Mostrando postagens com marcador Pasquale Cipro Neto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Pasquale Cipro Neto. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

'Cuca o explicou sobre reserva por...'

Ouvir o texto

Entre os estudiosos da língua há quem defenda a tese de que a norma culta de hoje está no que publicam os principais jornais do país e os meios de comunicação em geral. Essa corrente, no entanto, não usa em seus trabalhos o que se lê nos principais jornais do país, ou seja, o que ela diz ser a norma culta de hoje.
Muitas questões dos mais importantes vestibulares se baseiam justamente em textos jornalísticos, ou melhor, nos problemas de certos textos jornalísticos. Sempre se pede que se faça alguma "correção" nos excertos destacados, seja no que diz respeito à mensagem em si, seja no que diz respeito a aspectos gramaticais.
Posto isso, vamos a um belo exemplo do que não se deve imitar quando se quer trafegar pelo padrão culto da língua. De onde vou tirar o exemplo? De um título jornalístico, que ninguém é de ferro! Lá vai: "Júnior César diz que Cuca o explicou sobre reserva por mensagem". O desconhecimento de itens gramaticais básicos, a falta de leitura dos clássicos e a confusão com a regência de verbos que pertencem ao mesmo campo semântico estão entre os fatores que produzem a inadequação linguística presente no título citado.
A que variedade de língua pertence a sintaxe desse título? À culta? À popular? A nenhuma delas. O xis do problema está no uso indevido do pronome oblíquo "o". Quando se diz que alguém "o explica", diz-se que alguém explica algo, que pode ser um fenômeno, um texto etc.: "O professor explicou o problema" = "O professor o explicou"; "O poeta explicou o verso" = "O poeta o explicou"; "O astrônomo explicou o fenômeno" = "O astrônomo o explicou".
Como se sabe -ou como deveria saber-se-, no padrão formal da língua o pronome oblíquo "o" funciona como complemento verbal direto (aquele que não é regido por preposição), seja para substituir coisas ou animais, seja para substituir seres humanos. Vamos lá: "Não conheço você" = "Não o conheço"; "Encontrei o cão" = "Encontrei-o"; "Não admiro esse compositor" = "Não o admiro"; "Não li esse livro" = "Não o li".
Na frase em questão, certamente não se quis dizer que Cuca "explicou Júnior César sobre a reserva", já que ninguém explica alguém sobre o que quer que seja. O que se quis dizer é que Cuca explicou A Júnior César sobre a reserva. Se alguém explicasse alguém sobre algo, seria possível dizer "Cuca o explicou sobre tal coisa".
O caro leitor já sabe como ficaria o título citado se fosse redigido na norma culta? Bastaria trocar o pronome "o" pelo pronome "lhe": "Júnior César diz que Cuca lhe explicou sobre a reserva por mensagem". Sim, se Cuca explicou A Júnior César, ou seja, se Cuca explicou A alguém, Cuca lhe explicou. No padrão culto da língua, é o pronome "lhe" que funciona como complemento verbal indireto (aquele que é regido por preposição) da terceira pessoa. Vamos lá: "O livro pertence a você" = "O livro lhe pertence" ou "O livro pertence-lhe"; "Digam ao diretor que este livro pertence a ele" = "Digam-lhe/a ele que este livro lhe pertence" (ou "que este livro pertence a ele").
O desconhecimento dessa particularidade da sintaxe culta tem produzido outras bobagens semelhantes, como "O médico não o permite ingerir gordura" (na língua culta, "O médico não lhe permite ingerir gordura") ou "O juiz não o concedeu o benefício" (no lugar de "O juiz não lhe concedeu o benefício").
E é bom não confundir alhos com bugalhos! Frases como "O juiz não o convenceu a depor" ou "O pai não o autorizou a viajar" são do registro culto, já que, nesse caso, "autorizar" e "convencer" não regem preposição (alguém convence alguém; alguém autoriza alguém). É isso.
pasquale cipro neto
Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Mulher (...) reavê direito de dirigir'
'Haver' já teve o sentido de 'ter', como no provérbio 'Não hajas compaixão de quem tem cama e dorme no chão'
Estava na capa de um site de notícias na última segunda-feira: "Mulher que matou jovem reavê direito de dirigir". Certamente a maior parte dos leitores captou a essência da mensagem, mas há um "probleminha" na redação do título jornalístico. O caro leitor já sabe qual é?
Vamos lá. A forma "reavê" é flexão de qual dos nossos verbos? A julgar pelo que dizem as gramáticas e os dicionários, de nenhum; a julgar pelo "sexto sentido", esse "reavê" é do verbo "reaver", mais precisamente da terceira pessoa do singular do presente do indicativo.
A formação de "reaver" é óbvia ("re-" + "haver"). Esse "re-" é um conhecido prefixo latino, que, no caso, indica a ideia de "repetição". Assim como "refazer" significa "fazer de novo" e "recalcular" significa "calcular de novo", "reaver" nada mais é do que "haver de novo". O que foi mesmo que acabei de escrever a respeito do significado de "reaver"? Repito: "reaver" nada mais é do que "haver de novo". Acho que cabe um autoquestionamento: será mesmo pertinente a expressão "nada mais é do que..."?
Explico: quando se mencionam verbos como "refazer", "recalcular", "reconquistar", "rediscutir" etc., o falante imediatamente identifica neles a ideia de repetição, mas, quando se menciona o verbo "reaver", o falante identifica o significado ("recuperar a posse") e a ideia de repetição, mas não estabelece de imediato a relação desse verbo com "haver", o que talvez explique o emprego de "reavê", tentativa de "regularização" do verbo "reaver".
O verbo "haver" já teve entre nós o sentido de "possuir", vivo até hoje no francês, no italiano e no inglês. Sim, eu sei que o inglês não é uma língua neolatina, mas muitos de seus vocábulos (mais da metade) são latinos.
Como se traduz a célebre frase "I have a dream", de Martin Luther King? Lá vai: "Eu tenho um sonho". Esse "have" de "I have" é do verbo inglês "to have", que, além de ser usado como auxiliar, em tempos compostos, tem, quando verbo pleno, o significado de "possuir", "ter".
Se tomarmos o italiano, notaremos algo semelhante. No "Canto I" do "Inferno", de Dante Alighieri, encontra-se esta passagem, escrita no italiano da época: "...e dopo l pasto ha più fame che pria". Tradução (livre): "...e depois da refeição tem mais fome do que antes". O nosso "tem" é a tradução do "ha" que Dante empregou. Esse "ha" (sem acento em italiano) é do verbo "avere", que, como ocorre com o inglês "to have", é usado na formação de tempos compostos e, quando verbo pleno, significa "ter", "possuir".
O sujeito desse "tem" ("ha", em italiano) do "Canto I" do "Inferno" é uma loba, um dos três animais selvagens que Dante encontra durante a subida de uma colina. Na Idade Média, a loba simbolizava a avidez, a cupidez e a avareza.
Como já afirmei, "haver" já teve o sentido de "ter", "possuir", conforme se vê neste provérbio, citado por Celso Luft: "Não hajas compaixão de quem tem cama e dorme no chão" ("não hajas" = "não tenhas").
E o verbo "reaver"? Bem, já sabemos o significado e a origem; falta falar da conjugação. No padrão formal da língua, "reaver" é defectivo, ou seja, não tem conjugação completa. O verbo "reaver" só é conjugado nas formas em que o verbo "haver" apresenta a letra "v". Como o presente do indicativo de "haver" é "eu hei, tu hás, ele há, nós havemos, vós haveis, eles hão", o de "reaver" se resume às flexões "nós reavemos" e "vós reaveis". As outras quatro flexões (relativas a eu, tu, ele e eles) não existem.
Moral da história: no padrão culto, motorista nenhum "reavê" o direito de dirigir. Que fazer? Emprega-se uma forma de outro verbo ("recupera" etc.). É isso.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Engate' é 'o ato ou efeito de...'
No Brasil, o engate não engata; é a síntese perfeita da estupidez e do egoísmo que reinam no nosso país
Há algum tempo, o ministro da Justiça da vez disse algo como "a assunção do comando". O que vem a ser "assunção"? Nada mais do que "o ato ou o efeito de assumir", como se vê em qualquer dicionário. O ato de "transmitir" é "transmissão", e o de "suspender" é "suspensão". Como o leitor certamente deve ter notado, os três substantivos citados indicam "o ato ou efeito de" e terminam em "ão", mas o que vem antes desse "ão" pode ser "s", "ss" ou "ç".
O conhecimento da origem desse tipo de palavra poderia facilitar a vida do usuário da língua na hora de optar entre "ção", "são" e "ssão", mas a leitura constante e o consequente convívio com esses vocábulos já bastam para que a grafia de boa parte deles seja internalizada.
Há outras terminações de substantivos que indicam "o ato de" ("transferir/transferência"; "escalonar/escalonamento"; "prensar/prensagem").
Nos casos vistos até aqui impera a sufixação, ou seja, o acréscimo (a um verbo) de um sufixo para a formação do substantivo que designa "o ato ou efeito de". Agora eu lhe pergunto, caro leitor: qual é o substantivo que designa "o ato ou efeito de trocar"? E o de "combater"? E o de "avisar"? Vamos lá: "troca", "combate" e "aviso", respectivamente.
Nos três casos, não houve sufixação, isto é, não houve o acréscimo de um sufixo ao verbo, o que se nota facilmente pelo fato de o substantivo não "espichar". Na verdade, o substantivo "encolhe". O que temos agora é a "derivação regressiva", processo pelo qual se elimina o sufixo da palavra originária (o verbo) e se acrescenta uma vogal (temática).
No caso de "aviso", que é "o ato ou efeito de avisar", elimina-se a terminação "-ar" do verbo "avisar" e se acrescenta a vogal "o" para que se chegue ao substantivo "aviso".
Há casos em que se formam dois ou mais substantivos e pelos dois processos --sufixação e derivação regressiva. Um bom exemplo vem de "enlevo", "enlevamento" e "enlevação", que indicam "o ato ou efeito de enlevar" ("provocar arrebatamento, deleite"). Aliás, "deleite", que é "o ato ou efeito de deleitar", equivale a "deleitamento" e "deleitação".
Mas voltemos à derivação regressiva, processo pelo qual se formam inúmeros substantivos que designam "o ato ou efeito de". Quer uma listinha? Vamos lá: "abalo", "venda", "ataque", "saque", "beijo", "amparo", "caça" etc. Esses substantivos designam, respectivamente, "o ato ou efeito de abalar, vender, atacar, sacar, beijar, amparar e caçar".
Na gíria do português do Brasil, há casos interessantes e criativos de derivação regressiva. Um deles é "amasso", que designa "o ato ou efeito de amassar", cujo significado... É claro que não preciso terminar, certo?
Ainda no território das coisas "interessantes" do português do Brasil, pode-se citar o substantivo "engate", que, fruto da genialidade brasileira, designa "o ato ou efeito de NÃO engatar". Sim, de "não engatar", caro leitor. Não me enganei, não. No Brasil, o engate não engata. Síntese perfeita da estupidez e do egoísmo reinantes no país, o engate é usado, com a anuência das nossas LAMENTÁVEIS autoridades (in)competentes, para estragar, causar prejuízos de diversas ordens (inclui-se aí o ambiental) e, sobretudo, para machucar, ferir gravemente e até matar. No Brasil, "engate" é "o ato ou efeito de viver num país pouco inteligente...".
Qualquer pessoa que já tenha lido meia linha de um texto sobre resistência dos materiais, sobre física ou sobre ética (nesse caso, refiro-me a algo chamado "egoísmo") sabe do que estou falando. Não preciso explicar. Para bom entendedor, meia palavra basta. Só os gênios de Brasília não sabem disso. O Brasil é mesmo muito criativo. É isso.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

