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quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Jairo Marques

folha de são paulo
"Sei que isso não pode, mas..."
Querer tirar vantagem de tudo consciente de que é 'ilegal, imoral ou engorda' é de chorar pelado no asfalto
Meu povo, as colunas voltaram! Agora, às quartas, que é dia de feira e, por isso, vou continuar distribuindo pepinos, abacaxis e dando tomatadas em defesa de um pouco mais de cidadania e da discussão de valores do danado do "serumano" em toda sua diversidade.
E é nesse espírito que digo: caso você seja usuário contumaz da frase que dá título a essa "falação", bote fé, está colocando uma cabeça de leitoa e causando transtornos na vida de muita gente.
O "eu sei que isso não pode, mas" é a involução do jeitinho brasileiro, turbinado com mais acesso à educação, à informação, ao conhecimento e ao poder de compra.
Querer tirar vantagem de tudo, trapacear na surdina, agir sempre com os seus interesses à frente do bem comum é péssimo socialmente, mas fazer isso consciente de que é "ilegal, imoral ou engorda" é de chorar pelado no asfalto quente.
Uma grande amiga, uma dessas pessoas cegas que saem puxando cachorro pelas ruas, é alvo constante desses sabidos pouco camaradas.
O brasileiro chega perto dela e de seu "maraviwonderful" parceiro cão-guia --normalmente, ela nem é cumprimentada--, começa a brincar com o bicho, desconcentra-o totalmente do rigoroso e importante trabalho de orientação e, depois, dispara: "Sei que não pode agradar o cachorro, mas não resisti, ele é tão fofo".
Quando alguém tem o requinte de anunciar que tem noção plena de que está fazendo lambança com direitos ou regras básicas de convívio, está querendo indicar que não é um "burraldo" do mal.
Falar que "sabe que é errado" é uma tentativa de, mesmo em uma encruzilhada, desrespeitar a macumba e chutá-la para longe, querendo sair ileso e íntegro de uma situação em que é o responsável pelo desconforto.
Eu também sou alvo contínuo do jeitinho versão 2.0. Como sou cadeirante e preciso --é sério, não é luxo, eu preciso-- usar vagas reservadas em estacionamentos, pois, caso eu pare nos lugares convencionais, não vou conseguir sair de minha Kombi, estou sempre dialogando em tom de poucos amigos com quem se faz de transparente.
Não raro, nessas situações, o "eu sei que não posso" sofre uma metamorfose à base de mais sacanagem ainda para se transformar em "eu achei que poderia".
Funciona assim: em vez de fazer o carão da humildade, em vez de assumir uma falha, que pode acontecer com qualquer um, ou mesmo pedir desculpas, o sujeito resolve criar uma lógica de conveniência.
"Como estou com a unha encravada, pensei que tinha direito", "Ué, não vi ninguém na vaga e pensei que, quando estivesse vazia, qualquer um pudesse ocupar", "Sempre achei que essa tinta azul no chão e esse símbolo de um cadeirante eram propaganda de hospital".
Quando, de forma consciente, se anda pelo acostamento com pose de poderoso por deixar os "manés" no congestionamento", quando se pega "sem querer" a fila destinada aos velhos para ficar menos tempo no banco, mais perto o coletivo fica daquilo por que tanto esperneia: da corrupção, da desigualdade, da falta de educação e da intolerância.
Ótimo ter uma sociedade que sabe mais, que pode mais, que conhece mais. Mas bacana mesmo é que ela comece a reconhecer que nenhuma regalia pessoal irá trazer mais benefício do que o bem de todos.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Jairo Marques

folha de são paulo
Pula a fogueira, Iaiá
Resgatar o universo caipira é abandonar a empáfia cosmpolita que acha que o mundo só vale com glamour
O mês de junho chegou, mas, infelizmente, as bombas que explodiram por ele, até agora, não levaram à algazarra e ao encontro com um clima de sertão. Santo Antônio já se foi, e a fogueira montada não amparou do friozinho, nem sapecou o queijo, provocou, sim, medo em quem estava na rua.
A violência e as divergências vividas em grandes cidades nos últimos dias, que arrastam multidões que outrora quem sabe se divertissem com os "anarriês", marcam o período.
Festas juninas são oportunidades muito valiosas de brincar com a diversidade, de bailar contra o preconceito, de promover a integração. A sabedoria popular fez com que a dança de quadrilha só tivesse graça se os casais que a formassem fossem verdadeiros representantes do "juntos e misturados".
Não há graça em um arrasta-pé para são Pedro, por exemplo, em que os noivos sejam arrumadinhos, lindos e bem passados. O gostoso é ver um par com um gordo e um magro, um desengonçado e um arrumadinho, um jeca-tatu e uma patricinha.
Sempre adorei as festas de junho. Mamãe caprichava na roupa com farrapos, eu socava o pé na botina Sete Léguas e o chapéu de palha completava meu charme. A vizinhança se unia para fazer os quitutes, e a molecada fazia as bandeirolas.
Poucas cerimônias culturais conseguem abrir um diálogo de união tão importante entre personagens tão distintos. E as festas melhores são as que mais conseguem embaralhar elementos: do churrasquinho ao pé de moleque, da barraca do beijo ao bingo de frango assado embalado em papel celofane.
Resgatar um pouco do universo caipira é abandonar por uns momentos a empáfia cosmopolita que acha que o mundo só vale a pena com glamour e conquistas financeiras.
Dar as mãos e girar ao som de "O balão vai subindo, vai caindo a garoa" faz a meninice ficar inesquecível, a vida adulta resgatar sabores da infância e a velhice respirar um tempo tão bom do passado.
Mas seja na escola, seja na rua de casa, seja no clube, os "arraias" têm de dar a todos a chance para que festejem seu espírito de mudança. Quem não pode pular a fogueira que a rodeie, que o correio elegante atinja corações sem esperança e que os fogos iluminem e ampliem os pensamentos.
As festas, de certa maneira, reproduzem um microcosmo social e exercitam a convivência, os valores. Por isso, mais engraçados e provocadoras são as comemorações que botam o menino encapetado de religioso, o espoleta de delegado, a recatada de grávida e o ciumento de pai da noiva.
São justamente os conflitos de convivência, a intolerância ao pensamento divergente, o atrevimento continuo de não pular quando alguém grita "olha a cobra" que comprometem as festas juninas.
Ainda há tempo de marcar a chegada do inverno com festejos que aquecem o peito nas ruas, nas escolas e nas vilas. Dá para dividir o quentão e deixar de lado o vinagre, dá para se esbaldar de bolo de fubá sem machucar os olhos das meninas.
Em tempo: saio em férias em julho e, por isso, os leitores desta coluna ficarão sem meus pitacos por uns dias. Prometo voltar com a beleza renovada e com a brabeza ligeiramente amenizada. Sigo, porém, com posts no blog:http://assimcomovoce.blogfolha.uol.com.br

