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domingo, 21 de julho de 2013

Colombo ficou a ver navios - Cristina Kirchner saca o genovês do pedestal - SYLVIA COLOMBO

folha de são paulo
DIÁRIO DE BUENOS AIRES
O MAPA DA CULTURA
DEPOIS DE QUASE um mês de novela, o governo da presidente Cristina Kirchner venceu. Numa manhã do fim de junho, as TVs transmitiram ao vivo o capítulo derradeiro: a remoção da estátua do navegante genovês Cristóvão Colombo (1451-1506) do alto do monumento doado a Buenos Aires pela colônia italiana, em 1910.
Cristina começou a travar uma guerra contra o navegante italiano quando propôs que sua imagem, segundo ela a de um conquistador vil, fosse substituída pela de Juana Azurduy (1780-1862), heroína boliviana da Independência argentina --um presente de Evo Morales.
O país acompanhou a disputa pelos ícones como se fosse um folhetim. De um lado, a presidente e seu discurso anti-imperialista. De outro, o prefeito de Buenos Aires e a comunidade italiana, inconformados, defendendo a monumental estátua de pedra. Por ora, ganhou Cristina, e o marinheiro permanecerá alijado do pedestal, à espera de restauração e traslado para um porto mais discreto.
EL POETITO
Em seu notável esforço por divulgar a literatura brasileira, a editora Adriana Hidalgo lança "Antología Sustancial de Poemas y Canciones", uma completa edição em espanhol e em português de toda a obra, literária e musical, do poeta e compositor brasileiro Vinicius de Moraes (1913-1980).
"Não dá para separar as canções da poesia. E o argentino, que já tem simpatia por Vinicius pelo personagem, agora pode conhecê-lo por completo", diz à Folha o editor Fabián Lebenglik.
A tradução ficou a cargo de Cristian De Nápoli, e o volume é ilustrado com fotos feitas pelo filho do poeta, Pedro. A Livraria Cultura encomendou uma fornada para suas lojas brasileiras. Com proposta distinta da que guiou a edição da Companhia das Letras, a obra é cronológica, didática e prática.
A VEZ DOS CONTEMPORÂNEOS
O Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires vem direcionando seu foco para a produção literária contemporânea brasileira. Nos últimos meses, passaram por ali o paulistano Ferréz, que lançou a versão argentina de "Manual Prático do Ódio" (ed. Corregidor), e o amazonense Milton Hatoum, publicado pela Beatriz Viterbo.
Na última semana, foi a vez de Marcelino Freire. Seu "Contos Negreiros" sai pela Santiago Arcos. Em debate com a tradutora Lucia Tennina e com o escritor Washington Cucurto, autor do prólogo, Freire falou da mãe, da tradição nordestina e da influência de São Paulo em sua literatura.
Os selos pequenos e independentes argentinos têm encontrado nos escritores brasileiros contemporâneos um nicho que movimenta o mercado local.
As grandes editoras costumam se voltar preferencialmente para o cânone e publicam nomes manjados, como Clarice Lispector, Rubem Fonseca e Jorge Amado.
UM MUSEU PARA SABATO
Ficou para uma data indefinida a abertura do museu dedicado a Ernesto Sabato (1911-2011), em sua casa, em Santos Lugares, na província de Buenos Aires. A razão é a alta do dólar paralelo, que já chega a valer o dobro que o oficial, e a inflação, que faz com que os preços disparem.
Em 2011, o governo da província destinou uma verba à família para as obras. Como o valor não foi usado em tempo, justifica o filho, Mario, sofreu desvalorização. Agora, a família busca apoio privado para terminar o projeto de restauração da biblioteca no subsolo, do escritório onde o autor de "Sobre Heróis e Tumbas" trabalhou, de seu ateliê de pintura e dos aposentos onde viveu de 1945 a 2011.
Além dos livros, desorganizados, hoje é possível ver no lugar a Olivetti com a qual ele trabalhava, mas falta catalogar seus volumes e manuscritos. A esperança de Mario era abrir o museu no último dia 24, quando o pai completaria 102 anos, mas o projeto foi adiado.
Além de um dos nomes centrais da literatura argentina do século 20, Sabato chefiou a comissão que, nos anos 1980, realizou um completo levantamento dos desaparecidos políticos durante a última ditadura militar (1976-1983).

    segunda-feira, 15 de julho de 2013

    Minha História - Josephine Henrichsen

    folha de são paulo

    Filha de cinegrafista argentino morto na queda de Salvador Allende critica Justiça chilena

    DEPOIMENTO A
    SYLVIA COLOMBO
    DE BUENOS AIRES

    RESUMO A professora de inglês Josephine Henrichsen tem 48 anos. Em junho de 1973, aos 8, recebeu a notícia de que o pai, o fotógrafo e câmera argentino Leonardo, tinha morrido assassinado por um oficial chileno enquanto cobria a tensão que antecedeu o golpe militar que derrubou Salvador Allende. As imagens da morte do pai ficaram famosas através do filme "A Batalha do Chile", de Patrício Guzman. Aos 40 anos de sua morte, Leonardo acaba de ser homenageado pela prefeitura socialista de Santiago, mas a família Henrichsen ainda busca justiça no país em que ele foi morto.
    *
    Não havia internet quando eu era criança. Então meu pai era meu guia para saber o que se passava no mundo.
    Ele voltava de seus trabalhos em outros países, como o México, a Nicarágua, o Chile e a Bolívia, e ouvíamos seus relatos como se fossem aventuras que nos faziam entender o que acontecia na América Latina.
    Divulgação/Arquivo Pessoal
    Josephine Henrichsen durante cerimônia em homenagem a seu pai, em Santiago, em junho
    Josephine Henrichsen durante cerimônia em homenagem a seu pai, em Santiago, no Chile, em junho
    Quando ele viajou ao Chile, em junho de 1973, foi como se partisse apenas para um novo trabalho.
    O país estava convulsionado entre a direita e os apoiadores de Salvador Allende (1908-1973). Não se imaginava que algo tão violento e grave como o golpe militar de 11 de setembro fosse acontecer, mas o clima era tenso de qualquer maneira.
    Papai era o câmera freelance contratado por uma televisão sueca para reportar sobre o que acontecia na cidade de Santiago.
    Naquela tarde, eles saíram para cobrir a repressão às manifestações nas quadras ao redor do Palácio de La Moneda. As imagens mostram um caminhão cheio de oficiais parando numa esquina e atirando contra um grupo de pessoas, que deixa o local.
    Papai, ao contrário dos outros, se aproximou, tentou focar os soldados. Eles atiravam, até que um deles mira nele e o atinge. Ele não morreu na hora, ficou ali, caído no chão, agarrado à sua câmera.
    Um oficial se aproximou e tentou arrancar o filme, mas não sabia que a câmera gravava as imagens de duas maneiras. Ao deixar meu pai e a câmera na calçada, não sabia que deixaria ali também o registro de seu crime.
    Ele foi levado a um hospital por seu companheiro sueco, mas não resistiu e morreu.
    Por muito tempo investigamos a gravação, que foi usada no documentário "A Batalha do Chile", do diretor Patrício Guzmán, para procurar saber quem era o autor dos disparos.
    A princípio nos confundimos, porque ele veste o uniforme de um major, mas tratava-se apenas de um recruta. Hoje conhecemos seu nome e residência. Já o apresentamos à Justiça chilena, que alega falta de provas para iniciar uma ação contra ele.
    É lamentável que o Chile não esteja prestando contas com relação a seu passado como está a Argentina.
    Nós não buscamos uma indenização, apenas o reconhecimento de que meu pai morreu por conta de um crime de lesa-humanidade cometido pelo Estado chileno.
    Lembro bem de como recebemos a notícia em casa.
    Somos três irmãos, eu sou a do meio, meu irmão mais velho tinha 10, a menor, 2, e eu 8. Hoje, tenho 48 anos e também tenho três filhos. A lembrança de meu pai, que morreu tão novo, aos 33 anos, é fundamental no modo como me relaciono com eles.
    Meu pai, não sei, creio que sabia de alguma forma que morreria jovem e desde cedo tentou inocular nos filhos o sentido de responsabilidade, de que deveríamos cuidar nós mesmos de nossos passos.
    Sei que ele tentou, da melhor forma possível, passar tudo o que sabia para nós o mais rápido que pudesse.
    Eu o acompanhava em muitos de seus trabalhos e o admirava muito. Penso demais nele quando me relaciono com meus filhos.

