domingo, 24 de março de 2013

AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA » Nós, os ianomâmis‏


Estado de Minas: 24/03/2013 

Diria que são três tribos. Mas inicialmente me referirei apenas a duas: a primeira, bem primitiva: a tribo dos ianomâmis, que vivem na fronteira do Brasil e da Venezuela; a segunda é a tribo pretensamente civilizada – a dos antropólogos que vivem estudando os ianomâmis.

José Padilha, que já havia tratado das tribos urbanas das periferias das grandes cidades nos filmes Tropa de elite 1 e 2, decidiu esmiuçar mais duas tribos: a dos índios e a dos antropólogos. E para isso fez o documentário Segredos da tribo. É evidente que ele está se referindo não apenas aos segredos da vida dos ianomâmis, mas aos atritos dentro da tribo dos antropólogos, que, com a arrogância dos deuses, resolvem estudar superiormente os primitivos.

O filme é brabo. Enquanto o via, tive náuseas, vergonha por meu semelhante, tão dessemelhante de mim. Lembrava-me de quando, nos anos 1960, os ianomâmis foram redescobertos. Os jornais noticiaram o achado de uma tribo de perigosos guerreiros na selva.

Pois os ianomâmis viraram o prato preferido do banquete antropofágico dos antropólogos americanos e franceses. Eram uma comunidade virgem, viviam como se vivia (supõe-se) há 8 mil anos. No governo Collor, movido pela Eco 92, o território ianomâmi foi preservado – era maior do que Portugal. E muita gente achou isso um escândalo.

O fato é que os antropólogos, sobretudo americanos e franceses, passaram a pesquisar esses índios. O antropólogo Napoleon Chagnon se casou com uma índia de 13 anos, levou-a para  viver nos EUA, ela ficou ali, achou um disparate a civilização e voltou para a selva. Muitos acharam uma insensatez um antropólogo fazer isso. Pior foi Jacques Lizot, discípulo de Levi-Strauss, que tinha práticas homossexuais com os garotos índios. Até hoje eles fazem uns bonequinhos chamados Lizot, com o pênis ereto, acusando o francês.

O filme, além de mostrar algo da vida dos índios, é um cruel bate-boca entre antropólogos. E nisso José Padilha faz um documentário brilhante, que deveria ser levado em conta agora que o The New York Times e a Folha de S. Paulo falam do livro de Chagnon The noble savage.

O filme começa (e vocês podem ver o trailer na internet) com um índio ianomâmi mandando os brancos para os infernos. Mostra também uma reunião da Associação Americana de Antropologia em que o orador fala sobre a inveja e a vaidade entre os antropólogos, o que nos faz lembrar que nos meios acadêmicos americanos dizem que Deus criou o universo, e o Diabo criou “o colega de departamento”.

O assunto é polêmico. Em português, podemos ler de Jacques Lizot O círculo de fogo (Martins); de Patrick Tierney, Trevas no El Dorado (Ediouro); os livros de Chagnon e os depoimentos de ianomâmis como Kopemawa.

Mas tem-se uma sensação trágica. De algo que está em movimento irreversível: o civilizado invadindo, violando, transformando o primitivo. Até os cientistas foram atrás dos ianomâmis fazer pesquisas com o sangue deles, e, claro, levaram também sarampo, varíola e gripe.

Houve um momento em que, no Brasil, eles eram 15 mil em 255 aldeias, e na Venezuela, 12 mil. O destino dos ianomâmis é muito semelhante ao nosso. E aqui poderia ir falando sobre a terceira tribo. Essa tribo que não é mais a dos índios e dos antropólogos, mas de todos nós, brasileiros ou não, essa tribo que vai sendo invadida pela irracionalidade atroz do progresso e da devastação.

Quando assisti ao filme, senti-me como um ianomâmi. Impotente. E me ocorreram os versos finais de “A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas”: “Amanhece sobre as árvores da taba/ Uma voz de índio ecoa entre a neblina da floresta/ Nos quartéis, uma vez mais, os espanhóis despertam/ tocam seus clarins e seus cavalos/ e vão extrair do sangue guarani/ o ouro que decora igrejas e mulheres./ Índio, eu olho o brilho das espadas e estandartes/ o tropel empoeirado e colorido da morte/ cada vez mais perto/ e aguardo o inimigo com uma canção nos lábios/ e meu peito aberto”.

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