domingo, 18 de agosto de 2013

Feira de Frankfute - Antonio Prata

folha de são paulo
ANTONIO PRATA
Feira de Frankfute
Semana passada, recebi uma das notícias mais felizes na história de minhas fatigadas canelas
Sei que em nome da vaidade ou, ainda, de sua irmã mais jeitosa, a humildade, eu não deveria dizer esse tipo de coisa, mas lá vai: muitas vezes me imagino participando da Flip. Não é o auditório lotado que vejo em meus devaneios narcisistas, tampouco a fila de autógrafos ou o flash dos fotógrafos: a imagem que me vem à mente, sempre, é a do futebol.
Talvez o leitor não saiba, mas em toda Festa Literária de Paraty há uma pelada disputada pelos escritores --ou, ao menos, por aqueles cuja saúde permita bater uma bola sem bater as botas. Em minha quimera lítero-esportiva, saio driblando críticos, ultrapassando romancistas, desarmando contistas e, de calcanhar, de bicicleta ou trivela, estufo a rede. Finda a partida, recebo os cumprimentos de Roberto Schwarz, José Miguel Wisnik pede para trocar comigo a camisa, dou entrevista à revista "Serrote", dedicando a vitória à minha esposa, à Deus e --quem sabe?-- à professora Lucilene, do primário, pois sem ela...
Não é o meu talento ludopédico, claro, que me insufla tais delírios, mas bem o contrário: é do oco em que deveria residir minha habilidade que sopra a brisa da ilusão. Nas aulas de educação física, na escola, eu era aquele infeliz escolhido por último. Ainda trago na memória as cicatrizes causadas pelo olhar aflito do garoto a escalar o time, tendo de optar entre mim e a menina de cabresto nos dentes --por quem, ao fim, ele se decidia.
O sofrimento com o analfabetismo de minhas pernas durou até 2004, quando fui à primeira Flip e, assistindo à douta cancha, descobri que o desempenho futebolístico dos escritores era inversamente proporcional às suas virtudes literárias. Percebi, ali, que havia esperança: entre os grandes das letras, pelo menos, eu poderia ser um craque da bola. Desde então, a cada ano, sempre que se aproxima a escalação para uma nova festa literária, cozinho algumas insônias na chama da expectativa, mas, para minha frustração, nunca encontro meu nome na lista.
Pois, semana passada, Charles Miller debateu-se em seu túmulo e eu recebi uma das notícias mais felizes na história de minhas fatigadas canelas. Fui selecionado pelo Instituto Goethe para integrar o time de escritores brasileiros que irá à Feira de Frankfurt, em outubro, enfrentar os alemães da Seleção Nacional de Autores, a "Autorennationalmannschaft" --ou Autonama, para os íntimos.
Nesta ensolarada (espero) manhã de domingo, enquanto você toma descansadamente seu café, eu e mais 15 escritores brasileiros suamos a camisa, no primeiro treino coletivo do escrete da escrita. Sabemos o tamanho da responsabilidade: somos, simultaneamente, a pátria de chuteiras e de teclados, temos menos de dois meses e, tomando a mim mesmo como medida, imagino que o caminho será tortuoso. Há, contudo, dois dados animadores: do outro lado do campo também haverá escritores e nosso técnico é ninguém menos do que Pepe, o "canhão da Vila".
A ver se, nestas oito semanas, sob a batuta de um dos maiores pontas-esquerdas da história, deixo de ser canhestro e sigo apenas canhoto, mostrando que, com fé em Deus e obedecendo a orientação do professor, é possível, apesar de ser "gauche" na vida, fazer bonito pela sinistra nos gramados do velho mundo.
Que vença o pior!

