domingo, 26 de maio de 2013

O professor - Altair Martins

folha de são paulo

IMAGINAÇÃO
O professor
PROSA, POESIA E TRADUÇÃO
ALTAIR MARTINSIsto é, tudo se acomodou na minha vida naturalmente. Os dias passavam, mas eu só os via quando Eudora chegava nos domingos. Era quando eu encontrava a minha voz, a glosa que eu, sozinho, sob o céu raso do apartamento, não escutava mais. Não que eu não me sentisse feliz sem minhas reclamações. Eu ainda rosnava impulsivamente para algum pilar ou quina que se achava importante. Mas tenho de aceitar que Eudora acalmava minha ideia mais barulhenta. Também porque, até que chegassem as tardes em que ela fazia café e conversávamos sobre alguma coisa, os dias ficavam sendo assim: acordava para continuar; dormia para permanecer. Só não existia em vão de tudo porque lia, sim, e mais de um livro ao mesmo tempo, e escrevia também. Mas não tinha horário para nada. Esparsamente largava os livros e pegava meus escritos para dali a pouco voltar a algum livro novamente. Fora desse circuito, havia apenas um corpo cansado que dormia, até que, cansado de dormir, acordasse. A fome, a sede, a urina e as fezes cumprindo seus turnos. Assim foi durante o dia em que me deu uma ilusão boba de sair. Era um dia em que eu deveria ir a uma entrevista de escola para disputar vaga como professor de espanhol. Na noite anterior fui dormir pensando na capacidade invicta de me atrasar pra tudo.
Mas simplesmente não aconteceu de eu me atrasar desde aquela manhã. Por isso fiquei deitado na cama e senti que eu havia mudado e era mesmo irreversível. Descobri que não acordei às sete e meia para a entrevista das nove. Não fiz a barba, não tomei banho, não me penteei nem pus desodorante. Não tive dúvidas sobre o que vestir para impressionar a direção da escola. Por exemplo: não pensei se devia ir de camisa ou camiseta. E sem dúvida não tive vontades de impressionar a direção. Não tomei café, que não adocei com três colheres de açúcar, porque não fiz café. Não comi nem bolachas nem pão nem nenhuma fruta. E recordo agora que não limpei nenhuma louça por isso.
Não saí de casa para retornar e pegar uma jaqueta por sentir frio. Não senti frio. Não havia uma multidão à espera do ônibus na parada. O ônibus também não chegou cheio. Durante o trajeto até o centro, não pensei um verso bom que Lucerna poderia ter escrito nem me empolguei com achar que era o último poeta dos tempos. Também não fiquei com o coração devastado por aceitar que eu era apenas tradutor entre idiomas do terceiro mundo. Não desci em frente à escola nem me atrasei por algum tipo de vergonha. Não fui olhar os jornais na banca de revistas. (Creio mesmo que, naquela manhã, nenhum jornal imprimiu as notícias do mundo, nem talvez tenha havido tais notícias). Foi como se eu não tivesse entrado na escola.
Lá dentro, não me apresentei sem jeito, dizendo meio gago Sou Fulano, vim para uma entrevista. Não me perguntaram se eu era professor nem de quê. Então não respondi De espanhol, nem me pediram documento nem tive de explicar que tinha sofrido assalto e que me tinham roubado qualquer identificação. Depois não me conduziram ao departamento pessoal onde eu não avaliei o rosto das outras duas candidatas a professoras do ensino privado que, sentadas lado a lado, provavelmente concorressem à disciplina de espanhol. Não pensei que talvez elas merecessem a vaga mais que eu nem que, por estarem com roupas que lembravam uniformes, quisessem impressionar a direção. Vale dizer que não as julguei mais atualizadas que eu pelo fato de comentarem, com os olhos a dividir a tela de um laptop, as vantagens de um currículo em apresentação virtual, nem pensei num poema escrito a partir da constatação de que sou analógico e portanto obsoleto num Brasil digital. Também não aceitei que o poema, a seguir, fosse o meu currículo mais verdadeiro:
já fui uma ficha de telefone
Foi assim:
fui uma ficha de telefone,
uma hóstia santa que não se come,
nem se salva.
Mas como ficha de telefone
