domingo, 30 de junho de 2013

Dilma dilapidou sua herança - Clovis Rossi

folha de são paulo
Nos anos Dilma Rousseff, despencou a confiança dos brasileiros nas instituições (públicas e também privadas).
É o que mostra o "13º Barômetro Edelman de Confiança", elaborado pela Edelman, considerada a maior firma de relações públicas do mundo, presente em 66 países (Brasil inclusive) com 4.500 empregados.
Na pesquisa publicada em 2011, mas feita em 2010, o ano em que Dilma se elegeu e o Brasil cresceu espetaculares 7,5%, os brasileiros estavam no topo dos que confiavam nas suas instituições, entre os 26 países em que o levantamento é feita anualmente. A pontuação brasileira era de 80 em 100, quando a média geral não passava de 55.
No ano seguinte, o primeiro de Dilma, o Brasil passou a ser o 14º, abaixo da metade da tabela, portanto, com uma queda espetacular de quase 30 pontos (de 80 passou para 51). Em vez de bem acima da média, ficou exatamente nela, que foi de 51 pontos.
Na pesquisa deste ano, mas feita em outubro passado, a posição brasileira melhorou algo: passou a ser o 12º colocado com 55 pontos, abaixo da média, que subiu para 57.
É razoável suspeitar que esses números ajudam a entender os protestos deste junho. Como perderam rapidamente a confiança nas instituições, os brasileiros saíram às ruas. A desconfiança nas instituições, de resto, aparece com clareza em outra pesquisa, esta do Datafolha, feita logo após o início dos protestos e que mostra o desprestígio de todas as instituições públicas (Parlamento, Executivo, partidos políticos).
Pena que o Datafolha não tenha pesquisado o prestígio (ou falta dele) do setor privado.
Se serve de consolo para Dilma e os demais atores políticos e empresariais brasileiros, registre-se que o desencanto não é uma jabuticaba, que só existe no Brasil. É disseminado pelo mundo ou ao menos pelos 26 países que a Edelman analisou.
"Menos de um de cada cinco consultados acredita que um líder empresarial ou governamental responderia realmente a verdade quando confrontado com uma questão difícil", diz o relatório.
Dramático, não? Posto de outra forma, significa dizer que mais de 80% do público nos 26 principais países do planeta acha que seus líderes mentem quando a coisa aperta.
Era inescapável dar como título da pesquisa 2013 a expressão "Crise de Liderança". É exatamente o que o mundo está enfrentando já faz algum tempo.
Choca verificar que, mesmo nesta era de capitalismo descontrolado, é algo maior a confiança nos homens de negócio do que nas instituições oficiais. São 18% os que acreditam que líderes empresariais dirão a verdade mesmo diante de questões críticas. Mas apenas 13% acham que os líderes políticos fariam o mesmo.
Repete-se a situação quando a pergunta é sobre a capacidade de tomar decisões éticas e morais: os empresários são capazes para 19% dos consultados, ao passo que apenas 14% acham que os homens públicos têm idêntica predisposição.
Alguma surpresa com o fato de que movimentos maciços de protesto venham se espalhando pelo mundo?
Clóvis Rossi
Clóvis Rossi é repórter especial e membro do Conselho Editorial da Folha, ganhador dos prêmios Maria Moors Cabot (EUA) e da Fundación por un Nuevo Periodismo Iberoamericano. Assina coluna às terças, quintas e domingos no caderno "Mundo". É autor, entre outras obras, de "Enviado Especial: 25 Anos ao Redor do Mundo" e "O Que é Jornalismo". Escreve às terças, quintas e domingos na versão impressa do caderno "Mundo" e às sextas no site.

#vemprarua, Folha - Suzana Singer [Ombudsman]

