domingo, 26 de maio de 2013

O projeto Sambabook-Eduardo Tristão Girão‏

Projeto Sambabook chega à segunda edição com Martinho da Vila, que ganha discos, DVD, álbum de partituras e biografia escrita por Hugo Sukman a partir da discografia do artista 


Eduardo Tristão Girão

Estado de Minas: 26/05/2013 

Segundo contemplado pelo projeto Sambabook, Martinho da Vila conta que assumiu para valer o papel de homenageado e fez questão de não dar pitaco em nenhum dos produtos que acabam de ser lançados para registrar a importância de sua obra: dois CDs, um DVD, um blu-ray, um livro e fichário com partituras de 60 de suas canções. O repertório, formado por 26 músicas, impressiona por ter praticamente o mesmo número de convidados especiais, dos filhos à Orquestra Petrobras Sinfônica.

“O pessoal da Musickeria, responsável pelo projeto, queria que eu escolhesse tudo, mas achei melhor ficar de fora e não me auto-homenagear. Eles buscaram um grupo bem diversificado de convidados e ficou bem interessante”, conta Martinho. Várias gerações subiram ao palco para cantar com o artista em apresentação gravada em novembro passado, no Rio de Janeiro.

As aparições vão de Paulinho da Viola, que abre o repertório com Quem é do mar não enjoa, a Pitty, que solta a voz em Roda ciranda. “Eles tiveram essa ideia da Pitty e achei ótima, pois um dia ela me disse que conhecia muitas músicas minhas. Fiquei surpreso. Além disso, ela pegou uma música que não é tão fácil de cantar”, observa Martinho, que completou 75 anos em fevereiro.

Além deles, marcaram presença artistas como Ney Matogrosso (que canta em Ex-amor), Leci Brandão (Casa de bamba), Luiz Melodia (Disritmia), João Bosco (Menina moça), Elza Soares (Madalena do Jucu), João Donato (Meu laiáraiá), Zeca Baleiro (Pequeno burguês) e Pedro Luís (Pra que dinheiro?), além dos filhos Mart’nália (Segure tudo), Tunico da Vila (Meu off Rio) e Maíra Freitas (Fim de reinado).

“A maioria deles já gravou música minha, como o Toni Garrido, a Leci, o Ney e o Pedro Luís. Já o João Bosco é parceiro meu, mas nunca havíamos gravado nada juntos. Aliás, foi com ele que fiz Odilê, odilê, cantada nesse projeto pela Ana Costa. Já o Paulinho da Viola mandou ver de maneira bem original”, conta o artista. Apesar de achar um tanto “arriscado” trabalhar com orquestra, esta não foi sua primeira experiência com uma formação do tipo. “É tudo escrito, não há improviso. É emocionante”, diz.

Infantojuvenil Martinho da Vila, que este ano se apresentará em países da Europa e em Israel, fará três shows de lançamento deste novo trabalho em São Paulo, no fim do mês, e pretende contemplar Belo Horizonte com o mesmo espetáculo.

Além disso, o artista planeja o lançamento de seu 12º livro, O nascimento do samba, em BH. Já lançado no Rio de Janeiro, é voltado para o público infantojuvenil e retrata o popular gênero musical brasileiro ao longo do tempo, com o auxílio de personagens criados pelo compositor e, claro, uma dose de fantasia.

Nobreza popular
Depois de contemplar o compositor carioca João Nogueira em 2011 e, este ano, Martinho da Vila, o projeto Sambabook deverá se voltar para Paulinho da Viola. O formato será o mesmo, com CDs, DVD, blu-ray, livro e partituras reunidas em fichário. Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, Jorge Aragão, Nelson Cavaquinho, Monarco, Noel Rosa e Dona Ivone Lara estão entre os cotados para dar continuidade à iniciativa.

Vá aonde tiver samba

João Paulo


O projeto Sambabook é composto de discos, DVDs, partituras e, numa criação bem pensada, de uma discobiografia. Como o nome diz, uma biografia feita a partir dos discos do sambista da vez. Foi assim com João Nogueira e agora é a hora de Martinho da Vila. O responsável pela pesquisa e texto é o jornalista Hugo Sukman, repórter experiente e autor de outros livros sobre a MPB (Histórias paralelas – 50 anos de música brasileira e Heranças do samba, entre outros) e atual curador do projeto do novo Museu da Imagem e do Som. A escolha foi acertada, ele entende do riscado, ainda que o excesso de elogios, mesmo que justos, por vezes dê um ar um tanto chapa branca ao livro.

Se existe um artista sobre o qual se pode contar a vida, passo a passo, a partir de seus discos, é Martinho da Vila. Sem pressa, mas sempre consciente de sua arte, em 45 anos de carreira lançou 38 discos, todos representando um momento especial de sua trajetória. A crítica gosta de falar em “conceito” para se referir a um disco que tem uma ideia que unifique todas as faixas, um projeto comum que se lê por meio das canções, da escolha dos músicos e até da capa do álbum. Martinho da Vila, muito antes de a palavra virar moda, sempre fez discos conceituais.

