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segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Augusto Nunes retorna ao 'Roda Viva' e propõe mudar sua fórmula

folha de são paulo
Apresentador fala em explorar as contradições de entrevistados
SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOO jornalista Augusto Nunes, 63, volta hoje ao comando do "Roda Viva", programa de entrevistas que ele apresentou entre 1987 e 1989 e cuja fórmula agora quer mudar.
"Acho que a gente tem que mostrar em vídeo as contradições do entrevistado. Se o cara começa a dizer o contrário do que já disse antes, você tem o dever de dizer: Um minutinho, tem uma declaração do sr. que não bate'. Mostra o vídeo e deixa o cara se explicar."
Para Nunes, "o Roda Viva' se consolidou como programa respeitado porque surgiu em 1986, na infância da democracia, e mostrou como é uma entrevista coletiva bem-feita. Viu-se ali o convívio dos contrários. Mas essa fórmula agora não basta".
Falta acrescentar contundência para "fazer as perguntas que devem ser feitas e que hoje são feitas em programas humorísticos", diz ele.
"Não ouvi nenhuma menção aos passeios de helicóptero do cachorro Juquinha em entrevistas com [o governador do Rio de Janeiro] Sérgio Cabral [PMDB]. Ninguém pergunta. Você entrevista o Cabral e trata daquelas manifestações em frente à casa dele como se fosse uma combustão espontânea", afirma.
O tema do programa de hoje será o mensalão, tendo o ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. como entrevistado.
"Sem demérito ao Reale Jr., claro que eu preferiria começar com Lula. Mas ele não respondeu", afirma Nunes.
Hoje os entrevistadores são "[o historiador] Marco Antonio Villa, que escreveu enfaticamente contra os réus do mensalão, Paulo Moreira Leite ["IstoÉ"], que foi mais brando, e Merval Pereira ["O Globo"], que vai pelo caminho do meio. E representantes dos dois grandes jornais, Vera Magalhães [Folha] e Sonia Racy ["O Estado de S.Paulo"]", cita.

    terça-feira, 20 de agosto de 2013

    TV Cultura troca 'Mad Men' por 'Sr. Brasil' - Silvana Arantes

    folha de são paulo
    TV Cultura troca 'Mad Men' por 'Sr. Brasil'
    Grade que destacará nacionais leva Rolando Boldrin ao horário nobre; série americana passa para a madrugada
    Atrações estrangeiras darão lugar a reprises de produções próprias; emissora diz não ter verba para inéditos
    SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOA série americana "Mad Men" (quartas, 22h) será substituída pela produção da TV Cultura "Sr. Brasil" na grade da emissora, em setembro.
    A exibição de "Mad Men" passará para a madrugada de sábado, enquanto o programa de Rolando Boldrin, no ar desde 2005, deixa as manhãs de domingo (10h15) para o horário nobre da quarta.
    Dedicado aos ritmos brasileiros, em "Sr. Brasil", segundo a Cultura, "só não se permite o que não seja genuinamente nacional".
    A troca é parte de um remanejamento da grade feito com "o empenho de mostrar os nossos programas", de acordo com Marcos Mendonça, presidente da FPA (Fundação Padre Anchieta)--mantenedora da TV Cultura.
    A versão legendada da "Mostra Internacional de Cinema na Cultura" (quartas, 22h45) será suspensa. A faixa "Clássicos" (sábado, 21h45) deverá priorizar obras brasileiras do arquivo da emissora.
    Programas como "Entrelinhas", "Inglês com Música", "Qual É, Bicho?" e "Mundo da Lua" retornam à grade, com reprises. Mendonça obteve do Conselho Curador da FPA aval para recorrer a reapresentações até o fim do ano.
    Ele argumentou que substituir o produto estrangeiro pelo nacional é o eixo que pretende dar à programação. Mas disse não dispor de verba para desenvolver produções inéditas.
    Os programas estrangeiros comprados na administração anterior, de João Sayad (2010-2013), deverão ser oferecidos no sinal da Cultura transmitido na TV por assinatura, assim como a versão com legendas dos filmes da Mostra.
    Pelo plano apresentado ao Conselho, as produções inéditas da emissora seriam retomadas em 2014, quando Mendonça espera ter um orçamento mais robusto. O deste ano é de R$ 194,2 milhões.
    CONSULTORIA
    O presidente da FPA afirma que, segundo um levantamento realizado por uma consultoria financeira externa contratada por ele, o deficit orçamentário da Fundação é de R$ 43 milhões.
    A administração Sayad previra deficit de R$ 24 milhões e a necessidade de suplementação orçamentária.
    Na reformulação da grade, Mendonça decidiu retirar do ar a produção própria "Quem Sabe, Sabe", anunciada por Sayad como novidade da programação 2013. O presidente diz que pretende reformular o programa para que volte à grade em 2014. O concurso de talentos da música erudita "Pré-Estreia" voltará ao ar em outubro, já reformulado.
    Ele reassume o nome, o formato e o apresentador (Júlio Medaglia) de "Prelúdio", criado na primeira gestão de Mendonça à frente da Fundação (2004-2007) e adaptado na de Sayad para "Pré-Estreia", tendo João Maurício Galindo como apresentador.
    A programação jornalística também será repaginada. O matutino "Guia do Dia", que estreou em abril passado e vai ao ar às 7h, ao vivo, deixará a grade. A agenda cultural e de serviços integrará o novo "Jornal da Cultura - 1ª Edição", com estreia prevista para 30 de setembro.
    Com duas horas de duração (11h30 às 13h30), além de notícias, entrevistas e debates, o jornalístico deverá ter um bloco dedicado a vídeos enviados por espectadores, transmitidos via computador ou celular.
    Além de conduzir o "Sr. Brasil", Rolando Boldrin estará também na abertura da programação matinal da Cultura, apresentando uma "Crônica do Dia".

      domingo, 11 de agosto de 2013

      MTV reúne velha guarda para dizer adeus - Silvana Arantes, Zeca Camargo e Keila Jimenez