folha de são paulo
A inesperada explosão de descontentamento que se vê nas cidades mostra que alguma coisa precisa mudar no jornalismo tradicional. Como ninguém percebeu que o clima estava tão pesado?
As pesquisas que apontavam uma alta aprovação da presidente e os bons índices de emprego pareciam indicar que, apesar da inflação e da economia fraca, estava "tudo bem". Imaginava-se que a Copa das Confederações aumentaria a sensação de bem-estar, já que, diz o senso comum, o futebol sempre adiciona um ingrediente de orgulho nacional ao momento político.
A multidão, com seus gritos de protesto, deu um "looping" nessas certezas e deixou evidente que os canais da imprensa são insuficientes para captar as mudanças de humor na sociedade.
Fosse um movimento que tivesse nascido nas franjas da cidade, a surpresa seria mais compreensível. Mas o gatilho das manifestações foi acionado pelos jovens de classe média urbana, público teoricamente próximo a um jornal como a Folha.
Em sua coluna "A vez da mídia", na "Ilustrada" de quarta-feira passada, Marcelo Coelho afirma que as pessoas que se manifestam nas ruas e nas redes sociais "se sentem mal representadas na mídia tradicional". Entre outros fatores, Coelho cita um "abismo geracional", que ele identifica na falta de jovens escrevendo no jornal ou sendo entrevistados para comentar o movimento.
Rejuvenescer o corpo de colunistas poderia ajudar a criar uma sintonia maior com as ruas, mas, com certeza, não basta. Um monitoramento mais profissional das redes sociais também é um caminho, já que elas mostraram a sua força nas mobilizações pelo país.
É preciso aprender a interpretar as ondas no Facebook e no Twitter, separando o que é realmente importante do que é espuma. Trata-se de tornar realidade o pretensioso slogan da mais recente campanha publicitária do jornal em que uma garota diz: "A Folhasegue o que eu penso e o que eu não penso. A Folha me segue. Eu sigo a Folha".
Não é uma tarefa fácil porque implica inventar um modo de cobrir aquilo que está fora das instituições. Para entender o que querem os manifestantes, não adianta ligar para sindicatos, agremiações estudantis ou partidos políticos. Não há nem lideranças definidas, o que subverte a lógica da reportagem política.
Perdida, a imprensa não se cansa de reproduzir os cartazes desenhados para as passeatas, na esperança de decifrar, por meio desses pedaços de papel, um fenômeno tão novo. Além de chacoalhar as diferentes instâncias de poder, a moçada do #vemprarua deu um nó na cabeça dos jornalistas.
EM RITMO FRENÉTICO
Não está fácil fazer jornalismo nas últimas semanas. Desde que os protestos tomaram o país, o noticiário muda em ritmo de montanha-russa. Num dia, é fundamental explicar o que seria uma Assembleia Constituinte exclusiva para a reforma política; 24 horas depois, essa proposta já tinha sido engavetada.
Em dois dias, o Congresso tomou mais decisões do que nos últimos seis meses. A PEC 37, que limitaria a ação do Ministério Público, foi enterrada sumariamente. Votaram a destinação dos royalties do petróleo e também o projeto de tornar a corrupção um crime hediondo.
Até o Supremo Tribunal Federal foi sacudido: determinou a prisão imediata de um parlamentar. A prefeitura cancelou a licitação de ônibus em São Paulo e o Estado anunciou que não aumentará o pedágio.
Essas respostas imediatas ao que se supõe que queiram os manifestantes formam uma miríade de medidas difícil de ser discutida em pouco tempo. Cabe aos jornais, onde há maior espaço para a reflexão, aprofundar o debate e mostrar que nem tudo é tão bom quanto parece.
Segurar o pedágio não é uma forma de subsidiar o transporte individual? De onde o governo vai cortar os R$ 50 bilhões que irão para projetos de transportes? Mais verbas são a saída para melhorar a educação?
Da mesma forma que os políticos reagiram à urgência criada pelo clamor popular, o jornal precisará "mostrar serviço". É hora de fazer a diferença, analisando cada assunto sem entrar num clima de "agora o Brasil vai pra frente".
Suzana Singer
Suzana Singer é a ombudsman da Folha desde 24 de abril de 2010. No jornal desde 1987, foi Secretária de Redação na área de edição, diretora de Revistas e editora de "Cotidiano". Escreve aos domingos na versão impressa.

Congresso! Trabalhos Forçados! - José Simão

folha de são paulo
Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E o PGN, o meu Partido da Genitália Nacional, já lançou a sua PEC: PEC 69! PEC NA MINHA E BALANÇA! Rarará!
E o Congresso trabalhando?
Trabalhos Forçados! O Congresso tá parecendo viúva tirando atraso de dez anos!
E o Renan Escandalheiros quer passe livre para estudantes. E eu quero passe livre pra ele sumir! Passe Livre pro Renan Sumir! Ele já virou tanta casaca que o casaco dele deve ter 20 avessos! Rarará!
E esta piada pronta de Floripa: "Com dois atos simultâneos, manifestantes sem partidos erram de protesto". Tá virando pastelão!
E esta: "Líder do PSDB, Sérgio Guerra se engana e vota a favor da PEC 37". ANTAlógica. O Tiririca votou direitinho!
E sofremos duas baixas internacionais! "Brad Pitt cancela sua vinda ao Rio por causa dos protestos." Bundão! Chama o Chuck Norris e o Arnold Schwarzenegger que eles topam. Dorme com a Angelina Jolie e tem medo de protestos?
"Por causa dos protestos, Superman cancela vinda ao Brasil". Bundão! Chama o Chapolin Colorado! E o Superman vinha pra divulgar o filme "O Homem de Aço". O Homem de Aço tem medo de bala de borracha! Rarará!
E a Dilma, pro próximo discurso, vai fazer um botoshop: botox com photoshop! O Laquê Acordou!
E eu fui a três manifestações. E o melhor cartaz: "Se a bomba é de efeito moral, joga no Congresso".
E o plebiscito? Proponho fazer um plebiscito para saber se a gente quer um plebiscito. Um PRÉbliscito! O cúmulo da democracia. E claro que gostei da IDEIA do plebiscito. Quando os políticos entram em pânico, a ideia é boa!
E os cartazes "Fora Feliciano"! "Feliciano, não nos esquecemos de você! É que estamos limpando uma merda por vez." "Feliciano, isso é orgulho ferido de um fiofó não comido." "Feliciano, me dê um atestado, hoje acordei sapata." Rarará!
E um gay: "Tá bom, quero me curar; aí vou ao médico e ele me receita o quê? Comer duas pererecas por dia?".
"Não me curem, não tenho roupa pra ser hétero". Vai pra Colombo e pra Vila Romana!
E não se muda o Brasil com rancor, mas com humor!
Nóis sofre, mas nóis goza.
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno
José Simão
José Simão começou a cursar direito na USP em 1969, mas logo desistiu. Foi para Londres, onde fez alguns bicos para a BBC. Entrou na Folha em 1987 e mantém uma coluna que considera um telejornal humorístico.