    domingo, 14 de julho de 2013

    Agora eu (não) era o herói - Sylvia Colombo

    folha de são paulo
    Redivisão de papéis na ditadura argentina
    SYLVIA COLOMBORESUMO Ex-guerrilheira, antropóloga lança livro em que se distancia de estereótipos maniqueístas associados a atores políticos da última ditadura militar argentina. Sem se furtar à descrição da barbárie de execuções e tortura, obra discorre sobre noções como a "forma divina" que repressores adquiriam aos olhos de alguns presos.
    No último dia 17 de maio, numa madrugada fria do outono portenho, o general Jorge Rafael Videla fechou os olhos para sempre. O velho ditador de 87 anos cumpria pena de prisão perpétua por crimes de lesa-humanidade. Sua morada era uma pequena cela na carceragem militar do Campo de Maio. Tratava-se de uma cama pequena, de solteiro, ladeada por uma mesinha sobre a qual repousavam fotos pessoais. O banheiro era compartilhado com outro preso.
    Líder da primeira junta de governo militar que assumiu o poder na Argentina após o golpe de 1976, Videla comandou um aparato que, ao cabo de sete anos, mataria cerca de 30 mil pessoas, segundo estimativas de grupos de direitos humanos, e seria responsável pelo desaparecimento de mais de 500 bebês, sequestrados de pais opositores do regime e entregues a famílias de oficiais leais, como bem ilustra o filme "A História Oficial" (1985), de Luis Puenzo.
    A morte de Videla encerrou um longo ciclo em que a Argentina julgou e condenou repressores de maneira inédita, principalmente se a base de comparação é o pós-ditadura de outros países da América Latina. Membros do governo kirchnerista, responsável por levar ao banco dos réus mais de 300 agentes do regime, disseram com mal disfarçado orgulho que o general morrera como um criminoso comum, condenado e preso.
    Em entrevista ao jornalista Ceferino Reato (publicada no volume "Disposición Final", lançado no ano passado), meses antes de morrer, Videla admitira o que considerava uma "necessidade": o desaparecimento de um grande número de pessoas que se opunham ao projeto de "reorganização nacional" proposto pela junta.
    Em 2013, lembram-se os 30 anos do fim desse período obscuro, em que tomou forma uma das ditaduras mais implacáveis do continente. Foi um tempo em que a tortura se difundiu como prática corrente em mais de 300 campos de detenção em todo o país, assim como as execuções e o recurso a requintes de maldade --basta lembrar os "voos da morte", em que prisioneiros políticos eram atirados de aviões sobre o rio da Prata, conforme mostrou o jornalista Horacio Verbitsky em seu clássico "O Voo" (ed. Globo).
    Se do ponto de vista da Justiça muito tem sido feito para esclarecer episódios daquele período, do ponto de vista da interpretação histórica os esforços ainda deixam a desejar. A maioria das leituras do passado chega manchada das tintas da polarização da sociedade. Se já era agudo nos anos 1970, esse antagonismo ideológico se encontra consolidado neste começo de século 21 e contamina as reflexões sobre a ditadura.
    Nesse cenário, o livro "Poder e Desaparecimento: Os Campos de Concentração na Argentina" [Boitempo, 192 págs., R$ 38], da antropóloga argentina radicada no México Pilar Calveiro, 59, constitui uma exceção. Talvez o maior poeta local vivo, Juan Gelman, que viu um filho desaparecer durante o regime e assina o prefácio à edição brasileira, diz que a interpretação da conterrânea pode ser comparada à obra que o italiano Primo Levi (1919-1987) construiu a partir de sua experiência pessoal em campos de concentração nazistas.
    Já para o filósofo argentino Thomas Abraham, o texto de Calveiro permite divisar todos os matizes de que se compõe a distinção entre guerrilheiros e repressores, mostrando que uma tipificação maniqueísta não faz jus aos fatos.
    Calveiro conversou por telefone com a Folha desde o México, onde vive há 34 anos e dá aulas na Universidade Autônoma de Puebla.
    MONTONERA Seu olhar é mais do que talhado para enquadrar o tema. Integrante da guerrilha esquerdista Montoneros, principal foco de resistência ao regime militar, Calveiro foi sequestrada no dia 7 de maio de 1977. Num primeiro momento, levaram-na à Mansão Seré, centro clandestino de tortura da Aeronáutica. No ano e meio que se seguiu, ela passou pela delegacia de Castelar (centro pertencente à polícia) e pela temida ESMA (Escola Superior Mecânica da Armada), base da Marinha sobre a qual o temido almirante Emilio Massera (1925-1974), um dos três membros da primeira junta militar, tinha forte ascendência.
    Como se não bastasse, seu marido foi sequestrado durante uma investida no Brasil da Operação Condor (sistema de repressão e inteligência coordenado entre governos ditatoriais do Cone Sul) e nunca mais apareceu.
    "Minha experiência pessoal é fundamental nas escolhas intelectuais que fiz, mas não quis me apoiar somente nela. Usei-a para entender que a memória é formada de várias vozes e que era preciso ouvir mais de uma, não se apoiar na dor pessoal."
    A busca dessa polifonia gerou uma reflexão teórica que parte do que a autora e outras testemunhas vivenciaram nos campos de concentração para discutir os conceitos políticos e filosóficos em que a máquina da repressão se ancora.
    São colhidos os relatos de Graciela Geuna, prisioneira do centro La Perla (Exército), Martín Gras (ESMA), José Carlos Scarpatti (Campo de Mayo, Exército), Claudio Tamburrini (Mansion Seré) e Ana Maria Careaga (Atlético, Polícia Federal). "Achava importante ter na amostra tanto homens como mulheres, e gente que havia passado por centros administrados por distintas forças. Os que estiveram nos locais comandados pelo Exército passavam pelos interrogatórios mais elaborados, enquanto as torturas na Marinha eram bastante sofisticadas. Fica impossível dizer qual era mais cruel, mas não investigar as distintas formas de aniquilação das pessoas que conformaram a política sistemática do regime", conta Calveiro.
    A obra alterna testemunhos de momentos de "prazer" dos prisioneiros, principalmente relacionado às refeições, e de terror, como o experimentado durante as "transferências" (quando presos eram levados de um centro a outro ou simplesmente enviados à morte) e as sessões de tortura.
    É aí que o conceito de "desaparecimento" toma vulto no estudo de Calveiro. Desaparecer, em tempos de ditadura, não era simplesmente morrer, mas ter estruturas física e psíquica destruídas por correntes imensas de eletricidade ou outros suplícios. Nos centros de La Perla ou na ESMA, há relatos de presos obrigados a correr vendados ou com capuzes e coleiras. Na Mansão Seré, havia coação a lutas corporais às cegas que não raro resultavam em mortes. Já na delegacia de Castelar, passava-se fome até a capitulação, ao passo que na de Banfield, mulheres davam à luz nuas em meio a insultos e gritos de repressores.
    "Não busquei um relato que vitimizasse ou heroicizasse, mas sim que explicasse teoricamente como a repressão se impõe numa sociedade", conta Calveiro.
    Para tanto, ela se valeu da formação obtida no México durante seu exílio, a partir de 1979. Foi lá que se formou em ciência política. Depois de "Poder e Desaparecimento", Calveiro seguiu na trilha da violência perpetrada pelo Estado. Seu mais recente trabalho é "Violencias de Estado "" La Guerra Antiterrorista y la Guerra contra el Crimen como Medio de Control Global", de 2012.
    Neste e em outros títulos novos de sua lavra, Calveiro volta o foco para os direitos humanos na atualidade. É preciso atentar, diz ela, para as minorias que sofrem discriminação, os mortos pelo crime organizado, o elo entre o narcotráfico e o poder democrático e o uso abusivo da força policial para lidar com crises na sociedade. "É claro que um crime de lesa-humanidade regularizado, como ocorreu nos anos 1970 na Argentina, possui especificidades. É algo muito grave e condenável. Mas, de um modo geral, a questão da violência ilícita ou abusiva cometida pelo Estado está presente em vários países da América Latina hoje. O Brasil não é uma exceção", afirma.