'Equívocos' evitáveis - Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Equívocos' evitáveis
Muita gente supõe que o 'vossa' de 'Vossa Santidade' e afins impõe o possessivo 'vossa', que é outra história
O papa se foi. Com ele, as confusões entre as formas de tratamento "Sua Santidade" e "Vossa Santidade". Foi um tal de ouvir/ler jornalistas, comentaristas, convidados de programas jornalísticos etc. se referirem ao papa das duas maneiras que os pobres ouvintes/leitores devem ter ficado um tanto desorientados, sobretudo aqueles que porventura desconheçam o emprego culto dessas formas de tratamento.
Antes de entrar no tema, lembro que, quando se opta pela norma culta ou quando se impõe o uso desse registro (caso do pronunciamento de altas autoridades em cerimônias oficiais), convém conhecer o território em que se está, do contrário...
No domingo à noite, o vice-presidente da República, Michel Temer, saiu-se bem ao se dirigir a Sua Santidade. Opa! Pronto! Acabo de dar um exemplo do uso culto de formas de tratamento iniciadas por "sua" ("Sua Santidade", "Sua Excelência", "Sua Senhoria" etc.). Quando se fala do ser ao qual se refere o pronome de tratamento, emprega-se a forma iniciada por "sua". Foi o que eu fiz no trecho "...ao se dirigir a Sua Santidade", no qual empreguei "Sua Santidade" para referir-me ao papa.
Em sua fala, Temer empregou "Vossa Santidade" porque falava ao papa (e não do papa), ou seja, dirigia a palavra diretamente a ele. Dia desses, nas matérias sobre o "bebê real" (haja estômago para ouvir tanta bobagem sobre um assunto tão desimportante!), notou-se a mesma confusão. O pimpolho foi citado (corretamente) por alguns como "Sua Alteza", e por outros como "Vossa Alteza". Que eu saiba, ninguém conseguiu entrevistar o rapazote.
Muita gente supõe que o "vossa" de "Vossa Santidade" e afins impõe o possessivo "vossa", que é outra história. Na linguagem formal, o possessivo "vossa" se associa ao pronome reto "vós" ("...bendita sois vós entre as mulheres, bendito é o fruto do vosso ventre, Jesus"...).
Com os pronomes de tratamento, que são da terceira pessoa gramatical, empregam-se os possessivos da terceira pessoa, ou seja, "seu(s)" e "sua(s)": "Vossa Santidade sabe que SUA visita ao Brasil..." (e não "vossa visita ao Brasil..."). Os pronome oblíquos também devem ser da terceira pessoa, ou seja, devem ser "o(s)", "a/s" e "lhe(s)": "Vossa Santidade sabe que SUAS palavras comoveram o Brasil. Os jovens agora O veem como alguém realmente capaz de transformar a Igreja e esperam que nada LHE tire a coragem de enfrentar as barreiras que...".
É claro que a frase que encerra o parágrafo anterior só poderia ser dita por alguém que dirigisse a palavra diretamente ao papa; se alguém falasse do papa, deveria trocar "Vossa Santidade" por "Sua Santidade".
Outro equívoco evitável consiste no emprego do acento indicador de crase antes de "Sua (ou Vossa') Santidade". Basta um pouco de atenção para que se perceba que não se usa artigo definido antes desses pronomes. Ninguém dirá algo como "Os fiéis creem na Sua Santidade" ou "Os jovens esperaram pela Sua Santidade" ou ainda "Os brasileiros gostaram muito da Sua Santidade". No lugar de "na", "pela" e "da", que resultam da fusão de preposição e artigo, usam-se apenas as preposições "em", "por" e "de", respectivamente: "...creem em Sua Santidade", "...esperaram por Sua Santidade", "...gostaram muito de Sua Santidade".
Como se sabe, se não existe artigo, nada de acento indicador de crase: "O vice-presidente dirigiu a palavra a (e não à') Sua Santidade"; "Peço a (e não à') Vossa Senhoria que reconsidere sua decisão".
Em tempo: quem já passou por um concurso público sabe que o que discuti nesta coluna é assunto frequente nas provas de português desse tipo de seleção. É isso.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Ide e fazei discípulos...'
Ninguém morre por estudar formas linguísticas que não se usam no dia a dia, mas ocorrem em outros registros
O lema da Jornada Mundial da Juventude 2013 é "Ide e fazei discípulos entre todas as nações" (Mateus, 28, 19). Quero trocar dois dedos de prosa sobre as formas verbais "ide", "fazei" e análogas, hoje fora de uso na língua do dia a dia, mas largamente encontradas nos textos literários clássicos (portugueses e brasileiros) e na literatura religiosa.
Chama-me a atenção o contraste entre o lema da JMJ e o que boa parte da parte brasileira dessa mesma juventude tem encontrado na sala de aula. Alguns "professores" andam dizendo a seus pobres alunos que estudar a língua clássica é coisa de opressores, é manifestação de preconceito etc. Quanta bobagem!
Como bem dizem os realmente antenados com a modernidade linguística, o estudo sério NÃO deve ignorar o que se pratica no dia a dia ou o que se registra nas diversas variedades linguísticas, assim como NÃO pode deixar de abordar as variedades clássicas, formais etc. Isso sim é dar ao estudante um guarda-roupa linguístico pleno, que lhe permita compreender sobretudo as modalidades da língua com as quais ele tenha pouca ou nenhuma familiaridade.
Para ilustrar o que digo, relembro uma questão do vestibular da Unesp (Universidade Estadual Paulista). Baseada num fragmento de Vieira, a banca pediu aos candidatos que apontassem a frase em que o pregador se dirige diretamente ao público. O enunciado deixa claro que só há uma frase, formada por apenas uma palavra, a flexão verbal "reparai".
Como o índice de acerto foi baixíssimo, deduz-se que poucos candidatos entenderam o significado de "reparai", que nada mais é do que a segunda pessoa do plural (vós) do imperativo afirmativo de "reparar". Se Vieira tivesse empregado a terceira do plural, teríamos "reparem".
O que nos revela o baixíssimo índice de acerto? Temos algumas hipóteses: a) boa parte dos professores não soube ensinar o imperativo (mandou "decorar" a tabela de formação, mas não explicou o uso); b) boa parte dos professores explicou direito, mas a maior parte dos alunos não entendeu ou não deu importância etc.; c) boa parte dos professores simplesmente ignorou o assunto. Poderíamos pensar também numa alternativa "d", em que se afirmaria que pelo menos duas das alternativas anteriores são corretas.
O frouxo argumento de que a falta de uso na língua do dia a dia não justifica o ensino desse tipo de flexão verbal pode ser desmontado com o lema (bíblico) da JMJ, com um poema modernista, como "Verbo Crackar", de Oswald de Andrade, ou com uma canção popular, como "Tempo Rei", de Gilberto Gil. Nos três casos, empregam-se formas da segunda do plural (vós) do imperativo afirmativo. Em "Tempo Rei", Gil emprega "transformai", "socorrei" e "ensinai", que resultam da eliminação do "s" final da forma correspondente do presente do indicativo.
Voltando ao lema da JMJ ("Ide e fazei..."), temos de novo a segunda do plural do imperativo afirmativo de "ir" e "fazer", respectivamente: "ide" resulta da eliminação do "s" de "ides" (de "vós ides", segunda do plural do presente do indicativo); "fazei" segue o mesmo processo (de "vós fazeis" se chega a "fazei").
No poema de Oswald, encontra-se a forma "sede" (em "sede trouxas"), que é da segunda do plural do imperativo afirmativo de "ser". Trata-se de uma das duas únicas exceções registradas na formação do imperativo. A outra é "sê", da segunda do singular do mesmo verbo "ser" ("Para ser grande, sê inteiro...", escreveu Fernando Pessoa).
Ninguém morre por aprender e estudar formas linguísticas que não se usam no dia a dia, mas ocorrem em outros registros linguísticos. Xô, preconceito! Xô! É isso.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Pasquale Cipro Neto