terça-feira, 4 de junho de 2013

E se de repente... - Jairo Marques

folha de são paulo
E se de repente...
O 'serumano' dedica-se ao conforto de fartar-se de alívio por não ser consigo a fatalidade na esquina
De repente, o maior jogador de basquete do país descobriu um câncer no cérebro. E foi de repente que a força daquela moça se foi e ela caiu. Também de repente aconteceu a mudança drástica na vida do filho baladeiro. De repente, surge uma ventania do acaso e move aquilo que se achava impenetrável.
É só puxar um bocadinho pela memória que todo o mundo consegue citar um exemplo de gente que teve a vida virada de cabeça para baixo em um estalo. Em um dia o fulano era inteirão, no outro ficou todo quebrado. Pela manhã, era uma jovem cheia de boniteza, à noite virou-se do avesso.
Acontecimentos repentinos no cotidiano podem maltratar planos, traz insegurança, agonia e costumam causar grande desconforto inicial. Fazer tudo sempre igual é uma chatice, mas, quando se alteram subitamente hábitos básicos como dormir tranquilo ou levantar-se da cama, o impacto costuma ser melancólico.
Ninguém espera um buraco em uma passarela de nuvens, ninguém quer o amor perfeito sofrendo com uma dor coronária repentina. Mas as intempéries da existência têm-se multiplicado na vida moderna devido à violência, à velocidade descontrolada, às novas enfermidades e às velhas enfermidades em pessoas novas.
A questão não é viver a paranoia de que tudo poderá mudar em um segundo e, por isso, é preciso ser mais precavido, viver em uma bolha, trancar os meninos em casa ou gastar tudo no bilhar. Não é possível levantar barreiras isoladoras contra o acaso.
Muitas vezes, porém, perde-se a oportunidade de promover um exame detalhado nos próprios procedimentos, na própria maneira de olhar os rumos por onde anda diante de experiências alheias.
Rotineiramente, o "serumano" dedica-se apenas ao conforto de comentar, de lamentar, de fartar-se de alívio por não ser consigo a fatalidade ocorrida na esquina. Raramente, alguém se encoraja a tentar fazer algo diferente seja para si, seja para os outros.
O resultado de procedimentos assim é sempre o isolamento e mais sofrimento para as vítimas do "de repente" e menos chances de evolução de valores tão caretas atualmente como fraternidade, solidariedade, atenção despretensiosa.
Em oposição a toda essa ladainha que exponho, há uma frase bastante forte a considerar: "Cada um com seus problemas". O que se passa com a vida do vizinho é exclusividade dele, mesmo que o impacto seja sentido em minha janela.
O ônus dessas atitudes, a meu ver, é mais preconceito ao desconhecido, mais distanciamento de situações que poderiam agregar valores poderosamente construtivos de caráter.
Faz parte dos mistérios da existência o poder incontrolável do acaso de mudar tudo do dia para a noite. Ele mexe com as mãos firmes de um médico, dispara o gatilho mesmo diante da não reação, altera o cromossomo, provoca um curto-circuito na mente sadia, arranja príncipe para bruxas.
Quando mais se apostar que insólitos movimentos da vida são para ser acompanhados com resignação e reza para que nunca atinjam o meu quintal, e apenas isso, menos se construirão meios de pavimentar com rapidez realidades que foram alteradas e mais vulnerável se ficará ao medo de deixar de fazer tudo sempre igual.
jairo.marques@grupofolha.com.br