      folha de são paulo
      Ex-VJs gravam retrospectiva de suas participações no canal, que encerra transmissão com sinal aberto em setembro
      Apresentadora do primeiro clipe, em 1990, Astrid pediu para apresentar o último: 'Eu acendi, eu apago'
      SILVANA ARANTESDE SÃO PAULO
      Não foi preciso perguntar quem iria apagar a luz. "Eu acendi, eu apago. Pode vir para mim essa responsa'."
      Assim Astrid Fontenelle, ex-VJ da MTV Brasil, se ofereceu parar apresentar o último clipe a ser exibido pela emissora em sinal aberto, no próximo dia 30 de setembro.
      Foi Astrid, hoje no GNT ("Saia Justa", "Chegadas e Partidas"), quem apresentou o clipe de estreia do canal, em 20 de outubro de 1990 --Marina Lima interpretando "Garota de Ipanema" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes).
      A oferta de Astrid foi feita ao diretor de conteúdo e programação da MTV Brasil, Zico Goes, quando ele a convidou para gravar o "My MTV", série de retrospectivas com ex-VJs que dará "uma cara vintage'" à etapa final das transmissões da emissora, como diz Goes.
      A MTV sairá do ar em sinal aberto porque o grupo Abril, que licenciava a marca de sua proprietária, a americana Viacom, optou por não renovar o contrato, já que a operação era deficitária.
      A Viacom assumiu o controle da MTV Brasil e planeja relançá-la na TV por assinatura, no dia 1º de outubro.
      Para o "My MTV", que deve estrear no próximo dia 19, Goes diz que convidou "ex-VJs literalmente de A, de Astrid, a Z, de Zeca Camargo".
      Zeca deixou o posto de editor-assistente da Folha "Ilustrada" em 1990, para comandar o jornalismo da MTV Brasil. "Era uma oferta irrecusável --um canal que só ia falar de música, um assunto que eu adorava", diz ele.
      Atual apresentador do "Fantástico" (Globo), Zeca vê o início da MTV Brasil como "a época da inocência", em que "a possibilidade de arriscar era fascinante".
      A chance do risco era dada pela combinação "audiência pequena e muito barulho", que marcava a emissora. "O que dava certo a gente repetia. O que não dava, a gente deixava de lado", afirma.
      Um território "muito livre" em que "você tem um chefe mais ousado do que você e por isso pode pirar", diz Marina Person, que trabalhou na MTV de 1993 a 2011, definindo sua experiência no canal.
      Ao gravar o "My MTV", Marina afirma ter se emocionou em dois momentos, mas acha que conseguiu evitar a pieguice. "Deu aquele marejar nos olhos, mas não chorei. A gente tira sarro da própria emoção, da cafonice."
      Embora se emocione nos bastidores das gravações, Goes não quer que as lágrimas deem o tom da despedida da MTV Brasil.
      "Não pode ser triste, para baixo. É só um sinal dos tempos", diz ele. "Essa MTV não cabe mais. Os tempos mudaram. Vamos celebrar o fato de a gente ter estado num lugar como esse e produzido tantas coisas legais."
      Para Didi Wagner, que ficou de 2000 a 2005 no vídeo na MTV e hoje está no Multishow, evitar o "chororô" não foi difícil. "Não consigo olhar isso como a morte da MTV. Ela vai continuar, só não do jeito que eu conheci", afirma.
      Sarah Oliveira, que começou a trabalhar na MTV aos 20 anos, em 1999, e saiu de lá em 2005, diz que foi "muito emocionante" se ver "piveta" nas imagens de arquivo.
      "Fiquei feliz que a MTV esteja indo para canal fechado. Sou de canal fechado [GNT]. A gente tinha que fazer um apelo para a Sky e a Net serem mais baratas, para a molecada poder assinar", diz.
      A expansão da TV por assinatura no Brasil é um dos sinais do tempo a que Goes se refere. Assim como a crescente importância da internet e a concomitante irrelevância do clipe para a TV.
      Nesse cenário, os antigos VJs foram deixando a MTV, em busca de novos caminhos e mais remuneração.
      "A política da casa com os artistas não era viável. Eles tratavam a gente que nem lixo, para a gente não ficar metido. Eu fiquei oito anos com o mesmo salário", diz João Gordo, que trabalhou na MTV de 1996 a 2009.
      Em tempo: Goes ainda não definiu qual será o último clipe da MTV Brasil. mas Astrid tem uma certeza: "Tem que ser uma coisa festiva!"
      OPINIÃO
      Boa parte do que foi produzido merece preservação e aplauso
      ZECA CAMARGOESPECIAL PARA A FOLHA
      A MTV Brasil está morta! Viva a MTV Brasil! O clima não é especialmente de comemoração --especialmente para as pessoas que começaram a ser desligadas agora do canal.
      Descontando os poucos que estão lá desde o início (e lá se vão quase 23 anos!), esta já deve ser a quarta ou quinta geração de jovens que entraram lá acreditando no sonho de fazer uma televisão diferente, dedicada exclusivamente a um público: eles mesmos.
      Eu, que fiz parte da primeira dessas gerações, sei bem o que significa isso. E consigo talvez entender a decepção e a frustração de ver uma janela de oportunidades criativas como essa se fechar.
      Mas às vésperas de o canal se transformar em apenas um grande arquivo musical --na melhor das hipóteses-- é interessante notar que boa parte do que a MTV Brasil criou esses anos todos merece, sim, ser revista e preservada. Até mesmo aplaudida.
      Com a "distância histórica" de quem saiu de lá há 19 anos, posso reconhecer essa relevância sem nostalgia nem desdém. Porque mais de uma ideia plantada pela MTV Brasil germina até hoje num programa aqui ou noutro acolá.
      A tal ponto que esse encerramento das atividades me faz achar que o canal é, de certa forma, vítima do próprio sucesso: você não precisa hoje ligar na MTV hoje para ver MTV --ela está no meio de nós.
      Com a relevância do próprio videoclipe em xeque pela acessibilidade da música hoje em dia --que faz a própria ideia de um programa de estreia de vídeo (um dos carros-chefes da programação inaugural da MTV do meu tempo) parecer não só romântica, como obsoleta--, a saída, tanto aqui quanto em outras MTV pelo mundo, foi apostar em formatos alternativos.
      A própria MTV americana hoje é mais conhecida por seus reality shows do que por sua exuberância musical --onde sua premiação anual, o Video Music Awards, ainda é uma feliz exceção.
      Sempre inquieta, nossa versão do canal, desde um bom tempo, vinha apostando no humor e, curiosamente, na dramaturgia (o bom seriado "A Menina sem Qualidades" representando o último suspiro dessa vertente). Mas, aparentemente, até mesmo essa fonte se esgotou.
      O que fica então é o legado da diferença --este sim, imortal. Pois, por longos e longos anos, cada criador que ousar um pouco mais na concepção de um novo programa vai estar fazendo uma pequena homenagem à MTV Brasil. Mesmo sem se dar conta disso...
      Novo canal não terá transgressão, afirma ex-diretor
      KEILA JIMENEZCOLUNISTA DA FOLHA
      Transição, troca de bastão, novo capítulo de uma história? Para André Mantovani, diretor-geral da MTV Brasil por quase dez anos, o canal que migra em outubro para a TV paga pode vir a ser tudo, menos a continuidade da trajetória que começou em 1990.
      Hoje consultor de negócios, Mantovani diz estar de luto porque a MTV Brasil, do jeito que a gente conhece, morrerá de vez em setembro.
      "O canal da Viacom será uma MTV americana com uma hora de programação nacional por dia para cumprir as cotas da lei da TV paga", disse à Folha.
      "A MTV Brasil chegou a ter seis horas diárias de programação original, com identidade, que apostava em talentos", afirmou. "Vem aí algo só com o mesmo nome. A MTV Brasil acabou."
      Segundo ele, que acompanhou as polêmicas e os anos áureos do canal, o novo paciente terminal da TV recebeu o seu diagnóstico há três anos e desde então busca uma cura milagrosa, sem sucesso.
      "Em 2010, quando deixei o canal, já havia a sinalização que era necessário mudar, investir. Ali, a Abril [proprietária da concessão, que licenciava a marca da Viacom] deixou claro que não levaria a MTV adiante", conta.
      "Esse é um direito legítimo do Grupo Abril, o de não mais investir em TV. Entendo a decisão deles. Mas é triste ver uma história tão bacana acabar assim", diz Mantovani.
      Para o ex-diretor, todo esse confete em torno do retorno da marca para a Viacom esconde o fim de uma história de transgressão e inovação na televisão brasileira.
      "Fizemos o primeiro beijo gay de língua da TV brasileira, mandamos desligar a TV e ir ler um livro, revelamos muita gente bacana", conta o executivo, que também coleciona alguns atritos no meio televisivo, como a briga com a Globo pelos direitos do acústico de Roberto Carlos, em 2001.
      "Quando a Band levou o Marcos Mion, invadimos a emissora com um mandado de segurança para impedir a exibição do programa dele. Ele copiou quadros da MTV", afirma, rindo.
      Mas o "pode quase tudo" da MTV também teve o seu freio. Mantovani conta que pediu expressamente para a turma do humorístico "Hermes e Renato" não exibir nenhuma genitália no ar. "Nem as deles, nem de plástico."
      Com tantas memórias e lendas do canal musical, como a de que fazia macumba para todos os ex-VJs quebrarem a cara em suas novas empreitadas na TV --ele nega, mas se diverte com a história-- Mantovani quer se despedir da MTV Brasil com estilo.
      Ele planeja uma grande festa com ex-funcionários, indústria fonográfica e quem mais fez parte da história do canal.
      Vão beber o morto? "Não. Vamos celebrar a trajetória de sucesso, o orgulho que nos dava trabalhar lá."