De plebiscitos e referendos
Qualquer semelhança com a trapalhada jurídica em que se meteu o governo federal não é mera coincidência
É claro que o cidadão minimamente antenado sabe que o governo federal quer (ou quis) submeter a um plebiscito a reforma política, que, no Brasil, como se sabe, é assunto quase tão velho quanto a corrupção.
Faz tempo que quero meter o meu pitaco nessa história, mas, semana vai, semana vem, acabo achando que muita gente já falou a respeito e que talvez eu não tivesse nada a acrescentar. O fato é que, salvo deslize meu, ainda não vi nenhuma referência ao memorável conto "Plebiscito", do notável escritor ludovicense Arthur Azevedo (1855-1908).
Antes que alguém pergunte, "ludovicense" é um dos adjetivos pátrios relativos à bela e maltratada São Luís, capital do Maranhão. O termo "ludovicense" vem de "Ludovico", que, por sua vez, é da mesma família etimológica de "Louis" (do francês), "Luigi" (do italiano) e "Luís" (do português).
Pois bem. O belo conto de Arthur Azevedo começa assim: "A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar. O senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço...". Bem, infelizmente é preciso encurtar a história (cuja íntegra está na internet). O filho de Rodrigues levanta a cabeça e pergunta: "Papai, que é plebiscito?". E Rodrigues retruca: "Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer 12 anos e não sabes ainda o que é plebiscito?". E o menino: "Se soubesse, não perguntava".
A mulher de Rodrigues intervém, diz que o marido é isso e aquilo, que, se soubesse, responderia de imediato etc. Exasperado, Rodrigues vai para o quarto, em que havia "o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...". Pacificadora, Bernardina vai ao quarto e convida o marido para voltar à sala. Rodrigues sai do quarto e diz: "Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!". Em seguida, "recita" o que viu no dicionário ("Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios") e faz este esdrúxulo comentário: "Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...".
Pelo que se vê, o inabalável senhor Rodrigues conseguiu piorar as coisas ao demonstrar que misturou alhos com bugalhos...
Qualquer semelhança com a trapalhada jurídica em que se meteu o governo federal não é mera coincidência. A julgar pelo que se ouviu e leu de renomados juristas, o senhor Rodrigues, digo, o governo federal... Bem, não preciso concluir, certo?
O fato é que, depois da preterição do plebiscito, agora se fala em fazer um referendo. Se o senhor Rodrigues, digo, o governo federal resolvesse evitar o vexame, ou seja, se resolvesse consultar um dicionário antes de falar do assunto, poderia dar-se mal, visto que alguns deles dão "plebiscito" e "referendo" como sinônimos.
O fato é que, na tradição da língua e na linguagem jurídica, "plebiscito" e "referendo" são coisas distintas. Com o referendo, consulta-se o povo para que ele diga se aprova ou não aprova uma medida que foi proposta ou aprovada pelo Poder Legislativo. Com o "plebiscito", pergunta-se ao povo algo como "sim" ou "não" antes da elaboração de uma lei.
É claro que é fundamental lembrar que "plebiscito" é da mesma família de "plebe" e "plebeu", palavras latinas que remetem ao povo... Novamente, qualquer semelhança com o fato de as manifestações de junho terem feito os governos (municipais, estaduais e federal) se lembrarem da existência do povo e de seus problemas não parece ser mera coincidência.
Deixo para o leitor a reflexão sobre a insistência do governo no plebiscito e a relação dessa palavra com "plebe", digo, "povo"... É isso.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Mais velha do que boa'
Quem gosta de seguir cegamente os burros 'corretores' ortográficos pode se dar muito mal
Na semana passada, um telejornal exibiu uma matéria sobre a "morte" das lâmpadas incandescentes. O (ótimo) texto do repórter começava assim: "A velha e boa lâmpada incandescente, mais velha do que boa...".
Hábil com as palavras, o repórter desfez a igualdade que a conjunção aditiva "e" estabelece entre "velha" e "boa" e instituiu entre esses dois adjetivos uma relação de comparação de superioridade, que não se dá da forma costumeira, isto é, entre dois elementos ("A rua X é mais velha do que a Y", por exemplo), mas entre duas qualidades ("velha" e "boa") de um mesmo elemento (a lâmpada incandescente).
Ao dizer "mais velha do que boa", o repórter quis dizer que a tal lâmpada já não é tão boa assim. Agora suponhamos que a relação entre "velha" e "boa" se invertesse. Como diria o repórter: "A velha e boa lâmpada incandescente, mais boa do que velha..." ou "A velha lâmpada incandescente, melhor do que velha..."?
Quem gosta de seguir os burros "corretores" ortográficos dos computadores pode se dar mal. O meu "corretor", por exemplo, condena a forma "mais boa do que velha" (o "mestre" grifa o par "mais boa"). Quando escrevo "melhor do que boa", o iluminado me deixa em paz. E por que ele age assim? Por que, para ele, não existe "mais bom", "mais boa"; só existe "melhor".
Bem, quando se diz algo como "O Juventus é melhor do que o Corinthians" (rarará!), emprega-se "melhor" (e não "mais bom") porque se compara uma qualidade em relação a dois elementos, mas, quando a comparação se dá entre duas qualidades do mesmo elemento, a coisa muda: em vez de "melhor", o que se usa é mesmo "mais bom/a".
Moral da história: se o julgamento do repórter sobre as qualidades da lâmpada incandescente sofresse uma inversão, a construção adequada seria "A velha e boa lâmpada incandescente, mais boa do que velha...". Sim, "mais boa do que velha", o que também vale para o masculino, é óbvio: "Esse velho e bom livro de receitas, mais bom do que velho...".
O raciocínio se aplica a "mais mau/má" e "pior". Suponha que se fale da má e burra sinalização de solo de São Paulo. Algum motorista paulistano duvida de que, no todo, a sinalização de solo da cidade é burra e de má qualidade (desgastada, apagada)? O senso pode variar: uns acham que a sinalização é mais burra do que má; outros, o contrário.
Percebeu, caro leitor? Pode-se dizer que a sinalização de solo de São Paulo é pior (e não "mais má") e mais burra do que a de Curitiba, por exemplo, mas não se vai dizer "A má e burra sinalização de solo de São Paulo, pior do que burra...".
O mesmo se dá com "maior" e "menor", em relação a "mais grande" e "mais pequeno", respectivamente. Uma casa, por exemplo, pode ser grande e confortável, mas não tão confortável quanto o seu tamanho permitiria que fosse. Nesse caso, é mais do que possível dizer que "A casa de Fulano é grande e confortável, mais grande do que confortável..." (e não "maior do que confortável").
No caso de "menor" e "mais pequeno", convém lembrar que, em Portugal, é muito comum a forma "mais pequeno" na comparação entre dois seres ("Esta casa é mais pequena do que aquela"), seja na língua oral, seja nos escritos, literários ou não. No português do Brasil, esse uso foi comum até a primeira metade do século passado, na oralidade e na escrita. Hoje em dia, predomina o emprego de "menor" ("Esta casa é menor do que aquela").
Na comparação entre duas qualidades do mesmo ser, vale o que foi dito ao longo desta coluna ("Um carro pequeno e charmoso, talvez mais pequeno do que charmoso..."). É isso.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'Nunca' ou 'sempre'?
Mas é claro que, sempre que for possível, deve-se escrever aquilo que efetivamente se quer dizer
Dia desses, trafegando por uma rua da zona oeste de São Paulo, vi algo que me chamou a atenção. No portão da garagem de uma casa, foi "desenhada" a placa de trânsito que indica a proibição de estacionamento. Como o leitor já deve ter suposto, trata-se do conhecido "E", cortado por uma barra diagonal.
Até aí, nenhuma novidade, em se tratando de um país como o nosso, em que muitas vezes o teoricamente desnecessário se torna lamentavelmente necessário ou até obrigatório. Refiro-me à desnecessidade de pintar no portão de uma garagem a placa de trânsito que estabelece o óbvio, que, obviamente, só é óbvio quando o povo é civilizado.
Pois bem. Sob a "placa" pintada, havia uma palavrinha, um advérbio. Sabe que advérbio é esse, caro leitor? Lá vai: "NUNCA", assim mesmo, em letras maiúsculas e grandinhas.
Que lhe parece a combinação da placa que indica a proibição associada à palavra "nunca"? Vamos lá. Normalmente, esse sinal de trânsito, quando "verdadeiro", é pintado em placas de metal afixadas em postes etc. Nessas placas, muitas vezes há também uma informação sobre o horário da proibição. Isso significa, por exemplo, que é proibido estacionar das 8h às 20h ou das 7h às 19h.
Já entendeu, caro leitor? Se sob a "placa" que indica a proibição se escreve a palavra "nunca", indica-se que nunca é proibido estacionar ali... Pois é. No lugar de "nunca" deveria haver a palavra "sempre", certo? O fato é que a raiva que se passa quando se encontra o carro de um/a pilantra na porta da garagem de casa é tanta que a vontade que se tem é dizer/escrever "Nunca estacione aqui" ou algo do gênero. Aí se metem os pés pelas mãos e se acaba trocando o sinal, ou seja, o positivo ("sempre") pelo negativo ("nunca").
Que fique claro, pois: em termos linguísticos (e lógicos), o que se vê no portão da tal garagem é incorreto, a menos que de fato se queira informar que ali se pode estacionar à vontade.
Esse fato me lembrou uma velha questão da Unicamp, baseada neste fragmento jornalístico: "Malcom Browne, também da Associated Press, deveria ter impedido que o monge budista em Saigon não se imolasse, sentado e ereto, impedindo o mundo de ver o protesto em cuja foto encontrou seu maior impacto?".
A banca formulou estas questões: "a) Se tomado ao pé da letra, o que significa exatamente o trecho...deveria ter impedido que o monge (...) não se imolasse?'; b) Se não foi isso o que o autor quis dizer, que sentido pretendeu dar a esse trecho?".
O caro leitor já percebeu onde está o nó do problema? Lá vai: o nó está na associação entre o verbo "impedir" e o "não" da passagem "que o monge budista não se imolasse". Na verdade, o que o autor quis dizer se expressa com o mesmo texto que escreveu, com a simples eliminação do advérbio "não". Teríamos o seguinte: "Malcom Browne (...) deveria ter impedido que o monge budista (...) se imolasse?".
Compreendeu, caro leitor? Tomado ao pé da letra, o trecho informa exatamente o contrário do que pretendia o seu autor. Em suma, um monge se imolou, e Malcom Browne fotografou o seu autoflagelo. O que o autor do texto quer saber é se o fotógrafo deveria ter feito o que fez, ou seja, deveria ter fotografado a autotortura do monge e, com isso, ter exposto ao mundo o significado do gesto monástico, ou deveria ter tentado salvar a vida do monge, isto é, deveria ter impedido que ele se imolasse (e não "que ele não se imolasse")?
Bem, tanto no caso do portão da garagem quanto no do texto jornalístico, o "erro" não impede que se compreenda a essência da mensagem, mas... Mas é claro que, quando/se possível, deve-se escrever aquilo que efetivamente se quer dizer. É isso.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