    Calveiro menciona como exemplos destacados desse fenômeno o México, onde a guerra entre o governo e os cartéis da droga, iniciada em 2006, já cobrou mais de 60 mil vidas e resultou em mais de 100 mil desaparecimentos, e a Colômbia, onde pactos entre poder e guerrilha permitiram a sobrevivência das Farc, atuando até agora em territórios em que há um vácuo de poder oficial.
    HEROÍSMO A antropóloga elogia a ação do Estado argentino na rubrica dos direitos humanos, mas tece críticas ao papel heroico que o kirchnerismo reserva aos que lutaram contra a ditadura nos anos 1970. Para ela, um olhar agudo deveria dispensar categorias épicas.
    "A heroicização daquela época é contraproducente e atrapalha a discussão, porque não permite fazer a análise crítica e pensar na responsabilidade dos distintos atores. Não penso na política como forma de exclusão da violência. Creio que nela há sempre um núcleo violento. O que é preciso ver é que lugar esse núcleo violento ocupa, quais são as formas da violência e como operam em relação ao poder instituído", explica.
    Em sua obra, Calveiro evita apelos sentimentais. Prefere esmiuçar a linha tênue que geralmente separa os bons dos maus e mostra o que os dois lados da contenda tinham em comum em termos de métodos, crenças e ações. Dá notícia das alianças e formas de convivência entre algozes e vítimas, casos de amor, cumplicidade e vínculos fortes de amizade que se formaram naqueles anos.
    Em dado momento, trata a questão da "forma divina" que a personalidade dos repressores ganhava. Se por um lado eles se viam com poderes de matar ou deixar viver suas vítimas, também essas se lembravam com filtros quase divinos de casos em que determinado agente lhes salvara a vida ou as poupara de sofrimentos atrozes.
    A estudiosa comenta com otimismo o fato de o Brasil ter instituído recentemente uma Comissão da Verdade para investigar seu passado violento. "Não é tarde, cada sociedade tem seu tempo. Na Argentina, os julgamentos foram possíveis ainda nos anos 1980 por conta do modo como os militares deixaram o poder", avalia.
    Derrotados na Guerra das Malvinas (1982), eles saíram do governo desmoralizados, o que abriu espaço para que o líder eleito democraticamente, Raúl Alfonsín, iniciasse o histórico Julgamento das Juntas, levando à cadeia inclusive repressores dos altos escalões.
    De lá para cá, a Argentina atravessou várias fases. O próprio Alfonsín, pressionado pelos militares, lançou mão das leis de Ponto Final e Obediência Devida para anular condenações. Seu sucessor, o peronista Carlos Menem, concedeu amplo e generoso indulto, que libertou desde Videla até o líder montonero Mário Firmenich, hoje exilado na Espanha. A anistia foi sustada nas gestões de Néstor e Cristina Kirchner. Estavam dadas as condições para o julgamento amplo de quase todos os envolvidos em crimes do Estado.
    "Não basta julgar, é preciso entender, esclarecer. Qualquer sociedade que se comprometa com isso está no caminho certo. É o caso do Brasil agora", conclui Calveiro.
      Livros devolvem ex-tupamaro ao front
      O uruguaio Carlos Liscano esteve preso dos 22 aos 35 anos de idade. No cárcere, foi de guerrilheiro tupamaro a escritor. Ao reconquistar a liberdade, em 1985, considerou-se deslocado num Uruguai democrático que se negava a investigar os crimes da ditadura militar (1973-1985) que o mantivera preso por tanto tempo. Fez então as malas e partiu.
      A primeira opção era Curitiba, mas a ideia não vingou. Optou por um pouso mais distante e embarcou para a Suécia. Ali, inserido numa grande comunidade de exilados das ditaduras latino-americanas, passou mais de dez anos. Só em 1996 sentiu-se à vontade para voltar à terra natal.
      Na última quarta-feira, Liscano recebeu a Folha para uma entrevista no histórico prédio da Biblioteca Nacional, da qual hoje é o diretor.
      "A biblioteca me devolveu à política, mas por uma outra porta. Desde que entrei para o mundo dos livros, em 1981, quando escrevi meu primeiro romance dentro da cadeia, sabia que esse seria o meu foco de atuação no futuro", diz.
      Liscano recorda celas escuras e a peleja com algozes para que lhe fornecessem papel, lápis e luz. Da insistência nasceu seu romance de estreia, "La Mansión del Tirano", que escreveu duas vezes, pois o primeiro manuscrito foi roubado e jogado no lixo pelos militares.
      Trinta e dois anos depois, Liscano se transformou em autor de uma ampla obra de teatro, romances e ensaios sobre os tempos da ditadura. No Brasil, ainda não foi traduzido, mas na França tornou-se um escritor cultuado e tem suas peças encenadas, enquanto no Uruguai seus livros são disputados em sebos. Em Paris, ele acaba de publicar "Memórias de la Guerra Reciente" e "La Impunidad de los Verdugos" (a impunidade dos carrascos, em tradução livre).
      Enquanto isso, a Universidade Federal de Santa Catarina escolheu "El Lector Salteado" (o leitor intermitente, em tradução livre)para lançar Liscano no mercado brasileiro. O próprio esteve no país, em abril passado, para uma tertúlia em torno de livros, política e memória com o escritor argentino Martín Kohan.
      "O trânsito de livros na América Latina é muito falho. Aqui [no Uruguai] é difícil comprar livros colombianos, venezuelanos, mesmo argentinos. Os grandes selos monopolizam contratos por país e atravancam o intercâmbio. Com relação ao Brasil, há ainda o obstáculo da língua", observa.
      Cortês e articulado, Liscano não se acanha em descrever o sofrimento nos anos de cárcere nem escamoteia seu inconformismo em relação a governos que, na visão dele, chancelaram a não investigação dos crimes de Estado --notadamente o de Julio Maria Sanguinetti, presidente entre 1985 e 1990, e novamente entre 1995 e 2000. "Sanguinetti protegeu os militares e encobriu os crimes deles. Foi o principal responsável pela defesa da anistia que faz com que até hoje a sociedade uruguaia não enfrente seu passado."
      ANISTIA Para o escritor, José Pepe Mujica, atual presidente e companheiro de fileiras na guerrilha Tupamaros, também é indolente no que se refere à investigação de episódios de violência ocorridos durante o regime de exceção. A ditadura militar uruguaia é considerada responsável pelo desaparecimento de 174 pessoas.
      Liscano deixa claro que não gosta do papel de oprimido. "Não sou uma vítima. Era guerrilheiro, portanto, responsável pela minha escolha. Há, sim, vítimas. Essas têm de ser compensadas pelos abusos da violência de Estado", diz, antes de comentar, não sem ironia, a incorporação da pauta dos direitos humanos à agenda da esquerda.
      "Não era um assunto que estivesse em seu radar no fim dos anos 1970. O tema foi incorporado ao discurso esquerdista, mas na verdade surgiu nas comunidades no exílio e foi apenas absorvido pelos governantes da democracia. Não se trata de uma solicitação originária da esquerda revolucionária."
      O autor é a favor da investigação dos crimes de Estado, mas reconhece que há pouco a fazer se boa parte da sociedade se opuser à revisão do passado. Atualmente, transcorre no Uruguai, tanto na esfera civil quanto no Congresso, um amplo debate sobre a necessidade de revogar ou não a lei de anistia promulgada em 1986.
      Assim como a antropóloga argentina Pilar Calveiro , Liscano acredita que o discurso dos direitos humanos precisa incluir reprimendas aos crimes cometidos na atualidade. "O que dizer dos mortos nos acidentes de trem na Argentina, por obra do narcotráfico no Brasil, nos tantos meninos e meninas abandonados em toda a América Latina?", provoca.