      quarta-feira, 31 de julho de 2013

      Pacote básico de TV paga no Brasil é 27º mais caro - Silvana Arantes

      folha de são paulo
      Pesquisa comparou preços em 47 países; Nova Zelândia fica em primeiro no ranking
      SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOA ABTA (Associação Brasileira de TV por Assinatura) divulgou ontem pesquisa segundo a qual o preço médio do pacote básico de TV paga no Brasil (US$ 27,43) é o 27º mais caro entre 47 países.
      A pesquisa foi feita pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas) entre abril e maio de 2013. Para comparação de preços, usou-se o chamado índice Big Mac, de paridade de poder de compra, baseado no preço do sanduíche e desenvolvido pela britânica "The Economist".
      Segundo os dados, a Nova Zelândia tem o pacote mais caro e a Índia, o mais barato. Entre os 47 países, são superiores ao preço brasileiro os de Argentina (5º lugar), Chile (8º lugar), Uruguai (10º lugar) e EUA (18 lugar). O preço é inferior ao do Brasil no México (34º lugar) e Colômbia (35º lugar), por exemplo.
      "Não é barato, mas não é dos mais caros do mundo, como costuma-se dizer", afirmou o presidente da ABTA, Oscar Vicente de Oliveira.
      Para a associação, os dados ajudam a explicar a expansão significativa do número de assinantes de TV paga observada nos últimos anos no Brasil --atingindo 17 milhões de assinantes em 2012-- já que o preço está "ao redor da média mundial".
      Oliveira culpou as "condicionantes" impostas pelo "contexto brasileiro de regulação [do mercado de TV] e a incidência de impostos" pela dificuldade do setor em diminuir seus preços.
      "Se considerarmos must carry' [carregamento obrigatório de canais imposto pela Lei da TV paga], cota [de produção nacional obrigatória] e uma série de imposições aos operadores brasileiros, o preço é competitivo no contexto em que a gente está inserido", afirmou o porta-voz do setor. "Apesar dessas condicionantes, nosso preço em relação ao mercado mundial é razoável", disse ele.
      Segundo o presidente da ABTA, "o mercado brasileiro [de TV por assinatura] consolidou sua liderança na América Latina em 2012 e firmou-se como o décimo mercado no mundo".
      SATISFAÇÃO
      Outra pesquisa realizada pela ABTA com assinantes brasileiros aponta que o índice de satisfação com o serviço é, em média de 8,01, numa escala de zero a 10.
      "Não obstante ser uma nota bastante razoável, a expectativa [do cliente] é acima dessa nota", disse o presidente da associação, em apresentação da pesquisa, na manhã de ontem, em São Paulo.
      "A conclusão é que é feita uma avaliação boa [do assinante sobre o serviço], mas espera-se mais. A exigência com o produto é extremamente alta, o que, por um lado, é bom, porque mostra uma valoração do produto e do serviço", disse Oliveira.
      A expectativa, segundo ele, é de que "o mercado continue crescendo, mas não nos índices dos últimos dois anos", que foram respectivamente de 30% e 27%.
      A estimativa de desaceleração deve-se à redução das perspectivas de crescimento do país, com a revisão para baixo das projeções de crescimento.

        segunda-feira, 29 de julho de 2013

        MTV sinal fechado - Silvana Arantes e Thales de Menezes

        folha de são paulo
        MTV sinal fechado
        Canal que fez a cabeça dos jovens nos anos 1990 ressuscitará na TV paga tentando atrair 'geração milênio' com música, mas sem videoclipe
        SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOA MTV Brasil será transferida para a TV paga no próximo mês de outubro. O anúncio da migração será feito hoje pelo conglomerado americano Viacom, detentor da marca, que estreou no Brasil em 1990, em sinal aberto.
        A música, que está no nome do canal, vai seguir "no DNA da programação", disse àFolha Sofia Ioannou, diretora geral da Viacom International Media Networks Américas. Mas não na forma do velho videoclipe.
        Com foco nos jovens da chamada "geração milênio", a nova MTV planeja produzir 350 horas de programação brasileira por ano. Serão reality shows e sitcoms nacionais. As principais atrações internacionais vão ser dubladas em português.
        O canal aposta em sua habilidade de se comunicar com os jovens para não sucumbir à concorrência da internet.
        "O jovem é um público com o qual não se pode falar como professor --porque ele não te escuta-- nem como pai e mãe --porque não te dá credibilidade. A MTV aprendeu a falar com os jovens com credibilidade", afirma Ioannou.
        A transmissão da MTV Brasil em sinal aberto era viável graças a um acordo de licenciamento entre o Grupo Abril, que detém uma concessão de TV aberta, e a Viacom.
        O fim do contrato foi o desfecho de um longo deficit operacional no braço televisivo da Abril. O sinal deve deixar de ir ao ar em agosto.
        A Viacom quer relançar o canal na TV fechada logo em seguida e fixou a data de 1º de outubro para a estreia.
        A meta é distribuí-lo a uma grande parcela dos seus 16,9 milhões de assinantes.
        Sem revelar valores, Ioannou diz que o investimento da Viacom "é o maior feito num canal MTV em um ano nas Américas". A seguir, a entrevista que a diretora concedeu àFolha por telefone, de seu escritório em Miami.
        Folha - Por que é que a Viacom decidiu levar a MTV para o cabo?
        Sofia Ioannou - A estratégia é assumir o controle da nossa marca, particularmente em mercados com grande potencial de crescimento.
        O crescimento de mais de 200% nos últimos cinco anos da TV paga no Brasil, o sucesso de nossos outros canais e o da MTV em nível global no modelo de TV paga nos deram a confiança de que levar o canal para a TV a cabo é sua evolução natural no Brasil.
        Como será a programação?
        O plano inclui "daily shows", realities de celebridades, sitcoms. Teremos o melhor da MTV mundial dublado para o português, casado com mais de 350 horas por ano de conteúdo produzido originalmente no Brasil para a geração milênio brasileira, que é a nossa audiência.
        Nós nos apoiamos muito em pesquisas. Na última, o Brasil foi um dos mercados em que fizemos um investimento grande.
        O que a pesquisa revelou sobre o público brasileiro?
        A geração milênio brasileira é uma audiência muito feliz, que lida com um montante alto de dinheiro. Eles gostam muito de música, passam quase 50% do seu tempo vendo TV, 64% do seu tempo ouvindo música e 40% do seu tempo jogando videogame. A família é muito importante para eles, e quase 70% veem o melhor amigo como parte da família; 85% se sentem honrados de ser brasileiros e mais de 70% acessam a internet.
        Como a MTV pretende recuperar a atenção do público jovem, hoje voltada à internet?
        A geração milênio é um dos segmentos mais complicados para se tentar entender. Não se trata de um público que abandonou a TV para usar unicamente plataformas digitais. É um público que interage com plataformas digitais e TV.
        Qual será o papel da música na programação?
        Discutimos muito se a MTV Brasil deveria ter muita música ou não. Foi uma decisão que nos tomou um bom tempo. Quase 65% da geração milênio brasileira alivia o estresse ouvindo música. Com base nisso e no fato de a música ter formado grande parte da marca MTV, decidimos que ela tem de estar no DNA da programação. A música vai surgir em distintas facetas, mais diretamente ou como um dos elementos. O que me deixa feliz é que a participação da música no canal pode ser 100% local.
        É quase um consenso que a linguagem do videoclipe envelheceu. Na nova MTV, a presença da música vai tomar formas que não a do clipe?
        Sim. A geração milênio tem muitas plataformas para ver videoclipes. Não é preciso sintonizar um canal de TV. [A presença da música no canal] Será algo maior, como o World Stage, evento de música para o qual se voltam os olhos da MTV no mundo inteiro. Seria um show produzido no Brasil com um nome importante internacional e localmente. Estudamos fazer isso no Brasil em 2014.
        A premiação anual VMB será mantida?
        A decisão não está tomada, mas creio que seria algo diferente do VMB.
        Os programas feitos no Brasil irão ao ar somente aqui ou em outros países também?
        Meu plano é que o conteúdo seja tão forte que valerá a pena tirá-lo do Brasil e transmiti-lo, no mínimo, para outros países da América Latina e também Portugal e Espanha. Espero que seja o tipo de programa com força suficiente para cruzar fronteiras.
        Qual é a sua opinião sobre a Lei da TV Paga brasileira?
        Qualquer regulação [de mercado] que ponha barreiras complica a habilidade de um programador internacional, de prosseguir com o que nos parece mais importante, que é oferecer conteúdo bom para o público brasileiro.
        Navegar dentro disso é um pouco mais complexo. Mas, ao fim e ao cabo, eles [a agência reguladora Ancine] têm suas razões positivas e não nos resta outra saída a não ser trabalhar ao lado deles.
        As projeções de expansão da economia brasileira estão sendo revistas para baixo. A Viacom contempla um cenário de contração no Brasil?
        Embora a gente entenda que a situação econômica possa afetar o nível de crescimento da TV paga no Brasil, ela seguirá crescendo em patamar importante, por nossas projeções. Além disso, marcas fortes como a MTV ajudam o mercado de cabo a se expandir ainda mais.