    terça-feira, 21 de maio de 2013

    Jairo Marques

    folha de são paulo

    O pontapé do robô
    A roupa cibernética é mais uma vaidade para quem desenvolve tecnologia do que uma esperança real
    Agora só falta um ano e um tiquinho. Caso os deuses, juntamente aos chips, engrenagens e filipetas, colaborem, o Brasil vai mostrar ao planeta um garotinho quebrado das partes se levantar de uma cadeira de rodas com o auxílio de uma roupa cibernética e dar o pontapé inicial da Copa do Mundo. Imagino milhares de pessoas chorando e soltando em uma só voz: "Ahhhhhh, que lindo!"
    A tentativa para que esse momento de extrema emoção role, ao lado da bola e de alguns milhões de reais, acontece em um laboratório exclusivíssimo, no Rio Grande do Norte, liderado pelo sabido cientista Miguel Nicolelis.
    Dizem que um macaco lascado já conseguiu, com parte da parafernália em desenvolvimento, fazer um tchu nos movimentos. Então, é questão de dias, de acordo com aquela música caipira chiclete e chata, para o danado fazer o tcha, o tchutcha, e o tchatchatcha e sair saracoteando. Coisa pouca.
    Sou particularmente contra essa bobagem de pôr dinheiro, parte importante dele saído do contribuinte, em uma vestimenta robótica coligada a ondas cerebrais (oi?) para fazer menino dar uns passinhos e ludibriar pessoas, levando-as a acreditar que voltar a andar é algo simples e viável por meio de uma geringonça.
    Aparelhos ortopédicos que tentam levantar "serumano" de cadeiras de rodas existem desde o tempo em que o povo usava Glostora para aprumar os cabelos. Eu mesmo testei uns quatro ou cinco deles. Tudo inútil.
    Apesar de terem resultados na melhora de marcha para algumas pessoas, geralmente para aquelas com pouco comprometimento motor, os aparelhos são agressivos e dolorosos para outras.
    Recordo que o equipamento provocava tristeza em minha liberdade sobre rodas e que gerava uma expectativa infundada nas pessoas ao meu redor de que a cura estava próxima.
    A roupa cibernética me parece mais uma vaidade para quem desenvolve tecnologia do que uma esperança real para quem aguarda um caminho para ganhar mais qualidade de vida depois de sequelas deixadas por acidentes, pela violência ou por enfermidades.
    Cada pessoa com deficiência que teve os movimentos levados por intempéries humanas tem suas peculiaridades. A realidade e os anseios de um tetraplégico que está na labuta há dez anos são distintos dos de outro que entrou para o time há um mês. Penso que um ateliê de robozinhos andadores deva ser algo que nem o finado Clodovil conseguiria administrar.
    Vender a ilusão de que acoplar um robô a meus cambitos parados há 38 anos será simples e delícia como passar manteiga em pão quentinho, para mim, beira o insano.
    Criar a esperança de que todo o universo poderá ver um "milagre" pela TV e ampliar em alguns a crença infundada que "retomar os passinhos" é apenas questão de tempo e dedicação dos atingidos é de chorar pelado no asfalto quente. E tudo em prol da propaganda de um avanço imbecil de um país que não consegue garantir nem o básico direito de ir e vir.
    Sou entusiasta da ciência, mas também sou defensor ferrenho da pesquisa que visa seriamente ampliar a qualidade de vida das pessoas com métodos que avancem com clareza, com comprometimento de aplicação prática e com mais pé no chão do que glamour. E vida à célula-tronco!

    terça-feira, 7 de maio de 2013

    Jairo Marques

    folha de são paulo

    A mãe e o presente ideal
    O 'mimo' perfeito é um eterno porta-retrato, carregado de sentimentos, agradecimentos, desculpas
    Faz sete anos que consegui vencer "difinitivamente", como diria minha tia Filinha, o perrengue que todo filho passa nesta época do ano: escolher o presente perfeito, fofo, "maraviwonderful", surpreendente e inesquecível para a mãe.
    Tinha de ser algo que compensasse, de alguma forma, a minha ausência dolorosa dos últimos tempos e que fosse capaz de fazer festas particulares para ela como eu sempre fazia, na esquina de casa, ao vê-la chegando do trabalho, no finalzinho da tarde: "Tô com foooome! Trouxe surpresa para mim? Posso ficar na rua só mais uns minutinhos?".
    Não poderia ser uma flor, muito menos um liquidificador. Não serviria um sapato baixinho, uma blusa de linho ou mais um disco do rei dizendo que o amor é "tão lindo". Todas essas coisas não me representariam a contento aos sábados, quando ela se dedica a um bolo de cenoura ou ao biscoito de polvilho.
    Escolher presente para mãe é complicado porque ele tem de carregar uma série de sentimentos, de agradecimentos, de desculpas. Tem de representar um pouco do filho porque servirá, seja lá o que for, de eterno porta-retrato. Tem de ser algo que não vá levá-la a pensar que foi tão caro que a fará compensar o "prejuízo" na primeira oportunidade, botando uns trocados escondidos na carteira.
    Diante de todas as considerações, criei a convicção de que o presente ideal teria, então, de incendiar o cotidiano da minha "santa". Para isso, nada melhor do que Nero, um labrador preto, mimado e que foi muito bem mal escolhido! Certamente, o mais atentado da ninhada, o mais trabalhoso, preguiçoso!
    O cachorro, que chegou dentro de uma caixa de papelão, em pouco tempo tomou conta da casa e se transformou na "sombra" de mamãe. Agora, é ele quem a espera ao entardecer, quem pede comida sem parar, quem faz manha por um carinho e até dorme na rede, com direito a empurrões que embalam o sono.
    Em sete anos, Nero comeu a roupa do varal, conseguiu um lugar no sofá da sala para ver TV, escondeu o jornal em que o filho de São Paulo escrevia sobre uma infância feliz.
    Desorganizou o que estava certinho, babou com vontade quando se pedia para não lamber, amenizou a véspera de uma realidade septuagenária meio amarga e um tanto azeda para a mamãe. Deu bastante trabalho ao veterinário, brincou solto na lagoa, compartilhou com ela dias de solidão.
    Certa vez, o danado se engraçou com uma cadela poodle da vizinhança. Sumiu no mundo por uma semana, atrás da paixão juvenil, deixando uma mãe em desespero.
    Até aqueles cartazes que fazem cortar o coração o povo lá de casa teve de espalhar pela cidade: "Cachorro desaparecido, presente do filho, está deixando uma senhora desconsolada".
    O bicho é tão querido que tem o privilégio de ser chamado de "amado", de receber abraços apertados gostooosos, de ganhar risadas compridas de uma mãe sempre tão séria, tão preocupada e tão aborrecida por eu ter voado para longe e não mais contemplá-la da varanda.
    Por ter eu uma vida desregrada, no próximo domingo, Dia das Mães, mais uma vez, será Nero, o incendiário, a fazer minha vez no colo de minha velha. Só me resta a alegria de pensar que, tempos atrás, escolhi o presente ideal.