      sábado, 13 de julho de 2013

      Clássico de Cortázar é relançado aos 50

      folha de são paulo
      Obra maior de argentino, 'O Jogo da Amarelinha' ganha edição com cartas em que escritor fala sobre processo criativo
      Romance, que segundo autor seria 'a crônica de uma loucura', precede celebrações pelos cem anos de seu nascimento
      SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRES"Não é uma novela, mas sim um relato muito longo que definitivamente acabará sendo a crônica de uma loucura." Assim explicava Julio Cortázar (1914-1984) em uma carta a um amigo sobre seu romance "O Jogo da Amarelinha", enquanto o escrevia, em pleno verão europeu de 1960.
      Aquela que seria sua principal obra, e uma das mais importantes do chamado "boom latino-americano", completa em 2013 exatos 50 anos de sua publicação.
      Já em fevereiro de 2014 serão celebrados os cem anos do nascimento do autor. Entre uma efeméride e outra, o mercado editorial hispano-americano e os órgãos de cultura do governo argentino preparam uma série de exposições, relançamentos e reedições de suas principais obras.
      É o caso da edição especial de "O Jogo da Amarelinha" que a Alfaguara argentina acaba de enviar às livrarias. Entre as novidades, contém as cartas de Cortázar que se referem ao "making of" do romance (e que incluem o texto mencionado acima).
      No Brasil, também sairá uma edição comemorativa, pela Civilização Brasileira, acompanhada de outros relançamentos, como o de "Bestiário", desde 1960 fora de catálogo.
      DEBATE
      "O Jogo da Amarelinha" apresenta a história de um triângulo amoroso, mas não só. Se lido linearmente do capítulo 1 ao 56, trata-se de uma história. Se seguido de acordo com a leitura que propõe Cortázar, salteada a partir do capítulo 73, é outra.
      "Os personagens não são o mais importante, e sim o rompimento com a estrutura e a relação com a linguagem. O livro é uma discussão sobre quantos mundos cabem na literatura, e sobre a literatura por si só", disse à Folha o editor espanhol Juan Cruz, um dos maiores especialistas em literatura hispano-americana.
      Na Argentina, Cortázar tem tido sua obra reavaliada. Enquanto críticos como Damian Tabarovsky defendem que seu legado é superestimado, outros apontam o fato de ser central como referência para a produção contemporânea.
      É comum que se faça um traçado direto de influências entre seu legado e o do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003). "Assim como Cortázar, Bolaño rompeu com a estrutura narrativa e ofereceu uma alternativa a uma geração", diz Cruz.
      O argentino, que nasceu na Bélgica e viveu em Paris, se identificava com "O Jogo da Amarelinha" mais do que com qualquer de suas obras.
      "Há um gigantismo em Cortázar, que é físico. Como ele tinha uma síndrome hormonal que fazia com que não deixasse de crescer, por muito tempo em sua vida pareceu um adolescente. Assim é O Jogo da Amarelinha' também, um romance que, por sua forma aberta, interativa, não para de desenvolver-se", diz o editor brasileiro Sergio Molina.
      Na Argentina, as comemorações alimentam um debate político. Como o autor era antiperonista convicto, a oposição ao governo kirchnerista o assume como alguém que hoje estaria a seu favor. Já os governistas apelam para seu lado de militante das causas esquerdistas latino-americanas, que incluiu um amplo apoio à Cuba revolucionária.
      "É muito reducionista pensar Cortázar nesses termos. Sua importância, mais do que nada, é literária e cultural, nesse sentido é universal, vai muito além do debate argentino", diz o editor argentino Augusto Di Marco.
        OPINIÃO
        Livros que despertam paixão em jovens são os que mais têm sua memória vilipendiada
        SE CÉSAR AIRA DIZ QUE 'O JOGO DA AMARELINHA' É O PIOR DE CORTÁZAR, BOLAÑO NUNCA ESCONDEU SUA ADMIRAÇÃO PELO ROMANCE
        JOCA REINERS TERRONESPECIAL PARA A FOLHAA medida da rejeição de um livro amado na juventude é a mesma desse amor, só que ao contrário. Nós, que amávamos tanto "O Jogo da Amarelinha", hoje sabemos disso. Livros que despertam paixão no leitor imberbe são aqueles que mais têm sua memória vilipendiada.
        Os prelúdios do fim são idênticos aos do processo amoroso: aquela pálpebra desmaiada e a perninha torta que antes simbolizavam o cúmulo intransferível da beleza de repente passam a ser meros defeitos.
        O romance de Julio Cortázar reuniu três tipos de romances em um só: o romance existencialista francês (rapazes de sobretudos negros esvoaçantes sobre as pontes do Sena), também compreensível como "romance sobre Paris" (é todo um gênero literário, inaugurado por Baudelaire); romance dentro do romance (em meio à transa de Oliveira e Maga acontece a caça a um escritor desparecido, Morelli); e o romance de latino-americano exilado, cuja escola inaugurou.
        Esses romances são reunidos sob forma lúdica e experimental, que em seu momento correspondeu àqueles símbolos personalíssimos ali de cima (o olhinho caído, o coxear etc) e atualmente representam rugas e pés-de-galinha: a prova inconteste de que o livro envelheceu mal.
        "O melhor Cortázar é um Borges ruim", afirmou o escritor César Aira, abrindo a porta para que outros rejeitassem publicamente sua primeira namorada, a Maga. Quanta deselegância. Além de ressaltar que "O Jogo da Amarelinha" é o pior de Cortázar (o melhor seriam os contos), Aira também disse que o carinhoso ogro belga serve apenas aos "adolescentes que querem ser escritores".
        Sem dúvida, esse caráter iniciático ingressa o cinquentão ao restrito clube de livros da puberdade escritos por Boris Vian, J.D. Salinger, Jack Kerouac, Clarice Lispector, Fernando Sabino etc, servindo de base ao caçula da turma: Roberto Bolaño nunca escondeu sua admiração por "O Jogo da Amarelinha", e "Os Detetives Selvagens" --um romance experimental sobre latino-americanos exilados que esconde um romance sobre a caça a um escritor desaparecido-- a seu modo atesta a sobrevivência dos supostos erros de Cortázar, sua fé imóvel na contribuição inteligente e sensível do leitor para a conclusão do livro, na contribuição milionária de todos os erros.

          sábado, 6 de julho de 2013

          Agora, festa da literatura também fala o espanhol

          folha de são paulo - FLIP 2013
          Juan Pablo Villalobos foi chamado às pressas para o evento em Paraty
          Peça 'Festa no Covil', em cartaz, lançou luz sobre mexicano que mora em SP e foi traduzido para dezenas de línguas
          SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRES
          Chamado de última hora para substituir o norueguês Karl Ove Knausgård, que cancelou sua vinda à festa de Paraty, o mexicano Juan Pablo Villalobos, 40, é um dos poucos representantes hispano-americanos no evento.
          Com isso, a organização corrigiu uma falha na montagem da grade que havia causado estranheza ao próprio mexicano. "Tinha ficado muito surpreso quando li a programação. Parece um fenômeno relacionado à distância que existe entre a cultura brasileira e a desses países, é algo histórico", disse Villalobos à Folha, por telefone.
          "O único país com que a produção brasileira tem mais intercâmbio é a Argentina, e há alguns selos pequenos se esforçando para levar novos autores para o português. Mas nos outros países do continente isso é quase nulo. O México não é uma exceção."
          Ele chama a atenção, porém, para iniciativas pontuais brasileiras de apostas em novos autores mexicanos, como Valeria Luiselli ("Rostos na Multidão" foi lançado pela Alfaguara), Mario Bellatin ("Flores" e "Cães Heróis" saíram pela Cosac Naify) e Ignacio Padilla ("Amphytryon" e "Espiral de Artilharia", da Companhia das Letras).
          Radicado em Campinas, onde vive com mulher, brasileira, e dois filhos, Villalobos fez de São Paulo seu centro de operações. É a partir dali que escreve e traduz textos para revistas estrangeiras e trabalha em seus romances.
          Seus livros já foram traduzidos para mais de dez idiomas, como inglês, alemão, francês, italiano, holandês, húngaro, turco, búlgaro, romeno e japonês. Russo e hebraico estão a caminho.
          No Brasil, seu nome ganha projeção pelo fato de seu primeiro romance, "Festa no Covil" (Companhia das Letras), ter sido levado aos palcos pela atriz Mika Lins, em cartaz no Sesc Consolação até 30/8.
          A história é narrada por um menino, filho de um traficante, cercado pelo imaginário e pela linguagem do narcotráfico. É o primeiro volume da trilogia cujo segundo tomo ("Si Viviéramos en un Lugar Normal") saiu em setembro nos países hispânicos.
          O pano de fundo da novela é o México dos anos 1980 de hiperinflação, quando teve lugar uma mudança profunda na estrutura social do país.
          Os livros de Villalobos costumam ser vinculados ao que se passou a chamar de narcoliteratura. País cindido por uma guerra do governo contra o crime organizado, o México já coleciona mais de 60 mil mortos desde que essa política teve início, em 2006.
          FICÇÃO E CONFISSÃO
          "Nós não podemos fechar os olhos para isso, é preciso trazer o tema à tona, mas também não é possível achar que a ficção possa fazer muito para mudar essa situação. Nesse sentido, o jornalismo e o cinema são mais atuantes. Nós, ficcionistas, colaboramos para um olhar crítico e poético do que está acontecendo", diz.
          Villalobos diz que sua obra dialoga om a tradição da literatura mexicana. E menciona entre as principais influências as escolas fundadas por Carlos Fuentes (1928-2012) e Sergio Pitol (nascido em 1933).
          "Sou mais vinculado a Pitol, que é um escritor mais cosmopolita, brincalhão, realista e lida muito com o autobiográfico. Já Fuentes está mais vinculado à narrativa mais memorialista, historicista."
          Sobre o convite feito a Villalobos, que entrou na programação oficial da festa no lugar do norueguês Ove Knausgård, o curador da Flip, Miguel Conde, afirmou: "Era uma substituição difícil por causa do tempo curto e tema específico [O autor debateria ontem, na mesa "Ficção e Confissão", com o norte-americano Tobias Wolff]. Os livros de Villalobos têm uma circunscrição histórica e social clara, mas ao mesmo tempo se valem de protagonistas que lançam sobre esse meio bem delimitado olhares abertos ao devaneio e à fabulação. Por isso, são livros em que a questão da relação entre fatos, experiência e invenção assume uma importância central."
          Mesa reúne dois expoentes do ensaísmo
          Geoff Dyer e John Jeremiah Sullivan discutem o gênero amanhã, na mesa que encerra a festa literária em Paraty
          Apontado como novo caminho, trabalho de ambos se diferencia por usar primeira pessoa e impressões subjetivas
          DANIEL BENEVIDESISABELLE MOREIRA LIMACOLABORAÇÃO PARA A FOLHAMais livre dos gêneros, na definição do crítico Jean Starobinski, o ensaio surgiu como tema transversal em diversas mesas da Flip e encerra amanhã o evento.
          Sob o título, "A Arte do Ensaio", a última mesa da Festa Literária de Paraty vai reunir, às 17h, dois dos maiores ensaístas do momento, o inglês Geoff Dyer, 55, e o norte-americano John Jeremiah Sullivan, 39. O mediador é Paulo Roberto Pires, editor da "Serrote", a principal revista brasileira do gênero.
          Autor do recém-lançado "Todo Aquele Jazz", Dyer é frequentemente citado como um dos expoentes do chamado novo ensaísmo, o qual se distingue pelo uso da primeira pessoa por impressões subjetivas e elementos autobiográficos.
          Ainda que se entusiasme com essa retomada do gênero entre novos autores ("hoje prefiro ler os ensaios do John Jeremiah Sullivan a qualquer romance"), ele é o primeiro a rejeitar o rótulo: "Meus livros são muito difíceis de classificar, não dá para generalizar".
          Sullivan também descarta o hype; para ele, o que há é um interesse renovado pelo ensaio, não propriamente um novo movimento.
          Os pontos de contato entre ambos e autores como David Shields e Tom Bissell são numerosos. O que salta aos olhos em seus textos é a própria experiência do autor, não raro contada com humor autopejorativo, tiradas espirituosas e referências à cultura pop.
          MÉTODO DE TRABALHO
          E uma boa dose de obsessão, como ressaltou Sullivan em entrevista à Folha. Ele pode ficar meses ou até anos ruminando um assunto, reunindo informações e buscando um ângulo original, como mostram os ensaios de "Pulphead".
          Mais flexível, Dyer já escreveu livros em poucas semanas e outros em alguns anos. Sua principal questão é achar o tom certo, aproximar ao máximo a forma do conteúdo.
          Ao contrário de Dyer, Sullivan é terrível para falar de suas influências ("Nunca lembro o que dizer quando me perguntam. Shakespeare e Hemingway?").
          O americano diz achar animador trabalhar com um gênero tão vivo e discutido. "Seria loucura se irritar com o interesse das pessoas pelo tipo de escrita que você faz."
          Quando começou a escrever, achava que, além de "quente", o ensaio era uma forma nova. Mais que desilusão, sentiu excitação ao descobrir que estava pisando em um terreno realmente sólido.
          "O ensaio é tão velho quanto o romance. Quando entendi isso, passei a me interessar por quem eram os praticantes, os fundadores, os que chegaram e mudaram a forma."
          Ensaísta desde os anos 1990, Sullivan acredita que há limitações no gênero. "Algumas vezes penso que queria dizer exatamente o que acho, mas estamos falando de seres humanos reais e há uma certa matrix' social a que pertencemos e que temos que respeitar", diz.
          Para vencer esses limites criativos da não ficção, Sullivan descobriu a liberdade na voz do narrador. "Como não posso enfiar um unicórnio na história que estou contando, posso condicionar a resposta do narrador ao que está acontecendo. E não tenho vergonha de fazer isso para alcançar força narrativa."
          Embora seja figura constante em seus ensaios, Sullivan não se vê nos próprios textos --para ele, o narrador é um personagem como outro.
          "Não sou eu. Não me identifico com aqueles narradores mais do que me identifico com quem é parecido comigo. Eu me uso sempre que posso, uso o que quer que eu tenha. Mas quando olho para essas versões de mim, não estou olhando para um espelho, mas para essa outra pessoa que anda dentro de uma história.