Quando a ordem das palavras...

Não há quem não conheça uma máxima da matemática que diz que a ordem dos fatores não altera o produto. Moral da história: 4 x 3 = 3 x 4; 123 x 321 = 321 x 123. E por aí vai. Na língua, a coisa é diferente, já que a mudança na ordem dos "fatores" pode alterar de alguma forma o "produto".
Vejamos este caso, que estava na capa de um site de notícias na semana passada: "SP e Rio reduzem tarifa após pressão". Que tal começar a frase com a expressão "após pressão"? Vamos ver como fica: "Após pressão, SP e Rio reduzem tarifa".
Na ordem direta (a que foi adotada no site), pode-se ter a rasa ideia de que a relação da pressão popular com a redução da tarifa é de simples temporalidade: a pressão é anterior à redução, e só. Na verdade, o que se tem aí é muito mais do que isso; o que se tem mesmo é uma relação causal (a pressão foi o fator determinante da redução da tarifa).
Essa relação de causa fica evidente com a inversão da posição da expressão "após pressão". Vamos lá, de novo: "Após pressão, SP e Rio reduzem tarifa". Percebeu, caro leitor?
A esta altura, alguém talvez queira saber de onde surgiu a vírgula posta depois de "pressão" (na ordem direta, não foi empregada a vírgula para isolar a expressão "após pressão". Essa vírgula surgiu justamente da inversão da posição "natural" da expressão adverbial (o fim da frase).
"Mas essa vírgula é obrigatória?", pode alguém perguntar. Bem, a julgar pelo que se vê nos escritos formais, essa vírgula não é obrigatória, já que a expressão adverbial invertida ("após pressão") é formada por apenas dois elementos, mas...
Mas, quando se trata da vírgula ou de outros sinais de pontuação, não se pode ser estrito (nem restrito). Não convém apegar-se apenas à questão meramente gramatical, estrutural etc. É fundamental levar em conta também o aspecto estilístico, ou seja, ao que há de expressivo no emprego de alguns recursos fônicos, sintáticos etc. Sob esse ponto de vista, é mais do que óbvio que, na ordem indireta, a vírgula depois de "pressão" acaba tornando-se obrigatória, para que se enfatize o que a pressão significou para a redução da tarifa.
Vejamos outro caso, também relativo à ordem das palavras. Também estava na capa de um site, também na semana passada: "Uruguai também sofre para treinar em Salvador e é chamado de pé frio". Que entende desse título o caro leitor? Certamente entende que o Uruguai não foi o primeiro dos participantes da Copa da Confederações a sofrer para treinar em Salvador, ou seja, que outro país (além do Uruguai) penou para treinar em terras soteropolitanas.
Como bom macaco velho (e informado das agruras que o Uruguai vivera para treinar no Recife), desconfiei do título e supus que a realidade fosse outra. Depois de ficar no Recife, onde sofreu para conseguir treinar, o Uruguai foi para Salvador, onde também sofreu. Bingo! Fui para o texto e vi que era essa a informação.
Onde está o busílis, ou seja, o xis do problema? Está na posição da palavra "também", que, no título jornalístico, aparece antes de "sofre" ("Uruguai também sofre para treinar..."). Nessa posição, a palavra "também", que nesse indica inclusão, modifica "sofre", ou seja, inclui o Uruguai na lista dos "sofredores".
Que fazer para eliminar o ruído? Basta deslocar a palavra "também" e colocá-la perto da expressão que de fato modifica ("em Salvador"). Vejamos como ficaria isso: "Uruguai sofre para treinar também em Salvador e é chamado de pé frio". Poder-se-ia colocar "também" depois de "em Salvador", mas essa opção certamente não teria a mesma carga enfática da anterior.
Nada de gesso, caro leitor. Mudar a ordem muitas vezes basta para que a frase fique clara e muito mais expressiva. É isso.
pasquale cipro neto
Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

'Bom cabrito é o que mais berra'

