru de Paiva

    folha de são paulo
    Um diálogo oriental sobre protestos
    Há muitos pleitos objetivos que podem ser atendidos. Alguns já foram. Outros terão respostas erradas
    Há dias, um chinês me fez a pergunta: esses protestos no Brasil têm algo do episódio da praça da Paz Celestial, em 88, você não acha? Na praça da Paz Celestial, o que se viu foi um grupo de estudantes, num momento de pressão de preços, protestando contra a corrupção. Não é o mesmo entre vocês?
    A pergunta causou-me certa perplexidade. Comparar momentos históricos tão distantes em países com regimes políticos tão diferentes pareceu-me, no mínimo, ousado. Nós, no Brasil, vivemos com o debate. Pagamos por isso: vivenciamos as ineficiências de gestão que regimes democráticos trazem naturalmente consigo. O problema é que as ineficiências aqui passaram do ponto.
    A China tem um regime que lhe permite imprimir à gestão pública toda a eficiência --ou pelo menos a celeridade-- que o unipartidarismo proporciona. Não se lhe pode tirar o mérito. Há países unipartidários que não conseguem produzir bons governos. Mas daí a fazer a comparação é salto muito grande.
    Resisti à tentação de uma resposta que encerrasse a conversa, por desprovida de fundamento. Pedi ao meu interlocutor que fosse mais específico. Ele prosseguiu: em 88, inicialmente, o governo achou que a manifestação moralmente correta dos estudantes fosse algo positivo.
    Em seguida, a coisa foi ficando mais complexa. Os trabalhadores se juntaram, e os protestos se multiplicaram. A população passou a dar comida e água aos manifestantes. Até estudantes protestavam.
    Mas, de repente, disse-me, houve a percepção de que os riscos se tornaram grandes demais. E veio o que o mundo assistiu. Os últimos repórteres da televisão que noticiaram os manifestos fizeram-no em lágrimas.
    Zhao Ziyang, secretário geral do Partido, alguém pré-disposto à conciliação, perdeu o cargo. Ascendeu Jiang Zemin, reformador, bom dirigente, que, oito anos após deixar a Presidência, ainda comanda, de longe, boa parte do mundo político. O resto, acrescentou, você sabe bem.
    O resto nos diferencia extraordinariamente.
    Neste momento em que muitos tentam identificar que antecedentes há para os fatos recentes --Paris 68, a Turquia atual, Ocupe Wall Street-- pareceu-me interessante narrar uma visão descolada das referências ocidentais. Há, no inconsciente coletivo, algo que conecta fatos que diferem diametralmente nos seus desdobramentos.
    Quanto à nossa realidade, creio que a geração mais jovem entenderá melhor o que está ocorrendo. Há muitos pleitos objetivos e razoáveis que podem ser atendidos rapidamente. Alguns já foram. Outros terão respostas erradas. Outros suscitarão decisões atropeladas, com menos reflexão do que demandariam em circunstâncias normais. Vamos esperar que, no cômputo geral, o resultado agregue valor.
    As máscaras e o refrão "sem partido" são como se as ruas dissessem: estamos aqui, as demandas são muitas. Viemos desestruturar uma ordem que não é mais satisfatória. Não nos cabe achar caminhos. Vocês, políticos, que o façam, com decência. Estaremos vigilantes. Pedir coerência aos fatos e às vozes é enfoque velho. E propor saídas verdadeiramente satisfatórias, no curto prazo, uma impossibilidade.

      Casamento gay se torna uma via para obter 'green card'

      folha de são paulo
      Decisão da Suprema Corte dos EUA dá a homossexuais opção de pedir visto de residência por causa de cônjuge
      Sentença derrubou uma lei datada de 1996 que barrava legalidade das uniões homossexuais em nível federal
      JULIA PRESTONDO "NEW YORK TIMES", EM WASHINGTON
      A decisão da Suprema Corte americana de revogar a lei federal que barrava casamentos gays propiciou uma melhora espantosa na vida de Steven Infante, imigrante colombiano, e o marido dele, menos de uma hora depois que a decisão foi anunciada.
      Infante e Sean Brooks estavam a caminho de um tribunal de imigração em Nova York no qual o colombiano enfrentaria o que talvez viesse a ser sua última audiência antes de ser deportado.
      Em vez de ordenar a expulsão de Infante, o juiz de imigração levou em conta a decisão da Suprema Corte e abriu caminho para que ele se mantivesse nos EUA com o marido pelo tempo que desejasse, como residente legal em caráter permanente.