          CRÍTICA - ENSAIO
          Com humor, autor faz retrato atual da sociedade americana
          RODRIGO LEVINOENVIADO ESPECIAL A PARATYNum ensaio publicado em 1945 em que tratava da decadência da linguagem, George Orwell alegava que "toda a tendência da prosa moderna é se afastar da concretude". Ensaísta consagrado, Orwell atacava a falta de clareza nas palavras e o que chamava de "abismo entre nossos objetivos declarados e os reais", o que era prejudicial ao leitor.
          Quase 70 anos depois, o americano John Jeremiah Sullivan aparenta, em seu livro "Pulphead", lançado agora no Brasil, ter sido um leitor dedicado de Orwell. Em 14 ensaios, ele demonstra um apreço incomum por clareza e sinceridade, alicerçado em características fundamentais do gênero --a valorização da experiência individual, a reflexão filosófica e o didatismo.
          Ao talento visível para a ficção, que dá ritmo impecável às narrativas, se une um apurado senso de humor, a curiosidade e o respeito a todo personagem como fonte de conhecimento.
          A tudo ele se dispõe a escrutar em busca de empatia que, quando alcançada, é imediatamente repassada ao leitor. Quando escalado para cobrir um festival de música cristã, por exemplo, confessa que seria muito fácil desdenhar do que consideraria o retrato clássico de interioranos dominados pela religião.
          Mas Sullivan se furta dos clichês e dos estereótipos. Movido pela certeza de que há algo lá, ele deixa a zona de conforto e descobre pessoas marcadas pela violência, em busca de uma experiência real numa sociedade de aparências. Por fim, confessa uma improvável ligação com aquele universo, resgatada por uma memória longínqua.
          Em cada um dos personagens com que vai cruzando ao longo do livro, Sullivan encontra um ponto de contato com sua vida e desenha um retrato atual da sociedade americana. Sempre tendo como ponto de partida o olhar desassombrado de um intelectual para quem erudição e mundanidade são faces da mesma moeda.
            Zeca Camargo escreve livro sobre chegada aos 50 anos
            Apresentador lança título apenas em formato digital neste semestre
            'A idade me fez repensar meu corpo', conta ele, que participa hoje de uma mesa na Casa Folha, em Paraty
            DA ENVIADA ESPECIAL A PARATY (RJ)O jornalista e apresentador de Zeca Camargo ainda não sabe se dará a seu próximo livro o título "Nu" --que ele escolheu para batizar a mesa da qual participa hoje, às 11h30, na Casa Folha 2, em Paraty, sob mediação do repórter da Folha Paulo Werneck.
            "É uma palavra muito explícita. Queria passar a noção de transparência que tem a ver com o livro, mas talvez tenha uma conotação forte demais", diz o autor, que falará sobre a obra em criação, a ser lançada no início deste semestre pelo selo exclusivamente digital e-galáxia.
            A transparência diz respeito à forma pessoal como Zeca se coloca no livro, espécie de autobiografia sobre a chegada aos 50 anos, completados em abril. Em capítulos como "Memória" e "Rosto", faz uma leitura bem-humorada sobre não ser mais um garotão.
            "A idade me fez repensar o meu corpo. Fui dançarino, sempre trabalhei a parte física e percebi que queria escrever sobre isso", diz.
            A opção pelo formato digital teve a ver com o fato de ser sua primeira obra estritamente pessoal --os livros anteriores, publicados pela editora Globo, são relacionados ao seu trabalho. "Fui fisgado pela novidade. Eu me senti mais à vontade para falar de mim assim, sem o peso do papel."
            Idealizado por Mika Matsuzake, Tiago Ferro e Antonio Carlos Espilotro, o selo e-galáxia terá obras de Ricardo Lísias, com um livro de ensaios, e Ricardo Ramos Filho, com seu primeiro título adulto.
            Livro traz faceta pouco conhecida de Eduardo Coutinho: a de crítico
            Textos dos anos 1970 abordam Hollywood, política e surrealismo
            MATHEUS MAGENTADE SÃO PAULOEduardo Coutinho, 80, documentarista conhecido por extrair a essência de seus entrevistados em filmes como "Edifício Master" (2002) e "Jogo de Cena" (2007), curiosamente teme as palavras.
            Para ele, se por um lado a fala esconde "segredos e armadilhas", por outro, a escrita agrava o problema metafísico da escolha das palavras.
            "A tarefa mais difícil para mim no cinema é a de elaboração do texto da narração, o qual não é possível eliminar do filme. Por isso, não fossem os compromissos inevitáveis, escolheria agora o silêncio."
            O texto escrito em 1992 funciona como prefácio para o livro "O Olhar no Documentário", lançado em tiragem limitada de 200 exemplares nesta Flip (Festa Literária de Paraty). A obra da Cosac Naify traz um lado pouco conhecido de Coutinho: o de crítico.
            Entre 1973 e 1974, ele assinou 40 comentários como crítico interino do "Jornal do Brasil". Sete deles estão no livro. "Gilda" (1946), "Cantando na Chuva" (1952) e mostras de filmes surrealistas ou nacionais são alvos de textos com sarcasmo, análise política e reflexões sobre estética e atuação.
            "Hoje, a palavra surrealista entrou para o domínio público despida de qualquer provocação específica --pode designar tudo que é absurdo num determinado contexto. Podendo ser tudo, é, portanto, nada", escreve. E conclui citando Buñuel, como se antevisse suas futuras obras: "Não tenho respostas prévias. Eu olho, e olhar é uma maneira de colocar perguntas."

              sábado, 29 de junho de 2013

              Em meio a protestos, Flip, principal festa literária do país, ganha ares de fórum político

              folha de são paulo
              PAULO WERNECK
              DE SÃO PAULO
              RAQUEL COZER
              COLUNISTA DA FOLHA