    sábado, 4 de maio de 2013

    USP tem só 4 negros nos dez cursos mais disputados

    folha de são paulo

    Dentre 774 matriculados em carreiras mais concorridas, só 0,5% diz ser preta
    Dados explicitam a discrepância de perfil entre estudantes e população paulista, que tem 5,5% de pretos
    JAIRO MARQUESDE SÃO PAULOApenas quatro alunos se declaram pretos entre os 774 matriculados nos dez cursos mais concorridos da USP (Universidade de São Paulo) do vestibular de 2012.
    Para as três carreiras mais disputadas (medicina, engenharia civil de São Carlos e publicidade e propaganda) nenhum matriculado se define dessa maneira no questionário aplicado pela Fuvest.
    Os dados explicitam a discrepância de perfil entre os candidatos que vão estudar na principal universidade pública do país e os habitantes.
    Se nos dez cursos mais concorridos da USP os que se declararam pretos se limitam a 0,5% do total de matriculados, na população paulista esse índice atinge 5,5%.
    Pelo Censo 2010 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), outros 63,9% dos paulistas se dizem brancos, 29,1% pardos, 1,4% amarelos e 0,1% indígenas.
    O número de pretos matriculados nas carreiras mais concorridas da USP recuou em relação ao vestibular de 2011, quando dez pessoas que se declararam pretas fizeram matrículas nos dez cursos.
    Naquele concurso, cinco pessoas que se inscreveram como pretas estavam nos três cursos mais concorridos.
    No questionário respondido pelos alunos, a USP usa a palavra preto, conforme classificação usada pelo IBGE.
    Pelos dados é possível constatar que menos de um terço dos cursos da USP terá estudantes declaradamente pretos. Em geral, estão em cursos com baixa concorrência.
    O curso com a maior quantidade absoluta de negros é o de licenciatura em matemática/física, com 17 pessoas. As carreiras de exatas, porém, são as que têm a menor proporção do grupo: 1,9%.
    A USP hoje dá bônus no vestibular para estudantes de escolas públicas, mas não existe um benefício específico para pretos, pardos ou indígenas. Uma ampliação da política está em estudo.
    David Raimundo dos Santos, diretor-executivo da ONG Educafro, afirma que há planos de ocupar a reitoria da universidade se não houver alterações no quadro para aumentar a inclusão de pretos.
    "Vamos dar à USP a última chance de ela levar a sério o pobre e o negro. Ela tem de pôr em prática o projeto para que todos os cursos, em todos os turnos, tenham, em três anos, 50% de alunos da rede pública, com renda per capita familiar de um salário mínimo e meio e cotas para pretos, pardos e indígenas."
    O perfil dos calouros da USP aponta também que a maioria estudou em escolas particulares.

      ANÁLISE
      Sob pressão, USP debate acesso a aluno da rede pública
      Faculdades divergem sobre o impacto das medidas na qualidade do ensino
      FÁBIO TAKAHASHIDE SÃO PAULOOs dados recém-divulgados do vestibular da USP pressionam a universidade a intensificar suas políticas de acesso a estudantes formados em escolas públicas.
      Atualmente, uma da principais ações é a concessão de bônus de até 15% na nota desses alunos na Fuvest.
      A própria reitoria reconhece que alterações são necessárias. Mas a intensidade das mudanças dependerá do embate de forças internas.
      A pressão começou há mais de uma década. Movimentos sociais apontavam que a USP era elitista, por ter menos de 30% de alunos de escolas públicas entre seus calouros, sendo que 85% do ensino médio era público.
      Parte dos acadêmicos começou a ficar convencida de que dar oportunidade a aluno desfavorecido poderia, além de representar justiça social, melhorar a qualidade do corpo discente, pois os beneficiados teriam mais motivação no curso.
      Por outro lado, surgiu o temor de que mudar o perfil do alunato da instituição poderia prejudicar a qualidade da universidade --considerada em diversos rankings a melhor da América Latina.
      Em 2006, a universidade implementou a bonificação no vestibular, que conseguiu reverter a queda no número de alunos de escolas públicas entre os aprovados. A proporção, porém, agora ficou estagnada na casa de 28%. E em 2013 nenhum negro entrou em cursos como medicina.
      A pressão cresceu ano passado, quando o Congresso aprovou lei que determina que as universidades federais destinem 50% de suas vagas a alunos da rede pública, com cota especial para pretos, pardos e indígenas.
      Em resposta, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e os reitores de USP, Unesp e Unicamp desenharam proposta que estabelece meta de ter, até 2016, 50% de alunos de escolas públicas, sendo 35% deles pretos, pardos e indígenas --em cada curso.
      A proposta, porém, precisa ser aprovada internamente nas universidades. As primeiras avaliações das faculdades da USP foram contrárias, com argumentos diversos e, em alguns casos, opostos.
      A FFLCH (área de humanas) entende que a proposta é tímida. Avalia que poderiam ser instituídas cotas, não metas. Já a direção da Faculdade de Medicina entende que a proposta pode prejudicar a qualidade dos cursos.
      Na semana passada, a pró-reitoria de graduação afirmou que estuda a ampliação da bonificação no vestibular, sem necessariamente vinculá-la à obrigação de alcançar a meta de 50%. Todas essas forças deverão entrar em acordo até junho, quando a Fuvest precisa fechar o edital para o próximo vestibular.