DE SÃO PAULO

"Sou brasileiro de estatura mediana / Gosto muito de fulana / Mas sicrana é quem me quer (...) / Eu sou poeta e não nego a minha raça / Faço versos por pirraça / E também por precisão (...) / Brasileiro, tatupeba, taturana / Bom de bola, ruim de grana (...) / Por onde passo deixo rastro, deito fama / Desarrumo toda a trama / Desacato Satanás (...) / Diz um ditado natural da minha terra / Bom cabrito é o que mais berra / Onde canta o sabiá / Desacredito no azar da minha sina / Tico-tico de rapina / Ninguém leva o meu fubá."
Esses memoráveis versos fazem parte de "Lero-Lero" (melodia de Edu Lobo; letra de Cacaso). Cacaso era o apelido de Antônio Carlos de Brito (1944-1987), professor de literatura da PUC-RJ e letrista, dos grandes.
Pois essa letra do grande Cacaso é mais uma das que nos fazem sentir a grandeza e a importância da poesia, por ser arte e por ser ponte entre nós e o mundo. O caro leitor já leu e releu o excerto de Cacaso e já o relacionou com o que ocorre no Brasil neste momento? É claro que me refiro aos diversos movimentos Brasil afora e, consequentemente, aos seus propósitos e despropósitos, ao que se lê nos muitas vezes geniais cartazes empunhados pelos participantes, à lamentabilíssima atuação das polícias militares em diversos episódios etc., etc., etc.
Voltemos aos versos de Cacaso. O primeiro deles na verdade não se refere apenas a uma característica do sujeito lírico. Mediano aí é também o brasileiro ampliado, que sai do eu lírico e vai para o padrão médio. Esse brasileiro, que faz versos por pirraça e por precisão, que é bom de bola e ruim de grana, que, por onde passa, deixa rastro e deita fama, desarruma toda a trama e desafia Satanás...
Irônico e mordazmente ambíguo, o texto de Cacaso acerta na mosca quando, nos últimos versos do parágrafo anterior e na caracterização do tico-tico, que, no imaginário brasileiro, é dócil, transforma o simbólico pássaro nacional numa ave de rapina (do qual não se tasca o fubá...).
Os últimos acontecimentos Brasil afora (incluídas declarações de autoridades e a atônita cobertura de parte da imprensa) se encaixam como luva no poema-vaticínio de Cacaso, cuja inquietante ambiguidade (traço de boa parte da boa poesia) nos faz querer saber quem de fato é o Satanás desafiado, qual é a trama que se desarruma etc.
Mas o melhor de tudo está em "Diz um ditado natural da minha terra / Bom cabrito é o que mais berra / Onde canta o sabiá / Desacredito no azar da minha sina...". Como bem sabe o leitor, o ditado nacional é outro; é o infame "bom cabrito não berra", profundamente ligado à nossa infame história de capitanias hereditárias, transformação do público em privado etc., etc., etc. É imperativo salientar mais uma vez a devastadora ironia e a mordaz ambiguidade de Cacaso presentes nos versos citados no início deste parágrafo, fundamentais para que se compreenda o caráter vaticinador do poema.
"O gigante acordou" diziam muitos dos cartazes vistos nas manifestações Brasil afora. Não sei se acordou de vez, mas parece que, ao menos desta vez, a sina de bom cabrito, aquele que não berra, foi por água abaixo. Já dizia Chico Buarque, outro gênio da nossa poesia musical, na antológica "Bom Conselho" (de 1972): "Ouça um bom conselho / Que eu lhe dou de graça / Inútil dormir que a dor não passa / Espere sentado / Ou você se cansa / Está provado, quem espera nunca alcança".
Como bem dizia o educador Paulo Freire, a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Para bom entendedor, meia palavra basta; para mau entendedor, nem todas as palavras do mundo bastam. É isso.
pasquale cipro neto
Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa "Nossa Língua Portuguesa" e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de "Cotidiano".