        OPINIÃO
        Busca pela garotada gera crise de identidade na emissora
        THALES DE MENEZESEDITOR-ASSISTENTE DA "ILUSTRADA"Aos 23 anos, a MTV passará por uma grande mudança. Não será novidade para o canal de música que parece sempre adolescente, porque muda a toda hora.
        Começou mais música do que TV. Depois, a música virou só um ingrediente de uma receita de entretenimento. Recentemente, programas brincalhões de auditório com bandas buscavam o meio termo.
        Seus primeiros rostos, de gente que entende de rock e pop (Fabio Massari, Gastão Moreira, Zeca Camargo), foram sucedidos pela geração bonita e descolada, mas só esforçada no jornalismo musical (Didi Wagner, Leo Madeira, Carla Lamarca). Nos últimos anos, chegaram os engraçados (Marcelo Adnet, Dani Calabresa, Tatá Werneck).
        As dificuldades em falar ao público jovem vieram da entrada da internet na vida da moçada. E vieram em duas ondas pesadas.
        O primeiro golpe foi a possibilidade de ver videoclipes a qualquer hora na rede, principalmente na carona do YouTube. Por que esperar o clipe da banda favorita no horário que a programação da MTV determinar? Sem chance. O clipe se mudou de vez para outro lugar.
        Mas o ataque maior, inserido numa discussão bem ampla, veio por causa da comunicação mais parruda, intensa e ágil que o conteúdo on-line permite. Os programas (musicais, humorísticos ou informativos) tentaram de todas as formas colar na internet. Dá-lhe insistentes pedidos de "entre agora no site e faça isso, faça aquilo" e apresentador lendo mensagens de telespectadores/internautas. Tudo sofrível --nada de culpá-los, não têm salário de roteirista.
        O processo pode ter estreitado bastante a faixa etária da audiência. Nos últimos anos, no VMB, o "Oscar" da emissora, a escolha de clipe do ano por votação popular premiou bandas de apelo pré-adolescente como Restart.
        O que virá agora, de casa nova? Prosseguir na infrutífera emulação da internet? Ou apostar em projetos radicais como a série "A Menina sem Qualidades", para públicos especiais?
        Algo a se verificar na MTV renascida. Mais uma vez.

          sexta-feira, 19 de julho de 2013

          Série feita para a internet é indicada pela primeira vez ao Oscar da TV

          folha de são paulo
          'House of Cards', produção original da Netflix, concorre ao prêmio Emmy em nove categorias
          Reconhecimento de um produto que subverte a lógica da grade de programação quebra paradigma da indústria
          SILVANA ARANTESDE SÃO PAULOUma série feita para a internet com 13 episódios lançados simultaneamente, cuja audiência não foi divulgada, entrou ontem para a história da televisão.
          "House of Cards", produção original da Netflix, obteve nove indicações ao Emmy (prêmio que é a versão para a televisão do Oscar hollywoodiano), incluindo a mais prestigiada --melhor série dramática.
          Com uma trama sobre os bastidores da política ambientada em Washington, envolvendo sexo, mentiras e golpes baixos, "House of Cards" tem seus dois primeiros episódios assinados pelo cineasta David Fincher.
          Autor, entre outros, de "Clube da Luta", "A Rede Social" e "Zodíaco", que disputou a Palma de Ouro em Cannes, Fincher concorre ao Emmy pela direção do primeiro episódio de "House of Cards".
          Os vencedores serão revelados no dia 22 de setembro.
          Kevin Spacey, que interpreta o protagonista de "House of Cards" e foi indicado a melhor ator em série dramática, comemorou o "incrível reconhecimento" ao trabalho.
          Quando "House of Cards" se tornou assunto quente em Hollywood --embora a Netflix não revele quantos assinantes a assistiram nem seu orçamento, estimado em pelo menos US$ 60 milhões (cerca de R$ 133 milhões)--, Spacey adotou um tom desafiador.
          Disse que a série dava à indústria de TV a chance de aprender a lição que a hoje agonizante indústria da música não aprendeu. A lição envolve subverter a lógica da grade de programação, pela qual a TV sempre se guiou.
          A estratégia da Netflix de disponibilizar suas produções originais na íntegra assenta-se na ideia de que o espectador quer ter mais controle sobre como e quando assistir a séries, deixando de ser refém dos tempos de espera ditados pela indústria. O hábito de ver "tudo ao mesmo tempo agora" recebeu nos EUA o nome de "binge watching" (algo como "a farra de assistir").
          Se esse é o início do fim da grade de TV, é uma pergunta ainda sem resposta.
            Internet é apontada como o futuro da TV
            Profissionais brasileiros do setor audiovisual apostam na tendência de o espectador migrar da tela para a rede
            Mas 'a TV tradicional ainda é a rainha desse mundo midiático', diz diretor da NET; crítico vê crise na indústria
            DE SÃO PAULOA internet é o futuro da TV?
            Hollywood pode ainda não ter um preciso "sim" ou "não" como resposta. Mas as indicações ao Emmy, ontem, de "House of Cards" e "Arrested Development" (ambas produzidas para distribuição on-line pela Netflix) soaram como um sonoro "talvez".
            No Brasil, especialistas do setor audiovisual ouvidos pela Folha mostraram-se convictos na migração da audiência da telona da TV para a rede de computadores.
            "A internet é o futuro de todas as mídias, inclusive a TV. É só uma questão de tempo", diz o cineasta e professor do departamento de Cinema, Rádio e TV da ECA-USP Roberto Moreira ("Contra Todos").
            O cineasta Andrucha Waddington ("Casa de Areia") tem opinião semelhante. "A internet não é a TV do futuro, é o presente." Waddington observa que, "com a distribuição via rede, o conteúdo chega diretamente ao público, sem que ele esteja amarrado a grades de programação. Os filtros' ou curadores' são os canais do futuro, quer dizer: já o são no presente. O que importa é o conteúdo".
            O crítico Rubens Ewald Filho enxerga "tempos difíceis para a indústria do entretimento, agora que o DVD agoniza" e diz que "é preciso de alguma forma suprir a renda que o vídeo doméstico produzia para os estúdios".
            Nesse sentido, para Ewald Filho, a internet surge como tábua de salvação. "Tem que ser o futuro", diz. Mas aponta "um desafio e uma crise" no caminho da mudança. O desafio é o de "vencer o hábito já instaurado de uma geração de jovens consumidores que se acostumaram a não pagar pelo divertimento".
            A crise se avista na perspectiva de que "esse novo sistema forçosamente irá desmontar toda uma estrutura tradicional", segundo diz.
            Talvez não haja exatamente um desmonte, mas sim uma convivência, na opinião de Márcio Carvalho, diretor de marketing da NET.
            "A internet trouxe uma revolução diferente, marcada pela interatividade, pela personalização, pelo conceito de decidir o que e quando, a cada sessão, a cada acesso", diz Carvalho. Para ele, "a fusão desses dois mundos promete". Contudo, "colocando em perspectiva, a TV tradicional ainda é a rainha desse mundo midiático, com milhões de telespectadores sintonizando seus canais preferidos nos momentos de lazer", diz.
            Contudo, "gradativamente", novos modos de distribuir conteúdo "vão possibilitando que a experiência da tela grande seja complementada com telas menores, num modo mais ativo de ver TV".
              ANÁLISE - HOUSE OF CARDS
              Produção transforma política em entretenimento viciante
              LUCIANA COELHOEDITORA-ADJUNTA DE MERCADOO zum-zum que a internet proporciona e a sacada de lançar todos os episódios ao mesmo tempo explicam parte do sucesso de "House of Cards". Mas a obra do site de filmes e séries por assinatura Netflix, que se tornou ontem a primeira produção para a web indicada na categoria principal do Emmy, deve muito a Shakespeare e a um de seus maiores guardiães atuais, o ator Kevin Spacey.
              Seu Francis Underwood, o cínico deputado sulista cujo único princípio é o de autopreservação, é a melhor versão moderna de Ricardo 3º, o mesquinho anti-herói da peça homônima de Shakespeare, tão atual em dias de desilusão política globalizada.
              O papel lhe rendeu a indicação a melhor ator de série dramática. Levar esse prêmio, porém, será tão difícil quanto roubar a cena de sua companheira de tela, Robin Wright, genial como a mulher-de-deputado/ongueira-ambiciosa Claire (também indicada).
              "House of Cards" é um drama político dos melhores, capaz de transformar a intrincada política americana, com suas particularidades de funcionamento, em um programa de entretenimento viciante e de apelo universal.
              Fora de um grande canal da TV, o drama pode se desprender do irritante maniqueísmo que norteia a ficção televisiva americana. Não há mocinhos ali, são todos vilões, em maior ou menor grau, tentando se dar bem. A empatia com Francis ocorre quase por coação, por meio de seus insistentes (e teatrais) diálogos com a câmera, a fim de inteirar o espectador de seus planos.
              A Netflix --cujas ações foram salvas do naufrágio, no ano passado, por causa de "House of Cards"-- já encomendou a segunda temporada, também nas mãos de Spacey e do diretor David Fincher (de "Clube da Luta"), que disputará o Emmy por seu trabalho no primeiro episódio.
              Mas não anunciou datas. A expectativa e o desapego a calendários, afinal, são parte da natureza da internet.
                Nova série da Netflix aposta em nudez e sexo
                'Orange Is the New Black' conta história de mulher de classe média alta que é presa
                FERNANDA REISDE SÃO PAULODesde que começou a produzir séries originais, no início deste ano, a Netflix havia feito apostas seguras: "House of Cards", por exemplo, tinha o carimbo de David Fincher ("A Rede Social") e "Arrested Development" já era consagrada na "velha TV". De "Orange Is the New Black" não se pode dizer o mesmo.
                A primeira cena da série, que teve seus 13 episódios lançados simultaneamente no dia 11, dá o tom da temporada, que tem sexo (inclusive gay), nudez, drogas e violência. Na sequência de abertura, a protagonista Piper (Taylor Schilling) aparece nua, tomando banho com sua ex-namorada e depois com seu noivo e, por fim, na prisão.
                É lá, uma penitenciária de segurança mínima, que Piper, uma mulher de classe média alta que trabalha fazendo sabonetes artesanais, passará a série, sofrendo para se adaptar à nova realidade.
                No primeiro capítulo, baseado em livro autobiográfico homônimo, Piper é presa por ter retirado dez anos antes num aeroporto uma mala com milhares de dólares para sua ex, uma traficante de drogas.
                Presa, ela aprende que sua educação pouco vale ali e tem que desenvolver estratégias para lidar com a cozinheira russa que se nega a lhe dar comida e com a mulher conhecida como "Olhos Loucos" que quer ser sua mulher.
                Chama a atenção a diversidade do elenco --motivo de críticas a outras séries--, com poucos nomes conhecidos: há transexuais, idosas, latinas, japonesas e negras. Piper, loira, é a exceção, prontamente apelidada de Taylor Swift.
                SEM MAQUIAGEM
                "Quando fiz o teste para a série, me pediram para não usar maquiagem. Vesti uma camiseta larga, prendi o cabelo e atuei", conta à Folha Danielle Brooks --que vive Taystee, uma das presas.
                Para Jason Biggs (de "American Pie"), que interpreta Larry, o noivo de Piper que se compromete a esperá-la do lado de fora, o fato de a série ser produzida para a internet deu mais liberdade à criadora Jenji Kohan (de "Weeds").
                "Na televisão há mais restrições. Você grava um episódio e ele tem que estar no ar em quatro semanas, ou menos. Aqui não", diz. "E na TV o episódio tem uma duração determinada. Se Jenji não quisesse cortar uma cena, podia esticar o programa. Isso é um grande luxo." Cada capítulo tem entre 50 minutos e uma hora --duração superior à da maioria de produções de TV.
                A próxima temporada começa a ser filmada no fim deste mês. "Mas não temos data de estreia. Essa é uma das vantagens do seriado para a internet", afirma Danielle.
                  ~> Disputa do Emmy é grande tanto na comédia quanto no drama
                Comédia e drama vivem situações distintas no Emmy.
                Na primeira, uma série sobre a diversidade da família nos tempos atuais, "Modern Family", domina a premiação desde 2010. Neste ano, teve 12 indicações --uma a menos que a sua principal concorrente, "30 Rock", série sobre os bastidores de uma sitcom que venceu entre 2007 e 2009.
                Lewis Jacobs/Associated Press
                Anna Gunn e Bryan Cranston em cena de 'Breaking Bad', premiada série sobre um professor que se torna traficante
                Anna Gunn e Bryan Cranston em cena de 'Breaking Bad', premiada série sobre um professor que se torna traficante
                Em drama, a disputa está aberta. Em 2012, "Homeland", que aborda paranoia e terrorismo, quebrou a hegemonia de quatro anos de "Mad Men", ambientada numa agência de publicidade entre os anos 1950 e 1960. Neste ano, tiveram 11 e 12 indicações, respectivamente. Terão de derrotar outros quatro fortes concorrentes na categoria.
                "Game of Thrones", com política e guerra num mundo fantástico, é a segunda atração com mais indicações (16), atrás da minissérie "American Horror Story" (17).
                "Breaking Bad", sobre um professor que vira traficante, e "Downton Abbey", sobre a aristocracia inglesa no início do século 20, tiveram 13 e 12 indicações, respectivamente.
                E, por fim, a série política "House of Cards", com nove.