        quarta-feira, 24 de abril de 2013

        Peças de São Paulo terão legenda para surdos e descrição para cegos

        folha de são paulo

        JAIRO MARQUES
        DE SÃO PAULO

        Dar chance para que cegos entendam um movimento de dança ou para um surdo decifrar uma fala de "Hamlet" é parte de um programa para tornar a vida cultural mais acessível em São Paulo.
        Ao custo de R$ 2 milhões, o conjunto de medidas do governo estadual paulista inclui linha de crédito de R$ 800 mil a bibliotecas municipais para a compra de equipamentos que facilitem a vida do público com deficiência, como lupas, softwares de leitura e decodificadores para braile.
        Inicialmente, as atividades culturais com sessões acessíveis ocorrerão em estruturas ou organizações ligadas ao Estado, como os teatros Sérgio Cardoso, na Bela Vista (região central) e São Pedro, na Barra Funda (zona oeste), e de produções da São Paulo Cia. de Dança e do programa de circulação Ópera Curta.
        Na segunda etapa, qualquer companhia ou associação que queira ver um espetáculo com audiodescrição (que interpreta tudo o que é visto em palavras), Libras (Língua Brasileira de Sinais) ou legendas vai poder entrar com um projeto para bancar os custos e fazê-lo.
        Divulgação
        Sessão de cinema com equipamentos para audiodescrição, para cegos, e exibição de legendas, para deficientes auditivos
        Sessão de cinema com equipamentos para audiodescrição, para cegos, e exibição de legendas, para deficientes auditivos
        O conjunto de medidas é uma parceria da Secretaria da Cultura e da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Estado.
        "Fizemos algumas exibições de dança como teste e os resultados foram impressionantes. Em alguns casos, a descrição aos cegos exige quase a feitura de uma nova obra", diz Maria Thereza Magalhães, coordenadora da Secretaria Estadual da Cultura.
        "O incentivo financeiro é uma ação pedagógica, mas é preciso deixar claro que ter acessibilidade para todos em espetáculos é algo que já existe em lei", afirma Linamara Rizzo Battistella, secretaria estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência. "Tenho convicção que é um projeto sustentável", diz.
        É pré-requisito aos interessados nos recursos que haja acessibilidade física nos locais que receberão os espetáculos ou nas bibliotecas.

        sexta-feira, 19 de abril de 2013

        Cadeirante off-road - Jairo Marques

        folha de são paulo



        Feira para pessoas com deficiência traz cadeira de rodas 'off-road'



        JAIRO MARQUES
        DE SÃO PAULO



        Enquanto a Prefeitura de São Paulo exibiu uma cidade acessível e sustentável, e o governo do Estado mostrou um projeto de transporte totalmente inclusivo, a iniciativa privada apostou na realidade urbana; criou, entre outras invenções, uma cadeira de rodas "off-road".
        Com suspensão eletrônica inspirada na Ferrari para superar calçadas esburacadas e obstáculos em vias públicas, a cadeira high-tech e outros equipamentos para pessoas com deficiência foram apresentados na Reatech, maior feira de reabilitação do país, aberta ontem na capital.
        A "Strix" foi testada em Parati (RJ), cidade histórica conhecida pelas ruas de pedra.
        "Quando eu ia para o trabalho [em São José dos Campos, SP], sempre via um cadeirante parado na porta de casa. Perguntei a ele porque não saía e ele respondeu que era impossível devido à qualidade das calçadas. Isso mexeu comigo", disse o engenheiro Breno Horta, um dos três idealizadores do projeto.
        Com o sistema eletrônico, a cadeira vai se moldando ao relevo e evita que o cadeirante fique parado no buraco e tenha seu corpo projetado para a frente, caindo no chão.
        A "Strix" teve apoio de R$ 1,4 milhão da Finep (Agência Brasileira da Inovação), levou dois anos para ficar pronta e deve estar no mercado até o segundo semestre, com preço equivalente ao de cadeiras importadas, avaliadas de R$ 8 mil a R$ 12 mil.
        "Todo cadeirante tem receio ir para a rua com medo de cair em buracos. É uma invenção útil", diz o esportista Evandro Bonocchi, tetraplégico.
        Editoria de Arte/Folhapress
        CIDADE IDEAL
        A prefeitura paulistana levou à Reatech estandes que simulavam uma cidade ideal.
        Os custos da instalação de 400 m² não haviam sido fechados até ontem, mas envolveram uma réplica do Masp, de uma área verde, de um rio limpo e de outras estruturas urbanas que estariam preparada a atender a todos os públicos de forma sustentável.
        "Sou otimista para fazermos uma cidade assim. Está na hora de uma virada na realidade das pessoas com deficiência", diz a secretária municipal da Pessoa com Deficiência e Mobilidade Reduzida, Marianne Pinotti.
        Ela anunciou na feira a criação de uma "central de libras"(língua brasileira de sinais), que deverá ter cerca de 50 postos na cidade.
        Por meio da central, uma pessoa surda que fale a língua brasileira de sinais poderá encontrar um intérprete que irá apoiá-lo em atividades pontuais, como registrar um boletim de ocorrência ou marcar uma consulta médica.
        O governo de São Paulo está representado na feira com duas estruturas: uma institucional e outra exibindo réplicas de vários meios de transporte públicos que permitem acesso a todos, como vagões de metrô, balsas, ônibus.