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
Os vândalos e o politicamente...
E se aparecer algum descendente direto de uma legítima família vândala e disser que se sente ofendido?
Estava na capa da Folha de ontem: "Contra tarifa, manifestantes vandalizam centro e Paulista".
Que tal o emprego do verbo "vandalizar", caro leitor? Sugiro que vejamos isso pela sintaxe e pelo aspecto ético, que, inevitavelmente, roça o mais do que infame e chatíssimo conceito do "politicamente (in)correto".
De acordo com os dicionários, "vandalizar" pode significar "estragar ou destruir selvagemente um bem, uma propriedade, um local etc." (é essa a primeira acepção que lhe dá o "Houaiss"). Como se vê, o uso que a Folha fez desse verbo na capa de ontem é documentado. Na manchete, o sujeito é "manifestantes"; "vandalizar" é transitivo direto (o objeto direto é "centro e Paulista").
E onde é que entra o tal do aspecto "ético", que, como afirmei, inevitavelmente roça o politicamente (in)correto? Dou a pista: o caro leitor sabe o que significa "vândalo"? Não, caro leitor, não me refiro ao sentido mais do que conhecido e divulgado (de "destruidor do que é público etc."); refiro-me ao sentido com o qual a palavra veio ao mundo.
E então? Recorramos aos dicionários, mais uma vez. A primeira acepção que o "Houaiss" dá para "vândalo" é esta: "Indivíduo dos vândalos, povo germânico que, por volta do século V, invadiu, promovendo devastação, a Hispânia e o Norte da África, onde fundou um reino". Você já entendeu de onde vem o sentido "moderno" de "vândalo", certo?
Posto isso, permito-me fazer uma perguntinha, baseada na delirante cartilha do politicamente incorreto: não é preconceituoso chamar de vândalo quem destrói o que é público? Isso não ofende os vândalos? Ah, sim, esse povo não existe mais, então tudo bem. Preconceito contra povo extinto é possível. Mas e se aparecer algum alemão que seja descendente direto de uma das mais puras e legítimas famílias vândalas e disser que se sente ofendido? Já sei, processará a Folha e o "Houaiss" por preconceito etc.
E onde anda o procurador de Minas Gerais que queria processar o "Houaiss" por preconceito contra os ciganos? A autoridade poderia aproveitar e processar outra vez o "Houaiss" e todos os dicionários, além da Folha e de todo falante de português... Poderia aproveitar e processar também pelo uso da palavra "bárbaro", cujo sentido "moderno" não preciso explicar, certo? Na década de 60, o termo foi moda entre nós, com o significado de "muito bom", "muito bonito", "bacana", "muito interessante" etc. Mais uma vez, vamos ao "Houaiss", que assim começa a definição de "bárbaro": "Para os gregos, romanos e depois outros povos, que ou quem pertencesse a outra raça ou civilização e falasse outra língua que não a deles; estrangeiro". Em seguida, o dicionário dá esta definição ("por extensão de sentido"): "Que ou quem é cruel, desumano, feroz".
Viu bem, caro leitor? "Por extensão de sentido", ou seja, do conceito de "estrangeiro etc." se passa para "cruel, desumano, feroz". E aí, com o uso e o desgaste que o próprio uso provoca, a palavra perde a marca preconceituosa e se torna "neutra".
É por essas e outras, caro leitor, que essa monumental baboseira do politicamente (in)correto precisa ser vista e revista com cuidado. Já vi muito defensor dos fracos e oprimidos empregar termos como "vândalo", "bárbaro" e afins para condenar o emprego de palavras que essa galerinha chata demonizou. Rarará!
As minhas quase seis décadas de existência me tiraram de vez a paciência para aguentar esse tipo de patrulha, macarthismo da mais pura cepa. Também é por essas e outras que me soam mais do que ridículas as bobagens ditas por uma galerinha a respeito da obra de Monteiro Lobato. Haja saco! É isso.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
'A cidade de Oklahoma City'
Foi um tal de ouvir bobagens como 'a cidade de Oklahoma City', que é algo como pedir ou oferecer 'frango chicken'
Parece que, quando chegam aos Estados Unidos, os tornados não assolam apenas algumas regiões do país governado por Obama; assolam também a nossa língua.
Divirto-me com o contorcionismo de alguns apresentadores do rádio e da TV para pronunciarem "Connecticut" do jeito que acham que se pronuncia no inglês americano (algo como "conéricât"). Nessas horas, vem-me à lembrança o que dizia o grande Eça (algo como "Tenho obrigação de falar mal qualquer língua que não seja o português").
Antes que algum chato de plantão venha dizer que Eça isso ou aquilo, vou logo lembrando que é preciso levar em conta o importante papel da figura da hipérbole (exagero) na expressão de algumas ideias. Devagar com o andor!
Se a preocupação com a pronúncia correta não se desse só com palavras inglesas, seria até admirável o esforço da turma do rádio e da TV para pronunciar termos estrangeiros, mas, quando ouço um deles dizer "Djuve" para referir-se à "Vecchia Signora", ou seja, à Juventus italiana, vejo que há muita estrada a ser percorrida. No italiano moderno, o "j" só é usado em alguns nomes de lugares e em alguns nomes e sobrenomes. Sabe como se chama o "j" em italiano? Chama-se "i longo".
Oriunda do alfabeto latino medieval, essa letra, em italiano, é lida como "i" mesmo. Moral da história: "Juventus" não se lê "Djuventus"; lê-se "Iuventus" (com o "e" aberto). Na Itália, o nome desse time costuma ser reduzido para "Juve" ("la Juve", que, pelo amor de Deus, não se lê "la Djuve").
O caso da Juventus italiana é só um de uma série interminável. O estádio do Napoli, outro time da Itália, vive sendo chamado de "San Paôlo". É "San Paolo", que se lê "Sán Páolo". O presidente do Chile (Sebastián Piñera) volta e meia vira "Sebástian"; a cidade espanhola (basca) de San Sebastián também vive virando "San Sebástian", como se fosse inglesa ou estadunidense. E isso porque há um baita acento agudo no "a" da última sílaba. Imagine se não o houvesse...
Nas últimas semanas, quando inclementes tornados varreram parte do centro dos EUA, foi um tal de ouvir bobagens como "a cidade de Oklahoma City", que é algo como pedir ou oferecer um sanduíche de frango chicken. Ora, "chicken" é frango, e "city" é cidade, de modo que "a cidade de Oklahoma City"...
Outra bobagem invencível é o emprego do artigo definido antes de Filadélfia e de Basileia, que são cidades (dos EUA e da Suíça, respectivamente). É um tal de dizer que tal coisa aconteceu "na Filadélfia" ou que o jogo será "na Basileia", como se se tratasse do nome de estados, regiões ou até países. Nada de "na" nesses casos: isso ocorreu "em" Filadélfia; o jogo foi "em" Basileia.
Outra pérola que anda na moda é o tal do "molho ao sugo", presente no cardápio de alguns restaurantes "italianos" Brasil afora. Ora, o "sugo" nada mais é do que o próprio molho, feito em geral com tomates e alguns temperos. Em italiano, "sugo" significa "o suco contido nas frutas ou nas verduras" ou "o caldo que se obtém com o cozimento de alguns alimentos (o caldo de um assado, por exemplo)" ou ainda "o molho que se põe no macarrão e que geralmente se prepara com tomate etc.". Enfim, caro leitor, "molho ao sugo" não passa de "molho ao molho".
Bem, a salada com os termos estrangeiros mal usados e, sobretudo, mal compreendidos e mal estudados é imensa. Quando isso tudo vem temperado com uma boa dose de preguiça ou de falta de curiosidade para investigar, o resultado é um desastre. A gente chega até a achar que o velho Eça tinha razão. É isso.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo
(N)O mundo dos amados batistas
É bom que se diga que não é preciso ser cristão para ter nojo da tortura, venha ela de onde vier
Corriam os tristes anos 70, quase 80. Em seu memorável LP "Nos Dias de Hoje", Ivan Lins incluiu a canção "Aos Nossos Filhos" (melodia dele; letra de Vítor Martins).
A gravação de Ivan é linda, mas a de Elis Regina é mais do que antológica. Encarnando cada palavra da pungente letra do ituveravense Vítor Martins, Elis chora e faz chorar qualquer ser humano minimamente sensível. Se você nunca ouviu a canção na voz de Elis, ouça-a. E tente saber do que tratam os versos de Vítor.
Eis a letra: "Perdoem a cara amarrada / Perdoem a falta de abraço / Perdoem a falta de espaço / Os dias eram assim / Perdoem por tantos perigos / Perdoem a falta de abrigo / Perdoem a falta de amigos / Os dias eram assim / Perdoem a falta de folhas / Perdoem a falta de ar / Perdoem a falta de escolha / Os dias eram assim / E quando passarem a limpo / E quando cortarem os laços / E quando soltarem os cintos / Façam a festa por mim / Quando lavarem a mágoa / Quando lavarem a alma / Quando lavarem a água / Lavem os olhos por mim / Quando brotarem as flores / Quando crescerem as matas / Quando colherem os frutos / Digam o gosto pra mim".
O tempo passou, as coisas mudaram (um pouco só, creio) etc., e, diferentemente do que ocorria naquela época, hoje o brasileiro pode dizer o que bem entender (ou quase isso).
E aí vem um cantor e compositor popular --bem popular-- e concede uma entrevista em que declara que mereceu o "castigo" que lhe foi dado, já que ele "estava errado" e recebeu de quem representava o poder estabelecido o mesmo castigo que pais e mães podem dar a seus filhos a título de correção de comportamento, de conduta etc. O "artista" disse que seu "erro" foi ter usado de suas prerrogativas de funcionário de uma livraria para ceder a algumas pessoas livros considerados "subversivos".
O cantor disse que foi preso e torturado, física e psicologicamente, mas não acha que seus torturadores erraram, embora ele não recuse os mil e tantos reais que recebe mensalmente por ter sido vítima dessa tortura.
Como sempre digo neste espaço, é preciso saber ler as linhas e, sobretudo, as entrelinhas do que se diz ou se escreve. Em outras palavras, o tal "artista" disse que pais e mães podem torturar, se o objetivo é "corrigir". Enfim, quem faz coisa errada tem mesmo é que apanhar, ou, numa outra versão, menino levado tem mesmo é de ir para o pau de arara.
É incrível como nessas horas sempre se esquece um princípio básico da Constituição, segundo o qual o Estado é responsável pela integridade dos que estão sob sua custódia. É mais do que incrível ler nas tais "redes sociais" baboseiras mil, de gente que não consegue de jeito nenhum ater-se à essência da coisa. Haja!
Nisso tudo há uma grande ironia, que está no significado do nome e do sobrenome do autor da pérola: o termo "amado" dispensa explicações; "batista" é aquele que administra o batismo. Como se sabe, o batismo é o primeiro sacramento do cristianismo, cujos princípios dispensam explicações e teorias, mormente em pleno feriado de Corpus Christi. Definitivamente, não é nem um pouco cristão defender a tortura, seja lá qual for a razão de sua prática. E, é bom que se diga, não é preciso ser cristão para ter nojo da tortura, venha de onde vier.
É, meu caro Vítor, o tempo passou, mas, para muita gente escura e sombria, os teus nobres versos ainda não se materializaram. Muita gente ainda não cortou os laços, ainda não soltou os cintos. A alma ainda não foi de todo lavada. A água também não foi lavada; continua suja, muito suja, talvez mais suja do que era quando lavraste os versos de "Aos Nossos Filhos". E os frutos, se é que foram colhidos, são ácidos, meu caro, e têm um gosto ruim, muito ruim. É isso.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

