sábado, 29 de março de 2014

Antes das palavras

Antes das palavras 
 
Aracataca, cidade natal de Gabriel García Márquez, evoca a história e os fantasmas de Macondo, a localidade mítica da Colômbia onde se passa a ação do romance Cem anos de solidão 
 
Carolina Braga
Estado de Minas: 29/03/2014

 (Álvaro Delgado/Divulgação)

Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente (Álvaro Delgado/Divulgação)
Aracataca, uma cidade dividida entre o passado mítico e as demandas do presente


Aracataca (Colômbia) – Na parede branca, de rodapé azul, bem ao lado da janela com grade, algumas marcas conhecidas. Twitter, YouTube, Yahoo, Skype dividem um lado da fachada. Do outro aparecem Facebook, Google. O traço é imperfeito. Estão ali pintadas à mão. Na loja do lado, outra marca globalizada. Desta vez, produto para emagrecimento. Coisa de mundo em que basta olhar para saber o que é. A bicicleta verde, velha, de guidão enferrujado, estacionada na porta, é um contraste. Sinal de tempo. E que tempo!

De uma época bem anterior à invenção desse meio de transporte de duas rodas. Imagina, então, da internet. Quando aquele lugarejo não deveria ter mais do que 20 casas de barro e taquara. Em que o mundo era tão recente que, aí sim, era preciso nomear tudo e ainda apontar com os dedos para saber exatamente do que se estava falando. Onde a invenção do gelo surgiu com o sonho de fazer dali uma cidade invernal. O calor, porém, continua infernal e ainda assim ninguém tira daquele lugar o clima de realismo fantástico.

Pois mesmo com borboletas amarelas desenhadas nas paredes coloridas, ruas de concreto, mototaxistas por todos os lados, loja de produtos chineses e venda de créditos de celular, no imaginário de quem vive em Aracataca a cidade nunca vai deixar de ser Macondo. O município no interior da Colômbia, a 255 quilômetros de Cartagena, serviu de inspiração para a vila fictícia criada por Gabriel García Márquez em Cem anos de solidão. Será Macondo para sempre, porque há uma nova geração de cataqueños preparada para cuidar disso.

“Nossa cidade entrou na história por esse grande personagem ter nascido aqui, no dia 6 de março de 1927”, explica a estudante Valéria Sofia, de 10 anos. “Foi em um domingo, às 8h30”, completou Marlys Claro, de 11. Elas sabem mais coisas sobre a vida de Gabo de cor. Sobre os livros também. Valéria tem Diário de um náufrago como predileto, enquanto Marlys prefere Cem anos de solidão. Por mais que ela nunca tenha tido a chance de chegar perto de Gabriel García Márquez – a última vez em que ele esteve na cidade a estudante tinha apenas 4 anos –, um dos cenários do livro que escolheu para a cabeceira tem a ver com a família dela. O avô de Marlys mora duas casas depois daquela em que nasceu Gabriel, o Gabo. Não há dúvidas de que é o local mais emblemático de Aracataca.

Tal como o próprio romancista descreve a sala de José Acardio Buendía, o local onde moravam os avós – o coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, a quem os netos chamavam Papalelo, e a avó Tranquilina Iguarán, tratada carinhosamente de Mina, também tem uma saleta ampla e bem-iluminada. Do mesmo modo, a sala de jantar é em forma de terraço, com flores de cores alegres no corredor. A casa existe dessa forma hoje em Aracataca, porque foi totalmente reconstruída, com o apoio de Gabo. A iniciativa partiu do compositor Jorge Carrillo Gusman.

Dois anos depois de o escritor ganhar o Nobel de Literatura, o autor do hino de Aracataca decidiu procurá-lo para propor a reconstrução de sua memória no município. “Busquei em Cartagena, no jornal El Universal, em que ele tinha trabalhado, até conseguir localizá-lo.” Como conta Gusman, Gabo vibrou com a ideia, enviou arquitetos de outros locais para conhecer o terreno. A casa reproduzida tal qual está registrada na lembrança hoje abriga o Museu Gabriel García Marquez.

