sexta-feira, 14 de junho de 2013

Editoriais FolhaSP

folha de são paulo
Aviso aos navegantes
Mais uma vez a presidente Dilma Rousseff dirigiu críticas à oposição e atacou o suposto pessimismo de quem manifesta apreensões com os rumos de seu governo. Desta feita, em discurso no Planalto, a mandatária apelou a um personagem de "Os Lusíadas", de Luís de Camões --o velho do Restelo.
Na epopeia escrita no século 16, o ancião entra em cena quando as embarcações de Vasco da Gama estão por partir em busca das Índias.
Parentes e amigos despedem-se dos marujos na praia do Restelo, quando a "voz pesada" do velho se faz ouvir num discurso de condenação à empresa: movido pela cobiça, o navegador expunha-se a perigos e corria o risco de fracassar, num momento em que o país ainda se via ameaçado pelos mouros.
O personagem é associado a uma visão conservadora, feudal, contrária à expansão mercantil ligada às navegações. "O velho do Restelo", disse Dilma, "não pode, não deve e, asseguro a vocês, não terá a última palavra no Brasil."
Espera-se que não, mas não há dúvida de que a governante navega por mares agitados e enfrenta, em seu périplo, percalços que justificam a opinião dos críticos.
A política econômica atual pauta-se por decisões ao sabor dos ventos que produziram efeitos medíocres. Diferentemente do navegador lusitano, que desbravava o desconhecido, o governo ignora caminhos já testados e retoma a temerária rota intervencionista.
Nas contas públicas a gestão é frouxa, e observa-se mal disfarçada leniência com a escalada da inflação. O índice chegou ao teto de tolerância da meta, obrigando o Banco Central a reassumir o leme e providenciar às pressas uma correção na política monetária.
Também na Fazenda, capitaneada por Guido Mantega, o comportamento é errático. Aumentos e cortes de tributos ocorrem de acordo com as intempéries da hora.
O caso mais recente é o do câmbio. Após dizer que não alteraria a alíquota de 1% do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) que incide sobre transações em dólar no mercado futuro, o ministro, dois dias depois, mudou de opinião.
Por sua vez, as projeções de crescimento do PIB se estreitam, reforçando a desconfiança de investidores e analistas internacionais.
A culpa decerto não é de velhos do Restelo --ou "fracossomaníacos", na expressão usada em casos análogos pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Para que a última palavra não fique com "pessimistas", como quer Dilma Rousseff, seu governo precisará demonstrar com resultados que é capaz de levar o país a bom porto.
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    A nova face do Irã
    Começa hoje escolha do sucessor de Ahmadinejad; novo presidente pode abrir espaço para maior diálogo sobre a questão nuclear
    Cinquenta milhões de eleitores iranianos estão convocados às urnas hoje para escolher o sucessor de Mahmoud Ahmadinejad na Presidência da república islâmica.
    Impedido de concorrer por ter cumprido dois mandatos seguidos, o polêmico presidente deixa um legado de crescente isolamento internacional e crise econômica.
    Ahmadinejad também será lembrado pelos reiterados desafios à autoridade do líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, detentor da palavra final no regime. No fim do segundo mandato, o presidente questionou até as fundações teocráticas do Estado ao preconizar uma relação direta com Deus e uma volta à identidade persa pré-islâmica.
    Khamenei agora procurou pavimentar o caminho para a eleição de um mandatário dócil e discreto. Evidência disso é a decisão das autoridades constitucionais de vetar candidaturas de um aliado de Ahmadinejad e de um ex-presidente centrista, vistos como ameaça ao status quo.
    Para o primeiro turno, restaram seis candidatos, com o favoritismo dividido entre três conservadores: o prefeito de Teerã, Mohamad Qalibaf, o assessor diplomático do líder supremo, Ali Akbar Velayati, e o negociador nuclear Said Jalili. A oposição reformista apoia Hasan Rowhani, clérigo centrista que chefiou negociações nucleares pré-Ahmadinejad.
    Todos admitem que a inflação descontrolada e o desemprego são a maior preocupação dos iranianos. Afirmam ainda que o problema é causado, em grande parte, pelas sanções ao programa nuclear. Enquanto Jalili prega resistência às pressões e sacrifícios em nome da ideologia revolucionária, os outros três defendem maior pragmatismo.
    Céticos lembram que decisões sobre o programa nuclear e outros temas estratégicos são monopólio do líder supremo. Mas o presidente tem funções importantes. Cabe a ele, por exemplo, conduzir a política econômica e administrar infraestrutura e saúde pública.
    O presidente ainda possui relativa autonomia diplomática. A aproximação com a América Latina se deu por impulso de Ahmadinejad --candidatos a sua sucessão não demonstram interesse pela região, com exceção de Jalili.
    O tom na agenda externa também é definido pelo presidente. No governo reformista de Mohamad Khatami (1997-2005), chanceleres da União Europeia visitavam Teerã. Ahmadinejad gerou repulsa ocidental por questionar o Holocausto e pregar o fim de Israel.
    Não é pequena a importância das eleições de hoje. Acima de tudo porque o novo presidente poderá permitir abordagem mais construtiva nos esforços para desemperrar o imbróglio nuclear.

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