O primeiro disco, que leva o nome do sambista, de 1969, dá o mote para apresentar as origens de Martinho da Vila, nascido em Duas Barras (RJ), durante o carnaval de 1938, e que se mudou para uma favela do Rio ainda menino. É essa dupla origem que o lança num universo do samba que tem as marcas do rural e do urbano. Depois de se apresentar no mítico Festival da Canção da Record, de 1967, com um partido alto (algo incomum na época da canção de protesto e da era de ouro da chamada MPB), Martinho se revela também bom cantor e é convidado para gravar o primeiro disco, todo de composições próprias. Entre elas, clássicos como O pequeno burguês, Casa de bamba e Iaiá do cais dourado. O disco, no entanto, se ressentiria de baixa qualidade técnica, o que passou a ser obsessão do artista desde então.

O segundo LP, Meu laiaraiá, de 1970, também todo autoral, foi feito no capricho, com arranjos de Severino Filho e Ivan Paulo. Não vendeu tanto quanto o primeiro e ainda carregou a pecha de ser obra de militar (Martinho era sargento do Exército), o que era um pecado capital em época de repressão militar. Martinho deixaria o Exército para se dedicar com exclusividade à música. O destaque, além do cuidado técnico e musical, foi a afirmação do universo das escolas de samba, que até então eram vistas com interesse mais antropológico que cultural.

Assim, a cada disco, Martinho da Vila foi escrevendo sua história, com alguns momentos de inflexão em sua trajetória. É o caso do terceiro disco, Memórias de um sargento de milícias, de 1971, que canta as lembranças do compositor, dos sambas de Ataulfo Alves e Candeia aos temas inspirados na tradição popular, como a capoeira. O álbum marca ainda a parceria, que atravessaria três décadas, entre Martinho da Vila e o arranjador e produtor Rildo Hora, que deu a roupagem definitiva e sofisticada da arte popular do cantor de Duas Barras. A inspiração no samba de raiz continuaria no disco do ano seguinte, Batuque na cozinha, e Origens, de 1973.

O sexto disco, Canta, canta, minha gente, traria outro parceiro para Martinho, desta vez um artista gráfico, Elifas Andreato, que passa a ser responsável pela capas dos discos e cenários de shows (o artista assinaria todas as capas do sambista até 2003). Martinho se afirma como homem de palco, ampliando sua carreira para todo o país e para o mercado internacional, com shows na Europa e na África.

Da família e do mundo


A cada trabalho o sambista parecia somar mais um elemento à sua visão de mundo e de arte. Como por exemplo a simplicidade de Tendinha, de 1978, considerado um marco para o pagode de classe de gente como Zeca Pagodinho e Arlindo Cruz. Ou Samba enredo, de 1980, 12º disco de Martinho, uma reação ao estilo de sambas de avenida mais ligados aos carnavalescos que aos compositores. E também Martinho de Vila Isabel, de 1984, integralmente dedicado à escola de coração. E, em 1988, com o antológico Festa da raça, com temática negra e atmosfera ao mesmo tempo de celebração e mobilização. O disco abre com o já clássico Kizomba, festa da raça, mas traz outros sambas-enredo com a mesma temática.

Com Lusofonia, de 2000, 30º disco, Martinho da Vila sedimenta a ponte com os países de língua portuguesa, com a participação de vários artistas africanos e de ritmos de Angola, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, sem deixar de fora Portugal. O mesmo espírito internacionalista estaria presente em Conexões, de 2003, com algumas canções de Martinho vertidas para o francês; Brasilatinidade, de 2005; e Do Brasil e do mundo, de 2007.

Em 2011, Martinho da Vila chama a família para mostrar que em sua casa todo mundo é bamba com o disco Lambendo a cria, com a presença do filho Tunico e das filhas Mart’nália, Analimar e Maíra Freitas (esta pianista clássica). No ano passado, o compositor mostrou que não tem mesmo pressa e que o apelido Devagar é também um estilo de vida. Insatisfeito desde o início da carreira com a qualidade técnica de seu primeiro LP, Martinho regrava todas as faixas e acrescenta outras do mesmo período que ficaram de fora, em 4.5 atual.

Para Hugo Sukman, ao recriar seu primeiro disco, “Martinho constrói mais uma das inúmeras pontes culturais que fez durante sua obra – que é a ponte para a criação do próprio samba brasileiro: exatamente a que liga a Bahia ao Rio”. A ideia é boa, mas inexata: Martinho não é do Rio, nem da Bahia, nem de Minas, com suas formas tradicionais de samba rural: Martinho é da Vila. A Vila, ensinou Noel, é o mundo, mas não quer abafar ninguém.

Quem quiser falar com Martinho não precisa perguntar, “vá aonde tiver samba”. (JP)


MARTINHO DA VILA – DISCOBIOGRAFIA
De Hufo Sukman
Editora Casa da Palavra,
304 páginas, R$ 34,90 

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