A arquitetura segue o modelo antigo e os móveis e objetos que ali estão são exemplares da mesma época, porém não são originais. Gabriel García Márquez saiu de Aracataca aos 8 anos e nunca mais voltou a morar ali. No primeiro capítulo da autobiografia Viver para contar, ele narra a viagem que fez com a mãe ao lugarejo, na tentativa de vender a casa. Para Gusman, a inauguração do museu coincidiu com um movimento nas escolas de Aracataca de valorização da literatura de García Marquez.

“Houve um empoderamento de algo que se desconhecia e parecia utópico. Hoje as crianças já conhecem a literatura dele, inclusive têm uma disciplina dedicada a isso”, explica Gusman. O trabalho na sala de aula surgiu em um momento em que a relação entre o escritor e a cidade precisava ser vista de outro modo. Andava meio estremecida.

Contraste Se a nova geração de Aracataca hoje demonstra orgulho ao falar sobre García Márquez, os mais velhos sempre deixam transparecer certa mágoa do escritor. “Gabo não para aqui, mas é uma pessoa muito correta. Há uma quantidade de histórias sobre ele, umas boas outras más. Prefiro as boas”, despista o pedreiro Daniel Molina, enquanto compra uma sacola lotada de bananas verdes. Entre uma conversa e outra sobre as plantações de banana, Molina dá mais detalhes. Ele diz que há quem culpe o escritor por Aracataca não ter evoluído.

“Quando ele veio aqui, não consegui chegar perto, mas meu irmão foi o motorista do carro no qual ele andava. Contou que Gabo ficou superorgulhoso. Ele não pensava que Aracataca ia crescer tanto. Os políticos locais é que têm culpa de o povoado ainda estar atrasado. García Márquez queria que tivesse desenvolvido”, defende o pedreiro Victor Meriño. Assim como Daniel Molina, ele acha exagerada a cobrança dos veteranos.

Há mesmo ainda muita simplicidade e dificuldade no modo de viver por lá. À parte o tempo úmido e quente, nem água encanada é uma realidade para todos os moradores. Por isso, é comum que no banheiro das casas se encontrem grande galões. Apenas por um momento do dia a água pinga dos canos. É hora de encher o reservatório para depois tomar banho, escovar os dentes e lavar as mãos. Tudo de cuia. 

Se o município ainda necessita de infraestrutura básica para quem vive ali, imagine para receber visitantes. É praticamente inviável. O único albergue que existia em Aracataca fechou há poucos dias. Era mantido por um europeu, que, inclusive, adotou por conta própria o sobrenome de Buendía, tal como os herdeiros de Aureliano, personagem de Cem anos de solidão. Tem restaurante, repleto de referências ao personagem ilustre, mas ainda com estrutura muito caseira.

“Tem pessoas que são ressentidas pelo fato de Gabo não vir mais aqui. Para quê? Um Prêmio Nobel nascido em Aracataca é a mais bonita representação da cidade no mundo todo”, defende a professora Dora Osório. “Somos de Aracataca e queremos que este lugarejo fique melhor, tenha melhores ruas e outras condições. Gabriel já fez o que podia. Ganhou o Nobel e já nos fez aparecer internacionalmente”, completa a também professora Yadira.

O escritor Gilberto Tejeda credita a ausência de García Márquez em Aracataca ao enorme assédio. Gabo é um homem de hábitos simples, tal como seus conterrâneos, como diz Tejeda. “Aracataca é um lugarejo onde todos os escritores, pintores e poetas são silvestres, como as borboletas amarelas.” Com um livro que ele mesmo editou debaixo do braço, o cataqueño garante que ali é um lugar onde o incrível parece realidade. “Gabo narra isso com uma clareza impressionante. Aracataca tem muita história para contar. Leve este livro e leia-lo”, diz, entregando o exemplar de Los amores de um cabron soñador.

*A repórter viajou com a bolsa de jornalismo cultural oferecida pela Fundación Gabriel García Márquez para el Nuevo Periodismo Iberoamericano. 

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