Suzana Singer - Folha Ombudsman

folha de são paulo
A Folha só pensa naquilo
Obsessão por aumentar a audiência no site faz jornal criar blog anônimo na linha "pornografia de butique"
Na semana em que mais de 600 morreram no Egito, o julgamento do mensalão recomeçou e o dólar bateu recordes, a Folha anunciou a criação do blog "X de Sexo".
Não dá para viver só de desgraças, não é? Sem dúvida, mas basta dar uma olhada na última invenção do jornal para concluir que se trata, numa avaliação bastante gentil, de um tremendo equívoco.
(A partir daqui, a coluna é para maiores de 18 anos).
"Fui chupada de um jeito maravilhoso (...) Ele desceu bem aos pouquinhos até meu quadril, lambendo minhas coxas, a virilha, se aproximando daquele ponto com pulso próprio. Ao chegar lá, sua língua começou a dirigir os movimentos de meu corpo molhado, propiciando rápidos e rítmicos golpinhos com ela. Circundou meu clitóris com maciez, me beijou os lábios, chupando-os de baixo para cima. (...)"
O extrato é do post de estreia do blog, intitulado "Dia de festa". Não foi pinçado para provar que se trata de um "pornô de butique com pseudoqualidade literária". O site é todo assim, uma tentativa de obter uns dez tons de cinza.
O segundo texto, sobre uma mulher "suando" embaixo do chuveiro de tanto se masturbar, também abusa dos detalhes anatômicos na tentativa de excitar a audiência: "a barriga soluçava, o abdômen apertava (...) as pernas esticavam, o peito se estufava, e eu gemi baixinho um aaaa com a boca meio apertada".
O blog é ilustrado com fotografias que parecem sobras daqueles ensaios de mulheres nuas, pretensamente ousados e sofisticados. Não são nem uma coisa nem outra.
Nem dá para louvar a coragem das autoras do blog, assinado por Ana e Lia, porque são pseudônimos. Ou seja, a descrição de como se deve fazer sexo oral em uma mulher pode ter sido escrita por um redator barbudo e malcheiroso que, àquela hora do dia, deveria estar fazendo um título melhor para "Mundo".
Folha não publica textos apócrifos, mas abriu uma exceção nesse caso, segundo a Secretaria de Redação, para preservar a "privacidade das autoras".
O "X de Sexo", na avaliação do jornal, não é "pornográfico" e foi criado para "ajudar a compor a diversidade temática de blogs e colunas abrigados no F5, site de amenidades e entretenimento".
"Não é jornalismo, mas é informação", afirma a Secretaria de Redação. Informação? O blog não tem qualquer tipo de aconselhamento sexual, noticiário sobre o assunto, discussão de temas considerados tabus ou qualidade literária.
"Parece que o blog não foi feito para quebrar paradigmas, para ajudar as pessoas a sofrerem menos com o sexo. Os posts falam de um modelo ideal, tudo perfeito, coisa de cinema", diz Lola Benvenutti, 21, formada em letras pela Universidade Federal de São Carlos, garota de programa e blogueira.
Nem vale a pena discutir os limites entre jornalismo e entretenimento. Já que o assunto é sexo, sejamos explícitos: o blog, como todo o F5, é uma tentativa despudorada de aumentar a audiência na rede. Esse "topa tudo por pageviews" só faz mal à marcaFolha.
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RICO POR UMAS HORAS
André Garcia Martines, 74, acordou na terça-feira passada, como sempre, "duro, desgraçado, aposentado". Fez o café, arrumou a mesa para a mulher e a filha, pegou o jornal e... achou que tinha ficado rico.
O ex-funcionário do Tribunal de Justiça conferiu o resultado da Lotofácil na "FolhaCorrida", última página de "Cotidiano". Tinha acertado 15 números, o que lhe daria um prêmio de R$ 231 mil.
Começou a fazer planos. "Fiquei emocionado. Daria para ajudar a quitar os apartamentos das minhas filhas, ajeitar a minha casa, cuidar da mulher. O resto iria para a poupança", conta o sr. André.
Na casa lotérica perto de sua casa, no Ipiranga, a alegria acabou. A Folha tinha publicado o resultado do concurso anterior: em vez de trazer o sorteio de segunda-feira, repetiu o de sábado. O sr. André não tinha direito a nada.
"Pedi desculpas para a minha mulher e para a minha filha, porque elas começaram a sonhar com coisas que não posso bancar", diz.
A assinatura do jornal foi um presente da filha -ela lê a "Veja", e a mãe, a "Caras". O erro da loteria deixou-o revoltado. "Não me interessa se foi falha de quem escreveu, se o revisor estava dormindo. Eu me senti ridículo."
O relato do sr. André prova que pequenos erros no jornal podem provocar grandes aborrecimentos.