      Para a maioria dos cidadãos dos EUA, obter um visto de residência permanente, o "green card", para um cônjuge nascido no exterior é relativamente simples. Mas, por causa da lei antiga, dezenas de milhares de cidadãos em casamentos gays binacionais não haviam podido fazê-lo.
      Com os anos, muitos casais optaram pelo exílio, se transferindo para países que oferecessem vistos de residência a casais homossexuais.
      Com a lei fora do caminho, dizem advogados, não restam obstáculos nas leis de imigração que impeçam cidadãos americanos, ou imigrantes que já tenham visto de residência permanente, de solicitar "green cards" para seus cônjuges homossexuais.
      Lavi Soloway, advogado de imigração que já representou muitos casais gays binacionais, entre os quais Infante e Brooks, disse que "haverá efeitos imediatos e tangíveis nas vidas dos casais homossexuais que vinham há muito enfrentando dificuldades".
      Infante e Brooks estavam entre os primeiros casais a ver resultados práticos da decisão da Suprema Corte.
      Infante, 34, vive nos EUA desde 1999, e conheceu Brooks, 46, quase uma década atrás. Os dois se casaram em Nova York em 2011, um mês depois que o casamento gay foi legalizado no Estado.
      Àquela altura, o visto de Infante havia expirado, e as autoridades de imigração iniciaram um processo de deportação contra ele.
      Para Brooks, que é músico, a visita ao tribunal de imigração era sinal de que "o fim da linha estava claramente próximo", para a vida do casal nos EUA. Depois da decisão que reverteu a situação dos dois, Brooks estava atônito. "Que alívio", ele disse, "e quanta esperança".
      Soloway disse que cuida de 70 pedidos de "green cards" a imigrantes envolvidos em casamentos homossexuais, e que antecipava apresentar dezenas de novos, nos próximos dias. As autoridades de imigração garantiram a ele na quarta-feira que as solicitações avançariam rumo a aprovação, caso cumprissem os demais requisitos legais para residência.

      Entrevista Eduardo Paes: Governos não deixarão legado da Copa

      folha de são paulo

      Eduardo Paes diz que rua rejeita políticos, não partidos

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      LETÍCIA SANDER
      ITALO NOGUEIRA
      DO RIO
      Prefeito da capital que atrairá todos os holofotes no domingo, sede da final da Copa das Confederações, Eduardo Paes (PMDB) diz que os governos erraram e não souberam tirar um legado da Copa do Mundo que está por vir.
      "Os governos em seus diversos níveis erraram em não perceber que esse evento tem muito mais do que jogo de futebol", afirmou, em entrevista concedida em seu gabinete na tarde de quinta-feira.
      Em 45 minutos de conversa com a Folha, o peemeedebista, que está em sua quinta legenda, disse que as ruas deixam claro que a população quer ser mais ouvida e reconhece a crise institucional das legendas. "Que partido tem imagem boa? Só os que estão por nascer. É a vida como ela é". Mas faz um mea-culpa. "O que o país diz é: vamos parar de curtir que viramos democracia, que tiramos 40 milhões da pobreza, que temos pleno emprego, e vamos avançar mais? A classe política deitou em berço esplêndido".
      Daniel Marenco-27.jun.13/Folhapress
      O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), em seu gabinete; segundo ele, classe poltícia 'deitou em berço esplêndido
      O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), em seu gabinete; segundo ele, classe poltícia 'deitou em berço esplêndido'
      Paes tenta dissociar o projeto olímpico do clima de mal-estar causado pelos gastos com a Copa, mas reclama de eventuais exageros nas interpretações do momento atual feitas mundo afora.
      "Vamos parar com essa mania do Brasil ficar se mostrando um país perfeitinho. Nós não somos. Mas ninguém aqui está lutando por liberdades, direitos para mulheres, a voto. Isso aqui não é primavera árabe. Isso aqui é uma democracia, consolidada, que se manifesta. Não vejo como um problema. Não tem que aceitar essa história de achar que o gringo vai olhar para cá e dizer: 'Olha, eles fazem manifestação'. Nós somos democratas".
      A seguir, os principais trechos:
      Folha - O Brasil e o Rio bateram muito bumbo pela conquista de grandes eventos. No fim do primeiro, a Copa das Confederações, a imagem que fica é de manifestações nas ruas, de violência. Isso o preocupa?*
      Eduardo Paes - Obviamente preocupa. Acho que o Brasil perdeu uma oportunidade com a Copa do Mundo. As ruas não disseram que são contra a Copa ou contra a Olimpíada. As ruas dizem o seguinte: somos contra a forma como se fez a Copa.