Janio de Freitas

Para a frente ou para trás

Se as arruaças de marginais forem motivo para opor-se à continuação das manifestações pacíficas, como se começa a perceber, estará dada aos governos e suas polícias a solução mais fácil contra os protestos e reivindicações. É só incentivar baderneiros. Ou, ainda mais simples, não os reprimir.
Os ataques a bens públicos e a quebradeira são revoltantes. Mas fazem parte da movimentação de protesto em sociedades com presença grande de marginalidade e delinquência. No Brasil temos vários outros casos de oportunismo arruaceiro na violência de torcidas violentas, em festas de massa como a Virada Cultural paulistana e mais. Nem por isso se acabaram os eventos.
As manifestações provocadas pelas passagens de ônibus já trouxeram resultados muito além de sua motivação. A partir dos R$ 0,20 nas passagens, estamos discutindo questões institucionais complexas. Seja o que for que daí resulte, esses temas não terão recuo, deles só se irá adiante, mais cedo ou mais tarde.
É difícil controlar as arruaças. Mas prejudicar, por isso, manifestações de interesse público seria manifestar-se também, mas em marcha a ré.
A CORRERIA
Uma gloriosa exibição de cinismo coletivo --assim se define a repentina eficiência da Câmara e do Senado, demonstrada até na quantidade de horas de atividade parlamentar, além das aprovações de projetos já amarelados pelo tempo e pela perversão política.
As duas Casas do Congresso cumprem o seu dever de ouvir as ruas, dizem os dirigentes do Senado e da Câmara, com ares de pessoas ocupadas. Nos plenários, amplíssimas maiorias aprovam o que frearam ou recusaram, como no episódio inigualável dos ruralistas dando votos favoráveis ao projeto, que os levava à ira, contra o trabalho análogo à escravidão no campo.
Até quando trabalha, o atual conjunto de congressistas é a negação de um Congresso ao menos minimamente respeitável.
O BOM-SENSO
Quatro helicópteros, inúmeros carros e motos da PM, contingentes de repórteres e fotógrafos, todos acompanhando metro a metro a passeata de moradores da Rocinha à moradia de Sérgio Cabral, na praia do Leblon. Tudo preparado pela certeza de uma baderna daquelas.
A PM não deixou que a passeata se aproximasse do acampamento montado, e permitido, por um grupo da classe média diante do prédio de Cabral. Agora, na certa viria o choque. Outra frustração: a passeata apenas tomou o caminho de volta, sob a mesma vigilância. Se alguma coisa foi quebrada, nos dois percursos, é o pé de quem pisou em um dos buracos da avenida Niemeyer recém-recapeada.
A Rocinha perdeu a viagem, mas quem não estava na passeata perdeu muito mais. A mensagem levada a Cabral era uma demonstração prática, e fundamental, da distância entre as alturas políticas e a realidade social: "Não precisamos de teleférico, use esse dinheiro para o saneamento de que nós precisamos". O planejado pelos governos estadual e federal é assim: no alto o bondinho suspenso, embaixo os valões de esgoto aberto entre as casas.
Não houve a baderna, logo, ninguém se interessou pelo que merecia interesse.
Daniel Marenco/Folhapress
Janio de Freitas, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha, é um dos mais importantes jornalistas brasileiros. Analisa com perspicácia e ousadia as questões políticas e econômicas. Escreve na versão impressa do caderno "Poder" aos domingos, terças e quintas-feiras.