terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Maria Esther Maciel-Véspera de Natal‏


Estado de Minas: 24/12/2013 


A ficha de Pedro, com referência ao Natal, ainda não tinha caído até sábado passado. Foi nesse dia que ele se deu conta de que o 25 de dezembro estava para chegar. Enredado em vários problemas, não se lembrara de comprar presentes. Aliás, desde que se separou da mulher, no ano passado, e seu único filho se casou, não tem se preocupado muito com essas coisas, apesar de ter pai, irmã, cunhado e um casal de sobrinhos adolescentes. Ficou ainda mais despreocupado quando o filho lhe disse que passaria as festas de fim de ano com a família da esposa, no interior.

No sábado, porém, Pedro recebeu um e-mail do sobrinho pedindo de presente um jogo de videogame, encontrável apenas numa certa loja. Foi aí que se lembrou de que precisava mesmo comprar alguns presentes, antes que fosse tarde. Assim, resolveu ir a um shopping (o critério de escolha foi a loja do jogo), sem a mínima ideia do que comprar para as outras pessoas.

Pedro nunca gostou dessa obrigação de dar presentes. Ele acha que é bem melhor presentear as pessoas quando elas menos esperam. A surpresa, ele pensa, dá um charme especial ao ato. A pessoa presenteada se sente mais querida e mais valorizada num dia em que não imagina que alguém possa se lembrar dela. E para comprar um presente assim, de surpresa, não é preciso pôr a pessoa numa lista, nem sair a contragosto só para achar qualquer coisa e fazer jus à data.

Ir ao shopping não foi tarefa fácil naquele dia por causa do trânsito e da chuva fina. Ao chegar, a maratona foi outra, mas não menos complicada: encontrar vaga no estacionamento. Filas de carros parados, à espreita. Alguns veículos rodavam em círculos, sem achar espaço disponível. Pedro quase desistiu. Mas resistiu, heroico, até conseguir a bendita vaga, um bom tempo depois.

Quando finalmente entrou no shopping, ficou atônito. Muito barulho, muita histeria. Um Papai Noel magro, com a barba postiça despencando do rosto, fazia propaganda de celulares. Jingles de Natal ecoavam nas lojas. Moças de capuz vermelho distribuíam brindes nos corredores. Meio zonzo, Pedro andou pra lá e pra cá até achar a tal loja de jogos. Ao se aproximar, foi recebido por vendedoras sorridentes, que lhe diziam: “Feliz Natal!”. Atordoado, não conseguiu perguntar pelo jogo que fora comprar. Olhou para o fundo, onde fica o caixa, e viu uma enorme fila de pessoas com guias de pagamentos e cartões de crédito nas mãos. Decidiu, então, sair dali e ir procurar outra coisa para o sobrinho. “Ai, meu Deus, e ainda tenho que achar presente para o papai, a Lu, o Rui, a Bia, a diarista e a filha dela!”, pensou. A tontura tomava-o completamente.

De repente, teve um clique: “É isso que chamam de Natal? O que estou fazendo aqui, neste lugar que não tem nada a ver comigo?”.  Foi assim que decidiu, com firmeza, não se render. Não compraria nenhum presente. Essa seria sua forma de protesto. “Quem me ama, vai me entender”, pensou. “Já quem acha que amar é dar presente em dia marcado que me perdoe, mas não vou dar nada para ninguém neste Natal”, concluiu.

Com uma súbita leveza de alma, foi para o estacionamento, pegou o carro e seguiu para casa, com planos de abrir uma garrafa de vinho e curtir, ao som de um bom jazz, a sua noite de sábado. 

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