      Em que sentido essa oportunidade foi perdida?
      A gente não pode ver a Copa e a Olimpíada como eventos esportivos. Quando o mundo trouxe a Copa e a Olimpíada para o Brasil, eles disseram assim: ªEsse lugar no mundo merece nossa atenção pela sua performanceº. Seul fez a Olimpíada consolidando o papel dos tigres asiáticos, Barcelona faz a sua Olimpíada no momento em que a Europa quis recuperar a Espanha. O Brasil ficou na lógica do evento em si.
      O que fez o Brasil perder essa oportunidade?
      Um conjunto de coisas. A Fifa tem essa característica... Não estou dizendo se a Fifa é desonesta ou honesta. A Fifa não se preocupa com legado. Preocupa-se com o estádio.
      Não é ao governante que cabe esta preocupação?
      Começa pela Fifa, mas ela não pauta legado, pauta estádio. A Olimpíada, ao contrário da Copa, é mais manejável. No fim do dia é um prefeito, um governador e um presidente. Não são 12 prefeitos, 12 governadores... O governo federal, quando fez o PAC da Mobilidade da Copa, talvez tenha demorado a perceber que era uma oportunidade de novos investimentos que não guardam relação direta com a Copa.
      O governo federal errou?
      Não. É muito fácil jogar a culpa no governo federal. Os governos em seus diversos níveis erraram ao não perceber que esse evento tem muito mais do que jogo de futebol.
      Foi um bom negócio trazer a Copa?
      Acho que sim. Não exploramos [a oportunidade], mas ainda há tempo de recuperar. Não estou preocupado porque a imagem é de manifestação. Vamos parar com essa mania do Brasil ficar se mostrando um país perfeitinho. Nós não somos. Mas ninguém aqui está lutando por liberdades, direitos para mulheres, a voto. Isso aqui não é primavera árabe. Isso aqui é uma democracia, consolidada, que se manifesta. Não tem que aceitar essa história de achar que o gringo vai olhar para cá e dizer: "Olha, eles fazem manifestação". Nós somos democratas. Anos atrás não se podia fazer manifestação. Aí sim era para ter vergonha.
      Mudou algo no planejamento olímpico?
      Por enquanto não. Nem a Folha consegue criticar muito a Olimpíada ainda. A gente tem prestado contas. Estou atento a isso. Estava vendo que essa coisa da Copa ia terminar mal. Porque não estava vendo clareza no objetivo. Na Olimpíada, desde o início eu sei que vou fazer estádio [temporário] que vai virar escola no dia seguinte.
      Em 2007, o sr. era secretário de Esportes aqui no Rio. Não havia essa discussão de legado?
      Não. Nunca vi. No caso da Olimpíada, fui conversar com o [ex-prefeito de Barcelona, Pasqual] Maragall. Ele disse: "Não se preocupa, porque tem dois tipos de Jogos Olímpicos: os que se servem da cidade, e aqueles em que a cidade se servem dos Jogos. Sirva-se dos Jogos. Conflite organicamente com o COI, comande o processo".
      O sr. acha que na Copa não teve esse confronto com a Fifa?
      A Fifa não está nem aí para legado, tem a sua culpa. Mas a maior é dos governos.
      O tema mais polêmico da Olimpíada são as remoções...
      [Interrompe] Que não existem. A não ser uma, a Vila Autódromo. Dizer que a Vila Harmonia, no Recreio, saiu por causa de Olimpíada para fazer o Transoeste [corredor expresso de ônibus que liga Santa Cruz à Barra]... O que a Olimpíada tem a ver com Transoeste?
      A favela do metrô...
      O que tem a ver? Está rolando aí a Copa das Confederações e as pessoas estão morando do outro lado em apartamentos, muito melhor. Tudo virou, para o bem e para o mal, Copa e Olimpíada. Aquilo ali é um monte de gente morando em péssimas condições. Nunca expulsamos ninguém sem alternativa: aluguel social, apartamento, ou prédio para ficar pronto daqui a um tempo.
      Por que a Vila Autódromo vai ser removida?