não tive crédito suficiente
de avisar ao pires
que a sobra era um novo continente,
de contar à boca
a anedota dos peixes,
de revelar às roupas
que dá para ir à festa sem convite,
de repetir às fechaduras
que como o sexo tudo se abre
[com jeitinho,
de sobretudo lembrar aos homens
que o mundo era deles,
e que as coisas ultrapassadas
já não tinham mão de obra qualificada.
Mas como tudo termina e pouco se fala,
não convém ensinar à água
como enxergar a si mesma.
Desde então insisto em cuidar
[onde me meto.
Costumo ter saudade de mim e,
se aceitei a condição de ficha,
foi por aprender com um lápis suicida
que a eternidade não elege o risco,
mas a rasura.
(O poema também não estava, nem na minha cabeça, com a foto que Eudora me trouxe depois.)
E súbito, não respondi à pergunta da primeira candidata, se eu era professor. De mesmo modo não respondi à segunda pergunta, da segunda candidata, de que matéria eu era professor. Também não tive de dizer a uma delas Legal, boa sorte! porque nenhuma comentou Também sou professora de espanhol. Não falei na língua de Cervantes com esta nem lhe comentei o acento demasiado argentino. Não escutei a outra dizer Sou professora de inglês. Às nove e meia as candidatas não entraram para a seleção e eu não pensei onde ficava o banheiro. Apenas não levantei para procurar um bebedouro e não me senti mal ao pensar que deveria estar de camisa em vez de camiseta.
Então, passando das dez da manhã, não fui chamado depois de me despedir das professoras candidatas, muito confiantes porque muito sorridentes. Não pensei que falariam de mim no caminho. Posso dizer que talvez elas nem tenham saído.
Na entrevista que não ocorreu não fiquei imaginando se a psicóloga era casada nem se gostava da coisa. Não quis café. Não tive de entregar currículo (que não tenho), nem comentar que a língua espanhola era importante por causa do Mercosul. Não explanei os métodos de trabalho que nunca usei, ilustrando com as mãos nervosas. Não disse onde me formei. Não fui behaviorista nem lacaniano. Não menti que costumava trabalhar com as tiras da Mafalda. Não precisei escolher se dava aula falando em português ou em espanhol. Não balancei a cabeça para a psicóloga quando expôs a crise do ensino médio nem elogiei com os elogios de sempre a postura inovadora da escola. Não confirmei que sabia trabalhar em equipe. Não aceitei dar aula em três séries diferentes. Não me importei com obrigações sufocantes, como a de fazer cinco avaliações, um parecer trimestral sobre cada aluno e ainda responder a questões dos pais sobre os filhos na reunião de entrega dos boletins. Não fui um professor com experiência e acostumado com tudo aquilo. Não disse Ótimo quanto ao salário proposto pela carga horária de vinte horas. Por fim, não esbocei numa folha timbrada, por escrito e em letra segura, as estratégias de uma aula de espanhol e por isso não perdi tempo pensando um conteúdo interdisciplinar que provasse que eu era moderno. Não reforcei que usaria recurso multimídia, sobretudo a internet (e a psicóloga não sorriu quando leu isso). Não deixei telefone. Não me despedi ao sair.
Fácil dizer que depois de não esperar o ônibus não peguei o ônibus nem desci na parada da esquina. Não encontrei ninguém. Não havia ninguém na rua, nem nenhum carro e por isso não aguardei um sinal luminoso onde uma pessoa anda. Não atravessei a rua. Não voltei para casa sorridente por ter me tornado mais um ex-professor.
E simplesmente estive deitado na cama, na apoteose de um dia linear. Sem hora para ficar de pé, levantei porque me deu vontade de ir ao banheiro. Só de cuecas, me encarei com respeito no espelho. Enquanto mijava orgulhoso, dizia para mim mesmo Hoje eu não me atraso mais.
Voltei pra sala com dois livros grossos, me sentei no sofá e olhei pro mancebo de madeira. Falei firme: A partir de hoje eu só domingo. Ele entendeu, e eu me deixei lendo, acho que por dois dias seguidos.

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