Para que serve essa 'gramática'?
Essa é outra ideia torta, a de achar que o sujeito sempre (ou quase sempre) é um ser humano
Certa vez, o coordenador de língua e literatura de uma grande instituição de ensino me disse que não aguentava mais aplicar aulas-teste, nas quais se avaliavam a didática e o conhecimento de candidatos a uma vaga no corpo docente da escola.
"Faço uma pergunta básica", disse ele. "E ninguém acerta." A pergunta "básica" é esta: "Defina o sujeito". As "definições" eram (e são) as mais disparatadas possíveis, desde a "clássica" ("sujeito é aquele que pratica a ação") até bobagens outras.
Se sujeito é aquele que pratica a ação, como explicar que em "Ele sempre apanhava da mulher" o sujeito é "ele", mas o "praticante da ação" é "a mulher"? E como explicar que em "Esse livro não foi lido pelos alunos" o sujeito é "esse livro", que não pratica ação nenhuma? "O livro" é o alvo, o paciente do processo expresso pelo verbo. O tal do "praticante da ação" é representado pela expressão "pelos alunos". E o que dizer de "Você é linda", em que nem ação há?
Posso fazer uma perguntinha? Qual é sujeito de "Faltou-me coragem"? "Eu", implícito no "me"? Que tal? Xô, bobagem! Essa é outra ideia torta, a de achar que o sujeito sempre (ou quase sempre) é um ser humano.
Qual é a forma verbal de "Faltou-me coragem"? É "faltou", não? Em que pessoa gramatical está flexionada? Na terceira do singular, certo? Pois o sujeito de "faltou" é o elemento com o qual a forma "faltou" concorda, ou seja, a coisa ou a pessoa que faltou.
O sujeito de "faltou" é "coragem". Foi ela (coragem) que faltou. Se você trocar "coragem" por "forças", o que ocorrerá? Será necessário trocar "faltou" por "faltaram" ("Faltaram-me forças"), já que o sujeito agora é "forças" (foram elas, as forças, que faltaram). E se você trocar o "me" de "Faltou-me coragem" por "nos" ou "lhes"? Não acontecerá nada com o verbo, já que não se terá tocado no sujeito. O verbo só se altera (em termos de concordância) se se altera o sujeito.
Agora uma pausa para que procuremos num dicionário ("Houaiss", "Aulete", entre outros) a palavra "sujeito". O que se encontra é basicamente isto: "Termo sobre o qual recai a predicação da oração e com o qual o verbo concorda". A parte prática dessa definição é essencialmente a segunda ("...e com o qual o verbo concorda"). Como definição geral, básica, a sentença "sujeito é o termo com o qual o verbo concorda" resolve a maior parte dos casos.
Sim, eu sei, há orações (poucas) sem sujeito e há orações (poucas) em que o verbo não concorda com o sujeito, mas com o predicativo ("A cama eram umas palhas", por exemplo), porém em 90 e tal por cento dos casos o verbo concorda com o sujeito (estamos falando de língua culta).
Uma colega e amiga me informa que na escola em que sua filha estuda foi decretado que o sujeito de "Tudo acabou com a morte" é "a morte". E de nada adiantaram os seus argumentos --de quem é do ramo (ela é excelente professora de português).
Que salada, santo Deus! Os docentes da bela petiz confundem sintaxe com semântica, já que acham que, se foi com a morte que tudo acabou, ou seja, se foi ela (a morte) a causa do fim de tudo, é ela (a morte) o sujeito. E onde enfiamos a preposição "com"? Então o sujeito de algo como "As esperanças de dias melhores se esvaíram com a morte dele" é "a morte dele"? Jogamos fora o "com" e decretamos que "a morte dele esvaíram"?
Um dos motivos sustentados por especialistas que defendem o fim do ensino de gramática na escola é justamente o que acabamos de ver: há professores de gramática que não sabem gramática...
Eu vou por outro lado. Prefiro o ensino funcional de gramática, que, no caso visto hoje, é o ensino de que o conhecimento do que de fato é o sujeito nos dá os instrumentos necessários para estabelecermos a concordância entre o verbo e o sujeito. É isso.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

'Não conheço ninguém'
De acordo com essa 'tese', 'Não conheço ninguém' equivale a 'Conheço alguém'. Xô, bobagem!
Comecei o texto da semana passada referindo-me a mensagens de leitores, que me pedem comentários e explicações sobre os mais diversos temas ligados à nossa língua.
Pois bem. Uma das questões "penduradas" há um bocado de tempo diz respeito ao emprego do que se costuma chamar "dupla negação". Trata-se do emprego na mesma frase de "não" e "ninguém" ("Não conheço ninguém"), "não" e "nada" ("Não fiz nada"), "não" e "nenhum" ("Não comprei nenhum") etc.
O argumento dos que condenam essas construções se baseia na suposta impossibilidade do emprego de duas negativas ou num falso conceito linguístico, segundo o qual "duas negações geram uma afirmação". De acordo com essa "tese", uma construção como "Não conheço ninguém" equivale a "Conheço alguém". Xô, bobagem! Não é nada disso.
Em português (e não só em português), essas duplas negações nem de longe equivalem a uma afirmação. Em italiano, por exemplo, algo como "Non conosco nessuno" equivale literalmente a "Não conheço ninguém". Ocorre exatamente o mesmo com a construção espanhola "No conozco a nadie" ("nadie" = "ninguém").
E aí eu me ponho a pensar sobre a origem dessas "verdades", que circulam por aí há muito tempo (bem antes da internet, por sinal). Depois da internet, então, a coisa piorou muito. Os textos em que se apresentam essas "teses" circulam "assinados". E as pessoas acreditam.
Que fique claro, caro leitor: construções como as que aparecem no segundo parágrafo deste texto são mais do que legítimas e têm, sim, valor negativo. Quem diz que não comprou nenhum livro durante a Bienal diz que saiu do evento com zero livro debaixo do braço.
Convém lembrar que, quando o sujeito da afirmação é "ninguém", não se emprega "não" imediatamente depois de "ninguém" ("Ninguém compareceu", e nunca "Ninguém não compareceu", frase dada como agramatical por inúmeros autores e obras, como o "ABC da Língua Culta", de Celso Pedro Luft).
Convém lembrar ainda que há uma ordem padrão para os termos desse tipo de declaração: ou se diz "Ninguém compareceu" ou se diz "Não compareceu ninguém".
Outro caso interessante é o da palavra "algum". Há algum tempo, a Fuvest pediu aos candidatos que escrevessem uma frase em que a palavra "algum" tivesse valor negativo. Por incrível que pareça, foram muitos os que não conseguiram. Basta que se posponha "algum/a" a um substantivo para que se alcance o sentido pretendido pela Fuvest: "Professor algum tem esse direito"; "Mulher alguma deve sujeitar-se a isso"; "Não fiz coisa alguma"; "Pessoa alguma convive com isso".
Aproveito para lembrar que, em termos de concordância, o verbo fica no singular quando o sujeito é iniciado por "nenhum": "Nenhum dos diretores quis dar entrevista" (e não "Nenhum dos diretores quiseram..."). Tome cuidado com os casos em que o sujeito é longo e, para "piorar", os penduricalhos da palavra "nenhum" aparecem no plural: "Nenhum dos inúmeros deputados oposicionistas presentes aceitou a proposta do líder do governo" (e não "Nenhum dos inúmeros deputados oposicionistas presentes aceitaram...").
Vale a pena citar também os casos em que a palavra "ninguém" resume termos anteriores, como se vê neste caso: "Pais, irmãos, tios, primos: ninguém convenceu o rapaz a desistir da empreitada" (e não "Pais, irmãos, tios, primos: ninguém convenceram o rapaz a desistir da empreitada").
Muitos dos casos que vimos aqui ainda são comuns em provas dos mais variados concursos públicos. Se você é ou será candidato, tome cuidado com essas minúcias. É isso.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

"Ao invés de" ou "em vez de"?
A recíproca não é sempre verdadeira; sempre se pode substituir "ao invés de" por "em vez de", mas...
A coleção de mensagens de leitores que me pedem comentários sobre as mais diversas questões da língua é imensa. Faz tempo que me perguntam, por exemplo, sobre a diferença entre "em vez de" e "ao invés de".
No uso efetivo da língua, essas duas expressões se igualaram há um bom tempo; nos dicionários, gramáticas, manuais e guias de uso, no entanto, a diferença persiste. É bom lembrar que, via de regra, as obras citadas se baseiam no uso formal da língua.
A expressão "ao invés de" tem por núcleo a palavra "invés", que vem do latim "inversum" ("de modo contrário"). Como se vê, "invés" e "inverso" são da mesma família. No uso culto, a expressão "ao invés de" ocorre unicamente quando há oposição real entre duas ideias, fatos, palavras etc. Quando chega a safra de determinado produto agrícola, por exemplo, é normal que o preço desse produto caia. Se ocorre o oposto, diz-se que, "ao invés de cair, o preço subiu".
Também se pode dizer que alguém "subiu, ao invés de descer" (imagine alguém que estava no sexto andar à procura de um escritório que fica no quinto e, ao invés de descer, subiu). O "Houaiss" dá este exemplo: "Era um governante piedoso, ao invés de cruel". A mesma obra diz que "a locução ao invés de deve ser empregada quando houver uma oposição real entre determinada coisa e outra; só é sinônima de em vez de, portanto, num dos sentidos desta".
Permita-me perguntar-lhe, caro leitor: entendeu a observação do "Houaiss"? Leia-a de novo, se necessário. E então? O que se diz lá é que, num de seus sentidos, a locução "em vez de" (atenção: "em vez de") é sinônima de "ao invés de". Em outras palavras, o "Houaiss" diz que, na língua culta, ocorre o uso de "em vez de" com o sentido de "ao invés de", mas...
Mas a recíproca não é sempre verdadeira, isto é, sempre se pode substituir "ao invés de" por "em vez de", mas nem sempre se pode substituir "em vez de" por "ao invés de".
Resumo da ópera: na língua culta, registra-se uma construção como "Em vez de estudar, foi ver a namorada", mas não se registra algo como "Ao invés de estudar, foi ver a namorada". Como se sabe, "estudar" nem de longe é o oposto de "ir ver a namorada".
No uso prático da língua, ou seja, na língua do dia a dia, essa distinção beira a filigrana, por isso mesmo é sumariamente ignorada. Pela aproximação semântica, as expressões citadas (como já vimos) acabam sendo igualadas, isto é, são usadas como equivalentes.
A esta altura, os pragmáticos já devem estar pensando que é melhor pura e simplesmente riscar do mapa a expressão "ao invés de" e usar sempre a expressão "em vez de", que, como o caro leitor deve ter deduzido, não ocorre exclusivamente com o papel de estabelecer relação de oposição real entre uma coisa e outra.
Para os que amam a tradição linguística, lembro que, no padrão formal da língua, o verbo "preferir" não se constrói com "em vez de" ou com "que/do que", mas com a preposição "a", o que equivale a dizer que, nesse registro, uma frase como "Preferiu namorar em vez de estudar" é substituída por "Preferiu namorar a estudar". Na língua oral a construção "culta" tem incidência próxima de zero. O "Houaiss" diz que "o uso, embora frequente no Brasil, de preferir seguido de do que não é aceito pela norma culta da língua, embora se abone em escritores modernos e clássicos".
A julgar pelo que se vê em provas recentes ou mais antigas, os vestibulares (mesmo os mais "modernos") e os concursos públicos continuam exigindo dos candidatos o emprego da construção que o "Houaiss" dá como culta, portanto, se você participar de um desses exames, é bom ficar de olho nessas minúcias. É isso.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