      Porque ali tem o espaço do Parque Olímpico. Tem medidas de segurança, porque está numa área de proteção ambiental, é uma invasão irregular do espaço público e porque eu estou fazendo um belo bairro alternativo com moradia a 500 metros dali. É mentira dizer que tem milhares de remoções por causa da Olimpíada. A maioria é por causa da Transcarioca [corredor de ônibus que vai ligar a Barra ao Galeão]. E não tem atleta que vai usar BRT.
      Antes das manifestações a imagem do Rio já estava manchada pela série de estupros...
      [Interrompe] Que sequência de estupro?
      No Leblon, na van...
      [Interrompe] Olha só, a reconstrução da imagem do Brasil e do Rio é um processo. Nosso maior ativo para ganhar a Olimpíada foi dizer que a gente tinha um longo caminho a percorrer. Dizíamos que ela seria um ponto de virada. Nunca escondemos que o Rio tinha problemas com segurança, que o Rio tem problema de mobilidade, que tem pobre e rico. Nunca vendemos o paraíso.
      As cenas de quebra-quebra na cidade, operação policial com nove mortos no Complexo da Maré não assustam?
      Operação com nove mortos na Maré era toda semana.
      Mas ocorrer durante um grande evento como a Copa das Confederações...
      [Interrompe] Não é o melhor dos mundos. O ideal é que a gente vivesse num país com características suíças. Se bem que eu ia achar um saco. É o Brasil. Vamos enganar os outros? Infelizmente temos muitos problemas ainda. A cena da Maré era semanal.
      Alguém do COI o procurou manifestando preocupação?
      Ninguém. Também não mandaram cartinha de solidariedade dessa vez. Por que toda vez que dá uma lambança eles mandam. "Vocês são muito fofos, lindos, maravilhosos". Nem isso recebi.
      Uma das interpretações sobre as manifestações é que as ruas querem interferir mais nas decisões de governo. O sr. acha que se o país estivesse hoje buscando sediar uma Copa ou Olimpíada, a população deveria ser consultada?
      Acho que isso não é tema de plebiscito. Nas pesquisas, havia uma aprovação absurda para a Copa e a Olimpíada. Não vamos transformar o Brasil no reino das comunas ou das assembleias. Mas há uma clara posição das ruas de que querem ser mais ouvidos. Há duas questões: um país que clama por serviços de mais qualidade. Isso somado a uma série de valores, com mais força para a questão ética. O desejo de participar não é ficar fazendo plebiscito para tudo. É dizer: "Me ouçam! Não dá para ter impunidade".
      O carioca tem motivos para sair às ruas em protesto?
      O Haddad me disse uma coisa curiosa há alguns dias: "São Paulo vem numa situação difícil há algum tempo. Mas até três semanas atrás, eu encontrava um carioca e ficava até com inveja". Não pode ter mudado tanto. O Rio melhorou, as pessoas reconhecem. O que o país diz é: vamos parar de curtir que viramos democracia, que tiramos 40 milhões da pobreza, que temos pleno emprego, e vamos avançar mais? Em determinado momento, a classe política deitou em berço esplêndido.
      O povo tem rejeitado a presença dos partidos nas ruas. Os partidos estão em crise?
      As pessoas não rejeitaram os partidos, rejeitam os políticos, os personagens. Essa é uma crise de todos nós.
      O sr. faz um "mea culpa"?
      Claro. Só se eu fosse um delirante, vivendo no mundo na lua, eu acharia que o povo me ama por ter 66% dos votos.
      O sr. que já passou por cinco partidos preferiria disputar uma eleição numa candidatura avulsa?
      Não. Não acho que sou um bom exemplo. O sistema político brasileiro é muito frágil. Mas uma das coisas que devo fazer é trabalhar para fortalecer as legendas partidárias. Não porque elas são frágeis ficar... Posso ter minha versão porque mudei tanto, mas não cabe aqui [Paes costuma afirmar que suas passagens por PV, PFL, PTB e PSDB ocorreram acompanhando o ex-aliado César Maia. Na última, foi para o PMDB para candidatar-se à prefeitura em 2008 aliado ao governador Sérgio Cabral]. Meu papel como homem público não é só ser um bom prefeito.
      O seu partido, o PMDB, tem uma imagem negativa...
      [Interrompe] Que partido tem imagem boa? Só os que estão por nascer. Único partido com imagem boa é a Rede porque ainda não nasceu. É a vida como ela é.
      O PMDB deveria mudar alguma coisa?
      Deixo com você essa resposta.
      Mas é o sr. quem integra o partido.
