quarta-feira, 28 de maio de 2014

Ingerir bactérias faz bem

Probióticos, encontrados em produtos lácteos ou em cápsulas manipuladas, têm papel fundamental no fortalecimento do sistema imunológico do organismo humano, dizem especialistas


Paula Takahashi*
Estado de Minas: 28/05/2014



São Paulo – Parece coisa de criança, mas não é. O consumo regular de lactobacilos, muito frequente na infância, por meio de bebidas contendo leite fermentado, pode trazer benefícios para o organismo que vão além da melhora do trato gastrointestinal. Nos pequenos, o efeito mais esperado é a reversão de quadros de diarreia, comuns na fase em que tudo vai parar na boca. Mas a regra não vale apenas para eles. Os lactobacilos integram um grupo de bactérias boas para o organismo conhecidas como probióticos, que têm papel fundamental no equilíbrio da microbiota intestinal – chamada popularmente de flora – em qualquer fase da vida. Os reflexos começam no intestino, mas se estendem para todo o organismo.

“Eles (probióticos) são capazes não apenas de melhorar a flora bacteriana dentro do intestino, como a própria flora ginecológica. Portanto, as mulheres que consomem ficam menos propícias a infecções como a candidíase. Também é reduzida a incidência de herpes”, afirma Frederico Pretti, médico especialista em nutrologia e tratamento ortomolecular. Outras doenças genitais, como corrimentos, podem ser combatidas tanto com o uso tópico como oral desses probióticos, lembra Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Benefícios que estão relacionadas à melhora da imunidade do organismo, que ocorre de forma generalizada uma vez que o intestino é o maior órgão de defesa do nosso corpo. “São sete metros de um sistema imunológico completo. O grande efeito dos probióticos está no fato de colocar bactérias benéficas no local e, desta forma, impedir o crescimento daquelas que são patógenas e causam enfermidades”, explica Fisberg. Há estudos que revelam, inclusive, a prevenção de doenças respiratórias em crianças e idosos que passam grande parte do tempo em ambientes fechados, como creches e asilos.

A fisioterapeuta Luciene Amélia Peixoto Vieira, de 45 anos, colocou os probióticos na dieta há dois meses e já sentiu os efeitos na imunidade. “Sempre que eu pegava uma gripe, caía no antibiótico. Recentemente peguei uma virose e já estava preparada para as complicações, mas me surpreendi. Não tive nenhum problema, enquanto meu marido ficou com febre”, conta. Ela não abre mão do consumo duas vezes ao dia e reconhece que o hábito contribuiu para a perda de quatro quilos dos últimos dois meses.


EM BUSCA DO EQUILÍBRIO Ao entrarem no organismo, os probióticos resistem à ação das enzimas estomacais e chegam ao intestino. Lá, Flávio Quilici, professor titular de gastroenterologia da PUC-Campinas e presidente da Sociedade de Gastroenterologia de São Paulo, explica que há 100 trilhões de outras bactérias, a maioria delas conhecidas como comensais ou do bem. “Quando há um equilíbrio entre aquelas benéficas e as patógenas, dizemos que ocorre a eubiose. Em uma situação como essa, as bactérias boas vão contribuir para a saúde intestinal do indivíduo enquanto forem consumidas”, explica Flávio.

Refeições desregradas ricas em carne vermelha, açúcar e alimentos refinados, como a farinha branca, podem provocar um desequilíbrio nesse ambiente, levando à chamada disbiose. É aí que os probióticos entram. “Eles ajudam o corpo a retomar o estado de eubiose”, observa Flávio. Nessas condições, a membrana do intestino tem sua seletividade melhorada. “É ali que é selecionado o que será absorvido e excretado. Se estiver saudável e equilibrado, aquilo que for mais benéfico a membrana deixa entrar e o que é pior, fica de fora. Quando isso não ocorre, entra o que não deveria e pode haver, até mesmo, o aumento da incidência de alergias”, alerta Frederico Pretti.

O uso de antibióticos também está entre os fatores que desencadeiam a disbiose. Nesse caso, a ação dos probióticos pode ser ainda mais recomendada. “Levantamentos apontam que 30% dos pacientes que usam antibióticos podem ter diarreia, já que o medicamento altera a diversidade da microbiota e enfraquece a barreira intestinal em termos de muco. Cada dia de antibiótico aumenta em 16% o risco de diarreia, e a associação de medicamentos, muito comum, eleva esse risco para 65%”, detalha o gastroenterologista Dan Waitzberg. Capazes de reestabelecer esse equilíbrio e aumentar a produção do muco, os probióticos ajudam a reverter o quadro diarreico.

Cada uma com função específica

Iogurtes, coalhada e leite fermentado são as principais fontes de probióticos na alimentação diária. Mas é preciso cautela e orientação ao se consumir esses produtos, já que existem bactérias com fins diversos. “Não se recomenda, por exemplo, controlar diarreias com o uso de iogurtes, porque uma das bactérias presente neles é desenhada para melhorar o componente imunológico e a outra para melhorar a constipação, justamente o contrário do que se busca nesse caso”, alerta o o gastroenterologista Dan Waitzberg.

Por isso, há opções de probióticos em forma de sachês e cápsulas que carregam bactérias para atuações específicas, com efeitos bem definidos. “Normalmente, o controle da diarreia é feito com produtos não lácteos, como acidófilos, ou um conjunto de lactobacilos e bifidobactérias ministradas em forma de drágeas, cápsulas, comprimidos e sachês”, detalha Dan. É importante verificar também se aquele quadro de diarreia não pode evoluir para uma colite pseudomembranosa, causada pela bactéria Clostridium difficile, caso mais grave, que deve ter atenção e tratamento médico especial.

Seguir orientação médica ou de um nutricionista é fundamental para que o consumo seja correto e traga os resultados esperados. Assim como não se pode consumir qualquer coisa, também não são todas as pessoas que têm recomendação para ingerir os probióticos. “Quem tem imunidade muito reduzida, como aqueles que fazem quimioterapia ou têm HIV positivo, corre o risco de que a bactéria, mesmo que seja boa, saia do intestino e caia na corrente sanguínea, podendo causar infecção generalizada”, alerta a médica nutróloga do Instituto de Metabolismo e Nutrição, Daniela Gomes. (PT)

(*) A repórter viajou a convite da Danone

PERDA DE PESO

Já há relações entre o consumo de probióticos e a perda de peso. Segundo Glesiane Alves, nutricionista especializada em nutrição funcional, é possível associar a microbiota intestinal ao acúmulo de tecido adiposo. “Os probióticos têm sido propostos também para interagir com as bactérias que já estão presentes no intestino, alterando as suas propriedades, que podem afetar as vias metabólicas envolvidas na regulação do metabolismo lipídico”, observa.  

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