A ignorância dos 'espertinhos'
O cidadão que não sabe o que é comum no padrão formal não consegue fazer esse reconhecimento
Os e-mails da imensa massa de espertinhos que tentam (e conseguem) lesar internautas incautos continuam a todo o vapor. Como atestam as inúmeras matérias publicadas nos mais diversos meios de comunicação, muita gente cai feito pato nessas arapucas, que não raro são pessimamente redigidas e/ou contêm erros primários no que diz respeito a certos conceitos políticos, político-administrativos, institucionais etc.
Um ótimo exemplo desses erros primários se vê num e-mail que recebi em 19 de abril. Sabe quem o enviou? A "Prefeitura do Estado de São Paulo". Sim, a "Prefeitura do Estado". Está certo que no Brasil muitíssima gente (da bandidagem ou não) desconhece categoricamente a divisão de poderes e o que compete a cada um, assim como desconhece o papel de um vereador, de um deputado (estadual ou federal) ou o que é uma cidade, um Estado, um país. Não são poucas as pessoas que acham, por exemplo, que a África é um país.
Se até jornalistas ignoram sumariamente que Guarulhos ou Osasco não são bairros da cidade de São Paulo, mas municípios, que têm prefeito e câmara próprios, não surpreende que leigos não saibam isso.
Conhecer algumas nomenclaturas, caro leitor, é fundamental não só para entender certos textos e/ou contextos, mas também (nestes tempos de superinvasão virtual e real) para não ceder à tentação de acreditar em verdadeiros contos de fadas.
Relatei aqui há algum tempo a fracassada tentativa de bandidos que puseram em um automóvel uma placa fria, da cidade de "Frorianópolis". Sim, "Frorianópolis". Um policial rodoviário minimamente letrado acabou com a aventura dos gatunos.
As campeãs nesse tipo de tentativa de golpe são as falsas mensagens de instituições financeiras. Como se sabe, a publicidade escrita (legítima) dessas empresas normalmente é pautada por linguagem formal ou semiformal. As agências de publicidade que detêm as contas de bancos costumam ter bons redatores, que conhecem as variações linguísticas e não tropeçam em concordâncias básicas, como a que se faz, por exemplo, entre sujeito e verbo, qualquer que seja a ordem dos termos.
Nas mensagens falsas, uma das primeiras coisas que se notam é justamente o descompasso entre verbo e sujeito (algo como "Foi enviado para o seu e-mail as cópias do contrato..." ou "Segue anexo as cópias do contrato..."). Num texto publicitário verdadeiro, é pouco provável a ocorrência desse tipo de procedimento, muito comum na oralidade.
Quem conhece as provas dos vestibulares de certas instituições de ensino superior sabe que são muito comuns as questões em que se pede a identificação das marcas típicas da linguagem oral presentes em determinados textos. Ora, o cidadão que não conhece o que é comum na linguagem escrita tem sérias dificuldades para fazer esse reconhecimento.
É por essas e outras que é mais do que fundamental ter em mente que a educação linguística plena consiste em prover os estudantes do mais amplo leque linguístico, sem preconceito contra nenhuma das variedades, a começar pela culta, que, como sabem os educadores equilibrados, é a que deve predominar nas aulas de língua.
Lamentavelmente, o que ocorre hoje em dia Brasil afora (com exceções, é óbvio) é uma coisa um tanto diferente, torta, muito torta, enviesada, que faz o pobre do aluno acreditar que basta o domínio da linguagem oral ou da que lhe é comum no meio em que vive para ter acesso a tudo o que se produz no mundo da cultura. Se até para ser bandido às vezes é preciso ter noções do que é padrão na linguagem formal... Bem, não preciso concluir, preciso? É isso.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Pasquale Cipro Neto

folha de são paulo

Garrincha (também) não morreu
Pobre Garrincha! Ressuscita, volta ao mundo do futebol e (novamente) enfrenta percalços, humilhações etc.
Não sei exatamente de onde vem a tal brincadeira que se faz com o grande Elvis Presley. Refiro-me à famosa frase "Elvis não morreu", que, imagino, decorra de alguma visão de fãs que, por não se conformarem com a morte do ídolo ou por entenderem que a morte física não o tira do mundo, dizem (ou diziam, disseram) que "Elvis não morreu".
Pois bem. Garrincha é outro grande ídolo que também "não morreu". Não acredita? Pois leia este fragmento, publicado há algumas semanas por um site de notícias: "Bicampeão do mundo pela seleção brasileira em 1958 e 1962, Garrincha está proibido pela Fifa de ter seu nome associado ao estádio de Brasília durante a Copa das Confederações e a Copa de 2014".
Pobre Garrincha! Ressuscita, volta ao mundo do futebol e (de novo) enfrenta percalços, humilhações etc. O fato é que a Fifa não quer que o nome do estádio de Brasília seja "Garrincha" (ou "Mané Garrincha"), o que pode ser dito com algo mais ou menos semelhante a isto: "A Fifa não quer que, durante a Copa das Confederações e a Copa de 2014, o estádio de Brasília tenha o nome de Garrincha, bicampeão do mundo pela seleção brasileira em 1958 e 1962" (ou "A Fifa não quer que, durante a Copa das Confederações e a Copa de 2014, o nome do estádio de Brasília seja "Garrincha", bicampeão do mundo pela seleção brasileira em 1958 e 1962").
O caro leitor certamente percebeu que no texto sugerido houve alterações na ordem e no papel sintático dos termos que compunham o texto original. Nele, "Garrincha" é o sujeito de "está" e de "ter" (sempre ele, o coitado, pobre coitado do verbo "ter", que, como já afirmei aqui diversas vezes, virou cola-tudo, intragável panaceia das panaceias). No texto sugerido, "Garrincha" não é sujeito de nenhum verbo.
Posso estar enganado, mas parece-me que a febre pelo verbo "ter" torna quase impossível a percepção de que há outras formas de redação de textos e títulos noticiosos. Bem, no caso em questão, o grande Garrincha definitivamente não pode ser proibido de coisa alguma.
O pessoal que redige o que se lê nas telas da TV também gosta de caprichar. Dia desses, zapeando aqui e ali, dei com este título, supercriativo: "Amiga mata a melhor amiga". Incrédulo, tive a paciência de ficar alguns minutos diante da tela, esperando que alguém se desse conta do disparate. Depois de mais de cinco minutos, desisti. Chega-se à conclusão de que ou esse pessoal é desatento, ou é preguiçoso, ou se acha acima do bem e do mal. Se fiz, está feito; não há nada a corrigir.
Será que era tão difícil trocar o primeiro "amiga" por "mulher", "menina", "moça", "mocinha", "moçoila", "mocetona" etc., etc., etc.?
Termino citando outra vítima dos títulos jornalísticos, o possessivo "seu", que ora cria ambiguidade ora é empregado como simples tapa-buraco, ou seja, para preencher o espaço. Veja este título, publicado há algum tempo: "Hillary Clinton tem um coágulo entre seu cérebro e o crânio". Genial! Alguém pode explicar-me o que faz aí o pronome possessivo "seu"? Vejamos como ficaria o título sem o enxerido "seu": "Hillary Clinton tem um coágulo entre o cérebro e o crânio". Que tal? Simples, não?
Sei que a luta pode ser vã, inglória etc., mas não desisto, não desistirei. Vai aqui (mais uma vez) uma dica simples, bem simples: reler é fundamental. E vai outra dica (esta para o leitor): não limite sua leitura aos títulos. Aliás, deixe-os para lá, a menos que você goste de sofrer (e/ou de divertir-se). É isso.