quinta-feira, 12 de setembro de 2013

CINE CEARÁ » Uma reflexão sobre a loucura‏


CINE CEARÁ » Uma reflexão sobre a loucura Documentário do mexicano Solar Luna mostra o drama de um paciente encarcerado por 23 anos em um hospital psiquiátrico 


Mariana Peixoto *

Estado de Minas: 12/09/2013 


O longa-metragem O paciente interno apresenta o relato de Carlos Castañeda de La Fuente: inocente ou culpado? (Cine Ceara/Divulgação)
O longa-metragem O paciente interno apresenta o relato de Carlos Castañeda de La Fuente: inocente ou culpado?

Fortaleza – Em 2 de outubro de 1968, centenas de estudantes foram mortos na Cidade do México. A 10 dias do início dos Jogos Olímpicos naquele país, a ação dos manifestantes, que ecoavam o que ocorria no mundo, foi reprimida com truculência pelos militares, no que veio a se chamar Massacre de Tlatelolco. O país era governado por Gustavo Díaz Ordaz Bolaños, que, sob pressão, fez um mea culpa um ano mais tarde. Pois em fevereiro de 1970, durante um ato público e já em fim de governo, Díaz Ordaz teria sofrido um atentado.

O autor seria Carlos Castañeda de La Fuente, que estaria vingando os estudantes mortos e desaparecidos – dezenas segundo números oficiais; centenas de acordo com grupos de direitos humanos. O presidente, que governou o México de 1964 a 1970, nada teria sofrido. A única certeza diante de tudo, já que não há nenhuma documentação sobre o ato em si, é que Castañeda ficou encarcerado 23 anos em um hospital psiquiátrico. Depois de um trabalho impecável de investigação, o mexicano Alejandro Solar Luna apresenta essa história em O paciente interno, documentário exibido anteontem na mostra competitiva do Cine Ceará.

Pesquisa A história de Castañeda era praticamente desconhecida. O realizador tomou contato com ela por meio de uma reportagem publicada em um jornal em 2004, sobre um homem que havia atentado contra a vida de Díaz Ordaz e que vagava pelas ruas da Cidade do México. “Guardadas as devidas proporções, ele é o nosso Pinochet”, disse o diretor sobre o antigo presidente. Mais do que mostrar a trajetória de Castañeda, o diretor realiza um trabalho de denúncia contra o antigo sistema psiquiátrico.

Livre do encarceramento desde 1993, Castañeda é um morador de rua que exibe as sequelas de uma vida à base de antipsicóticos e enclausuramento. Luna, que começou efetivamente a pesquisa do documentário em 2008, foi encontrá-lo um ano mais tarde, depois de contratar um investigador particular. Só tinha uma foto antiga de Castañeda e a ajuda de uma advogada que havia tentado tirá-lo do hospital. “Em cinco minutos de conversa, ele me disse que tinha tentado matar o presidente. Perguntei se ele queria contar sua história e ele aceitou”, conta Luna. A motivação seria um delírio de Castañeda. Muito religioso, ele teria achado que se o massacre havia matado jovens e o México era um país católico, então ele tinha que vingar os católicos matando o presidente.

Com 69 anos, às vezes lúcido, outras vezes desconexo, o personagem revelou seu passado. Castañeda ficou internado quatro anos no Pavilhão 6 do Hospital Psiquiátrico Samuel Ramírez Moreno – na verdade, uma solitária de onde os próprios enfermeiros não tinham a chave – e 19 no Pavilhão 5, destinado aos pacientes inimputáveis. Com uma câmera onipresente, mas nunca ostensiva, Luna vai acompanhando a vida de Castañeda. A vida em um albergue, o encontro com o irmão, a relação com outros internos. As imagens são intercaladas com depoimentos de advogados, psiquiatras, enfermeiros e até o tutor legal de Castañeda, que não aceitou ser filmado, e só aparece em gravação de áudio.

“Mais do que uma denúncia, esse filme é uma reflexão sobre a loucura”, afirmou Luna, que há mais de um ano perdeu Castañeda de vista. Tenta encontrá-lo passando nos lugares que sabe que ele costuma frequentar para lhe mostrar o filme. O paciente interno estreia no circuito comercial mexicano no próximo dia 27. O diretor espera polêmica, ainda mais porque o Partido Revolucionário Institucional, do presidente Díaz Ordaz, voltou ao poder em 2012 com a eleição de Enrique Peña Nieto.


* A repórter viajou a convite da organização do Cine Ceará

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