              A política promete ser a vedete da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty, que começa na próxima quarta.
              A politização já estava na pauta do curador da Flip, Miguel Conde, bem antes do início da onda de manifestações pelo Brasil, dando à festa literária ares de fórum de discussão dos rumos do país.
              "Neste ano, há, sim, inflexão política, tanto pelos temas das mesas quanto pelo perfil dos convidados", diz Conde. O anúncio, anteontem, de três mesas extra, sobre os protestos país afora, só reforçou essa inflexão.
              Editoria de Arte/Folhapress
              E a programação dá ênfase ao pensamento de esquerda, o que transparece já na escolha de Graciliano Ramos (1892-1953), crítico de mazelas sociais em "Vidas Secas" (1938) e outras obras, como homenageado desta edição.
              Entre os convidados, estão o crítico de arte T.J. Clark, autor de "Por uma Esquerda sem Futuro" (ed. 34), Gilberto Gil, ex-ministro no governo Lula, o cineasta Eduardo Coutinho, diretor de "Cabra Marcado para Morrer" (1985), e o palestino Tamim Al-Barghouti, "o poeta da Primavera Árabe".
              Voz dissonante, o francês Michel Houellebecq, tachado de direitista em seu país, desistiu de última hora.
              Casa Folha na Flip debate literatura e jornalismo
              Dois espaços em Paraty terão palestras com escritores e colunistas do jornal
              Ruy Castro, Laerte, Zeca Camargo e o norueguês Karl Ove Knausgård são alguns dos nomes que participam dos eventos
              DE SÃO PAULOA Folha vai promover durante a Flip (Festa Literária Internacional de Paraty), de 3 a 7 de julho, uma série de debates, lançamentos de livros e uma exposição.
              Nesta edição do evento, a Casa Folha vai ocupar dois imóveis em Paraty. Um na rua da Matriz, s/nº, e outro na rua do Comércio, nº 8, ambos no centro histórico da cidade.
              É a terceira vez que o jornal terá um espaço com programação diária na festa literária. A Folha é parceira oficial de mídia da Flip.
              Também haverá distribuição de edições do jornal em diversos pontos da cidade, como ocorre desde 2010.
              A programação da Casa Folha é gratuita e traz conversas com colunistas, repórteres e cartunistas do jornal, além de convidados. O apresentador Zeca Camargo, é um dos convidados dos eventos.
              Na primeira mesa, às 10h do dia 4/7 (quinta), Ana Estela de Sousa Pinto, editora de "Mercado", comenta seu livro "Folha Explica a Folha" (ed. Publifolha; R$ 29,90; 232 págs.), que retrata a trajetória do jornal, do início do século 20 até os dias atuais.
              A programação inclui os colunistas da Folha Ruy Castro, Ferreira Gullar e Luiz Felipe Pondé e o cartunista Laerte, entre outros (veja quadro).
              A Casa Folha também vai promover palestra com um convidado internacional da programação principal da Flip. O norueguês Karl Ove Knausgård irá tratar de "A Morte do Pai" (Companhia das Letras; R$ 49,50; 512 págs.), primeiro romance de sua série autobiográfica.
              Dois livros lançados pelo selo Três Estrelas, do Grupo Folha, terão sessão de lançamento após os debates.
              No dia 5/7, a jornalista Silvia Bittencourt vai autografar "A Cozinha Venenosa - Um Jornal Contra Hitler" (R$ 49,90; 374 págs.). O trabalho narra a trajetória de um pequeno jornal alemão, o "Münchener Post", que combateu o nazismo durante os anos 1920 e 1930.
              Em 6/7, o professor de filosofia da Unicamp Oswaldo Giacoia Jr. autografa "Heidegger Urgente - Introdução a um Novo Pensar" (R$ 29,90; 144 págs.). O trabalho se propõe a apresentar o filósofo (1889-1976) ao público leigo e a discutir suas ideias.
              A Folha também promoverá, nas duas casas, exposição com imagens de reportagens sobre literatura brasileira. Na casa 2, o artista plástico Renato Koledic fará caricaturas do público que visitar o local.
                FLIP 2013
                Autores de esquerda dominam a festa inspirada por Graciliano
                Curador vê poucos expoentes liberais; falta coragem para chamar quem diverge, dizem editores
                Em outras edições, representantes do pensamento mais conservador apimentaram o debate
                DE SÃO PAULODA COLUNISTA DA FOLHASe não faltaram debates políticos em edições anteriores da Flip, em 2013 eles ganham o primeiro plano.
                Por diferentes motivos: os protestos pelo país; o perfil militante do homenageado, Graciliano Ramos; a presença maciça de nomes relevantes da esquerda nacional e internacional, como o diretor de cinema Eduardo Coutinho e o crítico britânico T.J. Clark.
                Mesmo debates aparentemente neutros têm, para o curador Miguel Conde, a política como motor. É o caso da mesa com os romancistas José Luiz Passos e Paulo Scott.
                "Foi uma tentativa de pensar dois modelos possíveis de uma literatura que se queira política hoje. Em Scott, há uma tematização direta, uma reavaliação de certas causas [políticas] pós-chegada do PT ao poder. Passos também faz isso, de modo menos direto".
                Das 21 discussões da programação principal, apenas sete não têm a política como eixo nem pelo menos um integrante cuja vida ou obra não estejam ligadas à militância, particularmente de esquerda.
                Autores de perfil conservador ou de centro estão ausentes. Em outras edições, nomes francamente conservadores, como o jornalista Christopher Hitchens, ou de centro, como o crítico Sergio Paulo Rouanet e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, fizeram contrapontos ao predomínio de esquerda da Flip.
                Foi assim em 2006, quando o britânico Hitchens e o romancista americano Jonathan Safran Foer recusaram-se a aderir a um abaixo-assinado, endossado por diversos convidados, contra bombardeios de Israel no Líbano. Hitchens ainda chamou Fernando Gabeira de "terrorista".
                Dois anos depois, o poeta Ferreira Gullar cunhou uma das aspas mais citadas da história da Flip -"Não quero ter razão, quero ser feliz"-ao divergir do palestino Mourid Barghouti numa discussão sobre o exílio político.
                Neste ano, o economista André Lara Resende, que estará em uma das mesas sobre as manifestações, na programação paralela, será uma voz solitária no campo liberal -uma exceção entre os nove nomes confirmados para esses debates, como Vladimir Safatle, autor de "A Esquerda que não Teme Dizer seu Nome" (Três Estrelas).
                Também no "programa B", o roqueiro Lobão deve ser uma voz antiesquerda, embora sua mesa seja sobre MPB.
                "Não acho que escritores associados à direita sejam numerosos", diz Conde. "Tenho até dificuldade em pensar em nomes. O [escritor peruano Mario] Vargas Llosa tem posição mais liberal. Nós o chamamos, mas ele não pôde vir."
                PEÇA RARA
                Para o sociólogo Sergio Miceli, que será um dos debatedores da "ficha política" de Graciliano e publicou estudos sobre as relações políticas na intelectualidade brasileira, bons pensadores à direita são peça rara no país.
                "Há conservadores com trabalhos importantes, como José Guilherme Merquior [1941-91], Mario Faustino [1930-62]", diz. E espeta: "Hoje, muitos falam sobre tudo, mas não se aprofundam em nada. Têm um amplo espectro, como remédio para resfriado".
                Na quarta passagem pela festa, o escritor Milton Hatoum -que se diz de esquerda, sem envolvimento partidário-, fará a conferência de abertura sobre Graciliano.
                "A maioria dos escritores no Brasil é de esquerda", diz. "Acho que tem a ver com as contradições sociais do país."
                O escritor também diz achar difícil mencionar nomes relevantes de perfil conservador. "De escritor importante no Brasil, não me lembro de nenhum de direita. Diziam que Nelson [Rodrigues] era, mas discordo. Era provocador, irônico, e na ditadura lutou para libertar presos."
                Para Carlos Andreazza, editor de não ficção da Record -casa que detém a obra de Graciliano-, "não faltam autores conservadores. Falta coragem para convidá-los".
                "Não tenho dúvida de que a Flip sempre foi de esquerda. É legítimo, aliás. A discussão, no entanto, fica incompleta. Se quisessem abrir espaço ao contraditório, não faltariam opções", diz Andreazza, citando, entre elas, o filósofo Olavo de Carvalho.
                Carvalho também é citado por José Mario Pereira como "flipável", ao lado do economista e ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.
                O editor da Topbooks vê "má vontade" no meio intelectual com os conservadores de seu catálogo: "Quando querem ser simpáticos, chamam de 'liberal'".
                O dissenso, para Conde, não sairá prejudicado. "Todas as Flips tiveram predomínio de autores considerados mais ou menos de esquerda. É uma caracterização ampla, que abriga posições diferentes e às vezes conflitantes."
                O curador, em sua segunda Flip, diz não haver "exclusão deliberada" do pensamento conservador. "Naturalmente, convidei autores dos quais me sinto mais próximo ou que abordam as questões de maneira inteligente."
                  OPINIÃO
                  Encontro literário adota visão jeca ao ignorar língua hispânica
                  SYLVIA COLOMBODE BUENOS AIRES
                  Na última edição da Feira Internacional do Livro de Guadalajara (México), em novembro passado, o escritor carioca Bernardo Carvalho folheava a imensa programação do maior encontro de literatura hispânica do mundo e dizia: "Não conheço ninguém!".
                  Carvalho está longe de ser um não-leitor e sua erudição e talento são mais do que reconhecidos. O que o episódio demonstra é uma realidade concreta: o Brasil está a léguas de distância de entender, interessar-se e familiarizar-se com a produção literária de língua hispânica.
                  Mais um exemplo disso virá à tona no próximo dia 3, quando terá início mais uma Flip. A badalada festa, que reúne, além de escritores, editores, intelectuais, pseudointelectuais, jornalistas e afins, abrirá suas portas neste ano sem ter em sua programação nem ao menos um representante de um idioma falado por 500 milhões de pessoas no mundo todo.
                  A festa, que em anos anteriores recebeu nomes como o argentino Cesar Aira, o colombiano Fernando Vallejo, o espanhol Vila-Matas, o chileno Alejandro Zambra, neste ficará sem ouvir o idioma de Macondo e Santa María -cidades imaginárias criadas por Gabriel García Márquez e Juan Carlos Onetti.
                  A organização certamente argumentará questões logísticas, sem admitir um desinteresse ou intencionalidade.
                  O fato é que ficam evidentes a falta de canais, conhecimento, interesse e um excesso de arrogância em relação à qualidade que pode ter a produção de países vizinhos.
                  Na cultura brasileira, ainda prevalece a visão jeca de que o que é bom é imitação do que é feito nos EUA e na Europa. A Flip vinha sendo exceção com relação a essa postura. Em 2013, infelizmente, se enquadrará no lugar-comum.
                  Além de dois Nobel de literatura vivos (Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa) e de nomes como Miguel de Cervantes e Jorge Luis Borges, o espanhol movimenta hoje um mercado singular.
                  Nele, cabem tanto seguidores do cânone dos anos 1970 como questionadores dessa tradição (escolas Macondo e Crack). Há ainda toda uma geração inspirada no chileno Roberto Bolaño, que questiona formatos e promove uma prosa inventiva, e um grupo de novos cronistas, que mescla ficção e jornalismo e dá novas cores a antigas lutas sociais.
                  É preciso levar em conta, ainda, a literatura hispânica produzida nos EUA, por nomes como o premiado dominicano Junot Díaz.