                quinta-feira, 13 de junho de 2013

                Os donos da história - Silvana Arantes

                Folha de São Paulo

                Em alta no mercado de séries, roteiristas apontam condições de trabalho precárias

                SILVANA ARANTES
                DE SÃO PAULO

                Os roteiristas brasileiros vivem dias de mordomo. Eles são os principais suspeitos quando se trata de apontar um culpado para o fato de a produção de séries nacionais na TV paga engatinhar, quando poderia dar passos largos.
                "Falta roteirista" tornou-se bordão nesse mercado, às voltas com a exigência da Lei da TV Paga (2011) de 2h20 de conteúdo semanal brasileiro no horário nobre dos canais por assinatura --a cota sobe para 3h30 em setembro.
                "Parece até que existe toda uma engrenagem muito habituada a fazer série de TV e só quem não tem competência para isso é o roteirista", diz Thiago Dottori, autor de "Pedro e Bianca" (TV Cultura) e coautor (com Contardo Calligaris, colunista da Folha) da inédita "Psi" (HBO).
                Não é bem assim, diz ele. "Conheço um monte de roteiristas que estão sem trabalho, ou porque o mercado não os conhece, ou porque eles não topam as condições que os contratantes oferecem."
                Ilustração Sandro Castelli/Editoria de Arte/Folhapress
                PRECARIEDADE
                As condições oferecidas no mercado de produção independente são "precárias", diz Newton Cannito, roteirista e ex-secretário do Audiovisual.
                "Pagam muito pouco e não dão poder ao roteirista. O diretor mete a mão no roteiro o tempo todo e ele não entende do assunto. Os projetos são caóticos, mudam a toda hora, te tiram no meio", diz.
                Depois de poucos títulos, como "9 mm" e "Cidade dos Homens", em que julgou ter boas condições de trabalho, Cannito trocou a seara independente por um contrato com a Globo, no fim de 2012.
                "Preferi recomeçar do zero. Estou fazendo ceninha [para a próxima novela das 18h] e revisando texto. Mas está ótimo. Estou superagradecido. Lá [na Globo] tem plano de carreira", diz ele.
                "Bráulio [Mantovani], Marçal [Aquino], [Marcos] Bernstein, todos estão na Globo. A Globo fez uma ofensiva, mas a produção independente não soube lidar com essas pessoas", afirma Cannito.
                Indicado ao Oscar pelo roteiro de "Cidade de Deus", Mantovani diz que "na Globo, a liberdade e o controle criativos e o respeito pelo escritor são muito mais compensadores do que encontramos, na média, no cinema".
                Ele frisa a ressalva "na média". "Tive experiências no cinema em que trabalhei com a mesma liberdade e controle que tenho na Globo."
                Para Bernstein, que escreve a próxima novela das 19h, "não é uma questão de roteiristas. Há séries sendo veiculadas tão bem dirigidas quanto bem escritas, como há outras tão mal dirigidas quanto mal escritas". Segundo ele, "a avaliação de que faltam roteiristas no mercado é superficial. O que faltava e está apenas deixando de faltar é mercado". Enquanto o mercado se reacomoda, "é natural essa sensação de vácuo".
                Já Aquino ("Força-Tarefa") afirma não ter "como analisar a produção independente". "Além do meu envolvimento com o cinema, só trabalhei como roteirista para a Globo, onde sou muito bem tratado", diz.
                Se o mercado de produção independente não é o eldorado para roteiristas que o aumento da demanda faz parecer, há, no entanto, muitos interessados em explorá-lo.
                Lançado neste mês, o projeto NetLabTV, que oferece prêmio em dinheiro e consultoria profissional a roteiristas, registrou 1.060 inscrições de participantes e 20,7 mil visitas ao seu site em sete dias.
                O Programa Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas, iniciativa semelhante lançada em 2012, recebeu mais de 1.200 inscrições.
                "AOS MONTES"
                Uma das responsáveis pelo programa, Jacqueline Cantore diz que "roteiristas existem aos montes. Eles só precisam ser qualificados para produzir séries de ficção".
                Ela observa que "não é só a qualificação do roteirista que falta", mas também a dos outros elos da cadeia produtiva. "Falta muito até chegar a uma indústria como a americana. Não vai ser da noite para o dia", diz.
                Para Felipe Hirsch, que roteiriza e dirige "A Menina sem Qualidades" (MTV), "tentar fazer uma série de TV tão bem como os americanos é um caminho que não leva a nada".
                Na opinião de Hirsch, "devemos assistir aos americanos com o sorvete na mão, com admiração e respeito ao seu brilhantismo", mas, "se tentarmos fazer um simulacro da produção americana, não criaremos nossa personalidade, nossa maneira particular de contar histórias".

