domingo, 28 de outubro de 2012

O homem que se achava Napoleão


INÉDITO
A fascinação pelo imperador e a gênese da psiquiatria na França


RESUMO A série de trechos de livros que a "Ilustríssima" apresenta em primeira mão traz excerto de "O Homem que se Achava Napoleão", ensaio sobre a psiquiatria na França entre 1789 e 1871, formando um panorama cultural e político da ascensão dos manicômios. O livro sai pela Três Estrelas no começo de novembro.

LAURE MURAT
tradução PAULO NEVES

NUNCA UM PRENOME significou a tal ponto o gênio estratégico e a vontade de potência, nunca uma silhueta encarnou tão bem a quintessência do poder e da dominação hegemônica.
Um chapéu de duas pontas, um redingote, e é o imperador que surge. Até em seu temperamento, abrupto, tirânico, Napoleão se confunde com sua caricatura.
O homem que se acha Napoleão tem sempre o mesmo perfil. Autoritário, caprichoso, colérico. Imperial. Ele não reina sobre a França, é o senhor do Universo. Seu poder é ilimitado. Tudo deve se curvar à sua vontade. Sua expressão é grave, não cessa de dar ordens, exige a devoção de acompanhantes que de maneira geral ele despreza.
De todos os assuntos, a política externa é o que mais o ocupa. Enquanto muitos monomaníacos sonham com a felicidade da humanidade, querem acabar com os conflitos e suprimir os impostos, estes, belicosos, violentos, querem primeiro se fazer obedecer como déspotas, o que é ilustrado pelo seguinte diagnóstico, datado de 1831, que poderia resumir muitos outros:
"No primeiro dia o encontramos elegantemente vestido, de cabeça erguida, com um ar orgulhoso e altaneiro; seu tom é o de comando e seus menores gestos indicam o poder e a autoridade. Ele não tarda a nos dizer que é imperador dos franceses, rico em milhões, que Luís Filipe é seu chanceler.
"Depois, pegando um manuscrito, declama com ênfase versos de sua autoria nos quais distribui coroas, resolve as questões da Bélgica e da Polônia. Num dia, quebrou tudo porque não queriam obedecer a suas menores vontades. Foi acalmado por uma ducha e encerrado a seguir num compartimento. No dia seguinte o encontramos completamente nu, ele rasgou tudo, grita e ameaça."
COERÇÃO Despreparados diante de tamanha fúria, os alienistas geralmente recorrem aos meios de coerção e de repressão mais enérgicos. Outros preferem a astúcia, como o dr. Leblond, que dirige com seu pai uma casa de alienados, e onde um capitão dos dragões vive numa raiva perpétua. Ele agride e injuria os criados que se aproximam, passa seu tempo a vituperar.
"Não é uma indignidade tratar desse modo o imperador Napoleão? Esses terríveis lacaios ousaram me amarrar, vou mandar fuzilá-los", ele declara ao médico, que replica sem se perturbar: "Sim, o senhor é o imperador Napoleão, mas Napoleão em Santa Helena" [onde o imperador foi exilado].
A essas palavras o louco se cala e repete: "Santa Helena, Santa Helena". Depois pede para que o desamarrem, e cumpre sua promessa de ficar tranquilo até sua libertação.
Devemos acreditar nessas histórias tão sedutoras de curas milagrosas? É grande a tentação de crer na eficácia desses ditos teatrais, que levam o delírio a um jogo de linguagem e produzem uma imagem cômica da loucura, ao mesmo tempo que fazem do psiquiatra um médico capaz de entrar no delírio do seu paciente e um homem dotado de um senso excepcional da resposta pronta.
Negar ao paciente seu título de imperador teria redobrado sua cólera; reconhecer esse título, mas insistindo em sua decadência, é colocá-lo no caminho do real. Como Napoleão em Santa Helena, o louco no asilo é um ser no exílio, alienado, prisioneiro.
A malícia do alienista consiste em explorar o delírio do paciente para estabelecer uma coincidência lógica com a história e estabelecer uma relação metafórica entre uma verdade e uma ficção, a fim de instilar sentido onde este não existe. A ironia da situação reside inteiramente na coerência dessa dobra mecânica de uma imagem verdadeira sobre um discurso falso.
Muitos serão os alienistas que vão promover os prodigiosos efeitos de um tratamento moral que visa primeiro acalmar um paciente incontrolável e trazê-lo de volta à razão, ainda que por um caminho muito desviado.
O dr. Guillaume Ferrus, médico militar presente em Austerlitz, Eylau, Wagram, e que fez todas as campanhas do Império até a retirada da Rússia, estava certamente bem situado para escutar as lamentações desses monomaníacos obcecados pela figura do imperador.
É assim que ele vê um dia chegar a Bicêtre, "no estado da mais violenta agitação", um jovem que declara ser filho de Napoleão:
"'Fui médico do seu pai', lhe diz o sr. Ferrus, 'venha conversar comigo, o senhor vai me expor suas queixas e lhe darei satisfações'.