                  segunda-feira, 3 de junho de 2013

                  Maitena expurga relação do pai com a ditadura em seu romance

                  folha de são paulo
                  SYLVIA COLOMBO
                  DE BUENOS AIRES

                  "Quando você tem 30 anos, fazer piadas sobre celulite é algo engraçado. Aos 50, o que vai acontecendo com seu corpo deixa de ter qualquer graça." Assim, Maitena Burundarena, 50, resume a razão pela qual deixou de desenhar há seis anos, aposentando, para sempre, suas séries "Mulheres Alteradas" e "Superadas".
                  Suas charges e quadrinhos, que tinham como tema os dramas das mulheres de todas as idades --o corpo, a busca por companheiros, a convivência com maridos e filhos, o envelhecimento, a pressão pela beleza e, claro, a luta contra a celulite--, tornaram-se um fenômeno de mercado e passaram a ser vendidas em mais de 40 países.
                  Subitamente, Maitena ganhou projeção internacional e passou a trabalhar febrilmente. Seu humor integrava-se a uma onda de obras feitas por mulheres para discutir e rir de aspectos da vida feminina contemporânea.
                  A ela pertenciam os fenômenos dos livros com a personagem Bridget Jones e a série norte-americana "Sex and the City", entre outras.
                  Mariana Eliano
                  A cartunista e escritora Maitena Burundarena, em Buenos Aires
                  A cartunista e escritora Maitena Burundarena, em Buenos Aires
                  "Eram os anos 1990 e as mulheres estavam na moda. Agora, estão na moda os gays", conta em entrevista à Folha, realizada no estúdio em que trabalha hoje, num edifício antigo situado numa esquina ruidosa do centro de Buenos Aires.
                  Maitena vem ao Brasil no fim do mês para lançar "Segredos de Menina", sua primeira incursão no mundo literário, e participar de um evento com o cartunista Laerte.
                  "O livro nasceu da necessidade de fazer algo diferente. Decidi que não ia mais trabalhar com nada que tivesse um 'deadline'. Afinal, foram mais de 13 anos escrevendo e desenhando piadas de mulheres todos os dias, para vários jornais do mundo. Fiquei esgotada e pensei: 'já ganhei muito dinheiro, não preciso mais'."
                  Com o que acumulou com os quadrinhos, comprou uma casa em uma paradisíaca praia do Uruguai, parou de fumar e de beber, e começou a se dedicar a ter uma vida saudável, ler e cuidar da filha mais nova, de 12 anos --Maitena tem três filhos, um de cada marido diferente.
                  Em "Segredos de Menina", de tom autobiográfico, a escritora conta a história de uma menina que cresce na Buenos Aires de fins do governo peronista ao mundial de 1978. Época conturbada e de muita violência social, em que tem início de uma das piores ditaduras latino-americanas.
                  Seu olhar é o de alguém que cresceu numa família de direita --seu pai foi ministro durante a ditadura--, mas que se posicionava contra as desaparições e mortes do regime.
                  "Há poucos olhares sobre como era a vida do lado das famílias que estiveram apoiando, de certa forma, a ditadura. Me custou muito, é um assunto muito delicado. Mas foi possível e serviu como uma terapia necessária com relação a meu vínculo com meu pai", disse.
                  Hoje, Maitena é uma defensora de Cristina Kirchner, e destaca os aspectos progressistas de seu governo, como os julgamentos de crimes contra a humanidade.
                  "Segredos de Menina" foi bem recebido na Argentina e na Espanha, e agora ganha tradução em outros países. A autora, por sua vez, já está trabalhando em seu próximo romance, que será sobre a relação entre mãe e filho.
                  "Não quero mais saber do humor. Agora quero dedicar-me a aspectos mais sérios da vida, ainda que os temas continuem a ser os mesmos, as relações humanas e familiares, porque são o que realmente interessa", resume.
                  SEGREDOS DE MENINA
                  AUTORA Maitena Burundarena
                  EDITORA Benvirá
                  QUANTO R$ 29,90 (256 págs.)
                  RAIO-X MAITENA BURUNDARENA
                  VIDA
                  Nasceu na Argentina, em 1962, em uma família de classe média de Buenos Aires. É filha de uma arquiteta e de um engenheiro, que foi ministro no governo do general Viola
                  CARREIRA
                  Cartunista, começou publicando quadrinhos eróticos para revistas underground. Criou as personagens das tiras "Mulheres Alteradas" em 1992. É autora dos livros "Mulheres Alteradas", "Superadas" e "Curvas Perigosas".

                  sábado, 1 de junho de 2013

                  Edição póstuma revela vida sonhada de escritor argentino Rodolfo Fogwill

                  folha de são paulo
                  SYLVIA COLOMBO
                  DE BUENOS AIRES
                  Desde os 13 anos de idade, o argentino Rodolfo Fogwill (1941-2010) tomou nota dos sonhos que ia tendo.
                  Nessa época, não havia começado, ainda, suas carreiras. Nem a de publicitário, nem a de professor de sociologia da Universidade de Buenos Aires e muito menos a de escritor, pela qual se tornaria célebre anos depois.