      Deixo com você. Essa resposta é autoexplicativa.
      O senhor cedeu à pressão das ruas e baixou o preço do ônibus. É a prova de que esta era uma reivindicação legítima ou foi uma decisão ideológica?
      Nem um nem outro. Foi sensibilidade com o que as ruas estavam pedindo. As pessoas estavam se manifestando dizendo de maneira muito contundente que aquilo era inaceitável. Há um momento da manifestação popular em que você precisa dar resposta. Minha passagem é quase trinta centavos menor do que São Paulo e não gasto R$ 1,2 bilhão de subsídio. O modelo que montei é equilibrado. Agora, será que não pode ter avanço? Sei que avancei muito, mas concordo que tem que avançar muito mais. Tanto na qualidade dos serviços como na transparência do processo. Será que terão forças e pressões outras, que não o interesse público, irão agora se manifestar? Será que alguém vai dar uma liminar? Será que alguém vai fazer não sei o quê?
      Quando o sr. abaixou a tarifa, disse que poderia subsidiar. Mas depois disse que não precisava...
      Não disse que não precisava. No primeiro momento, disse que isso [a redução] significava, anualizado, R$ 200 milhões. Isso tem um custo. Se for um custo para o governo, chegar a R$ 400, R$ 500 milhões, é o custeio das Clínicas da Família. O que anunciei depois é que não iria subsidiar. Porque venho lutando contra o subsídio há três anos.
      Não fica a impressão de que o sr. não se esforçou antes para manter a tarifa, e depois encontrou um forma de reduzir?
      Não tenho essa fórmula ainda. Ela ainda não foi descoberta, não está colocada. Quero manter o sistema que eu criei, sem subsídio. O que eu anunciei é que eu não vou ceder o sistema que eu montei. Vou buscar catar isso em algum lugar. Posso acelerar a eficiência do sistema, a implantação de BRS, acelerar os BRTs. Talvez tenha que acelerar para isso.
      O sr. fez a primeira licitação de ônibus para a cidade, mas ela acabou mantendo os mesmos empresários e teve pouca disputa. Não fica a impressão de um jogo de cartas marcadas?
      Quando faz um processo licitatório, com essas características, quem tem 50 garagens estabelecidas pela cidade, 10 mil ônibus, sai naturalmente com vantagem.
      Quando o sr. decidiu abaixar a passagem?
      Eu vinha refletindo. Quando a voz da rua ficou clara...
      O Lula ligou?
      Sim, na semana passada.
      Ele está preocupado?
      O político que não está preocupado com o que está vendo, vive em outro mundo.
      Ele sugeriu a diminuição da tarifa do ônibus?
      Não, em nenhum momento. Nem a Dilma. Foi uma decisão minha. A única pessoa com quem eu conversei para reduzir a passagem foi o Fernando Haddad. Tomamos a decisão em conjunto.
      Como o sr. avalia a reação da presidente?
      Acho que o pronunciamento da presidenta e a reunião foram muito importantes. Precisávamos mais de uma demonstração de que o Estado brasileiro estava aqui, vamos respeitar a lei e a ordem. Agora pressupõe ações diretas e objetivas.
      E a ideia do plebiscito?
      Acho bom. Construir esse debate, uma cultura de plebiscito, de consultas populares. Isso não pode virar um radicalismo, mas em alguns temas sim.
      Tem certeza que estará com a Dilma no ano que vem?
      Totalmente. Acho fantástico ter uma disputa como Dilma, Marina, Aécio, Eduardo Campos. Algum deles é um populista, demagogo, ladrão? Não é. Mas acho que a Dilma merece ter um segundo mandato.
      E no Rio, como o sr. vê essa possibilidade de rompimento com o PT?
      Não vejo essa possibilidade. PT e o PMDB devem ter o mesmo candidato.
      O episódio da briga que o senhor teve com um carioca num bar pode lhe trazer prejuízos políticos?
      Me arrependo, como homem público, de ter perdido a cabeça. Tive uma reação que não deveria ser a reação do prefeito do Rio de Janeiro. Se fosse um cidadão normal, teria sido natural. Mas não sou. Devia ter tido controle suficiente para ouvir aquilo tudo sem reagir. Mas infelizmente não tive. Não sou esse super-homem, não. Gosto de sair, ir para a rua, tomar uma cervejinha, jantar fora com a minha mulher. Mas não fico satisfeito de jantar com a minha mulher e um sujeito ficar xingando a minha quinta geração. Bêbado.