terça-feira, 6 de novembro de 2012

Traço delicado reflete memória violenta


 Mercado em alta na Colômbia favorece produção de artistas que fizeram do desenho uma linguagem expressiva

Curadores e críticos atribuem foco no desenho à reclusão de artistas acuados pela luta ao narcotráfico

SILAS MARTÍ
ENVIADO ESPECIAL A BOGOTÁ

Militares com metralhadoras e cães farejadores na porta das casas e manchetes sobre um processo de paz que se arrasta há anos sem sucesso não deixam esquecer a guerra ao narcotráfico que sublinha a vida na Colômbia.

Mas, em contraponto à realidade agressiva, a arte que desponta no país segue outra rota. São desenhos sutis -lápis sobre papel, preto no branco, de um traço delicado- que parecem dominar a produção contemporânea em Bogotá, alçada agora ao posto de uma das novas capitais da arte latino-americana.
Enquanto curadores colombianos conquistam postos de relevância no circuito global, como José Roca, curador na Tate Modern, de Londres, e Juan Gaitán, à frente da próxima Bienal de Berlim, o mercado e a cena do país se aquecem com a feira ArtBO, realizada no mês passado.

Na Bienal de São Paulo agora em cartaz, artistas como Bernardo Ortiz e Nicolás París representam esse levante do desenho, uma fragilidade contraposta aos anos de conflito armado que dilaceram a sociedade colombiana.

"Esses trabalhos intimistas são consequência direta do conflito", diz o curador colombiano Jaime Cerón. "São tentativas de revisar o espaço cotidiano. É olhar para dentro como sintoma de estar preso, confinado em casa com a impossibilidade de sair e ocupar as zonas de risco."

O prédio de uma antiga tecelagem no centro de Bogotá foi transformado em um quartel general de ateliês. É ali que artistas põem no papel a memória do conflito.

"Vivemos 50 anos de guerra neste país. A população ou é vítima ou está entre os algozes, sendo que uma parte é indiferente ao que acontece", diz Lina Espinosa, em seu ateliê no edifício Las Nieves. "Quero chamar a atenção dos indiferentes, criando uma memória da dor."

Fernando Arias, que faz uma obra de forte cunho político sem se restringir ao desenho, enxerga nesses traços um ato subversivo -a tradução de uma realidade atroz.

"É violento e sutil ao mesmo tempo", afirma. "Isso confronta as pessoas que vivem todo dia essa violência."
Não é de hoje que o desenho é a escola por excelência da arte colombiana. Nos anos 70, artistas como José Antonio Suárez já usavam a técnica como linguagem central.

Mas, nos anos 90, com a derrocada de um sistema de arte ainda frágil e sustentado pela lavagem de dinheiro de narcotraficantes, o desenho voltou ao centro das atenções como um meio simples e econômico de produção, algo que estava ao alcance de artistas que ainda não sonhavam com a inserção do país no mercado de arte global.

Bernardo Ortiz trabalha nessa escala diminuta, de folhas que se amontoam no ateliê em "arquivos orgânicos".

"Essas obras estão no limite entre o cínico e o comovente", diz o artista em seu ateliê no centro da cidade. "É uma arte que não é quase nada, está entre a verdade e a mentira, como se fossem folhas arrancadas de um livro."

Enquanto o livro de Ortiz tem espaço para frases soltas, memórias ambíguas e desenhos aleatórios, Lucas Ospina, outro artista dessa geração nascida nos anos 70 e 80, parece focar em personagens solitários. Seus desenhos são vazios com figuras perdidas numa imensidão branca.

"Meu traço é imediato, entre o passado e o presente", diz Ospina. "Tento definir pessoas com um só gesto."

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