                terça-feira, 4 de junho de 2013

                Aquecido à força de lei, mercado de TV paga enfrenta um apagão de mão de obra

                folha de são paulo
                SILVANA ARANTES
                DE SÃO PAULO

                A TV por assinatura no Brasil está numa situação semelhante à do protagonista do filme "Quero Ser Grande" -dorme certo dia com o corpo de um adolescente de 12 anos e desperta no outro com a envergadura de um adulto.
                E sofre para se adaptar.
                O salto, no caso da realidade brasileira, deve-se à Lei da TV Paga, que abriu o mercado de televisão por assinatura às empresas de telecomunicação e impôs cota de canais e conteúdo nacionais nos pacotes das operadoras.
                Caco Galhardo/Editoria de Arte/Folhapress
                Os efeitos da lei, aprovada em 2011, são tema do Fórum Brasil de TV, que acontece hoje e amanhã, em São Paulo.
                A cota para programação brasileira, que a partir de setembro atinge o pico previsto na lei --3h30 no horário nobre (18h às 24h)-- aqueceu o mercado, mas o pegou desprevenido para o aumento repentino da demanda.
                O PROBLEMA DOS "ES"
                "Nossos problemas são os 'es': equipe, estúdio, equipamento, elenco", diz Paulo Ribeiro, proprietário da Locall, locadora de infraestrutura para filmagens, como estúdios, trailers e equipamentos.
                Ribeiro diz que, antes da lei, "atendia muito pouco a séries de TV, porque elas eram feitas pelas emissoras, que têm equipamento".
                Em 2012, diz ele, a Locall forneceu infraestrutura para a gravação de sete minisséries. Neste ano, já atendeu a cinco. Pela primeira vez nos 29 anos da empresa, Ribeiro recorreu a um financiamento para expandir. Emprestou R$ 1,25 milhões do BNDES.
                "Estimamos crescer 30% em 2013 se nos adaptarmos adequadamente para atender à demanda", afirma.
                Atenta ao aquecimento da produção audiovisual, a Prefeitura do Rio pretende investir R$ 100 milhões na construção de um complexo de 14 estúdios, com 27 mil m², para estar pronto em julho de 2016.
                Também indicativa do aumento do volume de dinheiro no mercado é a estimativa do Fundo Setorial do Audiovisual de ter R$ 870 milhões para gastar neste ano.
                Em 2012, o fundo investiu R$ 205 milhões em projetos de cinema e TV. Parte da arrecadação do fundo vem de taxa do mercado, a Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional).
                A dificuldade de encontrar profissionais é sentida tanto por empresas neófitas quanto pelas gigantes do setor. "Você não acha mais montador, fotógrafo, eletricista", diz o cineasta Fernando Meirelles, cuja O2 Filmes realiza trabalhos para GNT ("Beleza SA"), HBO ("Destino - Rio") e Fox ("Contos do Edgar").
                "O primeiro time [de profissionais] está completamente ocupado. Aí você tem que apelar para um segundo time e para uma molecada que está estreando." Ele avalia que, "daqui a dez anos, vamos ter excelentes técnicos. Estamos formando uma geração".
                A carência mais citada, contudo, é a de roteiristas familiarizados com a narrativa das séries de TV.
                Além de lidar com o chamado "apagão técnico", os produtores convivem com o que Roberto d'Avila, da Moonshot Pictures ("Sessão de Terapia"), chama de "movimentos contrários do mercado".
                Enquanto "há uma inflação dos custos de produção, porque a demanda por profissionais é maior que a oferta disponível," existe também "uma pressão dos canais pela diminuição dos preços, já que eles têm que produzir uma quantidade maior de horas com orçamento inelástico", afirma o produtor.
                Após "Sessão de Terapia", o GNT agregou mais quatro séries nacionais a sua grade, com "resultado surpreendente", segundo a diretora do canal, Daniela Mignani.
                Dados de audiência mostram, segundo ela, que "essas séries estão à frente de programas consolidados da TV por assinatura".
                O presidente da Ancine (Agência Nacional do Cinema), Manoel Rangel, que fará a palestra de abertura do Fórum, não ignora os gargalos na aplicação da lei.
                "Há um esgotamento da capacidade de mão de obra técnica para a produção. Precisamos ter mais roteiristas e mais formatos, além de um sistema de financiamento menos rígido e mais ágil", disse Rangel a representantes do audiovisual paulista.
                A morosidade do Fundo Setorial do Audiovisual para analisar e aprovar projetos, assim como para liberar recursos, é vista por agentes do mercado como entrave ao seu desenvolvimento. A Ancine planeja reestruturar o fundo.
                FÓRUM BRASIL DE TV
                QUANDO terça e quarta (4 e 5/6), às 9h30
                ONDE Centro de Convenções Frei Caneca (r. Frei Caneca, 569, 4º andar, Consolação, tel. 0/xx/11/ 3138-4600)
                QUANTO R$ 1.625
                TV paga busca soluções sem subir preço
                Diretor da Net diz que há 'um esforço de toda a indústria' para não repassar ao assinante custo da adaptação à lei
                Operadora, líder do setor no país, lança hoje concurso para identificar novos roteiristas e projetos
                DE SÃO PAULOFernando Magalhães, diretor de programação da Net (líder entre as operadoras de TV a cabo no país, com 5,4 milhões de assinantes), diz que há "um esforço de toda a indústria" para se adaptar às novas regras da Lei da TV Paga "sem repassar os custos" ao consumidor do serviço.
                Encarecer ainda mais as assinaturas de TV a cabo poderia ser um tiro no pé de um setor que tardou a deslanchar no país. O ritmo de expansão da TV por assinatura patinou até 2007, quando apenas 5,3 milhões de domicílios no país possuíam o serviço.
                Atualmente, são 16,8 milhões de assinantes --quase 28% dos domicílios com TV. A estimativa da Ancine (Agência Nacional do Cinema) é a de que o número cresça para 50% do total de domicílios em 2016.
                CONTRIBUIÇÃO
                A equação que hoje desafia as programadoras é como elevar a produção de séries nacionais com qualidade suficiente para não afugentar o espectador sem aumentar exponencialmente seus custos.
                A Net decidiu oferecer "uma humilde contribuição nesse processo", diz Magalhães, lançando hoje a iniciativa NetLabTV.
                Trata-se de um concurso para identificar bons roteiristas, que terão assessoria profissional para desenvolver e tentar vender suas ideias.
                "Como estamos em 140 cidades do país e em todas as capitais, a meta é usar essa nossa capilaridade para identificar bons projetos e fazer a roda girar", diz o diretor.
                Magalhães estima que a aprovação no NetLabTV irá funcionar como uma chancela de qualidade para os roteiristas e uma contribuição à tarefa de separar o joio do trigo para os canais.
                "Imagine quantos projetos o Discovery recebe por mês. Você acha que eles terão tempo de avaliar um roteiro enviado por alguém de Belém?"
                Os canais Discovery recebem em média 25 projetos por mês, segundo sua assessoria.
                A promessa do NetLabTV é avaliar todos os projetos inscritos e selecionar 20 finalistas, dentre os quais sairão oito vencedores.
                Além de um prêmio em dinheiro --R$ 16 mil para roteiros de ficção; R$ 8 mil para documentários--, os autores terão direito a consultoria de especialistas, num chamado "laboratório imersivo", em São Paulo. Os custos com transporte e estada de vencedores de outros Estados serão pagos pelo projeto (www.netlabtv.com.br), que tem outros parceiros em sua realização e benefício das leis de incentivo fiscal à cultura. O sonho do diretor de programação da Net é que "daqui a cinco anos a gente tenha um roteirista famoso revelado pelo laboratório". A ver.
                  RAIO X - LEI DA TV PAGA
                  - Autoriza empresas de telecomunicação a operar no mercado de TV por assinatura (sem controlar conteúdo)
                  - Estabelece cotas de canais e programação nacional
                  3h30
                  é a cota de programação nacional no horário nobre dos canais (exceto esportivos e jornalísticos)
                  em 2015
                  programas com mais de sete anos deixarão de valer no cumprimento da cota
                  R$ 870 mi
                  é o que o Fundo Setorial do Audiovisual (em parte alimentado com tributação do mercado de TV a cabo) deve ter para investir neste ano em cinema e TV
                  72
                  projetos para TV foram inscritos na Ancine desde que a lei foi regulamentada

                    domingo, 2 de junho de 2013

                    Autores de "Sangue Bom" expõem lado ridículo da fama

                    folha de são paulo
                    TELEVISÃO
                    SILVANA ARANTES
                    DE SÃO PAULO