A essas palavras, ele o conduz familiarmente, de braços dados, pelas árvores que guarnece o pátio e, perguntando-lhe a causa de sua agitação, fica sabendo que o jovem andou 25 léguas a cavalo.
'Mas', ele lhe objetou em seguida, 'o senhor deve saber que, quando Sua Majestade o imperador e rei, seu augusto pai, fazia semelhantes cavalgadas, o que lhe acontecia com frequência, ele nunca deixava de tomar banho'.
O doente se dispôs a fazer o mesmo e, de fato, foi tomar banho. Encorajado por esse primeiro sucesso, o sr. Ferrus lhe pegou pelo braço e disse: 'Sabe que Sua Majestade tem a pulsação forte, dura, agitada, e que lhe seria conveniente tirar um pouco de sangue? Não no braço, pois isso poderia impedi-lo de assinar suas ordens, mas numa pequena veia do pescoço'.
O doente consentiu em fazer uma sangria. Em 15 dias, o filho de Napoleão, sangrado, banhado, consolado, voltou simplesmente a ser o filho de seu pai."
Também em 15 dias, mas com outros métodos, François Leuret, assistente de [Jean-Étienne] Esquirol, teria obtido tudo de Paul Dumont (nome fictício), filho de um empregado da administração da guerra, convencido de ser o filho de Murat, depois de Napoleão, colega de escola do duque de Bordeaux, enfim cavaleiro de honra da rainha Marie-Amélie.
Obcecado pelas origens nobres, ele distribuía partículas de nobreza a todo mundo, atribuindo a si mesmo, conforme seu humor, o nome de Paul "de" Murat, Paul "de" Napoléon etc. No asilo ele é chamado de sr. Paul, "o que não excluía, em seu espírito, a qualidade de filho de Napoleão". O alienista pede então aos enfermeiros para não mais chamá-lo de sr. Dumont, o que o enfurece, fazendo-o queixar-se amargamente junto ao responsável, que ele insiste em chamar dr. "de" Leuret.
Para acabar com esse enfatuamento, o médico propõe, sempre que o paciente comete o erro, uma ducha fria e brutal.
"O doente não era capaz de acolher as exortações que poderiam ser feitas; agi sobre seu espírito de uma maneira que se poderia chamar mecânica, associando de certo modo uma sensação dolorosa ao exercício de suas alucinações."
RAZÃO Para o psiquiatra, que afirma definir o tratamento moral sem hipocrisia e dizer em voz alta o que se pratica em voz baixa nos hospitais, há somente um caminho para curar os mais recalcitrantes. Nunca "deixar-se levar" pelo jogo deles, mas reconduzi-los à razão pelo raciocínio, usar a recompensa e a punição, recorrendo à repressão quando necessário:
"Uma única corda ainda vibra neles, a da dor, tenham coragem suficiente para tocá-la."
Os alienistas lutam contra a loucura e, mais ainda, contra a formidável obstinação que ela carrega. Nesse ponto, o homem que pensa ser o filho de Napoleão é pelo menos tão obstinado quanto seu pai.
"Em seu quarto quase o dia inteiro, ele permanece de pé com as mãos nos bolsos da calça e, quando lhe fazem perguntas, responde a elas e termina sempre dizendo ser o filho do imperador. Nunca dirige a palavra a ninguém", lê-se, por exemplo, nos registros do [hospital] Charenton em 1836.
Tomar-se pelo filho de Napoleão não equivale a identificar-se com o duque de Reichstadt, título do filho de Napoleão 1º, mas sim a um segundo Napoleão. Do mesmo modo, as que se dizem esposas do imperador não se tomam nem por Joséphine nem por Marie-Louise, figuras sem poder, mas sim por uma rival triunfante.
Nos asilos, ser filho do imperador ou ser casada com ele significa ter os mesmos dons sobrenaturais atribuídos ao soberano: "Ela diz ter o sol no ventre", anota o médico de Charenton em 1818 a propósito de uma mulher de 46 anos. "Ela se crê a mulher de Napoleão. Governa o Universo por meio do fogo elétrico que tem no corpo e que lança à vontade."
Acrescentemos para completar, mas também, é preciso admitir, com uma ponta de decepção: o homem que se acha Napoleão raramente é uma mulher. Durante minhas pesquisas, encontrei só uma, monomaníaca de 71 anos, internada em junho de 1852, da qual não se sabe, aliás, se pensava ser Napoleão 1º ou Napoleão 3º, mas que estava firmemente convencida de seu estado e era muito coerente consigo mesma: "Ela se diz Napoleão; grita Viva Napoleão!".

Negar ao paciente seu título de imperador teria redobrado sua cólera; reconhecer esse título, mas insistindo em sua decadência, é colocá-lo no caminho do real
Obcecado pelas origens nobres, Paul Dumont distribuía partículas de nobreza a todo mundo, atribuindo a si mesmo, conforme seu humor, o nome de Paul "de" Murat, Paul "de" Napoléon etc.
"Ela diz ter o sol no ventre", anota o médico. "Ela se crê a mulher de Napoleão. Governa o Universo por meio do fogo elétrico que tem no corpo e que lança à vontade"

Nota do editor
As notas da autora, meramente bibliográficas, foram suprimidas.

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