        Cadeirante off-road

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        Zé Carlos Barreta/Folhapress
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        Sistema instalado em cadeira de rodas funciona como motor para auxiliar cadeirante em subidas e rampas


        ACESSIBILIDADE
        Aeroportos de SP terão carro que facilita embarque de cadeirantes
        DE SÃO PAULO - Drama recorrente na vida de pessoas com deficiência e com mobilidade reduzida no Brasil, a falta de estrutura segura de embarque e desembarque em aviões começa a ser amenizada em seis aeroportos regionais de São Paulo a partir de hoje.
        Sete ambulifits, carros adaptados com elevador que sobem à altura das aeronaves e facilitam a entrada e saída de cadeirantes ou de qualquer pessoa que tenha dificuldades de usar escadas, vão estar disponíveis em Presidente Prudente, Marília, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Araçatuba e Bauru.
        "Chega de ver pessoas sendo carregadas no colo ou de forma pouco segura. É uma demanda de muitos anos que agora vamos começar a resolver", afirma Linamara Rizzo Battistella, secretaria estadual dos Direitos das Pessoas com Deficiência de São Paulo.
        A medida vai custar cerca de R$ 1,5 milhão, bancados pelo governo estadual. O primeiro dos carros adaptados com elevador será entregue hoje no aeroporto de Presidente Prudente (a 558 km da capital). Uma equipe será treinada para operar o equipamento e para atender passageiros cadeirantes.
        A Embraer e a Universidade Federal de São Carlos têm um projeto a adaptação de aeronaves para que cadeirantes usem a própria cadeira durante os voos.

          terça-feira, 9 de abril de 2013

          O futuro de Sofia - Jairo Marques

          folha de são paulo

          Torço que essa menina, que tem paralisia cerebral, não seja vista como mais um "exemplo de superação"
          ACOMPANHO, FAZ alguns anos, a insistência gloriosa de uma menina com paralisia cerebral, comumente e erroneamente associada à deficiência intelectual, para ter o mesmo ar e os mesmos direitos que as crianças de sua idade que são certinhas.
          Sofia tem equilíbrio afetado, os olhinhos ligeiramente descompassados, é toda tortinha e ostenta um sorriso conquistador. É cadeirantinha, sabida e atrevida, uma vez que é firme no propósito de mostrar que pode, que deve e que vai seguir adiante, mesmo com tanta gente desumana na chamada humanidade.
          Com sete anos, a menina não foge a nenhuma empreitada, mesmo aquelas dignas de pedreiro de obras públicas -que nunca terminam. Parece que ela quer deixar muito claro ao mundo que o papel dela está sendo feito.
          Insistiu ferozmente em viver, quando os diagnósticos só apontavam a ela o caminho do país dos "pés juntos". Insistiu em estudar, mesmo tendo batidas na cara portas de escolas que alegavam não saber tratar "diferenças".
          Sofia foi impedida de brincar no parque porque "para ela era arriscado", não conseguiu academia de balé para saltitar, à sua maneira, porque "mal-acabadinhas" não bailam, não pôde fazer festa de aniversário porque não encontrou bufê que acolhia cadeirantinhos.
          Por fim, há uns 15 dias, a "tia da van", que, paga pelo poder público recolhe diariamente a pequena e outras crianças para irem ao colégio, alegou que não tinha a "obrigação" de carregar a cadeira de rodas (que pesa como uma pena). A menina e a mãe que se virassem.
          Em tão pouco tempo de vida, a menina já enfrentou mais desafios para seguir adiante que herói de jogo de videogame japonês. Da junção disso tudo, nasce em mim um musgo do rótulo assistencialista e hipócrita "criança especial" que alguns querem cunhar nos miúdos com deficiência.
          Caso Sofia fosse mesmo especial, a ela estenderiam os tapetes vermelhos em vez de puxá-los, a ela dariam a mesa escolar com melhor visão da professora em vez de negá-la, a ela seria reservada a poltrona da van mais confortável e jamais colocariam obstáculos para garantir a ela acesso.
          Causa em mim um desconforto imaginar o momento em que a pequena, igual à sua homônima do best-seller de Jostein Gaarder, irá começar a pensar sobre "quem somos", para "onde vamos" e outras filosofadas relativas à raça humana.
          Será que ela conseguirá crer que há muita seriedade nas atitudes políticas que visam à igualdade? Sofia vai botar fé em que o homem é sempre pela construção de uma melhor realidade conjunta, e não um poço de individualidade? A menina vai nutrir em si o amor pelo outro e entender a validade profunda do conceito de cidadania?
          Sou convicto de que Sofia será, no futuro, o que bem entender: cientista, médica ou astronauta. Torço, porém, para que ela não seja vista como mais um "exemplo de superação" que teve de passar pelo buraco de uma agulha para conseguir costurar a própria vida.
          Torço para que, no futuro, Sofia seja uma pessoa que tenha tido condições dignas de seguir adiante com seus anseios e sonhos viabilizados por uma sociedade que entende, respeita e dá a todos condições para que tenham o mundo que quiserem.