                    "É rindo que se castigam os costumes." A novelista Maria Adelaide Amaral invoca o mote da comédia para salientar que há algo muito sério por trás da trama de "Sangue Bom", que ela escreve junto com Vincent Vilari.
                    A crítica ao "crescendo intolerável" da cultura do "famoso por ser famoso", sem "esforço ou mérito" é a meta dos autores da novela das 19h da Globo.
                    O fato de a emissora ser uma peça importante na engrenagem que alça participantes de reality show à celebridade instantânea não afeta, segundo eles, a "liberdade de contar", que é "prerrogativa do autor".
                    Na entrevista a seguir, concedida na casa de Amaral, em São Paulo, ela fala sobre maus atores, a Comissão da Verdade e diz que não queria estar "na pele de Dilma", que está "na corda bamba" entre a obrigação de apurar os crimes da ditadura e a necessidade de atender composições partidárias.
                    *
                    Folha - Como vocês definem a trama de "Sangue Bom"?
                    Vincent Vilari - É a velha questão do "ter" versus o "ser" tratada por meio de uma história romântica -o amor entre Bento (Marco Pigossi ) e Amora (Sophie Charlotte), em que você tem um rapaz que valoriza as relações afetivas acima de tudo e uma menina que valoriza a segurança material acima de tudo. Esses dois se amam e um tenta trazer o outro para o seu mundo, mostrando as vantagens dele.
                    Maria Adelaide Amaral - Esse é o cerne da questão. Exatamente por ser uma história entre o "ser" e o "ter", enseja, na parte do "ter", que falemos sobre as celebridades, a fama e essa loucura que virou o foco em torno da evidência, da exposição. Até aí, não tenho nada contra. A questão é quando as pessoas querem ser famosas por ser famosas, sem nenhum mérito, nenhum trabalho.
                    Marcelo Justo/Folhapress
                    Retrato dos novelistas Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, autores da comédia "Sangue Bom", no ar na faixa das 19h da Globo
                    Retrato dos novelistas Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, autores da comédia "Sangue Bom", no ar na faixa das 19h da Globo
                    Tenho muito respeito pelos famosos, quando existe um trabalho, um esforço envolvido, uma disciplina, uma aplicação e um foco. E quando, chegando lá, eles continuam se desenvolvendo. Prefiro trabalhar com jovens atores que invistam em sua carreira, mas não apenas animando baile de debutante. Um jovem ator, para ter o meu respeito, tem que fazer teatro, cinema, tem que se aplicar, andar para a frente.
                    Você olha para jovens atores e vê a diferença entre gente que resolveu dormir em berço esplêndido, acreditar na sua própria reputação feita que, entretanto, é efêmera.
                    A gente privilegia os jovens atores que investem em sua carreira. Dá gosto vê-los. Tenho profundo desprezo por jovens atores que acreditam que a fama basta e que eles não precisam fazer mais nada.
                    Vilari - Acho que isso é resultado de uma falta de educação sentimental, emocional. É uma fome, uma carência! As pessoas querem a fama para ser amadas, queridas, invejadas.
                    Maria Adelaide - E poderem comprar um Land Rover também.
                    Vilari - Para serem invejadas por suas posses. Porque, a partir do momento em que você não se preenche, o seu foco torna-se o que você tem. As pessoas precisam se cercar de símbolos de status.
                    Maria Adelaide - Isso tudo se agudizou nos últimos tempos, a partir da era yuppie, nos anos 1980. Foi num crescendo intolerável. Aí vieram os reality shows, que favorecem a afluência e a notoriedade de pessoas que realmente... Apesar de que, de alguns reality shows saem pessoas como o [deputado] Jean Wyllys [PSOL-RJ].
                    Vilari - A Grazi, que acho uma ótima atriz.
                    Maria Adelaide - A Grazi, uma ótima atriz, uma moça esforçada. A própria Sabrina Sato. Ela rala, ela trabalha à beça. A gente tem respeito. Agora, não é porque você trabalhou num reality show que você... Você tem que provar que é mais do que isso.
                    *O tom de sua crítica dá a entender a senhora encara a fama gratuita como uma afronta pessoal. Por que? *
                    Maria Adelaide - Não posso dizer que é uma questão geracional, porque o Vincent podia ser meu filho mais novo e também pensa assim. Nós somos muito éticos. Acreditamos em valores fundamentais, como trabalho, honestidade, integridade.
                    Sou imigrante. Vim de Portugal com 12 anos de idade. Aos 12, já trabalhava numa fábrica de camisas. Foi tudo muito difícil, muito conquistado. Fui escriturária e vendedora numa joalheria. Trabalhei quatro anos no Banco da Lavoura. Trabalhava e estudava à noite. O Vincent vem da zona Norte.
                    Vilari - [Vim da] Classe média baixa. Cresci no bairro I-Mirim, que é onde mora a personagem da Malu Mader na novela. Meus pais me criaram para seguir meu caminho, para ir à luta. Aos 16, entrei na oficina de roteiristas da TV Globo. Desde então estou batalhando para chegar até aqui.
                    Vocês escrevem uma crítica ao universo das celebridades numa empresa que alimenta essa indústria. Quais são os limites que a Globo impõe a vocês?
                    Maria Adelaide - Ninguém impõe limites. Seria difícil. Seria complicado. Evidentemente, é uma novela das sete. A gente pega pelo lado do ridículo, pelo lado cômico. Essa é uma prerrogativa de um criador, de um autor --ter liberdade para contar. Desde a era elisabetana no Globe Theatre o lema era "é rindo que se castigam os costumes". A gente segue essa linha, que é uma linha da comédia. E com toda a liberdade.
                    A questão fundamental nesse país é a educação. Esse é o nó górdio.
                    Vilari - Não é uma crítica a um programa específico. É uma crítica à questão da educação.
                    Maria Adelaide - Quando falamos em educação, não nos referimos a boas maneiras. As pessoas não sabem articular um pensamento. Não têm recursos de linguagem. Leem, mas são analfabetos funcionais. E não é um problema das classes desfavorecidas. Dizem que alguns jovens atores precisam de um coach para entender o texto que vai ser dito.
                    Isso é uma consequência de uma tragédia nacional, que começa com os militares e prossegue e se desenvolve com toda a indiferença dos poderes constituídos. Culpam-se os militares, que realmente iniciaram o processo da degradação da escola pública. Entretanto, os chamados governos democráticos não fizeram rigorosamente nada.
                    Qual é sua avaliação sobre o trabalho da Comissão da Verdade?
                    Maria Adelaide - Tenho profundo respeito pelas pessoas envolvidas, mas acho que, infelizmente, houve uma composição. Quando terminou a ditadura, não se foi fundo nisso. Isso deveria ter começado quando terminou a ditadura. É fácil entender porque não foi assim. É histórico no Brasil -simplesmente abafa-se. Quem deveria ter sido punido não foi. Quem deveria ter sido investigado não foi.
                    A Lei da Anistia atendia inclusive a quem continuou no poder e vinha da ditadura. Não vou citar nomes, porque hoje tenho mais medo de abrir a boca do que eu tinha em 1989. As coisas ficaram mais complicadas. Isso é um campo minado.
                    O grande problema é que não se fez o que deveria ter sido feito, o que a Argentina fez, por exemplo. Você tem que pegar aqueles governantes e submetê-los a julgamento. Você tem que apurar a verdade. A gente sabe porque não foi feito. Por causa da Lei da Anistia e porque grande parte das pessoas que ocupavam cargo de mando durante a ditadura continuaram e continuam até hoje. Você vê no poder hoje, ocupando cargos, gente altamente comprometida.
                    Acho da maior importância que essa comissão vá fundo e revele a verdade, dê nome aos bois. No fundo, estamos falando da mesma coisa, tudo faz parte. Estamos falando de impunidade, corrupção, desse sentimento de desamparo e, por outro lado, de pessoas e grupos que tentam fazer o contrário. Tudo isso temos na novela. Temos pessoas que fazem o diabo e nada acontece com elas. E temos pessoas íntegras, que querem um país melhor, que se importam com os outros.
                    Vilari - Essa sede pela celebridade está deixando todo mundo mais ensimesmado. O símbolo maior disso é a Barbara Ellen (Giulia Gam), mas isso está pontuado em todas as tramas [da novela], todas elas convergem para a mesma premissa -o que você precisa ter para ser amado? Onde está a verdade?
                    Em sua opinião, que papel cabe a Dilma no processo brasileiro de busca pela memória, verdade e justiça?
                    Maria Adelaide - Ela foi torturada. Ela, mais do que ninguém, deve estar muito interessada em que se apure. Mas ela está na corda bamba. Se por um lado ela tem todo o histórico de integridade. Por outro lado, tem as alianças partidárias. Ela sabe que a base do governo é composta por algumas pessoas que participaram da ditadura, que sabiam, que fecharam os olhos, foram omissas ou cúmplices. Ela sabe disso. Mas o que ela vai fazer? Não queria estar na pele dela, de forma nenhuma.
                    Essa Comissão da Verdade é composta por pessoas muito íntegras, mas elas sabem das dificuldades.
                    A atual onda de remakes indica que a criatividade para tramas originais de novelas atravessa crise?
                    Maria Adelaide - Não. Trata-se de apostar no que já deu certo, com a possibilidade de transformar. Fizemos dois remakes muito bem-sucedidos, "Anjo Mau" e "Ti-Ti-Ti". Não tenho nada contra remake.
                    É melhor estrear uma novela com a antecessora tendo sido um fracasso ou um sucesso?
                    Maria Adelaide - É sempre uma batalha.
                    Vilari - Ultimamente não existe mais um público fiel a determinado horário. O público vai ver a novela que interessar. Se a novela anterior foi fracasso ou sucesso, isso não vai determinar a audiência da próxima.
                    Qual é seu personagem favorito?
                    Maria Adelaide - Ele adora a Amora.
                    Vilari - Ela já foi minha filha predileta. Hoje tenho algumas dúvidas. Adoro Barbara Ellen e Damáris (Marisa Orth). Tenho carinho especial pelo triângulo Érico (Armando Babaioff), Renata (Regiane Alves), Verônica (Letícia Sabatella). Adoro o Wilson (Marco Ricca). Eu me vejo naquele mau humor. Os preferidos da Adelaide são Bento, Malu (Fernanda Vasconcellos), Plínio (Herson Capri) e Irene (Deborah Evelyn).
                    Maria Adelaide - É gente da minha turma.
                    Vilari - Você vê que a Adelaide é da turma da ética e eu sou da turma da bandalha.
                    Qual é o grande prazer do autor?
                    Vilari - Criar.
                    Maria Adelaide - Primeiro, criar. Segundo, assistir ao próprio trabalho. Quem dizia isso era o Cassiano Gabus Mendes (1929-1993). Ele dizia que é muito nutritivo você assistir ao seu próprio trabalho.
                    E quando o desempenho do ator derruba o personagem que você criou?
                    Maria Adelaide - A gente tem vontade de .... Felizmente, os atores que têm derrubado nossos personagens
                    Vilari (interrompendo) - Aqui, até agora só tem havido alegria.
                    Maria Adelaide - Ao longo da minha vida profissional, os atores que derrubaram personagens eram coadjuvantes. O prejuízo não era muito grande.
                    Que tal é fazer São Paulo no Rio de Janeiro?
                    Maria Adelaide - Só consigo fazer [novela ambientada em] São Paulo. Não sou moradora do Rio de Janeiro. Não sou carioca, não vivo no Rio, não passei minha juventude no Rio, não conheço. Acho bonito, mas como vou falar do subúrbio carioca? Sei falar de São Paulo, porque esta é uma cidade que conheço. Quando você fala da atualidade, é importante falar do que se conhece em profundidade, para não dizer besteira. Isso para mim é primordial.
                    Mas as filmagens são feitas no Rio. Isso não incomoda?
                    Eles gravam muito aqui em São Paulo. O Denis é paulista. E tem muito paulista nessa novela. Eu estou satisfeita.

