domingo, 14 de julho de 2013

Antonio Prata

folha de são paulo
Estepe
A ideia de manter um texto reserva foi do meu pai: 'Vai que a sua mulher te abandona e tudo o que sai são lágrimas?'
Esta não é a crônica que deveria estar aqui: é uma crônica estepe. Se você a está lendo, ludibriado leitor, é porque a outra furou, ou melhor, eu furei e, nesta semana, por razões que desconheço, deixei de entregar minhas maltraçadas ao jornal.
A ideia de manter um texto reserva, bem guardado no porta-malas da redação, foi do meu pai: "Vai que, justo no dia de mandar a coluna, acaba a luz? Vai que te surge uma pedra no rim? Vai que a sua mulher te abandona, você senta pra trabalhar e tudo o que sai são lágrimas e letras do Tim Maia? Deixa uma crônica prontinha com as redatoras, pra uma emergência. Vai por mim".
Eu fui, ou melhor, estou indo: hoje é dia 22 de agosto de 2011 e aqui me encontro, enchendo este estepe com o parco ar de minha inspiração, de modo que nenhum prego, buraco ou pedra no meio do caminho me impeça de, no futuro próximo ou distante, levá-los com segurança e conforto de uma margem a outra desta página.
Hoje de manhã, quando decidi me dedicar à empreitada, senti aquele pequeno orgulho cívico de quem acaba de marcar uma visita de rotina ao dentista ou manda lavar a caixa-d'água, mas aos poucos, enquanto escrevo, percebo a alegria da cautela se escondendo sob a nuvem preta do temor: só consigo pensar no que terá acontecido para que eu tenha deixado de enviar a crônica.
Lembro do dia, faz uns três anos (ou seis? Ou 49?), em que fiz um seguro de vida. Lembro do sorriso estúpido do gerente ao anunciar que, em caso de morte, o "prêmio" seria de R$ 200 mil. "Taí um prêmio que eu não quero ganhar", eu disse, ao que ele me respondeu, seriíssimo: "Não, não, no caso você não ganha nada, quem ganha é o beneficiário". Pensei em simular uma indignação, em exigir que a quantia fosse depositada nos bolsos do meu traje mortuário, tendo o gerente, pessoalmente, o cuidado de disfarçar a bufunfa com algumas flores do caixão, mas respirei fundo e só assinei ao lado do xizinho, um pouco incomodado por saber que eu valia mais morto do que vivo.
Céus, veja o poder daquela nuvem negra: comecei com uma queda de energia e, quatro parágrafos adiante, estou sete palmos abaixo da terra. Não é para tanto. Seria de muito mau gosto o jornal publicar este texto se eu tivesse batido as botas. Donde concluo, aliviado, que se você, póstero leitor, estiver lendo agora a palavra "carambola", seja em 2012, 2021 ou 2043, é porque não morri. Talvez esteja no escuro, talvez tenha uma pedra no rim, quem sabe minha mulher me abandonou e eu me encontre na rua da amargura, bebendo Cynar com Fanta Uva e cantando "Me Dê Motivos", mas estou vivo.
Estou vivo e preso ao dia 22 de agosto de 2011. Vocês estão vivos e deslizando rumo ao futuro, como pinguins sobre placas de gelo. Ó aí, lá vou eu querendo ser trágico de novo. Deixa disso, Antonio: se o futuro é insondável, seja ao menos um pouco otimista. Ok, serei: quem sabe este texto está sendo publicado porque anteontem ganhei o Oscar de melhor roteiro e, numa ressaca de Dom Pérignon, fui incapaz de escrever uma linha? É isso. Semana que vem eu conto como foi a festa e como resisti às insistentes cantadas de Scarlett Johansson, que, mesmo sessentona e um pouco acima do peso, ainda bate um bolão. Até.

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