                  Os sonhos eram, então, anotados em qualquer lugar, ao lado de outros escritos, estudos, listas. Depois, passaram a ganhar cadernos exclusivos para si.
                  Editoria de arte/Folhapress
                  Já homem maduro, Fogwill levava-os às sessões com os quatro psicanalistas com que se consultou entre os anos de 1965 e 1982. Seguiu registrando-os, até poucos dias antes de sua morte.
                  LANÇAMENTO PÓSTUMO
                  O que se pode ler em "La Gran Ventana de los Sueños" (a grande janela dos sonhos), livro póstumo que é lançado agora pela Alfaguara argentina, não é uma simples compilação desses sonhos.
                  O volume traz uma construção interpretativa de tudo o que Fogwill refletiu sobre as imagens que lhe atravessaram a cabeça ao longo das noites que dormiu na vida.
                  O autor parte da premissa de que contar um sonho e narrar uma obra literária são atividades que possuem um parentesco.
                  "Quando uma pessoa tenta lembrar-se de algo que sonhou, já não está inventando e transformando essa matéria-prima?", pergunta-se.
                  Ao longo do livro, Fogwill vai elencando categorias nas quais se encaixam seus sonhos mais recorrentes.
                  Editoria de Arte/Folhapress
                  As mais gerais têm a ver com a diferença entre sonhos angustiantes e opressores e sonhos de plenitude, que são ao mesmo tempo tristes, mas que trazem paz, uma sensação que o autor compara à atmosfera de alegria e alívio que se costuma encontrar em alguns funerais.
                  Os que mais o intrigam, porém, são os sonhos com cemitérios, e se pergunta se não estamos, nos sonhos, sempre contemplando, de alguma forma, a morte.
                  Outra categoria são os sonhos com água, que incluem os sonhos com mar, que vão da calmaria à revolta, e os sonhos que envolvem a atividade de nadar ou de flutuar.
                  AMBIGUIDADE
                  Fogwill vincula ambas a uma forma de isolar-se e de, ao mesmo tempo, relacionar-se de modo ambíguo com a existência.
                  "Encontramos seus cadernos com os sonhos originais, mas o que está no livro é o que transformou em literatura", afirma a filha do escritor, Vera Fogwill, que é cineasta.
                  "São textos que estavam em seu computador, organizados, prontos para serem editados. São o resultado de uma recriação literária daquilo que sonhou durante toda a vida", afirma ela.
                  "La Gran Ventana de Los Sueños" é seu livro póstumo mais completo (leia textos ao lado). Estava prestes a ser entregue a um editor e já possuía até uma capa e uma dedicatória.
                  "Não hesitamos em publicar porque sabíamos que ele estava a ponto de fazê-lo, não nos sentimos como quem expõe algo íntimo ou secreto", afirma Vera Fogwill.
                  O material foi encontrado depois da morte do autor, em seu apartamento, no bairro portenho de Palermo.
                  "Até dar de cara com esses escritos, não tinha ideia de que meu pai anotava seus sonhos e durante tanto tempo. Foi uma surpresa", diz ela.
                  A fronteira entre literatura e psicanálise é muitas vezes desafiada na obra. De fato, Fogwill fez psicanálise por muitos anos, era um leitor de Lacan e foi casado com duas psicanalistas.
                  "Os textos têm muito de experimentação com as teorias psicanalíticas. Há que se desconfiar do que Fogwill conta como sonhos que tenha tido e do que ele criou a partir de conceitos teóricos", observa, com ceticismo, o crítico e editor Damián Tabaróvsky.
                  SONHO COM KIRCHNER
                  Entre os sonhos mais curiosos está o que descreve um encontro com o então presidente Néstor Kirchner (1950-2010), na Casa Rosada, sede do governo argentino. Foi esse o que ganhou mais atenção da imprensa e da crítica argentinas.
                  Fogwill chega ao lugar e encontra um bando de funcionários públicos que riem de forma estranha, irônica e macabra ao mesmo tempo.
                  Até que topa com o presidente, que o vê e depois deixa o ambiente. Sua saída, porém, é como a de alguém que se desvanece, que se dilui no ambiente.
                  O livro foi lançado na Argentina durante a Feira do Livro de Buenos Aires, recebendo boas críticas em jornais locais e espanhóis.
                  Por enquanto, não foi traduzido em outras línguas, mas ganhará edições nos países hispano-americanos.
                  LA GRAN VENTANA DE LOS SUEÑOS
                  AUTOR Rodolfo Fogwill
                  EDITORA Alfaguara (importado)
                  QUANTO US$ 22 (126 págs.)
                  Geração do autor renovou cena argentina
                  DE BUENOS AIRESRodolfo Fogwill faz parte da geração que renovou a literatura argentina pós-Borges e Cortázar. Ao lado de Cesar Aira, Ricardo Piglia e Juan José Saer, marcou uma nova fase nas letras do país vizinho.
                  "São autores que discutem o realismo. Fogwill misturava isso com uma atitude contestatória com relação à classe média progressista argentina, seus valores e modo de ver a vida", diz o crítico e editor Damián Tabaróvsky.
                  Para ele, essa veia está mais exposta em "Os Pichiciegos", que escreveu em seis dias, logo após o fim da Guerra das Malvinas, e que trata da ilusão dos militares e da sociedade argentinas na recuperação das ilhas, por meio da história de um grupo de soldados desertores.
                  Essa característica também se encontra em seus contos e ensaios. "Nos últimos anos antes de morrer, havia sido descoberto pela nova geração, que o lê e o admira e hoje o tem como referência. Se tivesse vivido seis ou sete anos mais, teria tido um reconhecimento muito maior, dentro e fora da Argentina", afirma Tabaróvsky.
                  Entre as obras mais importantes de Fogwill, estão "Vivir Afuera" e "Muchacha Punk". O escritor também se dedicava ativamente a oficinas literárias, nas quais interagia com jovens autores.
                  Fumante inveterado, foi vítima de vários efeitos do cigarro, desde uma deformação no rosto até o enfisema que terminou matando-o de forma relativamente precoce.
                    Dois outros inéditos serão lançados neste ano
                    DE BUENOS AIRES
                    O trabalho de recuperação dos inéditos deixados por Rodolfo Fogwill está sendo realizado pela família do escritor e pela historiadora Veronica Rossi. A base são os escritos enviados pelo autor a amigos e editores.
                    "Era comum que mandasse seus textos a interlocutores em quem tinha confiança, para que sugerissem coisas e opinassem. São eles que estão nos trazendo seus inéditos agora", conta Vera Fogwill, filha do escritor.
                    Esse material inclui dois romances, que devem chegar ao mercado ainda neste ano. Um deles é "Nuestro Modo de Vida", que estava com uma amiga, no Chile.
                    Outro é "La Introducción", que estava com o crítico e editor Damián Tabaróvsky.
                    ESPECIALISTAS
                    Além da historiadora, dois especialistas em sua obra estão trabalhando sobre o material. "Não queremos que saia nada que ele não aprovasse", afirma Vera.
                    Ela também trabalha na reedição das obras completas do pai, que incluem, além da ficção, ensaios e artigos jornalísticos.
                    No Brasil, a única obra traduzida da longa carreira do autor é "Os Pichiciegos" (Casa da Palavra).
                    "[Acho isso] Uma pena. A relação que meu pai tinha com o Brasil era de imenso carinho e admiração. Quem sabe agora surge um interesse em levar sua obra para lá", afirma a filha do escritor.

                    sábado, 25 de maio de 2013

                    Coleção de livros traz ao Brasil obras ocultas dos países vizinhos

                    folha de são paulo
                    SYLVIA COLOMBO
                    DE BUENOS AIRES

                    A coleção Otra Língua, cujo primeiro pacote de títulos chega agora às livrarias, lançado pela editora Rocco, tem como objetivo trazer aos leitores brasileiros obras fora do cânone latino-americano.
                    Escritores modernistas, jovens e pouco conhecidos convivem com autores mais tradicionais, que comparecem com obras menos famosas.
                    Editoria de Arte/Folhapress
                    É o caso, por exemplo, do clássico argentino Roberto Arlt (1900-1942), que surge com suas "Águas-Fortes Cariocas", previsto para outubro deste ano.
                    O volume é uma compilação dos textos que escreveu no Rio de Janeiro, em 1930, quando viveu na cidade como correspondente de um jornal portenho.
                    Os textos, que mostram aspectos da vida carioca em um momento de transformação urbana intensa, são um rico retrato sobre o período na cidade brasileira e sobre as diferenças culturais entre Brasil e Argentina.
                    Na primeira fornada da coleção está "Asco", do salvadorenho Horacio Castellanos Moya. Trata-se de um desabafo literário em que o autor faz duras críticas a seu país a um interlocutor passivo.
                    A obra, de 1997, causou polêmica em El Salvador e colocou seu nome em evidência internacionalmente. Hoje professor de literatura nos EUA, Moya diz que considera que há um novo momento da prosa latino-americana.
                    "Antes, na época do boom latino-americano [anos 1960/70], havia a ideia de que o romance era uma espécie de organizador de tudo. Hoje não é assim, há mais diversidade, e a literatura latino-americana opera também em territórios mais íntimos", disse o autor àFolha.
                    Sáshenka Gutiérrez /Efe
                    O escritor salvadorenho Horacio Moya, autor de "Asco", lançado pela coleção Otra Língua
                    O escritor salvadorenho Horacio Moya, autor de "Asco", lançado pela coleção Otra Língua
                    Moya conta que o fato de ter crescido num país com um conflito interno muito grande impacta diretamente sua literatura. "Imigrei para o México, ali vivi dez anos, vendo de longe El Salvador sofrer as consequências da guerra. Quando voltei, quis atuar mais no jornalismo, sentia urgência em escrever", resume.
                    ROMPER BARREIRAS
                    Para o escritor brasileiro Joca Reiners Terron, organizador da coleção, o objetivo do projeto é romper a barreira do desinteresse histórico brasileiro pela cultura dos países do continente.
                    "E também mostrar que há uma linguagem mais inventiva, fora de esquemas tradicionais da literatura de língua inglesa, que vem sendo explorada justamente por esses escritores", conta.
                    Além do livro de Moya, sai agora também "Deixa Comigo", do uruguaio Mario Levrero (1940-2004).
                    Para os próximos meses, a coleção Otra Língua virá ainda com uma edição dupla do argentino César Aira, outra de seu compatriota Fabián Casas e uma da mexicana Guadalupe Nettel.
                    "Aos poucos se arma uma rede alternativa por meio da qual esses autores podem circular mais do que no passado", resume Terron.
                    "É uma nova movimentação, que está relacionada à internet, ao circuito de festivais e ao trabalho de pequenas editoras", completa.