          domingo, 7 de abril de 2013

          Jairo Marques

          folha de são paulo

          Pai assiste aulas e ajuda filho com paralisia a se formar jornalista



          Todos os dias, durante os últimos quatro anos, o ex-bancário Manuel Condez, 60, dedicou a mesma rotina ao filho Marco Aurélio, 26, que convive com sequelas severas de paralisia cerebral: deu banho, penteou os cabelos, carregou-o no colo até o carro e o levou para a faculdade de jornalismo a 17 km de casa.
          O pai assistiu a todas as aulas, anotou as lições dadas pelos professores, auxiliou o filho na feitura das provas escrevendo no papel aquilo que ele lhe soprava, ajudou intermediando pensamentos, foi o motorista do grupo de trabalho e o assessorou em entrevistas e em reportagens.
          Na semana passada, Marco recebeu o diploma da Universidade São Judas, em São Paulo, e Manuel viveu uma das noites mais emocionantes de sua vida, sendo o grande homenageado. Foi ovacionado pelos formandos e recebeu da direção da faculdade uma placa de honra ao mérito.
          "Não fiz nada demais. Qualquer pai que tem amor ao filho também se dedicaria. Era um desejo dele fazer faculdade, e eu só ajudei a realizar", diz Manuel, com os olhos marejados.
          Marco tem braços, mãos e pernas atrofiados, fala com dificuldade, já foi submetido a 11 cirurgias reparadoras, usa cadeira de rodas e programa especial de computador para ter mais autonomia. Precisa de cuidados específicos para tocar o dia a dia.
          "O único ponto meu que ainda não foi operado é o cérebro", brinca o jovem, que lida com naturalidade com o estereotipo de que paralisados cerebrais, necessariamente, têm comprometimentos intelectuais.
          Marcelo Justo/Folhapress
          Manuel Francisco Contez, 60, ajudou o filho Marco Aurlio Contez, 26, durante todo o curso de jornalismo
          Manuel Francisco Contez, 60, ajudou o filho Marco Aurlio Contez, 26, durante todo o curso de jornalismo
          DESTAQUE DA TURMA
          O rapaz não só tem pleno domínio do intelecto como, na avaliação de colegas de turma e de professores, foi um dos melhores alunos.
          "Com o apoio do seu Manuel, o Marcão fez tudo: vídeo para TV, programa de rádio, debate. Ele se destacou muito. Tinha ideias contundentes e sempre se saia bem nas provas", conta Raquel Brandão Inácio, amiga do jovem e parte de seu grupo de trabalho de conclusão de curso, sobre novas famílias.
          Professor e agora colega de profissão do rapaz, Celso de Freitas diz que pai e filho "quebram um cenário comum de pessoas com deficiência, que é ficar dentro de casa e não enfrentar a vida."
          Para o mestre, "Marco tem inteligência acima da média, e Manuel foi tratado como um aluno, não como um acompanhante. Nas aulas de rádio, propus a eles fazerem apenas trabalhos escritos, mas, a sua maneira, entregavam gravações de áudio."
          EXTENSÃO DO CORPO
          O protagonismo que o pai teve e tem em sua vida é claro para o jornalista.
          "Ele é uma extensão do meu corpo. Quando não posso fazer algo, ele está sempre ali para me ajudar, nunca para me atrapalhar", afirma Marcos.
          Agora, o jovem, que gosta de rádio e de esportes, está atrás de uma vaga no mercado de trabalho.
          "Quero usar o conhecimento que adquiri, quero ajudar os outros com meu trabalho. Não fiz faculdade para ficar no Facebook."
          Pai e filho já começaram uma nova empreitada: estão fazendo aulas de inglês. Juntos, evidentemente.
          "Nossa família está unida para tentar ajudar o Marcos a quebrar outras barreiras", declara Manuel.

          sexta-feira, 5 de abril de 2013

          Abandonado, complexo histórico no Ipiranga vira banheiro e até 'motel'

          folha de são paulo

          JAIRO MARQUES
          DE SÃO PAULO

          Os banheiros estão interditados por falta de condições, o mato invade os jardins, um resto de pipa está enroscado em uma das surradas estátuas dos representantes da independência do Brasil e a cripta com os restos mortais de d. Pedro 1º serve de "motel" para casais mais afoitos.
          Os elementos formam o atual cenário do complexo dentro do Parque da Independência, com o Monumento à Independência, museu e áreas protegidas, no Ipiranga, na zona sul de São Paulo.
          Um movimento cívico em defesa das instalações, a associação comercial local, a associação de moradores e o conselho de segurança do bairro declaram que o complexo está "abandonado".
          "A cripta [no monumento] é usado como banheiro e motel", diz Valdir Abdallah, 72, presidente do movimento de defesa do complexo.
          Segundo ele, "diversos casais já foram flagrados transando" no local, protegido pelo patrimônio histórico municipal, estadual e federal.
          Em dezembro, a Folha mostrou que o Museu do Ipiranga também tinha problemas de infraestrutura e conservação, com fachada descascada e rachaduras.
          Na época, a diretora do museu, Sheila Ornstein, afirmou que a reforma custaria, no mínimo, R$ 21 milhões. O local é administrado pela USP e ainda não há obras.
          A manutenção do complexo é dividida. A USP cuida do museu, a Secretaria Municipal do Verde, do parque, e a Secretaria Municipal de Cultura, do monumento.