                    Giulia Gam vive personagem-símbolo do arrivismo
                    DE SÃO PAULONa trama de "Sangue Bom", o "símbolo maior" do afã pela celebridade é a personagem Barbara Ellen (Giulia Gam), como observa o autor Vincent Villari.
                    Atriz sem talento e mulher interessada em dinheiro e ostentação, Barbara passa os dias maquinando factoides para se manter na mídia.
                    "Ela fez todas as opções que eu não fiz. Tive que vencer pudores e me virar do avesso para entrar nessa personagem", afirma Gam.
                    Com uma sólida carreira teatral, as opções profissionais que Gam fez incluíram uma entrada ressabiada no universo da televisão.
                    "PLAYBOY"
                    "Sou da geração que vinha do teatro e só queria fazer minissérie. A gente não queria fazer novela, porque tinha algum preconceito. E a gente não queria de jeito nenhum posar para a Playboy'", relembra a atriz.
                    A intérprete da arrivista Barbara Ellen diz ver com bons olhos que "Sangue Bom" procure traçar um retrato dos conflitos e ambições da juventude atual por meio de seu sexteto de protagonistas jovens.
                    Referindo-se à sua própria fase pós-adolescente, Gam, 46, afirma: "A gente tinha os nossos ismos'; uma ideologia. Hoje não sei que ismo' [a juventude] tem."
                    Sedutora e exacerbada, Barbara Ellen acumula ex-maridos, amantes, filhos, (poucas) amigas e (muitos) desafetos em "Sangue Bom".
                    Com uma língua afiada e desconcertante sinceridade, ela é a personagem que revela meandros e artimanhas da indústria de celebridades.
                    Para se sentir desenvolta numa interpretação que passeia por diversos registros --como o melodrama, o naturalismo, o realismo e a tragédia, conforme cita a própria atriz--, Gam precisou "tirar muitos coelhos da cartola".
                    E ficou satisfeita ao se dar conta de que, ao longo da carreira, acumulou coelhos em número suficiente.
                    "Sofri, derrubei lágrimas, passei noites em claro trabalhando com diretores, mas agora vejo que reuni uma riqueza que é o know-how', o meu repertório, a minha propriedade intelectual", afirma a atriz.

                      domingo, 26 de maio de 2013

                      Vilão gay de "Amor à Vida" sequestra o brilho da mocinha

                      folha de são paulo
                      Na semana de estreia da novela, Félix (Mateus Solano) se destaca e desponta como "sucessor" de Carminha
                      Para psicanalista, o personagem é um "caso grave de doença sadomasoquista"; seus bordões viram hit gay
                      ROBERTO DE OLIVEIRASILVANA ARANTESDE SÃO PAULO
                      Esqueça a mocinha. Em "Amor à Vida", a trama é toda trabalhada na maldade de Félix Khoury. A "bicha má" vivida pelo ator Mateus Solano roubou a cena na semana de estreia da novela de Walcyr Carrasco na faixa das 21h.
                      Suas frases ferinas viraram hit nas redes sociais e gíria no circuito gay. Nessa toada, "parece uma ratinha" e "salguei a Santa Ceia" vão entrar para o glossário da Parada Gay no domingo que vem.
                      Na trama, Félix é o irmão da mocinha Paloma (Paolla Oliveira), de quem sente torturantes ciúmes, por julgar-se preterido pelo pai, César Khoury (Antonio Fagundes).
                      Casado com Edith (Bárbara Paz), com quem tem um filho, Félix se encontra às escondidas com um amante. Edith surpreendeu os dois num almoço romântico no terceiro capítulo da trama.
                      Na opinião do psicanalista e colunista da Folha Francisco Daudt, a impressão deixada pelos primeiros capítulos "é de que se trata de um caso grave de doença sadomasoquista, quando toda a inteligência da pessoa está voltada para o rancor e para a destruição, que costuma ser também autodestrutiva". Diz que "o personagem lembra os gays efeminados. Eles nascem assim, brincam de boneca e de casinha com meninas desde muito pequenos".
                      Segundo o psicanalista, "quando um menino assim tem uma irmã, sobretudo única e caçula, forma com ela a configuração familiar mais difícil que há: duas irmãs. Ciúmes, inveja, competição, preferir a infelicidade da outra à sua própria felicidade, disputar o amor do/dos pais".
                      Essas afirmações, ressalva Daudt, "são estatísticas; sempre haverá exceções".
                      O também psicanalista Jorge Forbes encara a trajetória de Félix por outro ângulo. "É perigoso associar gay à maldade, o que reforça a caricatura de bicha má'", diz.
                      Forbes considera um equívoco os heterossexuais acharem que só os homossexuais têm dificuldade em expressar sua sexualidade. "Todo ser humano tropeça na pedra de sua sexualidade. Ela é difícil para todo o mundo."
                      Diz ainda que o fascínio e o endeusamento exercidos por Félix legitimam o personagem e o espectador. "Essa representação de algo tão perverso nos diz o seguinte: se Félix existe, eu, com minhas fantasias menos graves, também posso existir e dizer: Félix é ele. Ufa!'"
                      Para além de fomentar discussões sobre comportamento social e sexualidade, porém, "Amor à Vida" tem a tarefa mais urgente de reabilitar a audiência da Globo no horário nobre, que "Salve Jorge" (Gloria Perez) derrubou.
                      Na estreia, na última segunda, a novela marcou 35 pontos no Ibope (cada ponto equivale a 62 mil domicílios na Grande São Paulo). A média foi mantida nos dois capítulos seguintes --36 e 34 pontos, respectivamente.
                      Apontado pelos tuiteiros fãs de novela como uma versão gay de Carminha (Adriana Esteves), de "Avenida Brasil" (João Emanuel Carneiro), Félix pode passar a novela toda sem conseguir conquistar o afeto de seu pai, mas o público parece já ter caído de amores por ele.