Confusão no país é geral, e a questão é onde está Amarildo - Carlos Heitor Cony

folha de são paulo
Gol contra
RIO DE JANEIRO - Alguma coisa não está funcionando no Brasil --poderia dizer no mundo, mas fiquemos no Brasil, que está mais próximo da gente. Seria o caso de perguntar se não foi sempre assim, já tivemos até momentos piores, embora menos complicados.
Dona Dilma aparece muito, em vários lugares e circunstâncias, garantindo que tudo está nos conformes. Acho que ela perdeu um pouco de seu rebolado.
Não consegue domesticar sua base aliada, e a base não aliada também não consegue domesticar-se entre si --a confusão é geral e a grande incógnita do momento não é saber quem será candidato a candidato presidencial, a questão agora é saber onde está o Amarildo, que, por sinal, não é candidato a nada, a não ser a defunto.
Se, no Executivo, as coisas estão complicadas, no Judiciário temos o Supremo complicadíssimo, não só no plenário, mas nas adjacências. O termo jurídico apropriado --e que foi usado abertamente-- limitou-se a "chicana". Nos botequins espalhados pelo território nacional, o termo seria outro e impublicável.
O Legislativo não fica atrás em matéria de confusão e falta de decoro. A reforma política está seguindo a trajetória da reforma agrária, que nunca foi feita e era cláusula pétrea de todos os partidos e candidatos a qualquer coisa no país.
O povo, bem, o povo reclama da corrupção e da vida em geral, é função histórica que ele cumpre com mau humor, mas nunca se ouviu dizer que esteja satisfeito. Já foi o tempo em que o problema da nação era saber onde estavam os ossos de Dana de Tefé. Agora, é saber onde está o citado Amarildo, em carne e osso ou somente em osso.
Por Júpiter! A coisa está feia. O herói nacional é um argentino que aconselha a se botar mais água no feijão. E o Brasil perde até para a Suíça. Por gol contra.

    Janio de Freitas

    folha de são paulo
    Quem quer, apura
    Não é preciso esperar pelos documentos já colhidos pelo Cade, e tão reclamados à toa pelo governador de SP
    O desejo de esclarecer as licitações e compras do metrô paulistano e da CPTM, reiterado pelo governador Geraldo Alckmin, dispõe de caminhos muito mais simples, rápidos e eficientes do que os processos judiciais por ele anunciados. Estes, além de lançarem dúvida sobre a veracidade do desejo, com sua preferência pelo método confuso, e lerdo, correspondem demais a utilidades reeleitoreiras.
    Não é preciso esperar pelos documentos já colhidos na investigação do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), e tão reclamados à toa pelo governador. Ao que se saiba, também o governo paulista não é dado a repassar aos investigados por sua polícia as pistas e provas obtidas em investigações ainda sigilosas.
    As licitações, contratações e compras foram feitas pelo governo paulista. É só abrir os seus respectivos arquivos e surgirá uma profusão de documentos com indícios, esclarecimentos, mesmo com provas em um ou em outro sentido, coisas que talvez nem o Cade já tenha. O governo paulista não se deu a esse trabalho simples para embasar as informações esperadas pela opinião pública, até agora só servida de palavrório requentado.
    De fácil acesso nos arquivos está um outro indicador, sempre enrolado em meias explicações pelo governantes e, no caso paulista, parte essencial. São os acréscimos de preço apelidados de reajustes, que só em casos raros refletem motivos justos e não pretextos, convenientes à melhoria do preço feito para vencer. E não menos convenientes a mais participações de terceiros, quartos e outros.
    Na beira do cadafalso estão governos paulistas e o PSDB. Cabe então ao governador Geraldo Alckmin abrir o jogo, mostrar o que se passou conforme a documentação em posse do governo paulista, caso queira deixar mais do que a impressão de tergiversar e fazer gestos ilusórios como resguardo eleitoreiro.
    OS SUPER
    A determinação do Tribunal de Contas da União para corte do supersalários na Câmara deve atingir não 1.100 funcionários, mas 1.677, mais cerca de 50%, conforme levantamento do repórter Vinicius Sassine no "Globo". No Senado, a informação recebida pelo TCU relaciona 464 beneficiados também por vencimentos acima do teto de R$ 28 mil recebido pelos ministros do Supremo Tribunal Federal.
    O TCU não cobra a devolução do excedente descabido. Quer apenas vê-lo cortado, afinal. Mas se bem que os beneficiários, os detentores de supersalários, não pagaram a si mesmos. E a responsabilização de quem autorizou reiteradamente os pagamentos de notória ilegalidade? Ah, essa violaria a norma da impunidade quando se trata de dinheiro público. Norma, no geral, tabu no Congresso.
    MANIFESTANTES
    As estimativas ficaram entre uns 150 e, com otimismo, uns 200, 220 jovens, que outro otimismo chamou a todos de estudantes. Sentados em esquina da avenida Rio Branco, levaram a um engarrafamento que parou o centro do Rio por mais de cinco horas e estendeu engarrafamentos pela cidade por várias horas, a depender da região. Ensanduichados nos ônibus e ensardinhados nas vans, aqueles por quem foi feita, com a participação dos próprios, a luta contra o aumento das passagens e em defesa dos usuários.
    Os sentados na Rio Branco manifestaram também alguma coisa. Fica por sua conta identificá-la, a seu gosto e ideia.