          Museu em risco

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          Moacyr Lopes Junior/Folhapress
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          Foto mostra tela de proteção e aviso de perigo de queda de revestimento ao redor do museu
          TESTEMUNHO
          "Trabalhei por sete meses na cripta e, infelizmente, preciso dizer que a reclamação é verdadeira. O cheiro de urina é insuportável e o local sofre com a ação de vândalos", afirma a historiadora Valdirene Ambiel, que fez a pesquisa de exumação dos restos mortais na cripta.
          Para ela, a responsabilidade é tanto do poder público como da sociedade. "Não adianta a prefeitura limpar e, minutos depois, um cidadão urinar ou destruir as obras."
          Os moradores relatam que não há manutenção e segurança no complexo desde o começo do ano, quando venceu o contrato da empresa que atuava no local.
          Amanhã, os moradores do bairro vão trocar a bandeira nacional que fica em frente ao monumento. Ela é paga por eles há 16 anos e custa cerca de R$ 1.300.
          "Pelo menos o símbolo da pátria está sempre em bom estado, porque nós cuidamos", diz Sérgio Yamada, 73, presidente do Conselho de Segurança do Ipiranga.
          outro lado
          A Secretaria Municipal de Cultura disse que está ciente dos problemas no monumento e estuda um projeto de restauração. "Trata-se de peça de bronze [a escultura] e não existe especialista neste tipo de metal no Brasil."
          A secretaria consultou especialista estrangeiro para auxiliar na elaboração de um projeto de restauro, que deverá incluir manutenção.
          A Secretaria Municipal do Verde afirmou que teve de encerrar o serviço com a empresa que fazia a limpeza e conservação do parque porque ela "não atendeu às exigências legais para prorrogação" do contrato. O órgão explicou ainda que será feita uma ação emergencial para a manutenção dos banheiros e que a licitação para escolher outra empresa de manutenção já está em andamento.
          Editoria de Arte/Folhapress

          quarta-feira, 3 de abril de 2013

          Albert Einstein libera bichos de estimação para visitar pacientes em SP

          folha de são paulo

          JAIRO MARQUES
          DE SÃO PAULO

          Entre olhares de admiração, espanto, surpresa e curiosidade, a cadela Clara, da raça fila, com três anos e 73 kg, entrou ontem tranquilamente pela recepção e passou por corredores de um dos mais importantes hospitais do país, o Albert Einstein, em São Paulo. Ela foi visitar o dono, que está em tratamento contra um câncer na bexiga.
          Após três anos de testes e preparo de equipes, o hospital liberou, sob rígido protocolo, que bichos de estimação, às vezes considerados membros da família, visitem pessoas internadas --mesmo em unidades semi-intensivas.
          "Meus filhos moram fora de São Paulo, são muito ocupados. A Clara acaba me fazendo companhia em horas difíceis. Ela é parte da família. Poder tê-la comigo no hospital faz a diferença no meu ânimo, na minha disposição", diz o advogado Ennio de Paula Araújo, 71.
          A entrada de bichos no Einstein --gatos e passarinhos também são aceitos-- faz parte também do cumprimento de regras de uma certificação internacional de humanização que o hospital conseguiu no ano passado.

          Albert Einstein libera visitas de bichos de estimação

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          Zé Carlos Barretta/Folhapress
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          Em tratamento de câncer, Ennio Araújo abraça a cadela Clara no hospital Albert Einstein, que permite visita de animais
          O Einstein é o 35º hospital do mundo e o primeiro da América Latina a conseguir o selo concedido pela organização americana Planetree.
          "Poder receber seus bichos aqui era um desejo frequente dos pacientes. Eles fazem bem e, sem dúvida, interferem na cura", afirma Rita Grotto, gerente de atendimento do hospital.
          Clara teve de passar por uma avaliação de seu veterinário, que deu um laudo atestando sua boa saúde, e tomar um banho caprichado antes da visita. Os donos apresentaram os documentos de vacinação e se comprometeram a mantê-la tranquila.
          "Mas, antes de tudo, é preciso a autorização do médico, que tem de colocar no prontuário do paciente que está de acordo com a visita. Uma equipe multiprofissional checa se todo o protocolo foi cumprido. Na menor dúvida, a entrada não será autorizada", declara Grotto.
          O hospital diz que recebeu só uma queixa até hoje. A mãe de uma criança com leucemia reclamou da presença de um cão, mas recuou depois de receber explicações.
          O aposentado Menachem Mukasiey, 67, está há uma semana internado com um problema no joelho e aguardava ontem ansioso a visita da poodle Bolinha.
          "Já passei por vários hospitais e jamais me permitiram ver a Bolinha, que fica sem comer e depressiva enquanto estou fora. Aqui é o único lugar que me deixaram recebê-la, o que é uma alegria."
          Paulo de Tarso Lima, coordenador da área que implanta as medidas de humanização no Einstein, afirma que "não está se falando de uma vontade de todos os pacientes" e que "também não se autoriza a presença dos bichos em qualquer lugar, de qualquer maneira".
          Para o médico, o contato com os bichos pode levar "felicidade, paz e bem-estar" e auxiliar a recuperação de algumas pessoas. "O encontro com um cão ajuda a relaxar, a retomar a preocupação com o corpo, o que pode ficar perdido em pacientes crônicos."
          O Conselho Regional de Medicina de SP e a Sociedade Brasileira de Infectologia não se manifestaram.
          Editoria de Arte/Folhapress