terça-feira, 28 de maio de 2013

Tendências/Debates

folha de são paulo
WILLIAM STODDART E MATEUS SOARES DE AZEVEDO
Outros islãs
Os terroristas romperam com os pilares do islã ao visarem civis não combatentes e ao operarem com base em ódio contra cristãos e judeus
A natureza e os propósitos essenciais do islã, a mais recente (1.400 anos), difundida (1,5 bilhão de aderentes) e influente (50 países) das tradições espirituais da humanidade, continuam desconhecidos do público ocidental.
Entre as causas dessa desinformação estão a mera carência de dados doutrinais e históricos, diferenças de perspectiva intelectual e moral entre ocidentais e muçulmanos, interesses velados e preconceitos.
O fato de o islã ser fonte cotidiana de notícias não muda substancialmente esse panorama, pois a maioria é negativa. Um dos fatores a explicar isso é a falta de esclarecimento acerca de diferenças entre as várias correntes que se confrontam no próprio mundo islâmico.
É preciso transcender a dicotomia simplista e superficial entre "moderados" e "extremistas". Ela não é acurada e escamoteia diferenças cruciais. Mesmo a diferenciação entre sunismo e xiismo é exposta de maneira vaga.
Outra fonte de desinformação deriva do fato de se chamarem os terroristas de "fundamentalistas". O termo em si significa alguém que se apega a princípios, ou "fundamentos". Mas os terroristas romperam com os pilares do islã ao visarem civis não combatentes e ao operarem com base em ódio religioso contra cristãos e judeus --"povos do Livro", segundo o Alcorão.
Quanto aos wahabitas, eles se caracterizam por literalismo e estreiteza. São eles os verdadeiros fundamentalistas, não os terroristas. Os wahabitas estão longe de representar de forma plena e integral o islã. Pelo contrário, são refratários à rica filosofia islâmica, bem como à sua mística.
O fato de que aderentes de três das quatro principais correntes políticas, listadas abaixo, serem chamados todos de "fundamentalistas" causa obscurecimento de diferenças reais.
Outro ponto: alguns vão se surpreender ao dizermos que houve, no século 20, bons governantes e estadistas muçulmanos. Quem já ouviu falar do rei Idris, da Líbia, dos mais sábios líderes da época? Governante de 1951 a 69, ele liderou a resistência contra a ocupação italiana e foi deposto num golpe liderado pelo então coronel Gaddafi. E de Abu Bakr Tafawa, primeiro-ministro da Nigéria (1960-66), ou Tunku Abdul Rahman, premiê da Malásia (1957 e 70)? Foram ilustres e competentes, mas quem se lembra deles?
Ao considerar os muçulmanos de hoje, temos de distinguir os "tradicionais" (ou espirituais) dos "revolucionários", incluindo os terroristas entre estes. E, igualmente importante, distinguir os tradicionais dos fundamentalistas. Seriam, então, quatro categorias principais.
1. Líderes "tradicionais": os homens citados acima.
2. Wahabitas: os "fundamentalistas", estão longe de representar a tradição islâmica em sua plenitude.
3. "Revolucionários islâmicos": seguidores de Khomeini no Irã ou de Gaddafi na Líbia, todos demagogos e coletivistas. Os principais grupos terroristas estão nesta categoria. Eles reivindicam o nome "islã", mas são de fato letais para ele. Infelizmente, é gente desse tipo que o público ocidental vê como "muçulmano típico".
4. Secularistas: inclui figuras como Assad, da Síria, e o finado Saddam Hussein, do Iraque. São basicamente antirreligiosos, portanto o termo "fundamentalista", no sentido literal, é inapropriado.
Aqui, tratamos de categorias políticas e, portanto, não é o lugar de abordar o sufismo, a mística islâmica. Não obstante, em razão de sua importância, concluímos com uma palavra sobre ele.
Seus chefes se engajam na ação política direta somente de forma secundária. Seu foco é a contemplação, não a ação, mas nem por isso deixam de ter uma influência positiva. Um exemplo foi o célebre emir Abdel Kader (1808-1883), que, mesmo místico, liderou a resistência contra o colonialismo francês.
    PABLO ORTELLADO E LUCIANA LIMA
    Dados privados, políticas públicas
    Se já não dá para estimar se há meias-entradas demais, quem vai aferir que o benefício será efetivamente concedido no limite de 40%?
    No dia 27 de abril, publicamos um artigo ("Direito sem ordem de chegada") em defesa da meia-entrada ilimitada para jovens e idosos. Nosso argumento era que a meia-entrada é uma forma de subsídio cruzado, no qual os adultos subsidiam os jovens e os idosos.
    Argumentamos que a limitação da meia-entrada criaria uma situação absurda, na qual os estudantes que comprassem ingressos além da cota subsidiariam os estudantes que tivessem comprado antes, rompendo o princípio da progressividade.
    E dissemos que a promessa dos produtores de reduzir os preços dos ingressos deveria ser vista com ceticismo, já que fala semelhante feita pelas editoras na ocasião em que receberam isenção não se cumpriu.
    Essa última observação ensejou resposta da presidente da Câmara Brasileira do Livro (CBL). Em artigo nesta Folha ("O preço do livro", 5/5), ela argumenta que, desde a isenção do PIS/Pasep, em 2004, o preço do livro caiu 44,9%. E utiliza como evidência um estudo encomendado pela própria CBL à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).
    Os números, por si só inverossímeis, merecem reflexão mais detida porque apontam para o problema mais amplo do uso de dados de empresas privadas na orientação de políticas públicas.
    O levantamento buscou estimar o preço médio dos livros a partir de questionários enviados às editoras. Uma das dificuldades desse tipo de pesquisa deve ser destacada: os dados são autodeclarados e não podem ser auditados.
    No fundo, dizer que a pesquisa da Fipe indicou que o preço do livro caiu 44,9% significa apenas que as próprias empresas disseram que baixaram o preço. E elas disseram isso no contexto das críticas do ex-presidente Lula de que, a despeito da isenção, o preço do livro não tinha caído. Como as editoras estavam interessadas em demonstrar essa redução, seu depoimento não é crível.
    Como contraponto, podemos buscar os dados públicos do maior programa de compras governamentais, o Programa Nacional do Livro Didático. Tomando o ano de 2004 como base e corrigindo os valores pela inflação, notamos nos últimos oito anos apenas uma pequena variação (em torno de R$ 7,50, em valores de 2012). É de chamar a atenção a disparidade entre o dado público, que indica estabilidade dos preços, e o dado privado, que indica uma redução de quase 45%.
    Voltando ao tema do primeiro artigo, podemos transpor a situação do mercado editorial para o debate sobre a meia-entrada. Matéria da "Ilustrada" de 6/5 utiliza dados de produtores e empresários para dizer que a concessão de meias-entradas seria de 65% a 80% dos ingressos. Esses dados, produzidos por agentes declaradamente interessados na redução do benefício e que não podem ser auditados, deveriam orientar o debate público sobre um direito dos estudantes brasileiros?
    Se já não temos dados confiáveis para estimar com imparcialidade se há meias-entradas demais, quem vai aferir que o benefício será efetivamente concedido no limite de 40% ou verificar se os preços caíram como prometido? Fica a lição do mercado editorial.

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